O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

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Encontro com Hélène Frappat








Quarta que vem (25/08), às 14h, iremos conversar com Hélène Frappat sobre os filmes "La paura" (Roberto Rossellini, 1953) e "Gaslight" (George Cukor, 1944). O encontro contára com tradução consecutiva e acontecerá via Zoom. Para participar, basta se inscrever no formulário: Inscrições - Conversa com Hélène Frappat (google.com)

Hélène Frappat é crítica de cinema, tradutora e romancista. Foi militante anti-negacionista, uma das fundadoras da revista La Lettre du Cinéma, trabalhou na rádio France Culture e na Cahiers du Cinéma (onde escreve, eventualmente, até hoje). Escreveu alguns ensaios importantes sobre Jacques Rivette, Roberto Rossellini e John Carpenter. Para o Cineclube 1121, Hélène Frappat falará de duas obras fundadoras dos "gaslight movies", no cruzamento entre cinefilia e feminismo.

Link para os filmes com legendas em português: la paura + gaslight - Google Drive

Alguns textos de Hélène Frappat em português:
*Sobre "A vida é bela" de Roberto Benigni: vestido sem costura - blog de cinema: Grande papai?
*Sobre a figura da romancista em "Let them all talk" de Steven Soderbergh e alguns outros filmes: vestido sem costura - blog de cinema: A mulher-olho sem rosto

Inscrições gratuitas
VAGAS LIMITADAS

Retorno à Stromboli




Por Alain Bergala

Seria Eric Rohmer o mais livre dos nossos cineastas? Em um momento no qual o mais medíocre dos filmes standard esconde sua vaidade debaixo de um verniz impecável de profissionalismo técnico, no qual qualquer um sabe decupar uma cena com um número suficiente de complicações inúteis para dar a ilusão de ser um profissional, Eric Rohmer escolhe retornar à fonte primeira da sua arte, ao lado do Rossellini de Stromboli. Se lembrarmos de sua profissão de fé na entrevista que abre o Le Goût de la beauté[1]: "O essencial não é da ordem da linguagem mas da ordem do ontológico." Teria Rohmer sentido, após seus últimos filmes, que o seu cinema era ameaçado por um progresso na ordem da linguagem que arriscava afastá-lo, mesmo que apenas tendencialmente, do essencial, e que ele precisava, de uma certa forma, retornar a suas origens cinematográficas? Não seria nenhuma surpresa vindo de alguém que sempre afirmou que o melhor a se fazer para ir em frente na arte era guardar seu laço com o passado. Acontece que esse dito passado, hoje, não é nada menos que a moda. Também Raio Verde aparece para nós, em uma paisagem onde 99% do cinema está do lado da linguagem, ou da simulação, como decididamente contra-corrente e ao mesmo tempo, com Thérèse de Alain Cavalier, um dos filmes mais vivos do ano.

Contrariando os seus hábitos, pelo menos desde A colecionadora, Rohmer realizou "para relaxar", disse ele, esse "filme de férias" largamente improvisado, onde "tudo se passou oralmente, sem o intermédio do escrito", organizando apenas uma trama geral, os horários das estradas de ferro e das marés, um equipamento de 16mm. É impossível não nos impressionarmos desde as primeiras imagens do filme, pelo seu frescor, e não há outra palavra, um filme onde a simplicidade é restituída às pessoas (atores e não-atores) e às paisagens filmadas, a evidente inocência preservada algumas vezes no cinema amador. Em O Raio Verde, nunca temos a impressão que as coisas e os seres filmados estão lá para a câmera, mas é a câmera, da forma mais simples do mundo, que está ali, diante das coisas.

Dentro da melhor tradição rosselliniana, foi necessário para Eric Rohmer, para levar a cabo uma tal empreitada que o desvinculasse do cinema da escritura e da maestria, um assunto privilegiado que não poderia ser outro que não o seu próprio método. Depois que ele partiu, com seu filme e sua pequena equipe, sem plano de trabalho restritivo, ao encontro do seu assunto e da França das férias, ele precisava de uma personagem vagante, em busca de encontros, mas que não conseguia se estabelecer em nenhum ambiente ou em nenhuma relação. Ele contou então a história de uma jovem mulher para quem nada acontece durante uma hora e meia. E desde que ele escolheu Marie Rivière para interpretar sua personagem, ele retomou Delphine mais ou menos onde ele havia deixado Marie no fim de A Mulher do Aviador.

O Raio Verde descreve um caso de solidão contingente – muito contemporânea – que não tem nenhuma semelhança com a solidão essencial, constitutiva, de personagens como aqueles de David Goodis ou de Emmanuel Bove. Se Delphine se encontra, de repente, confrontada com a solidão, às vésperas de suas férias de verão, é quase por acidente, como resultado de dois abandonos consecutivos: o seu relacionamento com um homem acabara de terminar, e uma amiga com a qual ela planejava viajar cancelou na última hora. Depois dessas duas quebras no seu funcionamento afetivo e social habitual – ela tem visivelmente muitos amigos e toda uma rede de relações – Delphine descobre a solidão como um curto-circuito. Existe sem dúvida um germe longínquo deste roteiro na cena de Noites de Lua Cheia na qual Pascale Ogier, que acaba de realizar seu projeto de se encontrar sozinha em seu apartamento parisiense, telefona em vão a todos os rapazes que ela conhece buscando encontrar alguém disponível para passar a noite com ela. Em um registro completamente diferente, Delphine tem também uma maneira estranha de lidar com essa solidão inesperada. Ela decide, a partir dos conselhos carregados de bom senso de suas amigas, que é preciso "agitar" as coisas, encontrar as pessoas, e quem sabe – talvez – o amor. Mas tem algo nela que resiste a essa decisão banal de reagir contra a sua solidão. Ela vai percorrer a França das férias de verão de um lado para o outro para tentar escapar disso, mas a cada encontro ela vai fugir. Na verdade, Delphine está constantemente se protegendo daquilo que ela parecia procurar. Basta que um homem se aproxime ou que alguém se interesse por ela que ela parte rapidamente em retirada. Mais de uma vez o espectador pode se sentir irritado, pois Delphine aparentemente recusa, mesmo quando algo a faz sorrir, tudo aquilo que ela encontra pelo caminho que poderia levá-la a se aproximar daquilo que nós acreditamos ser o que ela procura.




A respeito disso, a abordagem de Delphine da sua própria solidão e a sua relação com outros (na linguagem, no social) permite Rohmer redistribuir de maneiras inesperadas seus trunfos. A tal ponto que Raio Verde é, no momento, uma exceção em sua série de Comédias e Provérbios, e, olhando para o conjunto da sua obra, em alguns aspectos, o filme nos lembra um outro "inclassificável", O Signo do Leão. Normalmente, se eu ousar dizer, a figura central do filme rohmeriano é uma personagem que constrói para si, com a atração das palavras, um projeto declarado que a ironia da realidade se encarregará de realizar por ela (e contra aqueles que ela talvez secretamente desejou os atos mais inconfessáveis: Os Contos Morais) ou sabotando, e a levando de volta ao seu ponto de partida (Comédias e Provérbios). Contrariamente a esses dois cenários, a convicção que eu tive ao final do filme é que Delphine, muito lucidamente, tinha consciência, desde o começo, de seu verdadeiro desejo: encontrar o homem da sua vida e não qualquer outro. Isso que nós podemos apreender, ao longo do caminho, pelas hesitações ou caprichos, era nada mais que uma fidelidade incorruptível a seu desejo teimoso e nunca formulado, que o espectador não pode de fato compreender até que o filme tenha terminado. Existe uma espécie de integridade na espera sentimental de Delphine: deve ser Ele, com "E" maiúsculo, ou nada.

Pois esse Raio Verde é um grande filme de espera, no sentido que Rossellini pode dizer ao crítico Eric Rohmer, em 1954: "Eu sei como uma espera é importante para chegar até um ponto, então eu não descrevo o ponto, mas a espera, e eu chego de uma vez à conclusão." A espera, aqui, dura 1 hora e 30, e o ponto deve corresponder aos dois sublimes minutos adicionais que, quase por acaso, completam o filme de 1 hora e 32.

O sublime destes dois últimos minutos, que fazem com que os espectadores, eu não tenho nenhuma dúvida, saiam da sala com seus olhos molhados de lágrimas e expurgados de paixões adolescentes adormecidas em cada um, assegura que mudemos de rumo de repente, passando disto que poderia ser nada mais que uma emoção fácil de fotonovela (uma jovem, após provar de maneira passageira a solidão, encontra o grande amor) ao sentimento metafísico de uma escolha designada por uma espécie de milagre cósmico.




A revelação final, contrariamente daquilo que se passou nos outros filmes da série, não é da personagem (eu penso que Delphine sempre acreditou nesse momento) mas do próprio espectador que entende de repente, como no último minuto de Viagem à Itália, que ele estava interpretando mal todo esse tempo o que estava em jogo e o alcance real daquilo que ele estava vendo: o que poderia, no comportamento irritante de Delphine, de suas sapateadas, confusões e repetições neuróticas, preparar de fato, sorrateiramente, as condições para a graça final. Eu conheço poucos filmes, onde o espectador pode como neste alternar, a propósito da mesma personagem, de um incômodo resistente (nós podemos facilmente detestar Delphine em cenas como a da refeição) às lágrimas.

Delphine, contrariamente a tantos outros personagens rohmerianos, não é alguém que constrói entre o seu desejo e o mundo, entre o eu e os outros, uma tela de palavras. Sua solidão passageira faz com que ela ainda se sinta subitamente exilada da linguagem dos outros, seja ela do bom senso, seja ela da sedução. Marie Rivière encarna de maneira admirável essa impressão física que nós podemos encontrar algumas vezes na linguagem comum como uma força efervescente e ameaçadora onde nós nos excluímos ou precisamos nos defender: é porque ela se sente ameaçada e isolada que Delphine não cansa de verificar o impasse que ela encontra em sua relação com os outros. Daí essa repetição de tentativas abortadas de reintegrar o (bom) senso comum, seguidas a cada episódio de reações e de retiradas cada vez mais depressivas.

Então chega a cena maravilhosa, onde ela cruza, por acidente, um grupo que fala do raio verde. Ela se coloca literalmente a circular em torno desta conversa que a fascina cada vez mais na medida em que a conversa não é endereçada a ela (ela não a ameaça), e ali ela se sente bem e sente que qualquer coisa de essencial lhe é portanto diretamente destinada. É sem nenhuma dúvida neste momento que ela ganha a certeza que nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum signo humano poderá lhe dar a convicção absoluta que ela precisa, que ela não está enganando a si mesma e que ela conseguiu chegar aos termos de sua missão. Para que pare essa repetição metonímica sem fim do encontro, da insatisfação e da retração (os primeiros 90 minutos do filme poderiam facilmente durar três ou seis horas; como em Viagem à Itália, não há nenhum progresso dramatúrgico possível, no sentido clássico do termo), ela precisou de um sinal visível que escapa à rede viciada da comunicação humana, ou seja, que o mundo ele mesmo confirme objetivamente, por uma raríssima e exuberante metáfora física, que esse encontro é O encontro que ela esperava. Decididamente, o grito final de Delphine, não é tão distante daquele de Ingrid Bergman no vulcão de Stromboli.

[1] Éric Rohmer: “Le Goût de la beauté", Editions Cahiers du Cinéma, Coll. Ecrits.

Retour à Stromboli foi originalmente publicado na revista Cahiers du Cinéma, n° 387, setembro de 1986. Tradução: Roberta Pedrosa.

Faux Raccords



Por Alain Bergala 

De tanto repetir as grandes sentenças de Rossellini contra a montagem (“as coisas estão aí, por que manipulá-las?”), quase acabamos por acreditar na sua palavra e por fazer dele um campeão do plano-sequência e da recusa da montagem, o que a maioria dos seus filmes, até a sua época-televisão, contradizem formalmente. Seu primeiro curta-metragem, Fantasia Sottomarina, é o mais anti-baziniano dos pseudo-documentários: uma montagem de pura manipulação associada a um comentário antropomorfista esforça-se para transformar em drama, o amor contrariado de um ignóbil polvo, esses planos de pacíficos peixes filmados em um aquário de salão. Uma cena como aquela de Europa 51 onde Ingrid Bergman descobre na usina a realidade física do trabalho na linha de montagem decorre de um uso frenético e demonstrativo da montagem, um efeito de abstração e de aceleração, que deve mais ao cinema russo dos anos 20-30 que ao cinema dos anos 50. Trata-se aí certamente de dois casos extremos, mas ao se observar mais atentamente, por exemplo, os quatro grandes Bergman-filmes dos anos 50, é perfeitamente claro que eles empregam todas as figuras da montagem clássica e que um filme como Viagem, com os seus 465 planos, é igualmente fragmentado, de igual duração, que qualquer filme da época, enquanto que ele tem um programa narrativo muito menos carregado. 

Rossellini, na verdade, não só não se opõe mais a montagem como ele nunca recusou nada do lado da “manipulação” do real (transparências, trucagens ópticas, cenários falsos, efeitos de zoom,) cada vez que ele julgava que essa era a boa maneira, e a mais direta, para o filme que ele estava a fazer, de ir ao que era para ele, nesse momento, o essencial. O cinema de Rossellini é um cinema que pode assimilar tudo, plano-sequência e montagem de efeitos, profundidade de campo e planificação das lentes de longa distância focal, imagem real e imagem trucada, sem perder no entanto a sua linha e sua identidade. A moral de Rossellini nunca foi aquela do meio: é simplesmente, para ele, o que dá do mundo, em um momento preciso, uma visão e uma consciência justas. Se, na sequência da usina de Europa 51, ele pensa que é uma hipermontagem ao estilo russo que traduzirá melhor a tomada de consciência de Irène do horror do trabalho na linha de montagem, essa montagem acelerada, mesmo já muito retro, será para ele nesse momento o bom meio. Inversamente, é com a mesma soberana indiferença no que diz respeito às utilizações e às modas em matéria de linguagem cinematográfica que ele inventará, se necessário, uma nova forma, mesmo que ela seja chocante, para ir até o fim do seu projeto, se ele sente que as figuras em vigor arriscam levá-lo, através das representações do mundo que elas comprometem enquanto formas de linguagem, a trair a própria essência do novo modelo que ele tenta construir. Nos anos 50, com os Bergman-filmes, fora esse o caso do faux raccord.

Observando de mais perto, na realidade, não é a montagem em si que o desagrada — acontece frequentemente dela o agradar — é a dupla obrigação que ele encontra de utilizar o raccord no sentido da narração (como figura de base da ligação entre dois planos) e neste da sutura imaginária (como figura que permite acrescentar um fragmento do real à visão subjetiva de um personagem). Não há bom raccord, nesse começo dos anos 50, senão aquele que vai no sentido da homogeneidade do universo ficcional. Pois Rossellini está em vias de conceber uma outra relação com o mundo de suas criaturas, um universo em que a consciência do personagem, nestas circunstâncias, uma mulher, quatro vezes interpretada por Ingrid Bergman, é confrontada a duas instâncias opacas no seu imaginário mas que são, provavelmente, partes relacionadas, sem que ela saiba, para conduzi-la in extremis à ascensão imprevisível da sua verdade. Por um lado, blocos de realidade muito brutos, muito confusos, ilegíveis (mais frequentemente caóticos, que brotam, ou que estão em fusão) aos quais, apesar dos seus esforços, ela não consegue dar sentido, em que ela sente claramente que algo lhe acena, mas dos quais ela é incapaz de decifrar o enigma. Por outro lado, algo que a olha e a espera, sem jamais guiá-la nem tranquilizá-la de seus sofrimentos, uma instância da qual o espectador pode sentir de longe a presença supra-humana, mas da qual ela nem sequer suspeita. 


Para que essa heterogeneidade constitutiva não seja desnaturada pela homogeneização inerente à montagem como ligação e sutura, seria preciso que sua irredutibilidade se manifeste até na própria enunciação. Ou seja, ele precisava inventar o faux raccord como não-raccord ontológico. Talvez pela primeira vez na história do cinema, o raccord iria indicar a heterogeneidade fundamental de dois planos de realidade que ele colocava lado a lado para mostrar a desunião, o hiato, a irredutível heterogeneidade, a não-suturabilidade ontológica. Como um enxerto que designaria a incompatibilidade do “oeil” e do “sujet”, para utilizar os nomes que damos na botânica para o garfo e a planta que recebe o enxerto. É provavelmente a chegada tão improvável quanto inesperada de Ingrid Bergman na sua vida e no seu cinema que lhe dará a ideia, o modelo e a audácia, nesse começo dos anos 50, de se recusar radicalmente a suturar o que deve permanecer insuturável entre essa grande estrangeira vinda de um duplo alhures (o Norte e o cinema hollywoodiano) e o que ela vê ou atravessa sem poder o compreender: tal como o fragmento da rua napolitana em Viagem, a pesca de atuns em Stromboli, o trabalho na linha de montagem em Europa 51, etc.

Essa questão do raccord é ainda mais decisiva para compreender a revolução do cinema rosselliano, ligada ao seu tema fundamental, que sempre foi aquele da alteridade. O questionamento do raccord nunca foi nele (não mais que em Godard hoje) uma pura questão formal, mas o motor de seu trabalho de cineasta e de suas contradições de homem. Desde Paisà, grande parte dos roteiros rossellinianos giram em todos os sentidos em torno dessa questão: como raccordar o que é outro? 

Na sua vertente humanista, generosa, ecumênica, pedagógica, Rossellini não cessou de pregar a crença no bom raccord, com a possibilidade de uma total identificação com o outro, com a reversibilidade de posturas e de sentimentos que deve permitir se colocar no seu lugar, de compreendê-lo e, por conseguinte, de convencê-lo. Dos seus filmes de guerra até as séries televisivas, uma grande fascinação pela reversibilidade atravessa toda a obra de Rossellini. Em Un pilota ritorna, o mesmo piloto que, no começo do filme, bombardeia o território inimigo se encontra mais tarde no solo, bombardeado, por sua vez, pelos aviões do Eixo e compartilhando as angústias e os sofrimentos das formigas, as mesmas que ele sem dúvida provocou outrora, quando o formigueiro humano era, para ele, somente um alvo. Todos os grandes “persuasivos” dos filmes televisivos do fim de sua obra, de Agostinho de Hipona aos Apóstolos, passando por Pascal, começam por se colocar no lugar do outro, a adotar seu ponto de vista para melhor convencê-lo no final. Entre os dois, é preciso citar a maioria de roteiros rossellinianos trespassados por esses grupos de homens em marcha que trabalham com a identificação com o semelhante. Da parte da crença de Rossellini no bom raccord, eu isolaria somente um filme, De crápula a herói, cujo roteiro constitui uma verdadeira pedagogia do raccord: Emmanuele Bardone, pequeno vigarista sem talento, se encontra confinado em uma prisão onde os outros prisioneiros o tomam por um herói da resistência. De raccord pontual a raccord pontual com os outros segmentos dessa imagem do outro que lhe remetem seus companheiros de cativeiro, ele vai acabar por ser absorvido totalmente, escolhendo viver literalmente a morte do outro, numa identificação definitiva à imagem desse General della Rovere a quem tudo, no início, parecia lhe opor.

Eu não penso que os filmes fundados sob essa crença no bom raccord, se eles são mais homogêneos e bem-pensantes que os outros, contam hoje entre as obras mais vivas de Rossellini. O grande cinema de Rossellini, aquele que procura e encontra os novos modelos, inéditos, os novos ritmos, puramente cinematográficos, para falar a partir de uma nova relação com o mundo, aquelas dos tempos modernos nascidos da experiência irremediável da guerra, passa pelo mau raccord, o raccord impossível. O cinema de Rossellini nunca é tão fulgurante de justeza e de modernidade que quando registra o hiato entre dois planos, a irredutibilidade dos fragmentos de realidade que cada um arrasta consigo, contudo, com o mesmo nível de convicção. A verdade, a desgraça ou a graça — que, para Rossellini, são mais ou menos a mesma coisa e que, em todo o caso, possuem o mesmo mecanismo — se encontram precisamente ao se revelar nessa fratura que abre o filme ao heterogêneo “não reconciliado”, para parafrasear um título de Straub. Karin, a estrangeira de Stromboli, passa todo o seu tempo no decorrer do filme a procurar um bom raccord, qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer momento, com qualquer que seja nessa ilha, uma única pessoa bastaria para salvá-la da louca solidão em que está presa, mas ela não a encontrará lá onde ela a procura, horizontalmente. É atravessando a ilha para ir procurar do outro lado, sempre horizontalmente, o barco que poderá salvá-la, que ela vai encontrar sem ter procurado o bom raccord que a esperava, vertical, algo como a comunicação absoluta, o raccord perfeito. Irène, na primeira cena de Europa 51, recusa conversar com seu filho que procura desesperadamente um raccord com ela, qualquer que seja, e que se suicida se jogando no vão da escada. Na sequência desse trauma, ela vai tentar, durante todo o filme, todos os tipos de raccords heterogêneos que se mostram muito rapidamente, a cada vez, independentemente do seu amor e sua boa vontade, ineficazes e impossíveis: nenhum consegue impedir a morte ou a desgraça daqueles que ela se aproxima e que ela queria salvar. É somente no isolamento da célula psiquiátrica, quando ela terá violentamente renunciado qualquer raccord com o mundo exterior, que ela encontrará, ela também, o raccord absoluto e sua verdade: “Para estar ligada a todos, é preciso que eu não esteja ligada a nada.” É procurando um raccord impossível com Nápoles, Pompeia e seus antigos mistérios que a mesma Ingrid Bergman, que se chama dessa vez Katherine (Karin, Irène, Katherine, eis um cineasta que dá continuidade ao significante), também está, sem o saber, no caminho para reatar o laço que ela sente irremediavelmente se desfazer com seu grande inglês desengonçado, seu marido. 


Seria preciso um longo ensaio para analisar um tanto quanto seriamente essa grande questão da alteridade e do raccord em Rossellini. Eu falei até então, sobretudo, do Real (mesmo na qualidade em que esse tema está destinado a não se realizar) e do grande Outro, mas meu último exemplo introduzirá os múltiplos avatares do pequeno outro (e Deus sabe que eles existem) nos filmes de Rossellini. Eu os pegarei em dois curtas-metragens, obras consideradas “menores”, obras de divertimento onde a vigilância sendo menor, a censura o é também frequentemente. Trata-se da questão, nos dois casos, do raccord com um pequeno outro, ele também considerado menor, um animal doméstico, como revelador dos desejos e da culpabilidade dos personagens. Em A inveja, adaptado de Colette, a mulher tem ciúmes do raccord muito bom do homem com sua gata e irá cometer até uma tentativa de assassinado contra o animal. Em um longo afrontamento em tête-à-tête, em campo-contracampo, a alteridade da mulher e da gata são negadas, elas são filmadas igualmente, como semelhantes, simétricas no que diz respeito ao amor pelo homem: o ciúme nasce precisamente desse sentimento de equivalência, dessa possibilidade de identificação com o outro sem a qual não poderia haver rivalidade. A identificação da mulher com o animal que lhe assemelha, mesmo sendo de uma outra espécie, é um “mau raccord” que resulta no crime e na culpabilidade. O bom afeto, em Rossellini, só saberia se articular através da franca alteridade, aqui o homem e a gata, ou através da fusão de identidade, jamais pelo entremeio. Em Ingrid Bergman, terceiro episódio de Nós, as mulheres, um home movie incrivelmente moderno filmado por Rossellini em 1952 na vila do casal em Santa Marinella, Ingrid tem um raccord muito bom (un très bon raccord) com seu bom e corpulento cão Lajocono, que encarna para ela, visivelmente, uma figura masculina, doméstica e protetora, tranquilizadora, ela lhe fala aliás como a um companheiro. O mesmo não acontece com a galinha da vizinha, que ela acusa de devastar as suas rosas e que ela vai sequestrar, colocando-a no armário da cozinha, para poder receber tranquilamente seus convidados. A vizinha, ela própria se parecendo com uma galinha, vem reivindicar seu animal: Ingrid Bergman finge-se de inocente quando ela é traída pelo animal que começa a gritar, no momento oportuno, no armário. A vizinha indignada recupera seu bem e vai embora tratando-a como uma ladra de galinhas em frente aos seus convidados. Aí também, a alteridade radical entre a mulher e seu cão é a garantia de um bom raccord, o péssimo desejo e a culpabilidade que daí resulta ligam-se ao que é, ao mesmo tempo, semelhante e diferente, ou seja, a outra mulher equiparada a uma galinha. Através desses dois roteiros animalescos, bastante simples, manifesta-se claramente uma constante da problemática rosselliniana e de seu bestiário.


No cinema de Rosselini, a alteridade é ora negada pela possibilidade de uma total identificação com o outro como semelhante (por uma vontade de crer na perfeita reversibilidade das posturas e dos sentimentos), ora dada como irredutível, e nesse caso ela se torna enigma, fonte de mal-estar e de sofrimento, mas também é a causa da reflexão, de bruscos progressos da consciência, de mutações. O que permanecerá sempre mau, incompreensível, sinal de perturbação e decadência aos olhos desse homem que, contudo, tentou toda a sua vida tudo compreender, é o que vem perturbar essa separação da qual ele precisa que permaneça sempre bem definida entre o outro como alteridade e o outro como semelhante. O raccord, para Rossellini, deve manifestar claramente essa bipartição. Ele deve ser justo se ele une o semelhante, falso se ele une a alteridade. Entre os dois, não há nada a negociar nem a transigir: é sobre isso que ele não quer saber de nada. 

O texto Faux Raccords foi extraído do livro Roberto Rossellini, publicado em 1990, sob a direção de Alain Bergala e Jean Narboni. Tradução: Letícia Weber Jarek.

Como todos os velhos casais, cinema e televisão acabaram se assemelhando


Por Serge Daney 

A guerra de posições entre a sétima arte e as estranhas claraboias, com seus encontros perdidos e suas toneladas de ressentimento não está acabada. Esse velho casal não disse sua última palavra. O cinema se reanima? Sim, mas em qual estado? Podemos ainda dizer sem rir: o cinema, a televisão? Sabemos hoje que a sobrevivência do cinema depende em boa parte da televisão. Que o cinema é, simultaneamente, a renda, a dançarina e o refém da TV. O que sabemos menos é que, esteticamente também, o cinema perdeu sua bela autonomia. A TV não ganhou, no entanto. É um híbrido, o telefilme, que ganhou. O telefilme e a novela. Em Nice, esse ano, na ocasião de um festival do cinema italiano, um jurado revoltado insistiu em salientar isto: ele nunca teve a sensação de julgar filmes, mas telefilmes. Sinal dos tempos. 

Pois há uma história da nossa percepção das imagens e sons pré-gravados (“o audio-visual”, palavra tecnocrática e feia). Nossa percepção do cine-visível e do cine-audível, como diria Dziga Vertov, passou pelo cinema, surdo depois falado, e então pela televisão. Ela começa a ser trabalhada pelo vídeo. É nessa “história do olho” que o casal cinema-televisão ainda se mantém como protagonista.

Flashback. Anos 50: começo da televisão. A TV não veio depois do cinema, para o substituir. Ela veio quando o cinema cessou de ser eterno. Quando lhe ocorreu a suspeita de que ele era mortal — logo, moderno. Ligado à atualidade. Sem recuo. Foi preciso uma guerra mundial (a segunda) e um continente (a Europa, mais Orson Welles que é um continente por si só) para isso.

Ser moderno, não é “transtornar a linguagem” do cinema (ideia ingênua), é sentir que não estamos mais sozinhos. Sentir que um outro meio, uma outra maneira de manipular as imagens e os sons, está prolongando os interstícios do cinema. O cinema foi primeiramente muito seguro de si (basta reler os textos de Gance ou de Eisenstein), ele começou por “devorar” tudo que o precedeu: o teatro, a dança, a literatura foram impiedosamente filmados. E então, um dia, um, dois, três cineastas sentem que é menos verdade, que o cinema tem menos apetite, que um monstro ainda mais voraz surgiu. 

Há poucos filmes tão perturbadores quanto Um rei em Nova York (1957). Chaplin se coloca em cena como um rei deposto, tendo abandonado seu reino (o cinema, a América), obrigado a ganhar sua vida atuando em uma publicidade (para uma marca de whisky, seu único diálogo é “miam-miam!”). O maior cineasta do mundo indica apenas, com uma ironia mordaz, que o centro de gravidade do cinema acaba de se deslocar. Ele não é o único. Entre o fim da guerra e a irrupção das nouvelles vagues (ou seja, uma quinzena de anos), os cineastas mais modernos foram frequentemente, avant la lettre, grandes teleastas. A televisão estava no fim de suas linhas de fuga, seus horizontes, seus inconscientes.


Por que isso? Hipótese: depois da guerra, na Europa, não era mais uma questão fazer o cinema servir às grandes causas e aos ideais tolos, não era mais uma questão de “uma arte total” ao serviço da “guerra total”, estava fora de questão uma música ou uma dança que nos submetiam a um ritmo. Começa a época da “caméra-stylo”, o gosto pelas microanálises, amostras anônimas, da queda das stars e, através das técnicas do direto, a era da vigilância. O cinema põe-se à espreita. Encontramos tudo isso em Rossellini (o primeiro grande repórter-viajante: Alemanha, ano zero), em Tati (o primeiro grande repórter esportivo: Carrossel da esperança), em Welles (o primeiro grande apresentador de programa, manipulado de preferência: Grilhões do passado), em Bresson (o primeiro inventor de jogos-dispositivos sádicos: Pickpocket). E mesmo no velho Renoir (o primeiro a filmar com várias câmeras, para a televisão: O testamento do doutor Cordelier). E, claro, no velho Lang-Mabuse, o primeiro chefe regente do vídeo-paranoico. Eles todos, de perto ou de longe, sabendo-o ou não, anteciparam o que deveria ser o normal da televisão. 






Pois a televisão, logo, é isso: um monstro brando que está de olho em nós e que nós, também, estamos de olho nele! Mas não mais nem menos que um gato ou um peixe dourado.

Cômico: a parte mais vivamente dilacerada, a mais “artista” do cinema (do neorrealismo italiano a Nouvelle Vague francesa) está sincronizada com um novo continente de imagens brutas, bárbaras, ainda mal delineadas. Anos 50: a TV (que ainda não sabe nada dos seus poderes) e o cinema (que começa a refletir sobre os seus, que se dedica a introspecção) se cruzam. Pois não haverá intermediário entre eles. Salvo nos sonhos obstinados de alguns visionários como Rossellini ou Godard que – escândalo — farão televisão: de O Absolutismo: A Ascensão de Luís XIV à France Tour Détour Deux Enfants.

Pois a partir dos anos 60, o triunfo de uma televisão que se tornou muito consciente de seu peso social e de seu papel de enquadramento vai dispersar pouco a pouco o cinema de sua modernidade. O cinema dará início a sua regressão: cinefilia, necrocinefilia, modas retrôs, gosto do kitsch, cinema celebrando o cinema como uma nostalgia, “cinema à antiga” que fazemos reviver nas velhas salas — e em breve na TV — com esquimós em estuque, lanterninhas mumificados, programações de época. O cinema reduzido ao seu rito. 

Passemos à TV. No começo, certamente, é a idade de ouro. Ela é feita por artesãos. Aventureiros, amadores, animadores. A televisão é primeiramente divertida. Chega (muito rápido) o momento em que o poder central (então, gaullista) acredita ver na televisão um formidável regulador social duplicado em escola noturna. Essa reforçando aquela. Homens de poder (barões, não necessariamente gaullistas) se precipitam nesse segmento. Hoje, anciãos da ORTF como Spade ou Dumayet situam essa reviravolta decisiva por volta de 1964. Ou melhor, essa derrapagem. A televisão tornara-se menos divertida, ela perdera seu frescor. Havíamos decidido na alta sociedade que ela deveria ter, ela também, sua especificidade, nós não a encontráramos jamais, e com razão. Ela estava lá, toda encontrada, desde o início. Mas não a queríamos ver. Nós tínhamos um pouco de vergonha.

Jerry Lewis disse um dia (com um desprezo não disfarçado) que a televisão era perfeita para informações e jogos, news and games. É verdade que nos EUA, ela fora raramente outra coisa. Na França, por outro lado, ela se vê confiada a uma importante missão social. Em primeiro lugar instruir e, em seguida, divertir. Primeiramente o curso permanente de instrução cívica, a história da França repetida até vomitarmos, toda a literatura do século XIX tornada “dramática”. Em seguida: news and games.

Essa nobre tarefa, infelizmente, não tinha em conta o que havia de novo no meio televisão. Sua especificidade, se quisermos. Seus próprios pseudópodes. A lista é longa. Em desordem: o impacto e os acasos do direto, a grande reportagem e o folhetim, o esporte e as câmeras lentas que ajudam a ver melhor, os interlúdios e le petit train, a mira, os jogos frequentemente débeis mas sempre complexos, o erotismo das locutoras, a Gilbertbrushing, o tratamento diferente de uma imagem — ela mesma diferente —, as incrustações e as cores achatadas, o circo e os risos enlatados, os debates minutados e o show daqueles que nos governam, os efeitos de feedback do vídeo, etc. Todo um mundo. Ainda pouco explorado (apesar de precursores como Averty).
   
A televisão tinha dois futuros possíveis. O videogame e a escola noturna. Um futuro-flipper e um futuro-teatro. Duas maneiras de perceber a imagem, de fabricá-la. Em suma, duas estéticas. Por ora, é a escola noturna que o arrebatou. É a TV-reciclagem. Reciclamos as outras artes (e o cinema mais que as outras) e reciclamos o telespectador, esse eterno grande debutante. Essa situação, notemos de passagem, é bem francesa. Bem francesa, essa oposição entre TV fútil e TV responsável. Em qualquer outro lugar, isso se passou de maneira diferente. No Japão, por exemplo, podemos interrogar seu terminal sobre todo tipo de assunto, incluindo sobre o assunto “valores tradicionais japoneses”, caso tenhamos um lapso de memória! Bárbaro, o Japão. Na França, a TV-reciclagem sempre cobiçou a dignidade cultural. Ela herdou então do academicismo de um cinema francês já moribundo (a QF e a repugnante tradição do intimismo psicológico “à la française”) e fez dele, coitada, seu modelo, seu superego. A tão aclamada “dramática televisiva” simbolizou essa derrapagem e essa escolha. Ela permanecerá como uma das vergonhas do século. Ela, a propósito, ainda não soltou seus gritos mais enfáticos. Esperemos oito centésima vigésima-sétima versão dos Miseráveis, a versão Hossein-Ventura. Esperemos a TV socialista. Temamos. 
   
A televisão, então, desprezou, rebaixou, repeliu seu futuro vídeo, o único por meio do qual ele tinha uma chance de herdar o cinema moderno do pós-guerra. Desse cinema à espreita. Do gosto pela imagem decomposta e recomposta, da ruptura com o teatro, de uma outra percepção do corpo humano e de seu banho de imagens e de sons. É preciso esperar que o desenvolvimento da vídeo-arte ameace, por sua vez, a TV, envergonhe-a de sua timidez. 
   
No momento, a televisão manteve sobretudo em uma redoma (protegida por um corporativismo de ferro) um sub-cinema e é esse sub-cinema que se tornou dominante. Economicamente e esteticamente. Pois o divórcio institucional entre cinema e televisão fora tal que ele tivera como consequência paradoxal a restauração do cinema. Fora o caso dos circuitos que se passou durante os anos 70. Mas esse cinema restaurado é, esteticamente, um golem. Ele é menos o herdeiro do velho cinema que da forma com a qual o telefilme (e a novela) colonizaram o cinema. Então, o cinema se reanima? Sim, mas em qual estado? O que resta das verdadeiras invenções do cinema?

1. O cinema tinha levado muito longe a percepção da distância. Distância entre os personagens, entre eles e a câmera, entre a câmera e nós. Distâncias imaginárias (visto que o ecrã é plano), mas ainda assim bem precisas. Essa “profundidade de campo” era essencial ao star-system já que ela permitia isolar e iluminar figuras (ídolos ou monstros). Quando um cineasta jogava com as distâncias, isso não era nada. O travelling sobre Nana agonizante em Renoir ou o extraordinário movimento de câmera que abre A nova saga do clã Taira de Mizoguchi são hieróglifos traçados no espaço. Apenas esse traço perturbava.


O que se passou em seguida? O travelling não desapareceu mas o zoom chegou. O zoom tornou-se a forma através da qual nós apreendemos o espaço. Foi um certo Frank G. Back que o inventou para filmar o esporte
à la télé. Foi Rossellini (não por acaso) que fizera dele o primeiro uso sistemático. O zoom não é mais uma arte da aproximação mas uma ginástica comparável àquela do boxeador que dança para não encontrar o adversário. O travelling veiculava o desejo, o zoom difunde a fobia. O zoom não tem nada a ver com o olhar, é uma maneira de tocar com o olho. Toda uma cenografia, feita de jogos entre a figura e o fundo, se torna incompreensível. Filmes como Francisca se tornam simplesmente difíceis de perceber para o espectador atual. Desde que a câmera não se mexa, lhe parece que nada se mexe. E se nada se mexe, lhe parece que ele não tem nada para ver. 
   
2. Outra coisa. O cinema tinha levado muito longe a arte do fora de campo, do off. Muitos efeitos de medo, de êxtase, de frustração vinham pois certas coisas eram filmadas mais que outras que permaneciam no fora de campo. A erotização das bordas do quadro, o quadro considerado como zona erógena, todos os jogos de entrada e saída do campo, os reenquadramentos, a relação entre o que foi visto e o que foi imaginado é – eu diria – quase uma arte em si. Todo um cinema. 
   
O que se passou posteriormente? A partir do momento que a TV passa filmes cortados, sem bordas, filmes em nemscope e em nemcolor, essa arte se tornou caduca. Boorman dizia um dia (com um desprezo não disfarçado) que ele alojava toda ação de seus filmes no centro da imagem para que, caso passassem na TV, nada se perca. Não faz muito tempo que Dançando nas nuvens viu, dessa forma, um dos seus três dançarinos ser amputado em um dos seus números musicais. 
   
O desprezo da televisão pelo quadro é sem limites. Porque na televisão não há fora de campo. A imagem é muito pequena. É o reino do campo único. Os chroma keys permitem, aliás, respeitar esse campo único na medida em que fraturam a imagem. Perspectivas inauditas. 
   
3. Enfim, a montagem. Ou melhor, a decupagem. O cinema clássico decompunha um espaço-tempo contínuo e o recompunha com a ajuda de raccords (com todas suas leis idiotas), todas as formas de inventar raccords aberrantes (principalmente os japoneses, principalmente Ozu), a transgressão do “faux raccord”, eis do que viveu durante muito tempo o cinema. 
   
O que se passou em seguida? A televisão não reconstitui um quebra-cabeça, ela é um quebra-cabeça. A ordem das imagens na televisão não pertence nem ao domínio da montagem, nem da decupagem, mas de algo novo e que deveríamos chamar de insertagem. A TV reserva sempre a possibilidade de cortar um fluxo de imagens, de inserir outras, a qualquer momento, sem nenhuma preocupação de fazer o raccord.

São só alguns exemplos. Eu não digo que o travelling, o fora de campo ou a decupagem são “melhores” que o zoom, o campo único ou a insertagem. Seria idiota. As formas da nossa percepção mudam, só isso. E nessa mudança, o velho casal TV-cine ainda são, no momento, os protagonistas. Como todos os velhos casais, eles acabaram se assemelhando. Um pouco demais para o meu gosto.


 A televisão, ainda prisioneira da sua vontade de “fazer cinema”, não vai talvez muito longe na sua fuga. Em direção ao videogame. O cinema, refém, dançarina e renda da TV, não vai talvez muito longe na exploração da sua memória. A mais arcaica. Há exceções, é claro. Em 1982, esperamos muito de Passion e Parsifal. Do estúdio e da trucagem. Pois assimptoticamente, a velha TV e o muito velho cinema se reencontram muito longe a frente e muito longe atrás. O lugar do encontro se chama Méliès. É preciso pedir pela lua. 

18 de janeiro de 1982 

Retirado do livro Ciné journal – Volume I 1981-1982, p. 104-117. Tradução: Letícia Weber Jarek.

Uma apresentação sobre "Carta sobre Rossellini", de Jacques Rivette*


Por Renato Santos 

A propósito de uma sessão comentada de Viaggio in Italia. 

Jacques Rivette se dirige àqueles que não gostam muito de Rossellini e, especialmente, de Viaggio in Italia. Escrita em 1955, Viaggio in Italia era seu último filme - também consumação de um período de sua obra, fato que Rivette praticamente profetizou no texto que era, em sua gênese, um artigo a propósito do referido filme e que, terminado, demonstra proporções mais amplas, de estudo e de síntese a respeito da obra rosselliniana.

De fato, Roberto Rossellini havia estourado no mundo em 1945 com Roma Città Aperta e Paisà; ele era um bastião, senão o principal, do chamado neorrealismo italiano. Seus filmes seguintes, Alemanha Ano Zero, Stromboli, Francesco, Europa 51, L'Amore, culminando com Viaggio in Italia, foram recebidos, por muitos de seus então entusiastas admiradores de um cinema novo, de modo cada vez menos entusiasmado, quiçá desprezado - e isto compreendemos através das ferrenhas defesas de seus verdadeiros admiradores: Rivette, Paulo Emílio de Sales Gomes, que resume admiravelmente a questão em seu "Escândalo Rossellini" (reeditado no livro O Cinema no Século) e, essencialmente, André Bazin, mentor de Rivette e dos Cahiers du Cinema que, na mesma época do texto de Rivette (seria interessante saber qual texto veio primeiro, qual orientou o outro), escreve, dirigindo-se à revista de cinema italiana Cinema Nuovo e, particularmente, a seu célebre redator, Guido Aristarco, seu Defesa de Rossellini, de teor bem parecido à empresa de seu discípulo Rivette. Destas citadas defesas, inferimos as razões do amplo rebaixamento de Rossellini a cineasta menor e desinteressante: sua aparente debandada de temas sociais já habilitados, ao abordar o universo burguês (Europa 51), a crônica histórica (Francesco), a tragédia moral e espiritual de um indivíduo face a sociedade (Alemanha Ano Zero, Europa 51), fazendo de seus filmes, cada vez mais claramente, esquematização de ideias muito particulares, filmes teórico-morais idiossincráticos que não agradam nem os padres, nem os comunistas, nem os que esperam do neorrealismo que seja a crônica (melodramática desde o começo, devendo isso inclusive, e muito, a Rossellini) da miséria. Primeiro, ao ver seus filmes tão desprezados por tais críticos, percebemos rapidamente que Rossellini não abandonou nem por um momento as preocupações sociais, apenas por deixar de filmar as consequências evidentes da guerra. Filmar um drama burguês não significa virar burguês (mesmo não sendo Viaggio in Italia um drama burguês: este é apenas um de seus elementos contrastantes), ou filmar um falso milagre, em Il Miracolo, não lhe torna herege.

Bazin defende o cinema de Rossellini e, especificamente, seu neorrealismo, de modo justo contra essas simplificações e má-vontades: o neorrealismo de Rossellini começa com seus filmes sobre a guerra, e não decai, mas culmina com Viaggio in Italia; da decadência simplista à culminância do olhar justo. Rivette não segue seu mentor quanto à defesa de um neorrealismo; esta palavra não cai bem para este hitchcock-hawksiano. Mas retorna sempre, como bom baziniano, à palavra realismo, com sentido quase idêntico, e à defesa muito característica de Rossellini como cineasta moderno por excelência. A caracterização da modernidade de Rossellini, e a defesa, quase absoluta, de um cinema consumadamente moderno (substituindo a defesa de um cinema puro ou o realismo total de Bazin) é de fato o ponto obsedante do texto de Rivette, algo também muito baziniano, por sinal, e que Rivette desenvolve de modo próprio. Mais adiante veremos de que se trata o moderno segundo Rivette.

Carta sobre Rossellini é um texto crítico exemplar, pois também pode ser lido como meta-crítica: ele trata, em seu sistema retórico, do contraste entre o pensamento teórico, eminentemente racional, lógico, e o pensamento intuitivo, elíptico, que dá seus saltos, muito amplamente através da fé ou da poesia, característica, por excelência, da grande crítica (de Bazin e de sua própria) e da arte, naturalmente. Mais: ele atrela o pensamento lógico, que necessita de provas, ao protestantismo, e o pensamento intuitivo, sensual, ao catolicismo, deslocando o debate em termos religiosos (no que o texto perde em força o que ganha em verve, ao mesmo tempo em que essa atualização do terreno de luta é vital para seu sistema retórico), e afirmando-se, retoricamente, ao afirmar Rossellini, como católico. Em resumo, o texto versa sobre os limites entre a construção lógica e a intuição, tomando sempre o partido da última - seu texto sobre Howard Hawks, por exemplo, é da mesma natureza.

Um primeiro ponto que necessita ser desvendado é a própria retórica carregada do texto: curioso, num texto que defende justamente o desprezo pela retórica que pertence a arte de Rossellini ("em Viaggio in Italia, ele não demonstra, ele mostra"). Contrasta também com o Rivette cineasta e sua tendência a certo respeito objetivo, sobretudo a uma humildade artística. O Rivette crítico, ao contrário, é sardônico, cínico, hiperretórico; contudo, apaixonado: a paixão autoriza seu cinismo das letras aos olhos do verdadeiro Rivette.

A carta também é uma meta-crítica em outro sentido: um tour de force de convencimento, realizado pelo Rivette crítico, apaixonado, católico, místico, portanto, em seus termos, não só aos céticos, mas, por sua insistência, nos faz pensar também num convencimento a si mesmo, ao Rivette cético, frio e racional, aquele que precisa de provas, que ainda não capitulou frente à evidência, que deseja secretamente uma justificativa lógica para sua emoção: sua insistência apaixonada nos mostra também essa dúvida, irrelevante, pois já sanada, mas que retroalimenta, contudo, a paixão, que também é o mecanismo de defesa da verdade contra a frieza da morte. Rossellini também é exemplar nesse sentido, pois parece não possuir tais dúvidas: ele foi, puramente, um apaixonado, chave de seu caráter individualista e utópico.

O fundo católico da carta já se desenha quando o autor reserva aos não-rossellinianos a atitude cética de São Tomé, que precisa tocar para acreditar (introduzindo também com essa imagem a identificação entre corpo e espírito, como desenvolverá depois), e para os rossellinianos a fé da bem-aventurança, a evidência, o sentimento, o mistério próprio, segundo ele, dos rituais quase sensuais dessa religião, da carne e do sangue de Cristo que se fazem presentes segundo o dogma e o sentimento fervoroso; o mistério, próprio, da arte, por natureza não-cartesiana, ilógica e, portanto, pouco adequada aos seus espíritos céticos. Para ele, os não-rossellinianos (para voltarmos a primeira definição de seus inimigos) rejeitam o sentimento em relação à arte e, por isso, se aproximam dela de forma equivocada.

O cinema envelheceu dez anos com Viaggio in Italia: o cinema moderno por excelência.

O texto, muito exemplarmente, introduz uma série de intuições assombrosas, que o autor procura demonstrar através de uma argumentação (para fins de adequação ao pensamento dos céticos, os que devem ser convencidos) que, no entanto, deságua sempre numa luminosa proliferação de novas intuições, insights críticos. A primeira intuição, resumidora, apresentada juntamente com a de que, com Viaggio in Italia, Rossellini consuma sua maestria e liberdade (palavra essencial aqui, que retomaremos adiante) é a de que o filme é exemplarmente moderno: a verdadeira ponta da lança da vanguarda e o momento em que o cinema toma posição igual, sintonia, ao mundo de 1955, especialmente ao mundo espiritual do século: Joyce, Matisse, Stravinsky, Rossellini portanto. Para Rivette, Rossellini encontrou o caminho, a "brecha pela qual todo o cinema deverá passar, se não quiser perecer". Queiramos ver nisso, também, um manifesto conciso da nouvelle vague. Rivette zomba, retoricamente, de seu pensamento intuitivo: "apenas um sentimento pessoal". E eis que Rivette praticamente profetiza o desenrolar futuro da carreira de Rossellini, ao afirmar que este se encontra num ponto de maturação, ou primeira maturidade, no qual os discípulos ainda podem seguí-lo: diferentemente de Renoir, Hawks ou Lang, que, neste ponto da história, já atingiram a perfeição de sua arte que se fecha sobre si mesma, dando aos jovens, não uma direção, como Rossellini ainda dá, mas, numa expressão muito feliz, um desespero salutar. Para Rivette, é o mesmo com as últimas obras de Mozart ou Stravinski. Pois bem, Viaggio in Italia, em retrospecto, é nada menos que o ponto de sutura de uma grande cisão rosselliniana, que se dará, contudo, lentamente - no espaço de uma década, passando por seu épico indiano, alguns filmes comerciais e culminando em sua fase "fechada em si" dos filmes didático-históricos para a televisão, ambientes irrespiráveis, o desespero salutar da lúcida velhice artística, também ele, exemplar.

Henri Matisse: liberdade e autonomia das formas.

A argumentação da modernidade de Rossellini, como dito, será levada a cabo através de novos insights críticos e identificações: a comparação a Matisse, a dos tempos modernos à adolescência, a reminiscência do Goethe da descrição objetiva e da vida exemplar, a identificação do senso de esboço e a realização cinematográfica do gênero do ensaio.
Henri Matisse, o pintor do olhar moderno sobre a eternidade. Rivette, mais uma vez, pede desculpas à lógica por sua explicação pantanosa, intuitiva, para tal comparação, a primeira vista quase absurda; bem detectamos quase um desejo fracassado de explicação aristotélica, teórica mesmo, de tal comparação, que não deixaria dúvidas; mas ela não é necessária, ela é, na verdade, irrealizável; Rivette o sabe, e a realiza sob os termos justos - a força desta comparação precisa ser sentida, reconhecida, vista, evidenciada, no lugar de ser destrinchada ou analisada.

A primeira argumentação, bastante sensata, na verdade, é, justamente, a da sintonia de ambos com nosso tempo e o ponto central de todos os três (o mundo moderno, Rossellini e Matisse) se encontrando na simplicidade de meios. O concretismo da eficaz arquitetura Bauhaus e cia. encontra a essencialização figurativa de Matisse e o englobamento, redução cênica de Rossellini. Tudo se torna limpo, luminoso, ventilado (digamos, para Viaggio in Italia; pois a escrita nervosa de Europa 51 e, especialmente, Alemanha Anno Zero, ao contrário, constitui fornos morais de ar irrespirável; o que é irrespirável, já, em Viaggio in Italia, é a relação do casal - o contraste com a luz e a forte influência telúrica da cidade de Nápoles, passado e presente, é o que coloca o pequeno drama da incomunicação burguesa de Bergman e Sanders em perspectiva e enquadra sua mesquinhez). Basicamente, Rivette defende o despojamento como a marca de nosso tempo e, especificamente, de seus artistas-chave.

Rivette introduz a palavra Realismo, como que identificando-a ao despojamento (algo que retoma no fim do texto, de modo mais obscuro e categórico). Isto é bem discutível quanto a Matisse; temos em mente, porém, o significado múltiplo do termo. Em Rossellini porém, por ser cineasta, a ligação cai como uma luva, dentro do sistema baziniano: uma redução de meios (o que não quer dizer descontrole, mas, inclusive, um maior rigor) aproxima o cineasta da essência de seu meio, ou seja, a própria realidade (fotografada, sim, mas realidade, marca luminosa, ontologia). Rivette praticamente cita Bazin ao afirmar que Rossellini é realista justamente por sua estilização globalizante, sintética, que "não separa, por amor, o que a realidade uniu".

Mas a questão realista, diferentemente de Bazin, é secundária em Rivette. O ponto, em Rivette, se desembaraça do realismo para se encontrar, bem definido, no eixo do despojamento próprio da liberdade.

Pois em Matisse há o seguinte: a interdependência entre forma (linha) e cor; que se realiza plenamente em seu último período, o dos recortes de papel colorido: nunca a linha e a cor foram tão independentes entre si, e ao mesmo tempo, além de se realçarem uma a outra, são a mesma e única coisa, uma mesma forma. Essa autonomia entre os elementos, que no entanto formam um todo equilibrado, único, próximo de um alegre repouso dinâmico, pode ser sentido como uma nova realização, inclusive, da mesma interdependência das formas encontrada na arte renascentista, esta como teoriza, por exemplo, Wolfflin, em sua definição de pluralidade interdependente, dentro de um todo fechado; Matisse e Rossellini são, inclusive, humanistas do século XX, e anti-barrocos: nada da falta, do contraste, da incompletude, da dependência de cada forma à outra. Em Rossellini, defende Rivette, cada movimento de mise-en-scène tem autonomia perante todos os outros; ele caracteriza o olhar de Rossellini como um lápis, como um traço de Matisse, natural e único, não trabalhado, mas completo na gênese, uma vez feito. Essa linha, "linear e melódica" (termos de Bazin) começa e termina como começou, deixando uma marca, na tela ou no espectador: uma marca que "pesa, engaja". Bem se vê a defesa da intuição, igualmente, na arte.

Ainda cabe constatar, como o constata, segundo Oliveira Jr., Jacques Aumont, que a defesa de Rivette do modernismo não é, como é comum, como contraste a um classicismo: o modernismo, para Rivette, aqui, parece ser a única escolha justa, contra um mau cinema; dentro dessa estrutura, moderno é sinônimo de justo, e seus exemplos são, inclusive, muitos dos filmes que hoje chamamos de clássicos (vide seus autores preferidos, como Hitchcock, Hawks, Renoir). O ponto, na verdade, é muito simples, praticamente tautológico: um grande cineasta é grande pois é moderno, e vice-versa: ou, se ele é grande, se sentimos a evidência de sua grandeza, sentimos igualmente a marca e o caráter de nosso tempo.

E a intuição também é o que dita o equilíbrio do conjunto, ou melhor, o leve desequilíbrio, contido, uma leve incerteza do olhar, mas que só revela um equilíbrio secreto maior. No decorrer desta argumentação, fica claro também a oposição entre céticos e rossellinianos: rossellini seria o cineasta da intuição por excelência. Essa assimetria discreta nos movimenta para frente, diz Rivette, e que, ao contrário das pesquisas de simetria estática, é a única que convém ao cinema - outra bandeira da modernidade, o equilíbrio dinâmico.

A terceira e a quarta identificações relacionadas à modernidade e a Matisse realizam síntese ainda maior: Rivette introduz a identificação de ambos os artistas com uma fase da vida, a adolescência, no que ela tem de "gesto estudado, mas que nasce, no susto", uma conjugação de constrangimento e graça, presente na gênese estilística de ambos; e isto se resume na palavra mais esclarecedora, decerto: o esboço. Segundo Rivette, o senso de esboço, no que tem de síntese e revelação do essencial ("que resume vinte estudos aprofundados") é o que caracteriza ambos os artistas, bem como ao nosso tempo, adolescente, confuso. O fator da indecisão que dá às pinturas de Matisse, esse imponderável traço tão gracioso, como o desenho maduro que não se esquece nunca das garatujas infantis, de uma espécie de humildade lúdica frente o modelo das formas visíveis, e que no entanto, devido a essa espécie de candidez, vê mais longe, vê melhor: rende-nos uma imagem esquematizada e mais clara da realidade do objeto. Uma arte adolescente, no melhor dos sentidos: "a poesia do fogo". Essa arte, em sintonia com o tempo, é uma arte fraternal, pois espelho, que revela a essência de nosso estado cultural, estado de alma.

A última comparação com um traço cultural eminentemente moderno é a feita com o gênero ensaístico: uma variação da comparação com o esboço, acrescida agora de um sentido de pesquisa e flanância intelectual. De Matisse, Rivette toca agora em Manet e Degas; e aproveita para criticar os velhos exegetas do cinema puro dos anos vinte: ainda vivos, esses antigos jovens, segundo Rivette, não reconhecem a modernidade de Rossellini, eles que defendiam a atualização do cinema em termos de vanguarda. O que se revela, no entanto, é uma pura mudança de paradigma, uma meia-volta: o cinema puro de Rivette é aquele baziniano, em tudo diferente da teorização do cinema puro nos anos vinte,que tinha por horizonte a abstração, no lugar do respeito ontológico à realidade visível. O que Rivette faz não é notar uma incoerência da geração anterior, mas uma provocação: confrontando sua própria concepção à outra, anterior, ainda viva, que possuia ainda, no momento, toda a autoridade.

Liberdade e ordem do mundo.

Não é só ao mundo moderno que Rivette se refere: a comparação seguinte é com Goethe; a primeira via desta comparação é a do sereno despudor: Rossellini é tão despudorado quanto um ensaio de Goethe ou Montaigne, pois seus filmes falam de sua própria vida, se aprofundam cada vez mais em sua vida cotidiana: Joana d'Arc (que não pude ver) "se trata mais de um documento sobre sua esposa, Ingrid Bergman, que uma adaptação"; o relacionamento burguês de Viaggio in Italia é um retrato de sua própria própria relação conjugal. Vemos portanto um cineasta falando, sobretudo, de si mesmo: a liberdade, novamente. Uma vida exemplar, uma cidade (Nápoles) providencial: é a cidade certa para a análise dialética do filme, para o conflito desenvolvido em Viaggio in Italia: a cidade que guarda em si esse segredo cristão, esse mistério que perdura e emerge de todos os lugares, do passado arqueológico, do cotidiano. Para Rivette, a vida de um artista como Rossellini é uma vida estética: ela própria se identifica à sua arte, constituindo-se assim numa liberdade conquistada.

Rivette evoca, ainda de Goethe, sua lucidez e franqueza, o que ele chama, como um conceito definido por Goethe que não tive a oportunidade de esclarecer, de descrição objetiva: uma "maceração do real" que nos rende a forma mais simples e franca de atingir a natureza de um elemento através de sua representação; ponto importante aqui para a defesa do cerne da arte cinematográfica, para Rivette: a expressão do espírito, através, puramente, da matéria, o que é, também, a identificação de ambos: o corpo se torna puro devir espiritual, e desemboca nas longas sequências, que fecundam todo o filme, impregnam-no de reflexão contida, de flanância nos filmes de Rossellini - o caso mais paradigmático sendo os quinze minutos finais de Alemanha, ano Zero: a indecisão da caminhada sem fim de Edmund, que desenrola para o abismo moral da culpa confusa na mente infantil, cada vez mais acometido pela fome e pela vertigem; a deambulação na verdade constitui a própria natureza dos filmes de Rossellini: "seus personagens, mordidos pelo demônio da mobilidade" (Bazin) procuram, confusamente, alguma coisa, uma resposta, uma epifania: e por isso se mexem, caminham, procuram sem encontrar, ou melhor, encontrando aos poucos uma resposta ao horror, como Irene em Europa 51, e a própria epifania, católica ou ateísta, do final de Stromboli. O espírito confuso, portanto, se torna sempre ação, através dela o compreendemos, com todo o seu índice de mistério.

Nesta altura, a argumentação já se desfez do sardonismo e se apresenta como francamente apaixonada, pura intuição. Rivette atinge uma ideia que tanto ele como seu companheiro Éric Rohmer, outro rosselliniano, desenvolverão conscientemente em seus filmes: a alquimia do acaso, ou melhor, da providência. Rivette fala dos poderes do olhar de Rossellini, "um olhar ativo, que não deforma, nem condensa, mas captura". A própria instância criadora está, no processo mesmo do filme, empenhada numa busca, que se dá no confronto com o mundo, próprio do cinema. Assim Rivette fala dos "seres submetidos sem saber a nosso olhar apaixonado", possivelmente se referindo ao que há de cinema direto na alquimia rosselliniana, o do olhar surpreso para a câmera, e do "sentimento mesmo do futuro, na trama impassível daquilo que dura". Voyeurismo, vidência. Aqui, a altitude mesma se tornou muito alta; a intuição já não pode ser esquematizada para a compreensão racional, e só é capaz de se exprimir em termos poéticos. Rivette, obscuramente, nos fala de teleologia, e convém lembrar da epígrafe, retirada de Charles Peguy, que deve ser sempre divisada, no texto, pois resume tudo: a ordenação encobre, a ordem reina. Voltaremos adiante à epígrafe. O cinema de Rossellini, ele mesmo, se torna aqui, uma busca da comunhão com Deus.

Solidão, encarnação.

Rivette também se dirige contra a debilidade do cinema de seu tempo, o medo do reconhecimento do gênio, que os coloca à margem e situa no centro da atenção o cinismo, o refinamento inútil, a moleza de espírito (o amor em Rossellini, para Rivette, não é erótico nem angélico, se encontra mais fundo, sensual) - Rossellini é o oposto de tudo isso, ao mesmo tempo em que não parece notá-lo. Rossellini tem a melhor das intenções, mas simplesmente não foi feito para essas pessoas; Europa 51 é um filme teórico e santo como sua protagonista: o filme, portanto, é vítima das mesmas pessoas que retrata e critica: para o mundo moderno, São Francisco de Assis seria um louco, eis a tese do filme, que é assim, naturalmente, descartado pelo mesmo mundo moderno. Irene simplesmente pula para fora de nosso tempo, ao encontrar a resposta na santidade, e não somos capazes de acompanhá-la; ela é assim trancada no sanatório. A paixão, mais uma vez, Rossellini e Rivette nos mostram, não tem seu lugar no mundo moderno; é descartada como assunto menor (a própria igreja considerou a fé ilimitada da personagem de Anna Magnani em Il miracolo, mais especificamente suas consequências, como heresia). Rivette, portanto, está usando as armas do inimigo, a retórica, como um super-Rivette capaz de se apropriar de algo alheio de modo a melhor atingir seus fins, ou então, mais simplesmente, não tendo conseguindo encontrar, durante a escrita, outra forma de fazê-lo. Ele, enfim, como que critica tal proceder: "a dialética é uma moça que se deita com qualquer pensamento, e se entrega a todos os sofismas". Chegado nesse ponto seu cinismo já se evolou quase que completamente do texto, que atinge a franqueza que admira em Rossellini, formulando, por exemplo, em função de Viaggio in Italia, a famosa frase, ecoada em ou eco de Bazin: "Rossellini não demonstra, ele mostra".

Para Rivette, como para Bazin, os personagens de Rossellini se encontram em becos morais e existenciais, numa solidão ontológica, irredutível, "que apenas pode ser revertida através do milagre ou da santidade". Voltando ao já discutido a respeito da deambulação, Rivette fala do "brusco repouso dos seres, destes ensaios imóveis diante da fraternidade impossível, súbita lassidão, que os paralisa um momento antes da ação". A ação rosselliniana é a da dúvida, da reflexão. Uma fadiga impaciente, giros sobre si mesmo, que por fim vencem o muro da inércia e do abandono, "esse exílio do verdadeiro reino", através da epifania (ou da morte). É a flanância espiritual e física, pois cinematográfica, em busca de algo que não se sabe o que é, de uma revelação, da comunhão, portanto. A personagem de Il Miracolo (assim como os de Francesco) nesse sentido, é exemplar por meio do contraste: ela é pura comunhão, do começo ao fim.

No primeiro parágrafo da 15ª sessão do texto, admiravelmente longo, encontra-se um resumo. A liberdade da paixão, em sintonia com a ordem do mundo, reconhece as provações e dificuldades como remédio e é fortalecida pela providência. A arquitetura do acaso é identificada, neste terreno católico, à teleologia geral. Olho moderno, espírito moderno: para Rivette, o catolicismo também é sinônimo de modernidade. Aqui temos mais uma comparação, uma caracterização desta modernidade, a fazer companhia junto às noções de esboço e de ensaio: o ligeiro abandono, mais belo que o preciosismo da busca dos gestos precisos (retóricos, afetados, portanto). Frente aos personagens Rossellinianos, que são menos do que interpretam, "depois deste sabor amargo (deste cansaço, desta pressa), toda gentileza perde a graça e a memória".

Eis a tese: "com Viaggio in Italia, o cinema envelheceu dez anos", ou seja, com tal sopro de juventude madura, a velhice do cinema feito no momento se tornou óbvia, evidente. Aqui temos o arremate de um manifesto da nouvelle vague que esse texto também realiza, através do anúncio de uma escola Rossellini, e o retorno ao termo realismo, noutra identificação sua com o despojamento: o realismo é um estado de espírito: pois que a linha reta é o caminho mais curto de um ponto a outro.

Voltemos à epígrafe: ela estabelece, se coloca na linhagem de uma dialética sempre retomada, e que tem seu início em Bazin: sua oposição entre os cineastas da imagem e os da realidade, ou a oposição (Vecchiali, apud Kerniski) entre estilo e escritura; em Rivette, tal oposição se investe das cores católica e baziniana da humildade frente a ordem do mundo e a corrente da teleologia. A ordenação (retórica) encobre a verdade, nos afasta da franqueza, do que é essencial. A ordem, que já reina, é o modelo para a criação artística que, paradoxo apenas aparente, encontra nela a liberdade total, pois é a felicidade da conformação com o mundo (o que de fato, como já discutimos, rende muito frequentemente a solidão no mundo social - vide a incompreensão de Rossellini).

A encarnação: Rivette volta ao sardonismo: Kant e o protestantismo têm as mãos puras, mas não têm mãos - ou seja, não têm cinema.


*Lettre sur Rossellini, Cahiers du Cinema, nº 46, abril de 1955, pp. 14-24. Tradução editada no Brasil por Maria Chiaretti e Mateus Araújo no catálogo da mostra Jacques Rivette - Já não somos inocentes, disponível online aqui.


Rossellini documentarista?

Beaubourg, centre d'art et de culture Georges Pompidou, 1977
         
Por Adriano Aprà

Poder-se-ia dizer que Rossellini nunca foi, ou só o foi ocasionalmente, documentarista. Pode-se dizer de modo igualmente legítimo que sempre o foi. É preciso se entender com os termos.
Seus primeiros curtas-metragens são filmes sobre animais, que não se podem dizer “films animaliers” (documentários sobre a vida animal). São fábulas – alla Esopo ou La Fontaine – onde os casos que se desenrolam debaixo d’água (Fantasia sottomarina), à margem d’água (Il ruscello di Ripasottile) ou em terra (La vispa Teresa, Il Tacchino prepotente) não são senão metáforas dos conflitos “eternos” que dizem respeito aos seres humanos, e que logo depois Rossellini colocará em cena como conflitos circunstanciados pelos acontecimentos bélicos contemporâneos: La Nave Bianca, Un Pilota Ritorna, L’uomo della Croce. Em outras palavras, Rossellini parte de baixo, da origem aquática da vida, para subir gradualmente à superfície e irradiar sua temática moral na água de La Nave Bianca (a marinha), no céu de Un Pilota Ritorna (a aviação) e na terra de L’Uomo della Croce (o exército). Neste último filme também assoma a projeção dos conflitos humanos numa dimensão espiritual mais ampla que as circunstâncias terrenas (a “sagrada família” e a “gruta” de todas as cenas noturnas na izba).
Os animais continuarão a ter papel importante no cinema de Rossellini: ter com estes uma boa relação (ou má) anuncia também boas (ou más) relações com outros seres humanos e com o mundo em volta: veja-se em particular Il Miracolo, Stromboli, Francisco Arauto de Deus, India Matri Bhumi. [1]
Se nos curtas-metragens a ideia de realismo é ausente, onde pelo contrário não se desdenham os “truques”, nos filmes de guerra os elementos que a crítica pôde definir “realistas” derivam também da vontade de Rossellini em documentar-se. Sim, ele o fez nos limites que pôde, dadas as circunstâncias e sua parcial maturidade crítico-histórica. Mas que sua tensão ao realismo passasse através de uma pulsão por documentar, se não propriamente pelo documentário, o podemos perceber nas “narrações débeis” dos dois primeiros filmes (mais articulado narrativamente resulta L’Uomo della Croce, cuja tensão no apólogo antecipa, por exemplo, a “fábula pedagógica” que Europa 51 quer ser). Não por acaso, de resto, grande parte da crítica de então usou, para definir esses filmes tão estranhos ao panorama nacional, a fórmula de “documentário romanceado”, retomada depois também para Roma Cidade Aberta.
Outro sinal da “tensão ao documentário” é a inserção de material de arquivo em La Nave Bianca e Un Pilota Ritorna. No primeiro, sobretudo, é notável a reconstrução “a partir de baixo” – isto é, do ponto de vista dos marinheiros fechados no ventre do navio como “dentro de tantas latas de sardinha” [2] – da batalha de Punta Stilo, a primeira batalha naval combatida pelos italianos na Segunda guerra mundial. O material de arquivo vem neste caso do documentário La Battaglia dello Jonio, rodado pelo Centro Cinematografico del Ministero della Marina, sob supervisão anônima de Francesco de Robertis (supervisor também de La Nave Bianca), durante o combate entre navios italianos e ingleses ao largo de Punta Stilo, na Calábria, entre os dias 8 e 9 de julho de 1940. A valorizar o caráter documentário que vem a assumir esta batalha reconstituída pela ficção está, por exemplo, o fato que De Robertis, anos depois, em Uomini Ombra (1954), um filme bélico de pura ficção, se serve de algumas tomadas de La Nave Bianca (e de La Battaglia dello Jonio), projetadas sobre uma tela como se fossem de arquivo, no momento em que um oficial evoca a batalha de Punta Stilo.

Em Paisà Rossellini retorna a este emprego das imagens de arquivo, desta vez para entremear os vários episódios entre si, com exceção, porém, do último. Estas imagens de arquivo, acompanhadas de uma voz over, de cinejornais, não servem somente de liaison narrativa entre os vários episódios. Elas adquirem um valor estilístico não diverso daquele que possuíam La Nave Bianca e Un Pilota Ritorna: atenuam a diferença entre documentário e ficção, realizam aquilo que podemos definir como ficção documentada, tanto é verdade que o material de arquivo é excluído da passagem do quinto ao sexto episódio, como se a ficção já houvesse absorvido definitivamente os traços estilísticos do documentário.
Em sua atividade posterior Rossellini alternará filmes de “pura ficção”, “roteirizados” e, porém, baseados sobre uma documentação pormenorizada, pela qual a ficção parece assumir os traços do documentário – é o caso de Roma Cidade Aberta; e já diferentes, mais puramente ficcionais, serão Una Voce Umana, Europa 51 e La Paura, para não falar de Giovanna d’Arco al Rogo – e filmes “orais”, estilisticamente mais grosseiros, ao menos aparentemente, como Alemanha Ano Zero, O Milagre, Stromboli, (onde torna o emprego de imagens de arquivo na erupção do vulcão [3]) e Francisco, Arauto de Deus.
No meio situa-se um filme de certa forma anômalo como Viagem à Itália. Aqui é a distância analítica, com a qual Rossellini radiografa as peripécias do casal inglês postos em confronto ao calor meridional, a consentir falar de filme “etnográfico” (o confronto - desencontro entre duas culturas) ou, como fez Jacques Rivette, de filme ensaístico. [4]
Cinema ensaístico, cinema didático, cinema etnográfico. India Matri Bhumi assinala uma reviravolta radical na obra de Rossellini, mesmo se retrospectivamente possamos discernir seus traços nos filmes precedentes. “É um filme que muito amo porque [...] foi nele que procurei realizar uma tentativa de renovação no campo do conhecimento, da informação: uma informação que não seja estritamente científica ou estatística, mas que seja também uma espécie de documentação dos sentimentos e do modo de se comportar dos homens. É também, se se quiser, de certa forma, um filme etnográfico”. [5]
India Matri Bhumi, que é um filme de ficção em quatro episódios entremeados de material documentário rodado por Rossellini (e, presumivelmente, também de imagens de arquivo de operários trabalhando, no episódio da represa de Hirakud), deve ser visto ao par de J’ai fait un beau Voyage/ L’India vista da Rossellini, a série documentária que constitui o ponto de chegada de parte das “inspeções” filmadas com (ou feitas se fazer por) Aldo Tonti antes das gravações do filme, e por outro lado da ideia de aproveitar a viagem para realizar também uma série de curtas-metragens. Se India Matri Bhumi é um filme de ficção com aparência de documentário, não diferentemente de Paisà, do qual retoma a escansão episódica, J’ai fait un bon Voyage (melhor que sua contraparte italiana L’India vista da Rossellini, na qual o jornalista que conversa com Rossellini parece mais “surdo” e bronco que seu colega francês) é um experimento muito original, espécie para a época de jornalismo ensaístico, com um Rossellini que comenta de modo muito descontraído, e dando a impressão de improvisar, aquilo que se passa na tela: quase uma conferência “multimídia” (que Rossellini não improvise no sentido próprio do termo mas – como quando realiza seus filmes – se baseie senão num roteiro com ideias muito claras, é confirmado pelo fato de que, seja na versão francesa, seja na italiana, diz praticamente as mesmas coisas, com as mesmas palavras).
A oposição entre ficção e documentário, escrita e oralidade, prosseguirá de maneira ainda mais declarada com Il Generale Della Rovere e Era notte a Roma, que são releituras “à distância”, resfriadas, do calor “documentário” que caracterizava filmes do imediato pós-guerra como Roma Cidade Aberta e Paisà, aos quais evidentemente remetem. No mesmo período, a Il Generale della Rovere e a Era notte a Roma se opõem não só India Matri Bhumi mas também Viva L’Italia, uma espécie de Paisà do risorgimento, e o primeiro filme a explicitar a conversão de Rossellini a um cinema “enciclopédico histórico”, depois da tentativa indiana de cinema “enciclopédico geográfico”. [6]
Viva L’Italia nos introduz num outro aspecto do Rossellini documentarista, ou melhor, “documentado”, que está na base de todo o seu cinema didático, de A Idade do Ferro a O Messias (isto é, a parte mais consistente, ao menos em termos quantitativos de minutagem, de sua atividade, e de todo modo aquela a qual era notoriamente mais apegado, desinteressado, como se proclamava, daquela anterior, pela qual era e permanece mais apreciado) [7]. Nos filmes didáticos Rossellini muda radicalmente o próprio método de trabalho. Seus roteiros que eram, no mínimo, elusivos quanto ao filme realizado são agora bastante precisos e respeitados, precedidos de um longo trabalho de documentação, quase como se ele quisesse limitar-se a obter, com os filmes, um documento em forma de ficção baseado o mais possível em fontes autênticas (mas, a se indagar, o quanto de subjetivo, seja no nível dos fatos pré-escolhidos quanto àquele do estilo, penetra nestes projetos declaradamente “objetivos”). Este modo de proceder transforma aquelas fontes que são, ainda assim, ficção, em ensaios em forma de ficção. Em certos aspectos, mesmo que as escolhas estilísticas sejam muito diferentes entre si, pode-se aproximar o modo de proceder de Rossellini, que se distancia das formas tradicionais de narração (mesmo suas próprias), àquele quase contemporâneo de Chris Marker, Jean-Luc Godard e Alexander Kluge: o eclipse do cinema como estória e o surgimento do cinema como ensaio.
Um traço de documentarismo mais explícito nos filmes didáticos de Rossellini encontramos no momento em que sua enciclopédia tem que se ver com épocas mais próximas aos nossos dias: em A Idade do Ferro, o quinto e último episódio é quase que inteiramente baseado em material de arquivo acompanhado de voz over; A Luta do homem pela Sobrevivência procede do mesmo modo nos episódios dez, onze e doze (intitulados Esta nossa grandiosa civilização da pressa, Uma arte nova num mundo de máquinas e Não obstante tudo, ainda além). Naturalmente o material de arquivo, embora fornecendo uma base objetiva ao discurso ensaístico de Rossellini, vem ligado, seja na seleção, seja na montagem, ao tanto de subjetivo que ele não pode passar sem nos introduzir. [8]
Neste período registra-se ainda seu projeto sobre A Ciência (c. 1970), para o qual não só rodou algumas “provas” (tomadas ao microscópio, sobretudo), como também uma série de entrevistas com cientistas da Rice University de Houston, Texas, que depois utilizou no documentário – aliás jamais transmitido mas que sobrevive nos arquivos da RAI – intitulado, precisamente, Rice University. [9]
Explicitamente documentário é então Idea di un’Isola, filme realizado sob comissão de maneira bastante tradicional (a onipresente voz over) mas que decalca os interesses didáticos de Rossellini com sua evocação, seja sobre os aspectos contemporâneos, seja sobre os históricos, da Sicília.
A Entrevista com Salvador Allende (conhecida também como La Forza e la Ragione), um documento de excepcional importância de testemunho, mesmo se rodado como qualquer especial televisivo, devia fazer parte de um projeto mais vasto de entrevistas com os líderes da Terra, entre os quais Mao Tsé-Tung, projeto do qual permanece o único realizado: primeira peça de uma “enciclopédia política”?
Até aqui devemos dizer que, com exceção de J’ai fait un beau Voyage, a atividade propriamente documentária de Rossellini é, seja como empenho ou como resultado, no todo, “secundária”, enquanto que, como foi visto, seu “ponto de vista documentado”, tanto no período didático quanto no precedente, aparece central. Podemos contudo afirmar que, à conclusão de sua atividade, reacende-se um clarão propriamente documentário nas suas duas ultimíssimas obras: Concerto per Michelangelo e Le Centre Georges Pompidou. Ambos os filmes são reflexões sobre duas “máquinas artísticas”, espaços institucionais de exibição de arte. O primeiro, comissionado pela RAI e pelo Vaticano para o Sábado santo de páscoa, é interessante, para além do autorretrato talvez involuntário que se torna para ele Michelangelo, como experimento: o único no qual Rossellini entrelaça cinema e vídeo, ou melhor, tomada eletrônica direta; o segundo é, por sua vez, uma tentativa exemplar numa direção nova: aquela da “constatação” documentarística. Envolta dos esparsos sons dos visitantes, na ausência de voz over, a câmera se move entre o “continente” – a arquitetura ultramoderna de Renzo Piano e outros – e o “conteúdo” – as obras de arte expostas – com uma curiosidade descritiva que não esconde um velado ceticismo de fundo (estamos bem longe de qualquer tipo de “celebração”). De um lado Rossellini reflete sobre a relação clássica entre arte e Igreja, de outro sobre aquele moderno entre arte e instituição laica. Em ambos os casos identifica a arte como processo de produção, além ou antes de seus resultados expressivos.
Como não ver nestas obras involuntariamente últimas uma reflexão de Rossellini sobre a própria arte? Emaranhado de política, de economia, de técnica, de documentário e de ficção em cujos limites, mas influenciado também pelos estímulos de tais limites, ele se exprime.
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[1] Remeto a esse respeito a um ensaio meu, Rossellini et les animaux de “Fantaisie sous-marine” à “India”, no precioso Nathalie Bourgeois, Bernard Bénoliel, com Alain Bergala, India. Rossellini et les animaux, Cinémathèque Française, Paris, 1997.
[2] Francesco Savio, Cinecittà anni Trenta. Parlano 116 protagonisti del secondo cinema italiano (1930-1943), organizado por Tullio Kezich, vol.III (NAZ-ZAV), Bulzoni, Roma, 1979, p.963 (entrevista radiofônica em 22 de setembro de 1974). Na mesma página Rossellini fala do filme, ainda que retrospectivamente, como “um filme didático sobre como se desenrolava uma batalha naval”.
[3] O sabor documentário de Stromboli deriva também de uma das fontes de inspiração do filme: os documentários realizados pela Panaria Film, Tonnara (Francesco Alliata, Quintino di Napoli, Pietro Moncada, 1947), Bianche Eolie (Di Napoli, Moncada, Fosco Maraini, 1947) e Isole di Cenere (Di Napoli, Moncada, Maraini, 1947). Claude Mauriac, numa revisão ao filme na saída deste em França, considera erroneamente que a cena da pesca ao atum tenha sido realizada empregando-se material de arquivo, confirmando indiretamente, assim, o sabor documentário do filme: cf. Claude Mauriac, L’Amour du Cinema, Fratelli Fabbri, Milano, 1957, p. 131.
[4] “Havia O Rio Sagrado, primeiro poema didático: agora há Viagem à Itália, que, com clareza perfeita, oferece enfim ao cinema, até agora obrigado à narrativa, a possibilidade do ensaio” (Jacques Rivette, Carta sobre Rossellini, “Cahiers du Cinema”, nº 46, abril de 1955, p.20).
[5] Conversazioni Televisive, declarações de 1962 registradas para a televisão francesa mas nunca transmitidas; agora em Roberto Rossellini, Il mio Metodo. Scritti e interviste, organizado por Adriano Aprà, Marsilio, Veneza, 2006, p. 203.
[6] A enciclopédia geográfica seria desenvolvida, logo depois de India Matri Bhumi, com Geografia della Fame, uma adaptação do ensaio Geopolítica da Fome (1951) de Josué de Castro, sociólogo e etnólogo brasileiro, que Rossellini provavelmente leu na versão italiana editada pela Leonardo da Vinci, Bari, em 1954, com prefácio de Carlo Levi; para este projeto, que herdou de Cesare Zavattini e Sergio Amidei, Rossellini viajou ao Brasil em agosto de 1958, encontrando De Castro. Prolongamentos da enciclopédia geográfica podem ser retraçados no projeto de série para televisão La straordinaria storia della nostra alimentazione (c.1964) e em A Question of People, onde Rossellini (e seus colaboradores) utilizam não só tomadas feitas na Índia em 1957 mas também outras tomadas, destinadas a projetos não realizados, feitas no Brasil (talvez em vista do projeto La civiltà dei conquistadores, c. 1970) e na África.
[7] “Apêndices” de Viva l’Italia, concebidos como o filme em ocasião das celebrações do centenário da Unidade Italiana, podem ser considerados os documentários (um media-metragem para a televisão, o outro um curta-metragem para o cinema) Torino nei cent’anni e Torino tra due secoli. Ambos, apesar de decalcar temáticas didáticas caras ao Rossellini do período, resultam de fato filmes comissionados não particularmente memoráveis.
[8] No campo dos filmes de imagens de arquivo (ou de montagem, ou de compilação, se se quiser) pouco ou nenhum relevo tem Benito Mussolini, que explicita ainda nos títulos “un film di Roberto Rossellini”. De fato, ele se limitou a fazer-se de fiador de uma operação que na época se contrapunha “do centro”, juntamente com Benito Mussolini: anatomia di un dittatore (1962) de Mino Loy, à reconstrução “de esquerda” do ventennio feita pelo senão admirável All’armi siam fascisti! (1962) de Lino Del Fra, Cecilia Mangini e Lino Miccichè, com comentário de Franco Fortini.
[9] Traços deste projeto se encontram no média-metragem de Claudio Bondi Roberto Rossellini. Sognando la scienza (1997).

Publicado como posfácio em Luca Caminati, Roberto Rossellini documentarista. Uma cultura da realidade, Carocci/MiBAC-Centro Sperimentale di Cinematografia, Roma 2012, pp. 125-131.

Publicado online em http://www.adrianoapra.it/?p=1158. Tradução de Eduardo Savella.