O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

O gosto da beleza




Por Éric Rohmer

O amor pelo belo é coisa tão disseminada que o bom gosto é raro. As paixões são idênticas para todos, mas não se dirigem aos mesmos objetos. O homem comum ou o filisteu devotam à beleza um culto do qual erroneamente subestimamos o valor. É com a cultura que, frequentemente, começa a indiferença.

Meus confrades da imprensa diária ou hebdomadária, colaboradores ou não, amigos ou não dos Cahiers, não se chocarão, espero, se me surpreendo em vê-los, sobretudo nos últimos tempos, barganhar, na crítica de filmes, com a própria noção de beleza.

O termo é plano, bem sei, e não pode servir de argumento. Mas não é a ausência do termo que deploro: antes a de um certo ângulo sob o qual, contudo, me parece mais natural julgar os filmes, se é verdade que os consideramos obras de arte.

Ora, que cronista da mais obscura das folhas de província não está profundamente convencido de que o cinema é uma arte, uma arte maior? Quem, ainda hoje, ousaria confundir a análise de um filme com o estudo de seu roteiro? Quem pretenderia, como outrora, escorar o julgamento somente em considerações políticas ou morais? Tais progressos foram feitos, nesse sentido, desde alguns anos, de tal modo que seria muito difícil, hoje na França, determinar a cor de uma publicação lendo-se tão-somente a rubrica de cinema.

Seria de resto inadequado de minha parte fazer a menor reserva sobre a competência ou objetividade de meus confrades. Não é esse o meu desígnio. Estes, de todo modo, convirão prontamente comigo que não lhes é sempre permitido escapar ao contágio da atualidade. Acrescentaria, se eles só o fazem cedendo a essa atualidade, que não estão menos próximos da verdade do que nós que, nos Cahiers, alentamos a ambiciosa proposta de julgar sub specie aeternitatis.

É normal que um crítico de arte se faça um pouco de profeta, pois seu papel é de aconselhar um investimento. Mesma coisa para o crítico literário, seus leitores lhes sendo gratos por não abarrotar suas bibliotecas de obras que não vão reler. Mas o crítico cinematográfico nada tem com o futuro, pois tal futuro mais frequentemente não existe e o filme é um espetáculo efêmero que ele não terá mais ocasião de citar, nem seu público de rever.

O cinema de que nos ocupamos nos Cahiers é talvez, como escreveu alguém, um cinema "em si" e, mesmo, admito, uma visão do espírito. Mas nos perdoarão mais facilmente por nos colocarmos no eterno, quando se pensa que nossa publicação mensal nos impede de agarrar o presente. É preciso que essa desvantagem se converta em nosso favor. É nossa única razão de ser.

Nós nos dirigimos a um público restrito cuja ótica é aquela do museu. Com que direito condenar isso? Um filme não é, nem mais nem menos, feito para as salas de repertório que a Monalisa feita para o Louvre. Se não existem ainda no mundo museus de cinema dignos deste nome, cabe a nós lançar as bases. Está aí o grosso de nosso combate, que contamos desempenhar, nos anos que se seguirão, de maneira mais ativa, mais precisa, mais circunstancial.



Disto não se segue que sejamos, senão no geral, ao menos em casos particulares, melhores profetas que os outros. Propondo-me retornar às belezas de quatro filmes recentes, belezas que passaram despercebidas, não pretendo que o julgamento da posteridade me dará forçosamente razão, mas mostrar que de certo ponto de vista, menos submetido às circunstâncias, tais obras apresentam belezas - sim, é este mesmo o termo - que facilmente balanceiam, mascaram, apagam os defeitos que se conviera nelas descobrir.

Beleza - ou belezas - é um conceito que julgo, por ora, preferível ao de "mise en scène", comumente predicado aqui mesmo, mas que não quero, no entanto, denunciar. A primeira noção compreende a segunda a qual, por sua vez, possui também uma acepção puramente técnica. Ora é evidente que podemos, só de um ponto de técnico, defender, no limite, obras de - digamos para não ferir ninguém - Clément ou Clouzot, Wyler ou Zinnemann. Porém, assim que pronunciamos o termo beleza, tais obras murcham como balões.

Não acho que nossos críticos tenham lições a aprender com ninguém a respeito dos méritos específicos do cinema, que discernem com constante perspicácia. Eu não os reprovaria por não apontar o bastante em quê esta arte difere das outras, mas antes no quê ela pode ser tida como igual. Sem saber, fazem-na muito frequentemente uma parente pobre. Uma indulgência de princípio acontece ser assim a causa de suas severidades particulares. Eles não consideram que o belo que o cinema propõe seja da mesma qualidade, da mesma elevação, que aquele que se pode admirar alhures: recusam-se a crer que ele possa se esconder por vezes sob as mesmas aparências ingratas que num quadro ou poema, e que seja necessária uma longa e paciente familiarização para descobrí-la: eles não lhe reconhecem essa faculdade do secreto, do mistério, que é contudo um de seus mais certos poderes.



Vejamos La Proie pour l'ombre. À vista do presente, esse filme pode parecer desprovido das virtudes provocantes ou amáveis pelas quais as obras que o precedem na mesma sala, ou que passam ao mesmo tempo que ele na avenida, souberam ganhar a indulgência da crítica. Uma secura que não saberíamos tomar pela máscara de uma sensibilidade pudica, a recusa dessas notações que são o ordinário das descrições psicológicas, o amor sistemático pelos tempos fortes da ação, tudo isso nos repele. Mas, sem esperar mesmo que uma segunda ou terceira visão tenham dissipado seu embaraço, o que elas não deixariam de fazer, tenho certeza, comparem simplesmente esse filme com o que a história do cinema pode nos oferecer de mais realizado: e verão quanto, longe de perder, o filme ganha em comparação. O que pode mais, é um dos paradoxos da arte, não pode, igualmente, de menos. E, velho aristotélico que sou, não hesito em escrever que uma das obras mais belas da arte do cinema não é forçosamente o melhor espetáculo inscrito no programa de uma das mais pobres semanas da temporada.

Que me entendam bem. Não quero dizer que La proie pour l'ombre não seja de seu tempo. Antes pelo contrário. Recolocado na História, este filme parecerá mil vezes mais moderno que tantos outros concorrentes julgados, por ora, mais "avançados". Mas ainda, sobre esse ponto, faltariam argumentos se nos colocássemos somente no ponto de vista da técnica. A percepção de novidade é aqui indissociável do sentimento de beleza. E essa beleza, se bem que não esteja isenta - é seu direito - de referências figurativas ou literárias, recorre à proteção daquela que nos ensinaram a sentir as grandes obras da tela.

Fala-se de especificidade e isso é muito bom. Mas aí trata-se somente, em geral, de uma especificidade dos meios e não dos fins. É evidente, por exemplo, que L'Avventura ou La Notte são grandes filmes e seria muita tolice, considerando somente os meios, taxá-los de literatura pois neles se faz, dos poderes próprios ao cinema, o uso mais justo e mais original. Não nos é, de todo modo, negado pensar que a espécie de beleza que esses filmes nos descobrem pôde, ou poderia, ser apreendida com igual felicidade pelo pintor ou pelo romancista. Quero mesmo crer que o cinema nada inventou - menos ainda do que pensam seus detratores - se nos atermos aos procedimentos de expressão ou motivos de seu uso. Não é uma linguagem, mas uma arte original. O cinema não diz de outro modo, mas outra coisa: uma beleza sui generis, que não é nem mais nem menos comparável àquela de um quadro ou de partitura que uma fuga de Bach a uma pintura de Velázquez. Se o cinema deve igualar-se às outras artes, é pela procura de um mesmo grau de beleza. Tal é o único fim comum que possam propor-se umas e outras formas de arte.

Eu só gosto dos grandes temas. O daquele filme é um deles, com todo respeito àqueles que viram nele somente um drama à Bernstein, o que de fato é, talvez, no papel. Mas hoje eu evitarei as areias movediças do debate sobre a forma e o conteúdo: de resto o filme foi defendido aqui mesmo, mês passado, em relação ao fundo e eu não tenho porquê retomá-lo. Simplesmente me surpreendo se meus confrades se encontram comumente, diante da tela, tão satisfeitos com concepção tão medíocre, terra a terra, da profundidade. Claro, já não se cai mais, faz tempo, na dos filmes de tese. Mas fizemos tanto progresso assim? Aquilo que chamamos "profundo" é uma descrição, amiúde justa, de resto, das características ou dos costumes, porém limitada às fronteiras mornas de um realismo de escola. Não se pode simplesmente crer que o cinema possa abordar a verdadeira tragédia. Cada vez que um filme arrisca fazê-lo e consegue - sem todavia plagiar os gregos ou Shakespeare - ei-lo ipso facto batizado de melodrama. Se nossa arte não perdeu, como as outras, o dom de explorar situações fortes e simples, porque não nos felicitarmos, em vez de querer a todo preço retirar-lhe a chance?

A crítica, de modo unânime, desconsiderou o tema de Godelureaux que, também este, é um grande tema. Jamais contrassenso maior se cometeu a propósito de um filme que tem suas razões e não, de modo algum, suas desculpas. Depois de certa balbúrdia da imprensa e do mito da "Nouvelle Vague", obstina-se a encontrar, na obra de Chabrol, um lado exemplar ou romântico que ela não possui de modo algum. Como justamente dizia A. S. Labarthe a propósito de Bonnes Femmes, o que conta aqui não é a "mensagem", mas o "olhar". Ora, ao olhar da câmera, mulheres-feitas e xavequeiros são seres privilegiados pois excessivos, uns pecando pelo excesso de naturalidade que não é senão um primeiro artifício, outros pelo excesso de artifício, que é uma segunda natureza. Pelo único efeito de perseverar em seu ser, os seres nos fascinam e, finalmente, nos comovem como tudo o que é ingênuo, sem recorrer a piscadelas enternecidas e outros pathos fellinianos. Tal motivo, caro à tela - não há grande filme que não soube acolhê-lo - surpreendo-me que ninguém, ou quase ninguém, tenha felicitado Chabrol por tê-lo abordado de frente e por ter ido, sem pestanejar, até ao fim de sua lógica.



Mas onde está a beleza? Receio que se faça do belo uma ideia bastante piegas e acadêmica. Não é a caricatura um gênero reconhecido? Há caricatura neste filme, assim como no precedente, e da melhor. Quero dizer que ela não nasce de um tique de escrita, mas de uma visão que é a própria compreensão das coisas. Ousaria dizer que a arte de Chabrol é a mais "metafísica" de todos os nossos jovens cineastas? Porque não, se é verdade que ele extrai suas belezas menos do adornamento dos temas que da descoberta de ideias. Há por exemplo uma ideia de mulher, da feminilidade na personagem de Ambroisine, que não encontro expressa com a mesma força plástica, biológica, moral nas heroínas dos filmes contemporâneos, se bem que estes últimos lhe arrebatam pela delicadeza das notações do detalhe e de tudo o que temos o costume de chamar psicologia. Maltrapilha ou desnuda, galhofeira ou melosa, harpia ou ninfa, bovina ou libélula, Ambroisine, ao longo de suas metamorfoses, só é a esse ponto portadora do eterno feminino pois soube preferir, às cômodas seduções de suas irmãs de cinema, as graças severas do arquétipo.

Há em Les Godelureaux um outro tipo de beleza que, essa, ao menos devem ter tocado o público, pois mais ao gosto de hoje. Pela apresentação das personagens e a condução mesma da narrativa este filme é, entre todos, o mais distante das normas da dramaturgia clássica e o mais próximo, pelo espírito, das pesquisas do romance contemporâneo. Pois não creio exatamente "moderno" o fato de impor às situações ou a tipos convencionais os grilhões de uma retórica bizantina e que coloca o cinema a reboque da literatura quando esta, sozinha, procedeu à composição. Aqui, ao contrário, a vontade perpétua de modulação nasce não de um postulado arbitrário, mas de uma fluidez mesmo do ponto de vista que é, como já disse, o da metamorfose. Uma lenta ascensão nos conduz do asfalto germanopratino
[1] ao vasto céu leitoso ou iridescente das últimas bobinas, céu que, por não ter nada de místico, nos instala de todo modo na perspectiva de Sirius e transforma as marionetes um tantinho boulevarescas do começo em heróis inquietantes de ficção científica. Que haja nisso simbolismo - e mesmo simbolismo esotérico, à vontade - Chabrol não o esconde: também não vejo nessa vontade de significar em filigrana nada que se oponha - antes pelo contrário - aos cânones generosos da arte e, a fortiori, aos hábitos de nosso século.



A pirâmide humana não tem nada de filme maldito, mas os elogios com que o discernimos foram surpreendentemente moderados e diziam mais respeito ao interesse da experiência que aos méritos da própria obra. Talvez Rouch não seja, "a princípio", um artista, ainda que a fantasia - poder-se-ia dizer a poesia - de sua pesquisa aparente-se menos à ciência que à arte. Sem dúvida terá ele em vista primeiro a verdade, e a beleza, parece-lhe, não lhe é concedida senão como acréscimo, conforme o axioma "nada é belo senão o verdadeiro". De acordo, se considerarmos somente o empreendimento, a fabricação, o método. Mas do ponto de vista desse "cinema em si" que amamos, dizia eu, ao ponto de nos entregarmos aos seus braços, e do qual aceitamos com alegria o fardo, pergunto-me se a recíproca "nada é verdadeiro senão o belo" não nos abre perspectivas mais justas. Pintura, poesia, música, etc. buscam traduzir a verdade através da beleza que é seu reino, o qual não podem abandonar sem cessar de existir. O cinema, ao contrário, usa técnicas que são instrumentos de reprodução ou, se se quiser, de conhecimento. Ele possui, de certo modo, a verdade em princípio e se propõe a beleza como fim supremo. Uma beleza, então, e isto é o importante, que não se deve ao cinema mas à natureza. Uma beleza que ele tem a missão, não de inventar, mas de descobrir, de capturar como uma presa, quase de roubar às coisas. A dificuldade para o cinema não é, como se crê, de forjar um mundo seu com esses puros espelhos que são os utensílios de que dispõe, mas de simplesmente poder copiar essa beleza natural. Mas se é verdade que ele não a fabrica, também não se contenta de nos entregá-la como um pacote bem embrulhado: antes ele a suscita, ele a faz nascer segundo uma maiêutica que constitui o fundo mesmo de seu procedimento. Se ele nos der somente o que já se conhece, a princípio quando não no detalhe, não aferraria nada além do pitoresco. E com o pitoresco, juro, nossos críticos, quando os lemos, se contentam facilmente.

Mas disto vejo-me obrigado a tomar um exemplo, sob o risco de denegrir uma obra que não é das menos meritórias. Shadows, filme de que gosto muito e sobre o qual outros fizeram o maior dos casos, opondo-o precisamente ao Pirâmide é, aos meus olhos, o tipo mesmo do filme pitoresco. É, como se sabe, a história de um rapaz que seduz uma moça que crê branca e que, depois do amor, diante de seu irmão, mais típico, apercebe-se que ela tem sangue negro. Sei que o problema das raças está na ordem do dia mas, se me permitem dizer, do ponto de vista do "eterno" onde nos colocamos, tal atualidade não tem assim tanta importância. A situação, como foi pintada, não seria modificada profundamente se, por exemplo, em lugar de uma mulher negra se se tratasse de uma mulher casada. É, logo, uma situação qualquer. Os heróis desse filme são pessoas jovens e a juventude, também, é um tema que está na moda. Mas poderiam muito bem ser quadragenários: a narrativa não perderia senão alguma graça ou comodidades de todo exteriores: sua idade é, logo, ela também, uma idade qualquer. O fato de que se trata mais ou menos dos "godelureaux" acrescenta ainda mais à modernidade e ao pitoresco, mas um retrato da espécie humana não é de modo algum, como em Chabrol, desenhado através de tal técnica e a América mesmo, onde eles vivem não se toma aqui como o centro do mundo que ela sabia ser em tantos filmes hollywoodianos. Estamos portanto num meio social qualquer.

Em Rouch, ao contrário, raça, idade, meio dos heróis aparecem constantemente como motivos privilegiados. E isto não somente pelas facilidades que concedem ao cineasta: eu disse que considerava os fins, não o método. Tais privilégios, aqui, nos são descobertos como sendo o fato das coisas mesmas: pluralidade de raças como tal, juventude como tal, África como tal. O fato racial em particular não aparece mais, como antes, à maneira de uma singularidade de um caso e, por conseguinte, de uma falha, de uma falta da natureza, mas como a expressão da plenitude e da liberdade dessa natureza. Se há algo de trágico nesse psicodrama onde as bocas dos estudantes transformam o chumbo da psicanálise no ouro da confissão, respondendo moral quando se lhes diz ciência, é que ele se baseia, como todo verdadeiro trágico, na ideia, não exatamente, talvez, de que o mundo é bom, mas de que não podemos considerá-lo outro senão aquele que de fato ele é. Não se trata, como pouco antes, de um tema contingente, à escolha dentre uma multiplicidade de possibilidades, mas de um grande tema tão necessário que o cinema, uma hora ou outra, devia abordar, e que quase não encontrou mais belo, ao longo de sua história.

A obra de Preminger é pura beleza. Mas é justamente essa beleza que se lhe reprova, esse gosto da bela natureza ou do belo traço em nome dos quais, diz-se, sobretudo em Êxodo, ele sacrificou verossimilhança, realismo, psicologia e outras virtudes maiores. Os filmes precedentes encontravam desculpas na violência ou na amargura da proposta. Aqui, recusa-se mesmo essa indulgência que se consente em geral às obras mais ingenuamente agarradas à sua tese, confinadas nos limites de um gênero popular como se, para o autor de um filme histórico, não houvesse escolha fora da ótica da Chanson de Roland ou da de Fabrício[2] em Waterloo.



É ainda um grande tema, não tanto por colocar em jogo altos interesses, mas por mobilizar todos os recursos do cinema, não sendo estes seu luxo mas pão cotidiano. Tal nascimento de uma nação desfruta do privilégio de reforçar a ideia de povo com aquela de raça, mais concreta e, logo, mais apropriada à utilização na tela. É verdade que o autor, pouco desejoso dessa vantagem, não subordina a escolha de seus intérpretes a nenhuma consideração étnica, a "vedete", nesse tipo de superprodução, sendo imprescindível. Sim, há convenções; mas de que importa, se não incomodam mas servem à proposta, constituem um dos utensílios pelos quais o cineasta forja sua beleza. O que conta não é a identidade do tipo, da fisionomia, mas a permanência do sangue através das máscaras as mais diversas, mesmo se a vontade de diversificá-las é parcialmente imputável a certa - e, de resto, totalmente legítima – coqueteria, como mostra a cena, de grande humor, onde Ari, vestido de oficial inglês, tapeia o adjunto do governador, "expert em judeus".

Podemos nos contentar em ver Preminger - e é motivo suficiente para admirá-lo - como um dos mais puros representantes de um cinema clássico, goethiano por assim dizer, por essa espécie de serenidade sem alvoroço de que é feito seu olhar, esse desprezo pela melancolia, pelo bizarro, esse culto dos grandes lugares-comuns, essa procura do essencial, do ato em sua plenitude, esse amor pela ordem, pela organização, esse gosto pelos seres excepcionais e contudo vulneráveis, mais próximos dos "filhos do rei" caros a Gobineau que do modelo romântico. Pode-se indicar a que ponto a simplicidade real do estilo furta-se à análise, pois cada problema particular é resolvido em função de uma sensibilidade sempre alerta, e não de um sistema fortemente proclamado.

Mas podemos também notar tudo o que essa arte tem de moderna. A evolução do cinema não é linear. Louvar Rouch não nos proíbe de admirar Preminger, no outro extremo do registro. E, enfim, ambos comungam no mesmo respeito à natureza. Os grandes meios técnicos de que dispõe o autor de Êxodo, e que têm seus inconvenientes menores, possuem essa imensa vantagem de fazer esquecer, na arte, a intervenção humana e, por conseguinte, de nos aproximar dessa beleza natural que, aqui como lá, revela-se como a meta. No estilo documentário, o cineasta se exaure em perseguir o real, trai-se por seu atraso e, por mais objetivo que seja seu desígnio introduz, para o bem e para o mal, a subjetividade na fatura. Enquanto, aqui a câmera, sempre presente no momento desejado, sempre lá onde é preciso, se instala no coração das coisas e, por essa exatidão, as devolve à natureza, qualquer que seja o artifício que presidiu sua organização.



Consideremos as fotografias que ilustram a entrevista publicada no começo deste número (que não dão dos filmes, pelos enquadramentos e respectivos ângulos, uma ideia absolutamente exata mas, no caso presente, respeitam bem seu espírito). Vocês se chocarão, primeiro, com a simplicidade do ponto de vista, a ascese dos cenários, digamos mesmo, por vezes, a banalidade das atitudes. Porém um exame mais atento lhes fará distinguir, sob essa secura aparente, mil pequenas invenções, sobretudo no que concerne o movimento das mãos, sempre característico, sempre eloquente, sempre sensível, sempre inteligente, sempre belo, sempre verdadeiro. Tais pequenas belezas são a grande arte: admitimo-las na pintura, por que não no cinema?

*

Não tenho a presunção de pensar que não seja facilmente possível refutar minhas proposições. De resto, nada quis provar. Apelando aos meus confrades pelo seu gosto natural pela beleza, que tenho todos os motivos para considerar o mais vivaz, quero evitar uma logomaquia estéril, da qual nosso amor comum pelo cinema se arrisca a ser a primeira vítima. Que me seja permitido, então, esperar que me deem, pouco que seja, razão no que concerne o princípio, mesmo que seja bem verdade que não me sigam no detalhe.

[1] Germanopratin, referente ao bairro Saint-Germain-des-Près. (NdT)
[2]
Rohmer provavelmente refere-se aqui a Fabrizio del Dongo, o protagonista do romance de Stendhal. (NdT)

Le goût de la beauté
foi originalmente publicado na revista Cahiers du Cinéma, nº 121, julho de 1961. Tradução: Eduardo Savella.
 

A idade clássica do cinema - Prefácio a uma coletânea inédita (1963)





Por Éric Rohmer


Ao reunir os artigos que compõem esta coletânea, encontro o mesmo embaraço de todos aqueles, eu suponho, que entregam à reedição seus textos antigos. Nem é preciso dizer que eu não subscrevo mais, hoje, a muitos julgamentos expressos abaixo. E mesmo se as minhas opiniões, em muitos pontos, não variaram em nada, acho agora desajeitada, na verdade, ou de uma provocação vã, a expressão que eu lhes dei outrora. Incomoda-me enfim termos de assinalar, página a página, contradições manifestas ou repetições cansativas.

Não é, todavia, a preguiça que me fez descartar a ideia de uma reforma. Esses textos em que a polêmica tem lugar de destaque perderiam demais, me parece, ao se encontrar destituídos de sua agressividade, quão ingênua e antiquada esta possa parecer hoje. Ouso acreditar que, mesmo fora de moda como estão, eles não deixarão de testemunhar um período que não é o mais obscuro da história do cinema e da sua estética. É com essa única condição que eu me permito propô-los novamente ao público e que solicito sua indulgência. Retocá-los seria dar-lhes um valor que eles não têm.

E aliás, quem me garante que a minha verdade de hoje é de melhor espécie que aquela de ontem? Se eu já me enganei, por que não me enganaria mais? A crítica é um negócio de juventude, de ímpeto, de disponibilidade, e a idade adormece o julgamento, incitando-nos, segundo o humor, muita severidade ou indulgência em relação ao que se afasta de nossa via pessoal. Espero que as reservas com que agora eu gostaria de nuançar minhas antigas afirmações não introduzam nestas páginas um clima de indiferença, mas sim de uma objetividade louvável.

*

Eu me contentarei então de assinalar brevemente no que consiste a discordância entre meu pensamento de 1963 e aquele de 48 ou 55. Relendo-me, o que me choca? Sobretudo a estreiteza do meu ponto de vista que eu qualificaria, de minha parte, como o fizeram, de “reacionário”. Isso nos dois sentidos, ético e estético, do termo. Passo rapidamente pelo primeiro. Nós atravessamos, há pouco, anos tranquilos em que a política não chega a embaralhar demais, na França como na Espanha, nossos julgamentos sobre a arte, e eu temeria acender uma querela felizmente apagada. Se faço hoje concessões, não é que as minhas convicções tenham mudado, mas para retribuir a gentileza aos meus adversários. Entendendo a causa de maneira que possamos iluminar o cinema com outra luz que a marxista, eu me calo então – e me regozijo, sinceramente, ao ver uma interpretação materialista conduzir ao reconhecimento dos mesmos valores que eu pregava em nome da ética contrária. Um pudor muito forte me impede, agora, de misturar problemas que, contudo, se tocam, mas não da maneira que dizemos ou acreditamos normalmente.

Uma crítica mais grave que posso fazer a mim mesmo é que a defesa do cinema vai de par, nessas páginas, com o processo da arte contemporânea. Parece-me que eu não quero glorificar um sem, ao mesmo tempo, rebaixar o outro e que o classicismo por mim elogiado seja, do cinema, não um atributo passageiro mas o privilégio eterno. Porém, esse privilégio não existe mais, tudo contribui para prová-lo, e o cinema permanece. Esse classicismo, não é mais “adiante” que convém procurá-lo, como eu convidava o leitor em 1949: sua era está efetivamente acabada. Se o extraordinário florescimento da década de 50-60 – que correspondia à maturidade dos grandes mestres – pôde, em certo sentido, me dar razão, nós não assistimos menos, faz alguns anos, na América, na França, na Itália, por todo mundo, a morte de um cinema que amávamos mas não, contudo, a do próprio cinema.

A arma que eu utilizava era de dois gumes. Eu apresentava o princípio de um cinema imutável. E se ele muda, pelo que optar? Pelo que ele é, ou pela ideia que tive dele? Não hesito. São as minhas teorias que abandono, mesmo se minha bela construção em parte desaba. É o ser vivo, no crescimento ingrato e desconcertante, que certamente meus desejos acompanham. Se a verdade dos anos 50 estava na resistência, a dos anos 60 se encontra, com certeza, no “movimento”.



Onde nos leva essa evolução? Quais são as características desse cinema moderno, ou ao menos “romântico”, tal como o qualificamos algumas vezes? Seria preciso um livro inteiro para o dizer com a condição, entretanto, de gozar de um recuo que ainda não é fácil tomar. Permaneçamos, por agora, no signo mais exterior e menos refutável: a irrupção do individualismo e da desordem desencadeada no centro de um trabalho outrora coletivo e regido por estritas convenções. Convenções que, acrescento para o uso de todos os neoclassicismos presentes ou futuros, perdem a sua virtude salvadora uma vez que elas se impõem não mais pela força, mas pelo direito segundo o qual o artista, consciente de sua vantagem, as aceita de boa vontade ao invés de as suportar. Nós, cineastas, somos livres daqui pra frente. Usemos essa liberdade, mesmo se ela é nesse momento mais teórica que efetiva e assim sempre permanecerá, de qualquer modo.

*

Antes de ir mais longe, eu gostaria de assinalar dois preconceitos que correm no cinema e o que nomeio aqui sua “idade”. O primeiro, o mais difundido, é que ele ainda está na infância e que se abre a sua frente uma era quase infinita de crescimento e de aperfeiçoamento. Concepção que só tem de otimista a aparência. Pois, em nome do que presumir que uma “coisa tão pequena”, como alguém a definiu, possa algum dia se tornar tão grande como agora a encontramos – nós que pudemos apreender toda a força irredutível e manifestamente adulta da sua personalidade? A grandeza do cinema desde Griffith não é a mesma, apesar de alguns aspectos secundários e enganadores, daquela que pertence às idades ditas “primitivas” da arte. Petição de princípio, diremos, de minha parte, e poderíamos, eu sei, especular sem fim. O que me irrita é que nossos depreciadores ou mentores de ocasião não tenham outra via de aperfeiçoamento a propor ao caçula das artes que aquela que, dizem, lhe mostram as suas irmãs mais velhas. Ora, ele não quer saber de seus conselhos e da sua solidão. Nem os escritores nem os pintores têm aqui algo a dizer: eles sempre o disseram muito mal e sempre contra a corrente. É do cinema tal como é que convém partir nossa reflexão, e a perfeição insuperável que ele soube atingir, em raros mas certeiros momentos, é um dos seus atributos menos negligenciáveis, aos olhos de quem sabe conhecê-lo e amá-lo.

O erro inverso – sorte, dessa vez, deploremo-lo, menos dos beócios que dos cinéfilos – é de dar mais crédito ao seu passado que ao seu futuro, e acreditar que ele já está comprometido na via da degradação. Tese que rejeito com não menos vivacidade que a primeira, e eu não gostaria por nada no mundo que possam tirar do meu livro o menor argumento em seu favor – o que me leva a minha primeira proposição. É no mínimo curioso - que isso seja dito em minha defesa – que a prevenção em relação aos aperfeiçoamentos técnicos dos quais o cinema pôde se beneficiar no decorrer de sua história (outrora o som e a palavra, há pouco o scope e a cor, e então recentemente os novos métodos de filmagem e as películas ultrassensíveis) fora precisamente o feito de “revolucionários”, “vanguardistas”, enquanto que nós, os conservadores, os clássicos, tínhamos logo percebido suas vantagens. Mas são esses os recursos que nossa arte extrai dela mesma, não das outras. Que ela saqueie suas rivais, eu aceito, mas com a condição de que ela não se coloque num estado de inferioridade em relação às mesmas: está aí todo o segredo da sua conduta. Também, quando nós denunciamos um cinema “literário”, não pretendemos de maneira alguma afirmar que a literatura escapa inteiramente ao seu domínio: ela faz parte do seu edifício pela condução da narrativa e pela fatura dos diálogos. Nós empregamos a palavra no sentido em que a aplicamos, pejorativamente, na pintura ou na música, sendo reconhecido que, excepcionalmente, grandes pintores (Gauguin) ou músicos (Schumann) se vangloriaram com razão da literatura.

Esses textos, eu o sei, traem uma incultura por vezes fingida, na maioria das vezes real. Eu faço meu mea culpa, sem procurar contudo reparar o mal, deixando o cuidado aos meus jovens confrades, mais esclarecidos, de estabelecer um paralelo entre os filmes que eles amam e as produções mais recentes da pintura, da música, da poesia ou do romance. Existem evidentes afinidades entre o cinema e as artes dos séculos anteriores ao nosso, ele como as outras artes, humanistas. Mas, talvez, não seria essa uma semelhança superficial? Uma abordagem mais desenvolvida nos desvendaria, eu pressinto, o artista contemporâneo menos separado do homem do que ele parece, e o cinema menos diretamente subjugado, no coração mesmo das obras mais clássicas, a esse corpo e esse rosto humanos dos quais ele fez seu motivo quase constante.



Essa distância que impressiona entre os objetivos e os meios do filme e aqueles da arte de hoje, essa irredutibilidade de seus domínios, era bom dela se conscientizar e afirmá-la fortemente, mas sem dúvida existe para além disso um acordo mais secreto, que eclode nas esferas superiores da contemplação estética, nesse empíreo em que todas as belezas se unem e se fundem em uma só. Nesse nível, é possível conceber uma fecundação de uma arte pela outra, mas não na fase em que se permanece normalmente, que é aquela das estruturas e que nos faz procurar a analogia lá onde reina precisamente a incompatibilidade total. Querendo reduzir tudo ao mesmo denominador, tomamos o acidente pela substância. É um pouco como se confundíssemos a cor do ferro e sua resistência e que acreditássemos tornar mais sólida uma tábua de pinheiro pintando-a de cinza. A modernidade, na maioria das vezes, é apenas uma tinta que o tempo logo fez desbotar. Com os anos, esses filmes recuam num passado ainda mais longínquo que esse que os viu nascer, numa espécie de infância, verdadeira dessa vez, da arte cinematográfica, infância mofina e prometida a uma morte precoce.

*

Na verdade, o erro, o meu como aquele dos meus contraditores, fora sobretudo de considerar o clássico e o moderno em referência às outras artes, quando era preciso limitar-se à história do cinema e sua própria dialética do antigo e do novo. O problema foi mal colocado. Mas foram os detratores do cinema que o colocaram assim, e era preciso respondê-los. Por que, dizíamos, ainda dizemos, no momento em que o artista aprendeu a deformar as coisas e nos impor sua visão, por que o cinema, arte infantil, obstina-se estupidamente a copiar a realidade? Seja, eu irei ainda mais longe. Por que, acrescentarei, na hora em que a pintura descobriu a vaidade de reproduzir as coisas tais como elas são, o cinema dedica-se a fotografá-las? Ou ainda: para que a fotografia, quando existe a pintura?

E eis a questão levada ao absurdo, a causa passando antes do efeito. Pois a relação é inversa. É a fotografia que é primeira e a pintura contemporânea a segunda: esta só existe devido àquela. É a descoberta de Niépce que provocou, legitimou, o movimento que ilustraram sucessivamente impressionistas, Les Nabis, fauvistas, cubistas e outros. À saúde das artes plásticas de hoje importa a da foto, sua guardiã, sua tutora, e a menor dívida de reconhecimento que elas devem lhe pagar é de lhe conceder a liberdade completa de reger seu próprio domínio.

Aproveito, a propósito, a ocasião para homenagear André Bazin cujo artigo sobre a “Ontologia da imagem cinematográfica” operou uma verdadeira revolução na estética do cinema. “O cinema, ele diz, vem a ser a consecução no tempo da objetividade fotográfica... O mito guia da invenção do cinema é, portanto, a realização daquele que domina confusamente todas as técnicas de reprodução mecânica da realidade que apareceram no século XIX, da fotografia ao fonógrafo. É o mito do realismo integral, de uma recriação do mundo à sua imagem, uma imagem sobre a qual não pesaria a hipoteca da liberdade de interpretação do artista”. Tudo o que há de menos contestável na minha obra é apenas, talvez, o desenvolvimento desse pensamento.

É decerto a fotografia – enriquecida da dimensão do tempo e alcançando, ao mesmo tempo, sua plenitude – que me parece ser, pensando bem, a pedra angular do edifício cinematográfico, mais ainda que o “movimento” do qual nossa arte compartilha a propriedade com a dança e o teatro. Captar o real e guardá-lo, eis seu único e modesto propósito, ao qual nos remete a análise de obras-primas da tela, mesmo aquelas – principalmente aquelas – em que a visão do artista se impõe com mais força. Dirão que eu faço pouco caso do “desenho animado” e da “cineplástica” cara a Georges Sadoul, que não encontrarão em nenhum lugar menção nestas páginas. Uma lacuna, certamente, mas esse preceito sempre me pareceu, com razão ou não, bastardo e eu lhe atribuiria de boa vontade, assim como meu confrade, o título de “oitava arte”, com o único fim de me ver livre dela. Claro, não me convém lançar proibições, mas o “cineplásticista” entra menos, na minha opinião, na categoria de cineasta que naquela de pintor. A ferramenta não faz o artesão, e quem brinca com a película, mesmo com a câmera, não será tanto homem de cinema se os utiliza com fins puramente plásticos: assim como se ele se servisse de uma pistola ou de um lança-chamas para pintar suas telas, nós não o chamaríamos de guerreiro.



Ora, quem negará que o realismo não seja da fotografia sua primeira virtude, sempre fiel ao posto no decorrer dos avatares de sua evolução? Há um mundo entre um negativo de Cartier-Bresson e um daguerreótipo. Eu não direi – o que, contudo, segue o sentido da minha ideia – que o primeiro seja mais real, ou verdadeiro, que o segundo: ele chocara, pelo seu ângulo de tomada, sua “matéria”, seu enquadramento, sua “instantaneidade”, seu espírito, os homens de 1860. O movimento da abstração em direção ao concreto, e vice-versa, não concerne a história da foto. Muito pelo contrário, a liberdade de interpretação cresce na própria medida da fidelidade de reprodução. Uma não oprime a outra de maneira alguma, e todo problema que concerniria sua oposição é um falso problema, tal oposição não existindo. O mesmo se verifica no cinema, mas continuemos. Existe uma fotografia dita de “pesquisa”, que conheceu seus dias de glória e da qual não pretendo negar o interesse. Se afastando deliberadamente do real, ela sempre se inspirara, querendo ou não, nas concepções pictóricas de seu tempo, impressionista em 1890, cubista em 1920, abstrata hoje. Mas são estes apenas ramos enxertados no tronco central que continua calmamente seu crescimento, sem se preocupar minimamente com eles. É da mesma maneira, eu acredito, que convém considerar os filmes ensaio ou de arte, ramo anexo e parasita da arte cinematográfica que até aqui foi assaz vigoroso para não perder aí muito de sua seiva.

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Que me desculpem remoer as evidências. Mas um ataque mais dissimulado aconteceu nestes últimos tempos e acabou por restituir um pouco de atualidade às minhas proposições. Não é tanto o realismo da imagem fotográfica que é agora denunciado, mas a sua objetividade. Sabemos o que, no cinema, chamamos de estilo “subjetivo”, e os maiores autores não deixaram de recorrer a ele. Consiste em confundir a visão do espectador com a de um dos atores do drama. Trata-se, mais frequentemente, de um processo narrativo cômodo – até cômodo demais – que nos permite, como que por um truque, entrar no pensamento do personagem. Mas tão logo estamos ali instalados, a imagem se revira como uma luva e ao avesso que apreciávamos substitui-se um novo território não menos opaco. O mundo permanece o mundo, quer ele seja percebido pelo espectador, autor ou ator ao ponto em que não é possível – todo cineasta o sabe – adaptar para a tela uma narrativa na primeira pessoa, sem que se faça ali figurar no bom e devido lugar o narrador, como o prova ao contrário, se necessário, a experiência reconhecidamente infeliz de A dama do lago.

Surpreendemo-nos então, assim sendo, de ver certos espíritos, que não poderíamos julgar mais tolos, pretendendo assimilar a imagem cinematográfica à imagem mental, e apresentar, ao sabor de sua inspiração, tanto a coisa que tenho em mente quanto aquela que eu vejo, não reconhecendo, aí, nenhuma diferença de natureza. Sem dúvida que o que eu tenho em mente e o que eu tenho diante dos olhos são ambos igualmente “reais”, mas à sua própria maneira. Colocá-los no mesmo plano, negar sua heterogeneidade, é traí-los. Inútil remeter a Platão, Descartes, Alain (para quem a imagem não existe, visto que não podemos contar de memória as colunas do Panteão) ou ainda a Husserl. O simples bom senso basta. Quando eu penso no Arco do Triunfo, eu sei muito bem que ele não está lá, pelo fato mesmo de pensar nele. Está aí um dado imediato que exclui qualquer erro, e, se algum erro houver, é que eu não o penso, mas sonho ou sou vítima de uma alucinação, neste caso minha relação com o objeto sendo a mesma, para mim, que na percepção desperta. Introduzir a confusão entre a lembrança e a coisa presente no pensamento do espectador ou do personagem vai contra todas as evidências e só pode ser um exercício vão e estúpido.

Diremos que o pintor se dá o direito de reunir, por exemplo, rosto e perfil na mesma figura, brincando assim com os dados da percepção que ele reconstrói à sua vontade. Mas, no cinema, tal síntese não é possível, assim como a análise que ela pressupõe. A confecção de um quadro é uma operação que vai do simples ao complexo, do abstrato ao concreto, e através da qual diversos elementos que destacamos artificialmente do real (linhas, valores, cores, etc.) são sucessivamente questionados, à medida que nós os colocamos sobre a tela: o espirito intervém, afirma sua liberdade, conserva o direito, palavra de honra, de proclamá-la absoluta e de gozar dela como ele quiser. A imagem fotográfica, ao contrário, é um dado, que surge instantaneamente – na sua totalidade concreta, sem que o artista deva fazer o mínimo gesto, senão apertar o gatilho: ele a recebe tal qual, e, tal qual, ele a entrega. Assim, seria ele incapaz, fotografando uma cadeira, de me dar sequer a suspeita da ideia de uma cadeira “pensada” que não é, de maneira alguma, bloco compacto, mas coisa fugidia, da qual, graças a atenção, eu devo justapor e manter os elementos, quaisquer que sejam aliás a prontidão e a riqueza da minha imaginação. O espírito do espectador de cinema é desprovido de toda liberdade e de todo talento do construtor. Fascinado pela tela, ele se contenta em registrar, ele é passivo.

Essa passividade não impede, contudo, uma certa agilidade, senão aquela do pensamento, ao menos de reflexos – reflexos abundantemente evidenciados pelos teóricos do cinema, desde a famosa experiência de Kulechov. Inútil então que o cineasta perca seu tempo figurando materialmente sobre a tela o que está no pensamento, já que nós o introduzimos nós mesmos virtualmente, pelo jogo de associação de ideias, e transferimos no personagem nosso próprio mundo mental: nosso medo, nosso desejo, nossa felicidade ou nossa pena serão os seus. Pois, para retomar meu exemplo precedente, o que importa mostrar, ou melhor, sugerir quando penso na cadeira, não é de maneira alguma a própria cadeira, mas o meu pensamento da cadeira que escapa, por essência, a toda representação sensível. Resta que um cinema de virtualidades corre o risco de se reduzir – o que eu frequentemente deplorei – a um mundo de signos, de estereótipos, em que se aliena a infinita liberdade de espírito. Se é tolo confundir a cadeira e a consciência que eu tenho dela, é vão querer anunciar apenas a minha intenção banal do momento: essa, por exemplo, que eu tenho de me sentar. Logo, essa cadeira nunca deve ser representada como um meio de dizer alguma coisa, uma única coisa. Convém que ela deixe transbordar uma saturação de significados em que será evidenciada sua própria condição de mobília, essa do homem que a fabricou para seu uso e, por conseguinte, do universo do qual faz parte. Todas as coisas que um grande cineasta não deixa de tornar sensíveis, pela solicitude com a qual ele saberá envolvê-las, o ângulo sob o qual ele conduzirá a sua abordagem, o momento que ele escolherá para fazê-las aparecer, pela arte, simplesmente, com a qual ele saberá colocá-las em cena.

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O que eu critico então, neste momento como outrora – e, nesse ponto, eu não mudei nem um centímetro -, na maioria daqueles que se debruçam sobre o cinema, mesmo com a maior benevolência, é de não o estimarem o bastante, seja quando eles lhe propõem enriquecer-se pelo aprendizado de um idioma estrangeiro, seja quando eles sabem reconhecer nele uma certa riqueza e especificidade de expressão.



Outrora profetizamos um futuro glorioso de “arte total”, arte que combinaria e adicionaria os poderes de cada uma das suas rivais. Ideia perigosa, porque ela autoriza todas as dissecações através das quais seus defensores acreditam ingenuamente desvelar sua alma. Demonstrado assim seu mecanismo, o filme aparecerá, com certeza, menos poético que a poesia, menos romanesco que o romance, menos musical que a música, menos pictórico que a pintura, e não demoraríamos muito para denunciar sua inferioridade em relação as outras produções artísticas. Em suma, estudamos o cinema sem ter tentado previamente entrever para que ele serve, quero dizer, para qual espécie de beleza ele nos conduz. Pois, na área da arte, que é aquela da finalidade, é o objetivo que é preciso distinguir, antes dos meios que para ele conduzem. Assim, desconhecendo a verdadeira utilidade do martelo, nós nos obstinaríamos, por exemplo, a utilizá-lo para tirar pregos e, graças à engenhosidade, nós o adaptaríamos bem ou mal a essa função, deplorando a imperfeição de uma ferramenta que é, contudo, uma das mais perfeitas que uma vez saíram da mão do homem.

Essa descoberta dos fins últimos da nossa arte é a conclusão de uma longa prospecção e ainda mais difícil, pois o vocabulário de que dispomos deve à criação pictórica, musical ou literária a origem de quase todos seus termos. Espero que minhas pesquisas anteriores, das quais leremos o essencial aqui, terão contribuído por pouco que seja nessa tarefa. Eu gostaria, antes de concluir, de expor em uma frase a soma de uma reflexão envelhecida, ao menos, quinze anos, a fim de reparar a desordem dessa coletânea e fazer com que as direções nas quais ela se engaja não se percam todas na areia. Na verdade, se eu procuro qual pensamento animou mais constantemente minhas proposições, só encontro sob minha pena essa verdade quase evidente, que eu inscrevo, no entanto, assumindo todos os riscos e perigos. O cinema é uma certa arte de apreender, de captar a vida (eu não digo a realidade, nem mesmo a natureza) no que ela escondia até então ao domínio da arte, de lhe forjar uma beleza – certamente suspeitada, mas antes dele inefável – e que não é outra que a própria beleza da vida enquanto tal.

Se eu me expresso tão banalmente, é que não acredito que eu possa hoje ultrapassar a fase de uma definição negativa; esta se pareceria tautológica. É já ponto passivo saber que o cinema não se dirige de maneira alguma onde nós gostaríamos de conduzi-lo e que ele tem bastante orgulho para não entrar em concorrência com outrem. Essa beleza que ele persegue, nós saberemos bem um dia cercá-la com frases mais concisas e termos mais apropriados. Eu não acredito, contudo, que ela se deixe um dia encerrar na estreiteza de uma fórmula. Pois se essa beleza for “uma”, fundamentalmente, é importante para senti-la verdadeiramente tê-la provado em cada uma das manifestações mais completas: a saber, as grandes obras do cinema em toda sua particularidade, em tudo o que lhes imprime o próprio gênio dos seus autores.

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Todo julgamento sobre arte é julgamento de valor. Não há exercício crítico possível sem uma necessidade de etiquetar, de notar, de classificar que pode, eu sei, se degenerar em manias e passar por terrorismo. Não encontraremos aqui a preocupação com a objetividade própria às obras eruditas em todos os aspectos valiosas que se propõem analisar as estruturas cinematográficas, extrair suas leis gerais, redigir as regras de uma gramática ou de uma estilística: em nenhum desses casos é necessário classificar os valores, pois os melhores exemplos, nessa perspectiva, são menos facilmente tirados de grandes obras que das medíocres, as primeiras sendo mais ciumentas em manter os segredos de sua fabricação, mais decididas a ludibriar as regras, mesmo se é verdade que elas, no fundo, as respeitem.



Seria, ao contrário, um engodo esperar descobrir o gênio próprio do cinematógrafo sem ter antes distinguido onde ele está e onde não se encontra de maneira alguma. Existe, evidentemente, um charme próprio a todos os filmes, e eu não pretendo negar o poder fascinante da tela. Outras pessoas que não eu o evidenciaram suficientemente, e evitei de dizer novamente o que já tinha sido dito e muito bem. O prazer do olho que dispensa a pintura, e o da orelha a música, prova menos ainda a grandeza de uma ou de outra. O que conta, é que elas foram o campo aberto para o exercício de alguns homens que as tornaram grandes mais do que elas os tornaram grandes, e sem que elas tivessem sido relegadas a categoria de pura arte de recreação. Da mesma maneira, o cinema, para mim, só é grande pois ele deu livre curso ao gênio de um Griffith, de um Murnau, de um Renoir, de um Hawks, etc., que fizeram algo – uma coisa imensa – disso que não passava, na origem, de um divertimento de feira.

Sim, me retorquirão, mas você não citaria antes X ou Y: todo o mundo não é forçado a compartilhar suas preferências! Eu sei, e não ignoro o que pode entrar de subjetivo nos meus gostos. Claro, a genialidade pode aparecer em outros lugares para outros olhares diferentes do meu, mas eu não deixo de constatar que os méritos destacados pelos admiradores de todos os X ou Y do mundo e da história colocam sempre de alguma maneira a ambição do cinematógrafo nitidamente aquém daquela das outras artes. Aqueles méritos que eu atribuo aos meus autores – que o são, graças a Deus, também de alguns outros cada dia, constato, mais numerosos – os colocam, senão além, pelo menos no mesmo plano. Não me engano então, de maneira alguma, achando grandes os nomes que citei, ou que eu cito ao longo destas páginas, visto que o cinema é, através deles, maior.

Ainda que o estudo direto de alguns cineastas esteja ausente deste livro dedicado a generalidades, a admiração que eu tenho por eles é o fio que me guiou e que permitirá, eu o espero, a quem os conhece e os ama, de melhor compreender meu propósito.

O prefácio a L’Âge classique du cinéma (julho de 1963) foi concebido como introdução a uma primeira coletânea (que permaneceu inédita) dos textos críticos de Éric Rohmer. Posteriormente, foi publicado como prefácio do livro Le celluloïd et le marbre – Suivi d’un entretien inédit, obra que reúne todos os segmentos do manifesto de Rohmer na Cahiers du Cinéma, “O celuloide e o mármore”. Tradução: Leticia Weber Jarek. 

O rosto mais belo, o maior ator – Lillian Gish, Cary Grant





Por Raymond Bellour

Podemos ainda escrever sobre filmes, sobre realidades de imagens um tanto quanto precisas – se não for para relatórios sempre apressados – sem se submeter à prova tão simples quanto virtualmente constrangedora de verificações nas fitas ou nos DVDs? Escrever a partir de lembranças de impressões que não foram, ao menos nós o acreditamos, reconhecidas durante a projeção, mas que se interpõem um belo dia como sensações de ideias – hipóteses que não saberíamos como verificar, a tal ponto que começar a fazê-lo ou mesmo acabar por pensar demais nisso resultaria não somente a desencorajá-las, mas talvez em transformá-las até lhes corromper e volatizar.

A ideia que me surgiu procura conciliar duas paixões muito diferentes para que a razão seja suficiente, mas parece plausível que sejam iluminadas uma através da outra. Elas estão ligadas igualmente à arte da interpretação e ao mistério para sempre não resolvido da presença. Mas procurar recompô-las juntas permite entrever que essa arte e esse mistério consistem em duas maneiras opostas de se relacionar com o plano. Logo, de habitar esse tempo variável mas sempre crucial durante o qual, ao menos no cinema clássico, um valor de existência se entrega, podendo dar um pouco a impressão de se autonomizar sem, no entanto, deixar de depender estreitamente das unidades de tempo que o cercam. É pensando no plano que eu posso dizer, excessivamente, e tendo sem dúvida a paixão do plano como desculpa: o rosto mais belo, Lillian Gish, o maior ator, Cary Grant.

Se lembrar de Lillian Gish, é tentar deter no seu próprio interior o que seus inumeráveis closes de rosto fixam na imagem, através de sentimentos variados. O medo, tão frequentemente solicitado, a dor que se implanta, como em Lírio Partido, ou afetos de angústia suspendida, mais indefiníveis, em certos momentos de O Vento, mas também instantes de quase simples devaneio ou mesmo de um pensamento alegre, tal como o vemos em vários filmes, curtos e longos, de Griffith. Escrevendo a Jean Paulhan, seu amigo Jules Supervielle lhe confiava o desejo de escrever “textos tocantes”, como os autores anglo-saxões que “não temiam nos emocionar”. Ele acrescentava: “E é esse também, eu acho sem que ele nunca o tenha me dito, o desejo secreto de Michaux que adorava Lillian Gish, o rosto mais desconcertante de todos.” Como não ser tocado pela maneira com que tal desejo de emoção surge da escolha imprevista de um rosto.



Mas de onde vem esse desconcerto? Ele está ligado, primeiramente, à capacidade que tem esse rosto de estar na maior parte do tempo como congelado, em suspenso, o próprio princípio do close num tempo em que ainda não se fazia muito, assim como Hitchcock se vangloriará, “viajar o close”. Mas há na fixidez, níveis, que são uma das coisas mais difíceis de definir. O rosto de Lillian Gish parece fixo porque ele seria chamado de fora por uma força que o transpassa oferecendo ele mesmo, à beira da inocência. Mas ao mesmo tempo essa fixidez é ilusória, e esta é a razão que a torna tão viva. Ela é tramada por estremecimentos quase imperceptíveis, por minúsculas ondas de sensações e afetos indecidiveis que fazem de cada um desses closes uma espécie de paisagem onde se torna possível entrever sempre novas nuances (é isso que Balazs chamava “microfisionomia”, e que Deleuze e Guattari chamarão “traços de rostidade”). E isso é possível antes de tudo porque esses closes duram, ou melhor porque seu tempo de expressividade pura coincide com os limites do plano. De borda a borda, se quisermos. É, eu acho, a razão mais decisiva no efeito vibrante de massa sensível que esses traços tão delicadamente desenhados transmitem. Independentemente do que o filme nos conte, e apesar dos motivos convencionais que fazem acreditar em dramas cheios de sentido, não há mais, subitamente, desde que saibamos nos entregar, outro acontecimento.

Se O Vento é o mais perturbador dos filmes em que Lillian Gish figurou, é porque a matéria com a qual a imagem é frequentemente feita – essa areia que rodopia de tantas maneiras se insinuando por todos os lugares e que, sobretudo, se acumula e se apodera das vidraças opacas da cabana – parece se tornar o análogo de nuances de agitações que seus ímpetos provocam na superfície do rosto, por uma espécie de extraversão do olhar difundido na pele que o envolve. Ao ponto que esse rosto à mercê de sua desorientação e a areia arrastada pelo movimento irracional do vento parecem se tornar uma única substância. Também, nesse filme em que o número de closes não é talvez tão grande quanto gostaríamos de acreditar, Lillian Gish, quando é mostrada em planos mais abertos, planos médios ou em pé, na vida pavorosa que ela leva no interior da cabana, ou planos ainda mais abertos, quando ela dali sai, correndo o risco de afrontar o vento que preenche o deserto, Lillian Gish parece sempre filmada em close, como se todo seu corpo levasse consigo a alma e parecesse ali se fixar.

Daí a impressão estranha que decorre de filmes bem mais tardios onde a encontramos envelhecida, com a crueza que o cinema suscita ao fazer passar a vida tal como ela é. Mas essa crueza lhe é em parte poupada. Em O Mensageiro do Diabo ou em O Passado não perdoa, logo que ela se aproxima ou que a câmera vai em sua direção, é em close que ela sempre parece apresentada, com esse calmo estremecimento que a faz se dirigir diretamente à objetiva que a fixa e à qual ela se confia. Como se a memória acumulada de tudo o que ela viveu, para nós como para ela mesma, no cinema antigo, a protegesse e desse a sua aparência, no fim das contas banal, um esplendor de aparição.   



Lillian Gish é assim perturbadora, entre todas as atrizes, porque ela parece não atuar, movida pelo simples efeito de partículas de alma que a formam e a atravessam. Enquanto Cary Grant, ele, interpreta continuamente. Ele só sabe interpretar. Mas isso, ele o faz melhor que ninguém. Não que ele só tivesse mais talento ou genialidade que muitos outros. Mas porque, segundo um milagre inexplicável do qual os maiores autores de filmes souberam se aproveitar ao extremo, sua atuação revela-se, naturalmente, coincidindo com os tempos do plano. Cary Grant é o plano. Ele é o olho da montagem. Isso quer dizer que ele se mantém no quadro, incluindo quando ele é apresentado em close, de tal maneira que os seus movimentos de corpo e expressões do rosto parece talhar o plano em relação ao plano que se seguirá. Seu olho não para nunca, ele prepara o corte. E, fazendo isso, ele arranja também os cortes rítmicos mais ou menos perceptíveis no interior do plano. Mesmo se ele é apresentado de frente, algo de oblíquo, seja mesmo no rosto, seja na relação do rosto com o corpo ou de certa parte do corpo com outra, se torna uma correia de transmissão do movimento que chama o plano seguinte. Hitchcock não teria escolhido, finalmente, pendurar esse pequeno quadro cubista, que desconcerta tanto os policiais de Suspeita, para dar uma imagem da atuação de Cary Grant, da sua capacidade, de desencadear os planos um atrás do outro, de se manter simultaneamente em vários planos?

Essa capacidade que parece única, no que concerne o plano, faz de Cary Grant uma espécie de duplo do metteur en scène. Ao menos para aqueles que se compreendem ou aceitam duplos, com o qual ele realiza uma parte de vertigem. Hitckcock evidentemente, Hawks, McCarey, Cukor, mesmo Sternberg, uma vez. Cary Grant é inimaginável em Ford, no qual a montagem não admite nenhum intermediário. E se pensamos nos atores, vemos bem que nenhum desempenha tal trabalho de vigilância. Nem James Stewart, com quem Cary Grant compartilhou filmes e autores, mas cuja extraordinária vigilância é completamente dirigida ao interior dele mesmo que é a parte inalienável e dolorosa de cada um dos seus personagens. Nem Dana Andrews, cuja impassibilidade lendária serve tão bem à mise en scène, nós o vemos melhor nos filmes de Lang e Tourneur, mas tal qual um poder sem partilha, do qual ele é somente a superfície de deslocamento. Ao passo que Cary Grant manipula as facetas, essas facetas únicas do cinema que nós chamamos de planos. Haveria, noutro tempo do cinema, e a partir de um princípio intangível, Keaton que não ri para poder olhar seus planos, visto que ele é, deles, o geômetra.



Se pensarmos, Cary Grant tem um duplo feminino, em um modo aéreo, giratório. Menos precisa nos seus efeitos, menos sistemática, mais simplesmente bricalhona. Mas exercendo mesmo assim uma espécie de direito de olhar interno sobre o que ela realiza e que se desenrola em torno dela e a partir dela. Eu quero falar, certamente, de Katherine Hepburn. Milagre, nesse sentido, é Levada da breca. Pois esse filme não conta somente a história de um homem que vigia um cão por um motivo aberrante e de uma mulher que vigia esse homem para que, enfim, ele a prefira ao invés desse cão. É também a história de uma vigilância mútua da mise en scène da qual eles se tornam os responsáveis, como num espelho. E é a ocasião, também, de discernir como os closes, tão belos, que se detêm intermitentemente no rosto vaporoso de Katherine Hepburn são tão diferentes quanto o possível desses que se estreitam frente o rosto de Lillian Gish. Os primeiros, apesar da dilatação que se opera nas nuances do preto e branco, e de um indiscutível valor de captação, são dirigidos ao exterior, em direção ao parceiro, ao outro plano, à montagem. Ao passo que esses que se entregam ao rosto de Lillian Gish se estendem sobre o seu interior, como se eles procurassem se afundar numa espessura que eles não têm e que torna sua superfície ainda mais impregnante, entregue a si própria o tempo de uma breve eternidade.

Le plus beau visage, le plus grand acteur – Lillian Gish, Cary Grant foi publicado originalmente na revista Trafic, n° 65, em maio de 2008. Tradução: Leticia Weber Jarek. 

Nem medo nem pena (fragmento)



Por Jean Narboni

(...)

Muitos anos após esses filmes dos anos trinta, no outro polo de sua carreira, no dito segundo período de declínio dos anos sessenta, Naruse dirige Tormento (Midareru, 1964), um de seus últimos filmes. O cineasta taiwanês Edward Yang encontrou uma nova ocasião para professar a sua admiração por esse cineasta, atendo-se sobretudo à última cena. Ele destaca, com trinta anos de distância, um gesto em todos os pontos comparável àquele que descrevemos em Depois de Nossa Separação (Kimi to wakarete, 1933) e Três Irmãs de Coração Puro (Otome-gokoro sannin-shimai, 1935). Reiko, viúva de guerra há quinze anos e ainda jovem, encontra-se em uma aldeia montanhosa com seu cunhado, Koji, doze anos mais novo que ela. Ele lhe faz entender no começo do filme que a ama há muito tempo. Chocada de início, ela o mantém distante, o rejeita, mas deixa-se pouco a pouco ganhar pela emoção e enfim pelo amor, hesitando sem parar entre o que ela experimenta com o jovem e as lembranças do seu marido, ao que se adiciona o peso onipresente das convenções. No fim, durante a viagem que a leva definitivamente de volta à cidade de seus ancestrais e que o jovem rapaz quis fazer com ela, Reiko, aproveitando uma etapa na montanha, pede-o para partir. Koji, desesperado, fica bêbado em um albergue da aldeia e se afunda em plena noite, titubeante, em um bosque vizinho. Na manhã seguinte, Reiko vê da janela do seu quarto de albergue um grupo de aldeões que carregam um corpo sobre uma maca. Ela identifica Koji pelo anel que lhe deu como um sinal de adeus e que ele leva em sua mão direita, caída do pano que o cobre. Ela precipita-se para fora do albergue, começa a correr atrás dos aldeões, a câmera a acompanha depois a ultrapassa em seu movimento, mas o cortejo se distancia e desaparece na esquina de uma rua. Reiko, subitamente, deixa de correr e fica imóvel. O filme termina em um close de seu rosto sem expressão. Edward Yang descreve longamente essa passagem, fala de sua surpresa e admiração diante da parada brusca da corrida de Reiko e o corte que ocorre no close do rosto. É verdade que o momento, em sua brevidade, é surpreendente. Uma personagem se precipita e depois põe um fim à sua busca sem que nenhuma decisão consciente tenha presidido essa parada, sua imobilidade é como uma aquiescência do movimento da vida que continua, o qual neste instante confunde-se com aquele da separação, da perda e da morte. Edward Yang não hesita em afirmar que no momento em que escreve seu texto, em 1998, poucos cineastas seriam capazes de tal audácia. Para qualificar este fim emocionante de concisão e literalmente de contenção, ele emprega uma palavra que não esperamos, que é “generosidade”, e para definir o cinema de Naruse, ele conclui com a bela expressão “invencível estilo invisível”.

(...)

Extraído do livro Naruse - Les temps incertains, Paris: Cahiers du cinéma, 2006, pp. 126, 127. Tradução: Cauby Monteiro. 

As aventuras de Hajji Baba





Por Jacques Lourcelles


No cinema hollywoodiano do pós-guerra, a corrente dos filmes de aventuras orientais, adaptados de perto ou de longe das “Mil e Uma Noites”, foi quantitativamente pouco importante, mas era ilustrada por tendências variadas. Na Universal dos anos 40, essa corrente dá origem, por exemplo, a toda sorte de narrativas espetaculares para as crianças, em que a inovação recente da cor foi particularmente valorizada (cf. As Mil e uma Noites, John Rawlins, 1942, ou Ali Babá e os Quarenta Ladrões, Arthur Lubin, 1944). No fim dos anos 50, o conto oriental reencontra seu caráter fantástico, favorecido por efeitos especiais particularmente atraentes (Simbad e a Princesa, Nathan Juran, 1958). Situado entre esses dois períodos, As Aventuras de Hajji Baba representa uma tentativa quase única – pelo menos pela sua qualidade – de valorizar, em uma narrativa não fantástica, a dimensão adulta, elegante e discretamente erótica do conto oriental. Don Weis, naquele que é sem a menor dúvida o melhor filme da sua carreira, demonstrou um refinamento plástico, ou pura e simplesmente um refinamento, absolutamente extraordinários em que o aporte do “color consultant”, o célebre fotógrafo George Hoyningen-Huene (colaborador de Cukor em todos os seus filmes a cores, de Nasce Uma Estrela a A Vida Íntima de Quatro Mulheres) foi verdadeiramente determinante. O filme manifesta, de fato, uma exigência muito grande em todos os níveis: em seus cenários, de um luxo habilmente abstrato; em seus figurinos, fantasistas e multicoloridos, sempre de uma perfeita unidade de estilo; na beleza picante de suas intérpretes: as soberbas Elaine Stewart e Rosemarie Bowe. John Derek não está nada mal também, como um distante primo de Fabrice del Dongo. Com muita técnica e leveza, Don Weis faz o espectador respirar o ar da grande aventura, purificada de toda grandiloquência assim como de todas essas facilidades burlescas que são o mal do gênero. O meio sorriso do narrador acrescenta constantemente a nota irônica sem a qual uma obra desse gênero seria incompleta; uma certa desilusão é necessária àquele que conta a história como àquele que a escuta.



N.B. A crítica americana, tão raramente lúcida, ignorou, claro, este filme que ela deveria ter lisonjeado. Bosley Crowther, o crítico do “New York Times”, revelou seu obsceno mau gosto declarando que ele preferiria ter visto Bob Hope no papel de John Derek. O filme deve sua reputação à perspicácia de certos cinéfilos franceses, em particular os Mac-Mahonianos.

Les aventures de Hajji Baba
foi publicado no Dictionnaire du Cinéma: Les Films, Paris: Laffont, 1992, p. 102. Tradução: Cauby Monteiro.

O olho esquerdo e o olho direito





Por François Mars

Existem, para ver este filme, pelo menos dois pontos de vista possíveis.

Um seria, por exemplo, o de Robert Lachenay, que não vai nunca ao cinema sem levar no bolso um exemplar, agora bem desgastado, da “Psychopathia Sexualis”. Aqui estão alguns adendos que ele pode levar para seu célebre dicionário:

Hipoestesia: Hajji, que tem os ombros, mas também os longos cílios e os olhos aveludados de John Derek, proclama, desde a primeira sequência, que ele aceitaria todas as garotas bonitas – “se elas também me quiserem!” Efetivamente, todas as cenas de amor são inteiramente conduzidas por suas parceiras femininas. A Rainha das Amazonas o faz compreender, em termos tão pouco velados, como ela mesma , que sua vida depende de sua virilidade. “Eu buscarei minha força em ti” responde Hajji. Mais tarde, ele só decidirá falar de amor à bela princesa Fawzia quando, suspensos um e outro entre o céu e a terra, ele será incapaz de esboçar o menor abraço. Assim que liberto, ele nega precipitadamente suas ternas promessas, foge rapidamente, e é quase à força que ele é mandado de volta para conquistar sua namorada abusiva: ainda assim, para fazer isso, ele adota a aparência de um Santo Homem, que fez o voto de pobreza, silêncio e, é claro, de castidade.



Homossexualidade feminina: a tribo das guerreiras, ferrenhas inimigas do dito sexo forte. Virilização pelo travesti: a princesa Fawzia se veste de garoto – o que nos oferece, com Hajji, disfarçado ele mesmo de monge, uma cena de amor muito imprevista. Exibicionismo das vestes: as túnicas inverossímeis das amazonas, compreendidas entre o “burlesco” da Broadway, a Filha da Selva e A Coroa de Ferro; ou o pequeno conjunto persa de Elaine Stewart.

Não paremos em tão bom caminho; passemos à Necrofilia; o personagem de Amanda Blake, nova Antinéa, que amarra seus amantes debaixo de ravinas e os deixa apodrecer docemente. “Vocês me privaram da minha vingança”, diz ela, diante do cadáver do tirano, e seu olhar é ganancioso, ganancioso...

Sadismo enfim: as damas de companhia são jogadas em banhos fervilhantes por sua rabugenta senhora. Amarradas em camas macias, elas veem as plantas de seus pés serem delicadamente golpeadas. As belas escravas têm os tornozelos acorrentados a pesadas pranchas. Quanto a Elaine Stewart, ela também pagará por sua posição, a ondular sob seu abismo: “Piedade! – Nada de Piedade” responde uma de suas consortes; “eu te tratarei como tu me trataste!” E opa, um pulo no ar....

Podemos continuar assim longamente; mas passemos ao outro ponto de vista, aquele do amador de boa fé, que não se envergonha de semelhantes sutilezas e tem seu prazer em acompanhar um filme de aventura alerta, de bom gosto (ou melhor, do bom “mau gosto” das comics), de cores agradáveis, que não deixa de lembrar qualquer velho Fairbanks, agilmente modernizado; não encontramos
aliás nos créditos o nome do nosso velho amigo Don Weis, do qual não esquecemos o adorável I Love Melvin, e que, ingrato, nos abandona agora pelos televisores de outra frota.



Mas talvez os dois pontos de vista não sejam inconciliáveis? – se for verdade que no coração de todo porco, adormece um diretor.

L’œil gauche et l’œil droit foi originalmente publicado na revista Cahiers du Cinéma nº 81, março de 1958. Tradução: Cauby Monteiro.