O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

Mulher (teogonia).




Por Raymond Bellour

I

A mulher do western, de quem nada foi dito, se oferece ao olhar deslumbrado no estatuto múltiplo de sua ambiguidade.

Porque ambígua ela realmente é, desde o início, e em todos os sentidos. O que ela tem de fazer, de fato, neste universo de homens? É o que todos perguntam, sendo Anthony Mann o primeiro a dizer: "Na verdade, sempre acrescentamos uma mulher à balada, porque sem uma mulher um faroeste não funcionaria".

Será que essas palavras sugerem que é impossível construir qualquer enredo sem uma personagem feminina, como é o costume cinematográfico, ou elas apelam apenas para esse realismo: as mulheres eram uma presença cotidiana no Velho Oeste, que não podia ser evitada. Eu não acho que seja assim. Seria ir contra a arquitetura de muitos roteiros e negar ao herói a possibilidade do mito em sua parte mais secreta.

A literatura vem vagando pela feminilidade há muito tempo, com diferentes graus de intensidade, quase encontrando nessa atração violenta, aliada a uma ansiedade surda, uma razão de ser, um poder singular cuja essência é sugerida pela palavra romanesco, desde então, na França, em incontáveis lampejos de beleza, e na tradição germânica, de forma mais urgente e sutil (se aceitarmos o adjetivo adornado com suas tonalidades alquímicas), o romance se desenvolveu, por meios diretos ou indiretos, em torno da mulher, a qual é ao mesmo tempo a figura da narrativa, espelho do sentido, para o herói masculino o ponto de referência essencial, para o autor a profundidade, o desvio, o equilíbrio derradeiro, – já que a mulher se desdobra assim na obra como uma imensa metáfora, provocando, delimitando o movimento da escritura, seria muito estranho que o western, que foi chamado de cinema americano por excelência, pudesse, qualquer que seja sua singularidade nesse aspecto, escapar da dupla herança do século XIX anglo-saxão e balzaquiano, que define a moral e a estética do cinema americano como um todo.

A mulher, portanto, no universo heroico do Oeste, continua sendo o objeto preeminente, sujeito metafórico, mas mais ou menos despossuída, liberada de todo o seu poder de opacidade, ela não é mais do que uma meia metáfora, por assim dizer. Isso porque, na maioria das vezes, lá onde o herói tradicional do romance refere-se à mulher para descobrir sua própria imagem, o herói do western o convoca no seu semelhante, no herói, irmão bem como no inimigo, já que ambos estão lutando no mesmo campo de batalha onde as mulheres não têm nada a fazer: a morte, no horizonte de cada confronto. Burt Lancaster e Kirk Douglas em Sem Lei e Sem Alma e, inversamente, James Stewart e Robert Ryan em O Preço de um Homem.

Mas o filme de Mann revela um sutil deslocamento: entre o assassino e o caçador de recompensas que o persegue, a mulher se apresenta, amiga do primeiro e já apaixonada pelo segundo. E o que exatamente Janet Leigh representa no duelo, com seus olhos loucamente azuis e seu doce rosto assustado? Creio que se pode dizer que é a vida. Mas como Thomas Mann a entende em uma passagem particularmente admirável de A Montanha Mágica, em que Mynheer Peeperkorn evoca "as exigências sagradas da vida como mulher, no lugar de honra e força". Ao herói, a mulher oferece a possibilidade única de um reconhecimento do lado da vida. Face ao horizonte fatal e magnífico da morte iminente, sem a qual o herói, a rigor, não existiria, a mulher, e ainda mais quando é protegida, torna-se novamente uma mediadora, apagada ou vividamente presente, a depender se ela incorpora o tempo no sentido da segurança burguesa e histórica ou aquele, o único verdadeiramente presente, da exaltação lírica.

Única possibilidade da mulher se tornar, se não a personagem principal, como Anthony Mann sugeriu na mesma entrevista, pelo menos uma personagem verdadeira, não mais a semi-metáfora que pela sua posição ela personifica, mas sim, como em tantos romances e filmes, a metáfora, aquela figura da qual o significado se irradia. Então aparecem Pearl Chavez (em Duelo ao Sol, pelo menos nesse aspecto perfeitamente sternbergiano), Altar Keane (em O Diabo Feito Mulher, uma reversão admirável, pois em poucos de seus outros filmes Lang deu tanto valor à feminilidade), Vienna (em Johnny Guitar, ao mesmo tempo o arquétipo e algo mais), todas altamente romanescas.

Assim, e de todas as formas, à afirmação justamente famosa de Bazin em seu artigo sobre The Outlaw, de Howard Hughes, de que "a melhor mulher não vale um bom cavalo" (que, no que diz respeito à ação, muitas vezes é rigorosamente verdadeira), responde-se com a frase insidiosa de Mann já citada, em que a palavra "funcionaria" é, no mínimo, cheia de significado.

Resta saber quem, sob a aparência que falsamente as equaliza, são as mulheres westernianas, na diversidade que uma pequena tipologia evocativa, arbitrária em sua abstração e referências, pretende sugerir.

II

A mãe é a garantia formal da ordem masculina. Ela é adorada. Ela dá vida. Encostada na cerca, na soleira do rancho, ela testemunha a partida dos homens, assegurando desde já a imaginação do retorno, a permanência do real. É nela que os homens incorporam seus valores. Assim, Katy Jurado, em A Lança Partida, é a personificação da propriedade e, aos olhos de Spencer Tracy, a imagem mais visível de seu sucesso, assim como para Karl Malden, em A Face Oculta, a prova de sua regeneração moral. As crianças se sentem orgulhosas e infelizes ao mesmo tempo por estarem livres de seu domínio: o jovem Billy em Sem Lei e Sem Alma. Esposa de pioneiro, que em breve se tornará avó de uma terra conquistada por lágrimas e sangue, como aparece em A Grande Jornada, de Walsh, e em O Passado não Perdoa, sob os traços de Lilian Gish, é a mãe que inspirou o comovente apelo de Edna Ferber em Cimarron, que Wesley Ruggles, quase trinta anos antes de Mann, adaptou pela primeira vez: "Vocês não podem ler a história dos Estados Unidos, meus amigos, sem conhecer a história dessas milhares de mulheres desconhecidas, atravessando a planície, o deserto, as montanhas, suportando dificuldades e privações". Essas mulheres "com ferro dentro delas", como as descreve Rieupeyrout, são respeitadas como construtoras: elas constituem a própria carne da história.

Entre o passado e o futuro, a mãe tece lentamente a teia. Ela guarda o tempo. Daí a ironia respeitosa de Walsh em Esse Homem é Meu. Em um imenso rancho, Jo Van Fleet, mãe formidável, reina. O pai está morto. Ela guarda, de arma em punho, a virtude de suas filhas e ordena que as quatro esperem, em rigorosa abstinência, pelo único marido de uma delas, o qual teria escapado da morte durante um assalto a banco. Agarrada ao seu chão, varrendo a poeira de sua saia larga, ela é o símbolo vivo da homenagem prestada nos poemas homéricos à terra e, por meio dela, à mãe: "É a terra que cantarei, mãe universal de sólidos alicerces, venerável avó que nutre sobre o seu solo tudo o que existe".

2. Eu tomei esta mulher, ela é minha medida e minha porção da terra (Claudel).

Ela se tornará uma boa esposa. Ela é jovem e inspira nos heróis um sentimento de amor, a noiva exemplar que se tornará uma esposa exemplar antes de ser mãe. Mas o sentimento, por mais apaixonado que seja, resta sempre honesto e respeitoso com a tradição. A jovem mulher obedece ao marido; pudica e reservada, ela pode criticá-lo de vez em quando, mas jamais transgride qualquer código. Para o herói, ela é uma personagem natural, a qual tem de ser, mas que não influencia de forma alguma o significado pessoal de sua vida, Bazin resumiu o amor de Randolph Scott por Gail Russell em Sete Homens Sem Destino em duas palavras: "necessário e objetivo".




Isso não quer dizer que ela não tenha importância. Ela orienta a ação, provoca-a: o que faz Scott senão matar sete vezes o assassino de sua esposa, vítima de um assalto a banco? Sem vê-la por um instante, não podemos imaginá-la como algo diferente de uma esposa modesta e reservada. Ao longo de Duelo na Cidade Fantasma, Taylor protege sua noiva, embora ela não tenha nada a ver com sua relação com Widmark. Ela tem uma função dramática e social e, no filme, conta muito pouco. No fundo, antes, durante e depois, uma boa esposa é uma mulher comportada. E é por isso que não nos importamos muito com ela, porque mesmo sendo charmosa, a palidez de seu papel rapidamente nos faz esquecê-la. O rosto frágil da jovem noiva desaparece rapidamente em Jornadas Heroicas diante da vivacidade rude e feminina de Calamity Jane. Todas essas mulheres são parecidas, têm um mesmo rosto de humildade, de submissão e de moralidade. Marian, em Os Brutos Também Amam, que a despeito de seu afeto por Shane, toma muito cuidado para não transgredir a lei moral; em O Homem dos Olhos Frios, a jovem viúva que sabiamente cria seu filho e para quem Fonda só pode olhar com altivez; a esposa de James Cagney em Honra a um Homem Mau, casada com um homem mais velho que ela não ama, banindo toda tentação; e tantas esposas doces, atenciosas e fiéis que apenas alguma exigência humanitária ou alguns medos maternais as incita a levantar a voz, como em Gatilho Relâmpago, O. K. Corral ou Choque de Ódios. O melhor exemplo disso ocorre em Matar ou Morrer, quando, assim que seu casamento é celebrado, Cooper tem de enfrentar a morte, um assunto que diz respeito somente a ele, e que ele vence sozinho antes de partir acompanhado pela mulher que Doniol-Valcroze chamou tão deliciosamente de "sua pequena loirinha quaker".

3. A mulher é campo e pastagem, mas também é Babilônia (Simone de Beauvoir).

Como não ceder ao charme dessas criaturas deslumbrantes em vestidos multicoloridos que, nos saloons com suas vitrines altamente ornamentadas, batem os quadris nas mesas, procurando incessantemente o homem que lhes pagará uma bebida e talvez uma noite. A anfitriã é a figura mais cativante do faroeste tradicional. Ela pode ser apenas essa aparição admiravelmente fugaz, como uma pintura, um instante, um espetáculo, ou tornar-se verdadeiramente uma personagem, ou sê-la e ainda assim continuar sendo a pintura, o instante, o espetáculo: sendo a mais bela, Marilyn em O Rio das Almas Perdidas, com seus belos sapatos vermelhos e dourados sobre os quais o olhar de Preminger se detém na poeira marrom da rua onde, enfim, pois o filme só pode terminar assim, ela os abandona.

Ela já foi descrita, muitas vezes, de uma forma terrivelmente convencional. É ela, a anfitriã, que leva o herói para o mal, para longe de sua noiva ou de sua jovem esposa, ou (e) se apaixona por ele de uma forma quase espiritual e recebe a bala destinada ao amado, recuperando na morte toda a honra que uma vida dedicada ao mal lhe havia roubado. Inúmeros são os westerns que concordam com o rigor deste esquema, mas mais numerosos ainda são os filmes antigos que o contrariam, transformando a mulher que chamo de anfitriã para usar só uma palavra, visto que ela é infinitamente diversa, em uma personagem rica em reviravoltas e perspectivas imprevistas, uma mulher que escapa a todas as tentativas rápidas de definição, como a jovem prostituta um tanto kafkiana de Duelo de Titãs. Porque ela aparece, assim que escapa às imagens, como um ser claramente definido, que intervém no curso da ação de forma real, cuja palavra tem peso. E ainda mais no faroeste moderno em que, por trás do mito, busca-se encontrar o indivíduo.

Richard Fleischer coloca em cena uma bela personagem em Fama a Qualquer Preço. Callie é uma jovem anfitriã sustentada por um homem vulgar e violento, Jehu. Até que ela se apaixona por Lat Evans, um jovem e belo arrivista cuja única ambição é conquistar status social e o respeito de seus concidadãos. Callie é absolutamente devotada a ele, chegando ao ponto de lhe oferecer todo o seu dinheiro. Lat se aproveita dela ao máximo e ainda se casa com uma jovem respeitável. Mas no dia em que Jehu, louco de ciúme, ameaça ferozmente Lat, Callie o mata. E Lat se voltará, de forma muito comportada, para junto de sua jovem esposa. Fleischer joga com muita habilidade contra uma certa misoginia latente do western tradicional, e não é exagero dizer que Callie é aqui uma verdadeira personagem, determinando a narrativa e dando ao filme sua verdade mais íntima. E a beleza de Lee Remick aporta um vívido contraponto de ternura a essa obra cruel. Ela é inesquecível em seu vestido verde, à medida que se move pelos belos cenários do salão e de seu quarto, todos cobertos por cortinas azuis e brancas.

4. Nas margens do Jo-Yeh, moças colhendo lótus
Conversam e riem por entre as flores.
O sol brilha em seus vestidos novos que reluzem na água
O vento faz suas mangas perfumadas esvoaçarem no ar (Li-Bai).

Não são mulheres adultas, nem noivas exemplares; são moças jovens, que podem ser chamadas de românticas. São cidálias cujo amor de repente se tornará seu único e arrebatador negócio. Assim que encontram o objeto de seu amor, elas avançam, ao lado ou diante dele, a alegria em seus olhos, vestidas com trajes coloridos que poderiam lembrar os usados pelas anfitriãs se a gola, as mangas e as rendas não fossem tão diferentes em sua leveza. Seria uma loucura não vê-las e não fazer um dos buquês mais bonitos de todos os tempos. Elas vêm correndo: Diana Varsi, uma adoravel garota de cabelos castanhos e olhos claros, que se banha em rios e acredita no amor à primeira vista; Petra, a jovem mexicana vestida de branco que Horst Bucholz encontrou um dia fugindo para a floresta; Pina Mellicer, adoravelmente morena e frágil, com seus grandes olhos loucos e seu pescoço tão delicado contra o xale lilás que cobre seus ombros; Gene Tierney, em cores quentes em um filme de admiráveis tons frios, uma falsa ingênua e uma jovem com corpo de mulher com a qual a câmera precisa de Lang se detém graciosamente; finalmente, Audrey Hepburn, indígena, é claro, mas uma falsa indígena, charmosa, descontraída e assustada, tão jovem que tenho de desistir de descrevê-la para remeter todos à imagem encantadora que Huston fez dela. Tudo isso em cinco filmes: Caçada Humana, Sete Homens e Um Destino, A Face Oculta, A Volta de Frank James, O Passado não Perdoa.









E há também as heroínas ternas e singulares de Delmer Daves, todas elas entrelaçadas. Elas são quase mulheres, elas têm, talvez, menos graça e espanto no olhar, mas têm uma ternura e a profundidade silenciosa de seus sentimentos comove. Daves e, sobretudo, Valérie French, trazida por uma caravana mórmon em Ao Despertar da Paixão, Felicia Farr, a grande romântica de A Última Carroça (não esqueceremos a bela sequência, à noite, nas rochas), a jovem que, em Galante e Sanguinário, entrega-se a Glenn Ford, apenas o tempo suficiente para perceber que poderia tê-lo amado, que é por causa dela e de seus olhos grandes e cansados que ele pegará a diligência e o trem de volta a Yuma.

5. Um país onde as moças são belas: bom país. País onde as pessoas souberam viver. A espécie humana foi um sucesso. Isso não é pouca coisa (Michaux).

Daves, ele de novo, pintou o primeiro e mais impressionante retrato da mulher indígena: foi Sonseeahray em Flechas de Fogo, a ternura e a paixão de um amor que nasceu do jogo e do rito, e só conheceu o deslumbramento para terminar em morte.

No faroeste, em geral, pouca atenção é dada à vida conjugal. Quando o herói, por fim, sai em busca da noiva ou encontra a esposa, esta última elipse diz o essencial ao mesmo tempo em que se esquiva: jamais saberemos, – se não for uma referência a outros filmes em que os mesmos amantes poderiam ter envelhecido, como poderíamos nos contentar com isso? – jamais saberemos realmente qual é a aventura deles em uma vida na qual a aventura desaparece. Ou talvez esse também seja o assunto do filme, o que nos leva de volta à mulher. Nos westerns, a jovem dá ao amor a sua cor inefável e o filme mais ou menos ignora-a ou deixa-se comover por ela, às vezes até o ponto da raiva, mas pouco aprendemos ali, na exaltação dos encontros, no encanto das evocações, na conclusão feliz, como é o amor enquanto experiência entre dois seres.

Nesse aspecto, além de sua graça singular, a mulher indígena se destaca de forma absolutamente original. Porque o amor que lhe oferecem é sempre uma oportunidade de conflito. A situação requer isso, em todos os seus aspectos geográficos, culturais e históricos. Quando Thomas Jefford procura Sonseeahray, ele opta deliberadamente pela outra vida, seu amor é ainda mais imprudente do que seu encontro com Cochise, e Daves sentiu isso maravilhosamente, permitindo que as cenas de amor, que são tão ternas e pacíficas, pairem sobre uma leve estranheza na qual a inquietação transparece. Sobre a vida futura da jovem, não sabemos quase nada, mas podemos imaginar tudo; com a indígena, não há nada para imaginar; a história de seu amor começa e termina no tempo da narrativa e é isso que torna esses amores terrivelmente trágicos tão impossíveis. O que Daves, o romântico, termina em morte, Hawks, irônico e compassivo, e Fuller, mais doloroso, repetem cada qual à sua maneira: que Boone em O Rio da Aventura fique, quase forçado, junto à jovem princesa que o seduziu tão admiravelmente ao cortar com uma faca a corda que segurava a porta de sua tenda, com um gesto digno de Lauren Bacall e Katherine Hepburn, ou que Rod Steiger em Renegando o Meu Sangue abandone aquela que ele fez sua esposa, que o ama, e fuja da doçura transparente da aldeia indígena à beira d'água, onde, pela primeira vez em sua vida, conheceu a verdadeira felicidade, – Hawks e Fuller repetem à sua maneira e com muitas outras estas breves palavras de Henri Michaux, com ar de sentença sonhadora: “a vida é tão estranha, tão absurda, quando não se está mais entre os seus...”

A bela exceção é A Última Caçada (O Passado não Perdoa é apenas uma farsa), onde o amor entre Stewart Granger e Debra Paget (Sonseeahray, tornada mulher) é como a conquista de um país do qual se é o explorador e o único ocupante. Desenraizados juntos, ele por sua solidão, ela pelo massacre dos seus, se unem pelo acaso que pouco a pouco precipita um ao outro, transgredindo todas as interdições, todas as alianças anteriores, para tentar o mais difícil de tudo: uma verdadeira vida em casal. A Última Caçada, cujo amor que determina a narrativa é vivido no presente, abre com a promessa de um futuro possível. Mas não podemos nos furtar de pensar – todos os obstáculos removidos entre os seres – na fragilidade social de tal amor, e quando penso em A Última Caçada dessa forma, lembro-me imediatamente das primeiras imagens de Duelo de Titãs em que a jovem esposa do xerife é estuprada e morta apenas por ser indígena.

6. Quando será quebrada a servidão infinita da mulher, quando ela viver para si mesma e por si mesma (Rimbaud).

Em seguida, vem a esposa. A partilha é quase sempre difícil. Jean Simmons, o “rosto de anjo” descrito por Preminger, com seu sorriso igualmente doce, que reúne a emoção dos amores adolescentes e do amor adulto, Jean Simmons, a única que escapa da triste lembrança de Da Terra Nascem os Homens, nos faz sentir isso. Quem é ela ao certo, aquela que só pode ser chamada de a mulher? Nem a mocinha e nem a boa esposa, mas uma liberdade que transmite um alarme esplêndido, um desafio, uma poesia em que a dureza rivaliza com a ternura e introduz as mais belas reviravoltas neste universo de homens.

Ela depende dela mesma ou de quem ela quer depender, organizando sua vida com uma decisão que os rigores do Oeste logo tornam soberana. Como Rhonda Fleming, jogadora profissional em Sem Lei e Sem Alma. Das anfitriãs ela tem um maravilhoso vestido colorido, pontilhado de pontos pretos e com franjas sob os seios, mas ela não se vende a ninguém, até mesmo faz o trabalho de um homem, pelo qual será condenada à prisão, pois a moral masculina não reconhece o seu direito de fazê-lo; e no fim ela partirá como veio, porque o homem que ela ama prefere cumprir seu dever a partir com ela. A mulher escolhe seus homens, assim como os homens a escolhem. Assim, Vienna, uma figura feminina sublime que escapou do mundo ardente de Nicholas Ray, semelhante à Laurel de No Silêncio da Noite, que Gloria Grahame deu vida com tanta loucura, Vienna, rainha em seu próprio universo, pronta para lutar contra qualquer um que ouse questionar sua autoridade e autonomia, que até toma a liberdade de contratar homens para protegê-la sem se impedir de expressar o quão pouco ela os valoriza e que escolhe renovar com Johnny a grande aventura do amor adulto. Por ela Johnny está mais uma vez pronto para desafiar o mundo, e é em uma sequência de um lirismo louco que ele a agarra pela corda e os dois fogem, sob um céu perfurado por chamas vermelhas e amarelas, o último vestígio da casa onde Vienna tocava piano em seu vestido branco. Citarei novamente Dona Reed, que em Punido pelo Proprio Sangue investiga a morte de seu marido da mesma forma que Widmark investiga a morte de seu pai. Eles se confrontam, e o sentimento que nasce entre eles na busca pelo enigma é de uma igualdade desconcertante porque à inclinação dos dois se junta surpreendentemente o diálogo de heroísmo que normalmente se estabelece de homem para homem. É por isso que é tão bela em seu lirismo atravessado pela ironia a sequência na qual, ao cair da noite, a jovem encontra Widmark ferido perto de seu acampamento e, arrancando seu corpete branco tingido de azul pela escuridão, inclina-se para ele, de ombros nus, no meio da planície.

Dixie em Cimarron, Lilly Dollar em Minha Vontade é Lei, Anne Baxter e Dorothy Malone, Eleanor Parker em Esse Homem é Meu, Rhonda Fleming em A Audácia é a Minha Lei, e muitas vezes Virginia Mayo, ou Barbara Stanwyck, não se pode parar de enumerar essas heroínas mais ou menos cativantes, divididas entre a dureza à qual sua posição particular as obriga e a súbita e pesada ternura que as torna tão comoventes, essas mulheres das quais a mais bela é, sem dúvida, Marlene, a Altar Keane de O Diabo Feito Mulher.

III

O que mais sabemos, com o leque aberto e fechado? É o que Kierkegaard nos diz: “Ser mulher é qualquer coisa de tão estranho, de tão misturado, de tão complicado, que nenhum predicado pode expressá-la, e os muitos predicados que gostaríamos de usar se contradizem de tal forma que só uma mulher pode suportar".

Mas sabemos que ela geralmente desempenha um papel singular no faroeste e que considerá-la adequadamente é a única maneira de entender o filme como um todo, já que ela confere a ele uma espessura e uma fragilidade especiais, e o enredo faz um jogo em torno dela, seja principal ou secundário, que está longe de ser sem sentido. Dois filmes demonstrarão isso, ambos de Raoul Walsh, em que aparecem, ligadas e opostas, duas mulheres.

Imediatamente após escapar da prisão para a qual fora levado por sabe-se lá quantos assaltos a bancos e trens, Wes McQueen retorna à sua fazenda natal para perguntar a uma criança sobre o destino de sua antiga noiva, Martha, cujo túmulo está agora a poucos passos de distância. A inclinação que ele sente desde o primeiro momento por Mary-Ann, uma jovem que veio do leste na esteira de um pai aventureiro, é apenas uma repetição, diz ele, de seu antigo amor. Pouco importa que Mary-Ann contrarie o código de honra mais elementar; o essencial é o tipo de jovem que por referência e aparência ela encarna aos olhos de Wes: a poesia cristalina, terna e reservada, a companheira atenta e submissa. À sua frente, Colorado, com sua saia esvoaçante, seu corpete que revela um ombro nu e a curva ainda imprecisa de seu busto, é tão bela quanto a Susana de Buñuel. Desde a primeira imagem, tudo o que vemos dela é um corpo delineado, envolto em seus cabelos que caem pesadamente quando ela se ajeita – a partir desse instante sublime, como se pretende que seja, Colorado incorpora a mulher como mito. Ela é uma metáfora. Quanto mais o filme se aproxima do fim, mais a narrativa tragicamente se precipita, e Wes em Colorado reconhece a mulher, reconhece a si mesmo e faz dela sua companheira. E, entretanto, quando no alto da colina ele avista os sinais de fumaça, foge, abandonando lucidamente a jovem porque essa é a única chance deles. É então que Walsh (ou seu roteirista, não importa), numa admirável reviravolta, submete Colorado a um momento de arrancada, por força das circunstâncias, da possibilidade de heroísmo – tanto quanto dizer que no western o ser é completamente real –, a heroína exemplar que transgride todos os códigos para tentar encontrar seu amante cercado pela polícia em frente à “Cidade da Lua”. Até o último instante, porque depois de cuspir no rosto do xerife que a incita a trair, depois de roubar algumas armas e levar um cavalo para Wes escapar, ela se vira, assim que nada mais é possível, contra os homens que se aproximam e, apesar do gesto de Wes para detê-la, descarrega suas pistolas sobre eles, levando sua própria vida até o fim como bem entende, diante até mesmo do homem que ama e ao lado do qual desaba, com o corpo crivado de balas. As duas mãos entrelaçadas de Wes McQueen e Colorado na areia do deserto, naquele derradeiro close que Walsh queria que fosse irrefutável, nada designa melhor a mulher como parceira absoluta. Certamente ela é também a metáfora, o mito no sentido surrealista, no qual Simone de Beauvoir viu uma última e sutil alienação. Com a única diferença de que o faroeste, desde o início, encena o jogo mais arriscado, de que a exaltação tem valor objetivo e de que a morte, assim provocada e recebida, coloca imediatamente a relação mítica entre o homem e a mulher no terreno aterrador e admirável da igualdade.







Nos confins da fronteira mexicana encontra-se o Fort Delivery. Um jovem tenente, Matthew Hasard, recém-saído de West Point, chega em uma certa manhã. A esposa do capitão Mainwaring, Kitty, a única mulher em Fort Delivery, acolheu-o com uma amabilidade carinhosa. Um dia, saindo do forte em direção ao Leste, sua carruagem é atacada e ela conta com a ajuda de Matt para escapar da fúria dos indígenas. Surpreendidos pela tempestade, eles se refugiam em uma gruta e, após uma noite de amor, retornam ao forte. Daí em diante, a persona de Kitty agirá como um irônico contraponto ao heroico Matt e ao tema do filme: a vida militar. Especialmente porque, pouco antes do massacre do capitão Mainwaring e de sua patrulha pelos indígenas, chega a noiva de Matt, Laura, sobrinha do general Quait. O contraste entre as duas mulheres acentua a primeira impressão de ironia, pois enquanto Kitty adota em relação à realidade militar uma atitude cínica, crítica, cansada e um pouco melancólica, Laura personifica a seriedade ética e social. O tema essencial é, portanto, representado no relacionamento entre as duas mulheres, em algumas longas sequências centrais, bem como no fim com a entrega da medalha. É uma luta desigual, porque Kitty em tudo tem o papel principal, e à elegância árida de Diane McBain contrapõe a graça adorável, a ternura e a melancolia absolutamente arrebatadoras de Suzanne Pleshette. Mas isso não importa; o essencial está no fato de que a crítica interna ao tema repousa, no roteiro, na relação entre duas mulheres, na qual uma das figuras romanescas mais maravilhosas do western é ironicamente posicionada ao longo de todo o filme, nem que seja por meio da graça. É claro que tudo permanece em ordem: Kitty, filha e esposa de um oficial, casa-se com um oficial pela segunda vez na pessoa de Matthew Hasard e retorna ao Fort Delivery. Mas só sua presença, habilmente aproveitada em momentos decisivos, com suas réplicas, finas e nostálgicas, já é o suficiente para lançar uma suspeita sobre a verdadeira realidade desse mundo de homens e conferir ao filme uma sensibilidade moral muito particular.

Eu poderia ter dado milhares de exemplos. Será suficiente mostrar que Walsh, em dois filmes, La Fille du Désert [1] (também conhecido como Colorado Territory, porque aqui a metáfora começa com o título) e Um Clarim ao Longe, uma vez com audácia e violência absolutas, em outra com graça e ironia, contraria aquilo que, por razões de facilidade ou por algum sentimento obscuro, temos tentado frequentemente enxergar na mulher do faroeste: uma imagem.

[1] NdT: A menina do deserto. No Brasil, o filme recebeu o título Golpe de Misericórdia.

Femme (théogonie) foi originalmente publicado em BELLOUR, Raymond (Org.) Le western: Approches - Mythologies - Auteurs – Acteurs – Filmographies. Paris: Gallimard, 1993 (pp.146-159). Tradução: Ezequiel Antônio da Silva Stroisch.

Sobre cordas e estrelas






Por Victor Cardozo

Tudo começa com um casamento.

Com a fluidez sinuosa de uma maré cheia, Grémillon segue dois cozinheiros trôpegos que atravessam a chuva a caminho de uma cerimônia improvisada (e que talvez também por isso, carrega algo mais de singeleza e de sagrado, algo mais de espírito comunal). São cozinheiros de navios rivais no ofício de salvar embarcações em naufrágio. O lucro é proporcional ao risco: o mau tempo é promessa de prosperidade e a permanência em casa é mais instável que a certeza de longas horas ou dias no mar. Os demais convidados são os membros da tripulação e suas esposas. Palavras eloquentes são ditas em homenagem ao novo casal (descrevendo o mar como a amante a ser aceita por cada esposa), mas o verdadeiro peso vem do discurso simples e contrafeito de André (Jean Gabin), líder tácito da tripulação de rebocadores e verdadeiro líder espiritual da comunidade como um todo. “O que mais se pode querer”? Yvone (Madeleine Renaud) contrapõe toda atmosfera de heroísmo e bonomia com lágrimas ambivalentes. Ela é a esposa que tudo pressente e nada explica ao marido. Este é um de seus vários gestos de amor: não revelar ao homem que ama o segredo de si mesmo, deixar que ele mesmo descubra por conta própria. A hubris de André está justamente em sua força: acredita piamente em estar sempre a postos, sem distrações, sem ambivalência. Mas, como sempre, o destino, na forma do mar e de suas miragens, tem outros planos.

O filme se dá a ver num discreto entrelaçamento entre pequena e grande forma (poderíamos dizer também: entre classicismo trágico voltado para a intimidade e melodrama comunal, entre paixões interiores e senso de destino externo). Suas imagens, ao sabor dessa condução, se equilibram então entre abstração e concretude, e nada confirma mais essa divisão do que as cenas de tempestade e as cenas de amor. O interior de um barco é de uma materialidade pesada, sólida, madeira e metal. André rege os conflitos e contingências do ofício com pragmatismo e rispidez. E no entanto, essa solidez chacoalha, sofre as ameaças do extracampo e das tensões internas que o capitão tenta em vão controlar. Visto de fora, à mercê das águas, o mar é um belo e frágil brinquedo, seu conteúdo é joguete dos deuses (não consigo me lembrar quando o uso a contragosto de um modelo para cenas externas de perigo foi tão adequado). No entanto, a imagem é completa, indivisível. Entre Yvone e Aimée (Michèle Morgan), André vive o paradoxo de ser amado por ambas mediante o contraponto da recusa. Yvone recusa a concretude cega do mundo de André, vê a fragilidade da sua força e ocupa o seu lado oposto no espectro. Aimée (não ouso chamá-la de Catherine), por sua vez, se recusa a ser transformada em imagem, resiste até o último momento de despedida às idealizações de André, idealizações que permitem a ele se manter firme em sua contradição impossível. Vemos ambas sob o olhar de André como miragem e como mulheres de carne e osso. Nessa alternância, repleta de imagens duplas (mar e céu, estrelas do mar e firmamento, barcos de resgate e aqueles que os resgatam) está a revelação do drama.

Mas o mar, como já se disse, tem outros planos. Se começarmos com um casamento, será com um outro tipo igualmente fatídico de cerimônia que terminaremos. Numa prece, o destino está selado, mas também somos expulsos da intimidade dos personagens e devolvidos à condição de testemunhas do ritual comunal. Mas afinal, é em ambos, no ritual e na intimidade, que abstração e concretude se permitem trocar de lugar diante dos nossos olhos.

“Ainda temos o amanhã”: seria possível um gaslight movie católico?




Por Hélène Frappat

É um triunfo na Itália, com mais de 5 milhões de ingressos vendidos desde outubro de 2023. Autora de um ensaio notável sobre a noção de gaslighting, modus operandi da dominação masculina que consiste em culpabilizar as mulheres pela violência que lhes é infligida, Hélène Frappat analisa as ambiguidades desse filme realizado pela atriz Paola Cortellesi.

Em 2018, a Itália do showbiz descobriu o feminismo durante a cerimônia do David di Donatello, César transalpino. Como discurso de abertura, Paola Cortellesi, atriz icônica do cinema popular, transformou um texto do semiólogo Stefano Bartezzaghi numa esquete que teve o efeito de uma bomba.

Com um golpe de gênio midiático, próximo de um golpe de Estado sociológico, ela se apropriou desta análise do efeito de gênero, particularmente violento em italiano: “é impressionante como, na nossa língua, certos termos que, no masculino, possuem uma significação legítima adquirem subitamente um outro sentido no feminino e se metamorfoseiam radicalmente tornando-se um lugar comum vagamente equivocado que, visto mais de perto, é inalterável, resvalando na prostituição. Exemplo: um cortesão: um homem que vive na corte; uma cortesã: uma puta. Um massagista: um fisioterapeuta; uma massagista: uma puta. Um homem da rua: um homem do povo; uma mulher da rua: uma puta. Um homem disponível: um homem gentil e solícito; uma mulher disponível: uma puta.

Uma pequena bomba linguística

Paola Cortellesi continuou assim longamente, sublinhando com um sorriso ingênuo a declinação sistemática – sistêmica? – de um ofício sério, de uma pessoa respeitável no masculino, em puta. Em suma, a mestra de cerimônia performou um coming out linguístico: fazer a língua de todos os dias, que é também a da televisão e do cinema, confessar a transição impensada que ela opera organicamente entre uma desqualificação e uma discriminação. Contudo, é sobre esse deslocamento, raramente autoproclamado, que repousa há milênios, não somente na língua italiana, a exclusão política das mulheres.

Na sala lotada de homens experientes de smoking e de putas de lantejoulas, o silêncio era impressionante. O estupor se sobrepôs aos poucos risos provocados pelas mímicas de surpresa (“de novo uma puta?!”), depois de cansaço (“de novo uma puta...”) da showgirl. Eu descobri esse one-woman-show brilhante graças a uma conhecida italiana perturbada por Ainda temos o amanhã. Me escutando resumir meu ensaio sobre o gaslighting, ela exclamou de imediato que C’è ancora domani era exatamente isso: um gaslight movie cujo twist final ela recusava me revelar.

É pouco dizer que minha curiosidade foi despertada, minha desconfiança também. Não que eu despreze o cinema italiano. É mesmo o contrário: eu lhe dediquei vários livros, e eu proclamo há muitas décadas que a Itália (e seu cinema) é o laboratório da vanguarda das mutações políticas, não somente europeias. No entanto, salvo quando eu corro para ver e rever os filmes de Marco Bellocchio, eu tenho sempre uma apreensão.

Da conversação

Minha inquietação é referente à influência da cultura católica. Esse novo sucesso que mexeu com o país vai me refazer o efeito de A vida é bela? Em 1997, o filme de Roberto Benigni me apareceu como um manifesto negacionista, consistindo em fazer como se “o pai” pudesse salvar seu filho do horror genocida, negando, de passagem, a existência da Shoah. Como se o paterfamilias, proprietário do poder oficial, incluindo o da narrativa, não o exercesse manipulando a realidade (o campo de extermínio no qual estamos presos não existe), e seu filho, de passagem, cujo olhar menor, minoritário, só existe sob a restrição do olhar dominante.

Seria possível um gaslight movie católico, denunciando a morte lenta da esposa na cela conjugal heteronormativa e cristã? Roberto Rossellini o fez em 1954 com O medo, e em todos os filmes realizados com sua esposa Ingrid Bergman, de Stromboli a Viagem à Itália, passando por Europa 51. Esse diretor comunista e católico, esse gênio que não estava livre de uma contradição, revela ali, do ponto de vista de sua heroína, o que, no casamento tradicional, impede a experiência de igualdade que o filósofo Stanley Cavell nomeia, com justeza, “conversação”.

Lembremos que a condição de possibilidade de uma conversação consiste em associar duas bocas cúmplices, e não, para prolongar a lição do linguista, uma boca masculina que monologa e uma boca feminina que engole (as lições de sabedoria e de dominação). Contudo eu fiquei siderada pela cena final de Ainda temos o amanhã. O twist que prendeu a respiração de milhões de espectadores e espectadoras italianos(as) consiste em mascarar, com a ajuda de um suspense rocambolesco clássico (acreditamos que a esposa infeliz vai fugir com seu amante), um golpe de teatro institucional.

O encontro secreto da mulher agredida não é com o seu salvador mas com a Constituição que, em 2 de junho de 1946, lhe concede o direito ao voto (e simultaneamente a escolha entre a manutenção da monarquia e o advento da República). Depois de ter escapado de seu carrasco doméstico, cuja violência é encenada, literalmente, como um pas de deux – o marido distribuindo os golpes ao ritmo de uma dança de salão – a heroína imaginada (escrita, interpretada, dirigida) por Paola Cortellesi corre até uma seção de votação. Ela limpa seu batom, lambe o envelope e brande o instrumento de sua liberação.

Então o filme termina com um número musical: Paola Cortellesi dubla silenciosamente a letra da canção A bocca chiusa de Daniele Silvestri numa sequência final que lhe é quase um clipe. “E eu não tenho nem escudos para me proteger, nem armas para me defender, eu só tenho essa língua na boca, e se você cortá-la, eu cantarei mesmo assim, de boca fechada...

Um happy end feminista?

Em 2023, um ano depois da eleição à presidência do Conselho do “senhor Giorgia Meloni” – seu primeiro decreto consistiu em exigir a masculinização de sua função -, um dos maiores sucessos de todos os tempos no box-office italiano faz então do direito ao voto um happy end feminista. Gostaria de esclarecer que não tenho nada contra o direito ao voto, mesmo que ele tenha permitido a eleição de uma dirigente que nunca variou politicamente desde que afirmou aos 19 anos (em francês, na France 3, em 1996) que “Mussolini era um bom político”.

Então, Ainda temos o amanhã é o gaslight movie que a Itália esperava, abalada em 2023 pelo feminicídio da jovem Giulia Cecchettin e pelas declarações de sua irmã Elena, prontamente qualificada de Antígona depois de ter formulado que o assassino de sua irmã era “o filho saudável do patriarcado”? O gênero é também questão de fingimento, de imitação. Senhor Meloni pratica a arte de fazer com que as mulheres falem enquanto lhes fecha as bocas com leis antiaborto e homofóbicas, sem parar de representar “a mulher/a mãe/a esposa traída”. Depois de ter visto Ainda temos o amanhã, e a fim de se ligar a um fenômeno público transformado numa verdadeira questão cívica, Meloni endereçou uma mensagem de felicitações à Paola Cortellesi por “esse filme muito corajoso e estimulante”.

Paola Cortellesi, por sua vez, conclamou a “uma verdadeira revolução: unir as forças” de Meloni e da dirigente da esquerda Elly Schlein para lutar contra as violências cometidas contra as mulheres, que propõe, de passagem, a compatibilidade entre um programa fascista hostil às minorias e um partido liberal. Ainda temos um longo caminho para que o gaslighting, ancorado na cultura católica, pare de manipular os cidadãos(ãs)/espectadores(as) cujo reflexo ampliado nos é oferecido pela Itália.

“Il reste encore demain” : un gaslight movie catholique est-il possible ? foi originalmente publicado na revista Les Inrockuptibles de 9 de março de 2024. (“Il reste encore demain” : un gaslight movie catholique est-il possible ? | Les Inrocks) Tradução : Miguel Haoni.

Que pé!





Sobre As good as it gets de James L. Brooks

Por Hélène Frappat

A arte da comédia americana se destaca na estilização dos personagens e nos contracampos com os cachorros. Uma lembrança entre outras: Meia-noite de Mitchell Leisen. Na hora do café da manhã, a discórdia reina entre Don Ameche e Claudette Colbert. As réplicas jorram, o pânico atinge o ápice... até que um close de um cachorro bastante afável, pacificamente sentado com seus donos, põe fim – provisoriamente – ao seu pugilismo fantasioso. Chantal Akerman não se enganou quando, em Um divã em Nova York, fez de um cachorro o desafio de uma love story, logo de uma cura.

O personagem de comédia é geralmente um agitado que não sabe o que fazer; a estilização, maneira sempre elegante de estar adiantado sobre a psicologia, se apodera de sua agitação para a pôr em cena. Então, duas soluções (pelo menos): ou o cineasta traduz a agitação em rapidez, e se interessa pela aceleração dos corpos, toda trajetória e toda direção postas de lado – objetivo: saltar o mais rápido possível, mesmo contra uma parede, a maluquice sendo um excelente acelerador da velocidade –, ou ele é atento à direção, isto é, ao trajeto da agilidade. De um lado o Hawks de Bringing Up Baby (onde um leopardo amante de música desempenha as funções de cachorro), do outro As good as it gets de James L. Brooks.

As good as it gets dá uma forma burlesca aos transtornos psíquicos de seu herói de comédia (Jack Nicholson), lhe inventando um andar: saberemos que ele é tantã (TOC = transtorno obsessivo compulsivo) quando descobrirmos a maneira pela qual, literalmente, ele coloca um pé na frente do outro. Dois pés que ziguezagueiam, se contorcem e avançam em esquadro, história de respeitar uma misteriosa lógica, da qual só importam os efeitos. Dois pés filmados de perto e acompanhados, em breve, pelas patas de um cachorro mimético (amante de música ainda por cima).

Não haverá redenção, mas, mais modestamente, uma ligeira torção no andar do personagem: não há cura para a maldade, mas, da mesma maneira que se pode acreditar que uma troca econômica se torna uma relação amorosa, nós poderemos observar como a luta feroz do pé esquerdo de Jack Nicholson contra o seu pé direito cede o lugar, no fim das contas, para um andar “em conjunto”, que lhe autoriza mesmo o passeio a dois! Desenlace invertido do El de Buñuel, no qual o balé errático dos pés do personagem desmentiam ironicamente seu discurso de cura.

Quel pied ! foi originalmente publicado na revista La Lettre du Cinéma n°5, verão de 1998, p. 43. Tradução: Miguel Haoni.

Casamento experimental






Sobre As good as it gets de James L. Brooks

Por Axelle Ropert

No cartaz, Jack Nicholson se enternece por um terrível cachorrinho. No trailer, um velho misantropo retorna, graças à descoberta do amor, ao seio de seus semelhantes. Raramente se viu uma promoção tão “distante da realidade”, chegando a traduzir o agridoce As good as it gets pelo otimista Para o bem ou para o mal[1].

Como conseguir jantar com uma mulher quando só se suporta talheres de plástico? Como conseguir jantar com um homem quando só se tem uma preocupação na cabeça, a asma de um garotinho? Através dessas situações de impedimento, James L. Brooks explora, sob todas as suas facetas, um mecanismo que não para de relaxar e de se contrair: a forçação. O voluntarismo é, assim, essa decisão engraçada, complicada e tão pouco exemplar quanto possível de não mais se deixar levar e de se controlar, em resposta (e aí se encontra a lei do encorajamento mútuo) ao abandono simétrico do seu parceiro. Lutar contra suas obsessões (comer com verdadeiros talheres), se obrigar a se examinar meticulosamente (compreender que um garotinho não pede para ser o centro de uma vida), mas também brutalizar os outros (humor misantrópico à vontade) poderia ser o programa dessa mecânica íntima, um programa perfurado pelas “pequenas ausências”... Aos momentos em que se enredam brutalmente o desejo de contornar e o medo do que pode vir em seguida se sucedem, na verdade, pausas surpreendentes de repouso (uma mulher medita num bonde, uma paisagem desfila no campo). Uma inspiração, e a confrontação se prepara, uma expiração, e o conflito desaparece.

Todos temiam Jack Nicholson. James L. Brooks compreendeu que era preciso utilizar um histriônico como um disco arranhado: seja lhe fazendo interpretar indefinidamente o mesmo refrão, seja lhe interrompendo. Graças a uma Helen Hunt que opõe às caretas de seu parceiro seu cansaço de mulher inquieta, Jack Nicholson só pode representar no vácuo – obrigado a manter a compostura, ou ser censurado –, desarmado por essa valentia feminina. Jack Nicholson não suporta ninguém exceto Helen Hunt, Helen Hunt suporta todo mundo exceto Jack Nicholson: a exasperação é, assim, essa curiosa relação humana que obriga a sair dos seus (maus) hábitos para se encontrar em território verdadeiramente estrangeiro – esse é o charme incomparável de As good as it gets, de dar constantemente a impressão de uma terra incognita por onde avança o casal.

Não se pode aprender a amar um cachorrinho, um negro musculoso, um vizinho homossexual ou uma terna jovem mulher (sic). Esta é a bizarra convicção anti-humanista do filme, não sem lembrar a já célebre sentença mccareyana: “Eu amo o meu filho como se ele fosse humano”. A grande reconciliação humana não existe, e o misantropo permanecerá misantropo, apesar de tudo. Mas ele terá aprendido à reconsiderar esse vizinho homossexual, esse cachorrinho, esse negro musculoso, essa terna jovem mulher, quer dizer à lhes reservar, literalmente, um lugar na sua vida. Não se sabe se Jack Nicholson um dia saberá abraçar corretamente (e duvidamos disso!), mas, guiados pela prudência daqueles que perderam muito e tem tudo a ganhar, esse homem e essa mulher se experimentarão no amor. As good as it gets...

[1] No Brasil, o filme ganhou o titulo de Melhor é Impossível. (NdT)

Mariage à l'essai foi originalmente publicado na revista La Lettre du Cinéma n°6, verão de 1998, p. 42. Tradução: Miguel Haoni.

O pai do ano

Por Luiz Fernando Coutinho

O desvio pelas vanguardas na primeira metade do séc. XX e, posteriormente, pela política dos autores exercida na França dos anos 1950, pelas quais o cinema buscava ou rivalizar com as artes nobres ou se afirmar por comparação a elas, tende a ofuscar um dado importante de sua origem: mais do que um irmão da literatura ou do teatro, o cinema nasce nos bas-fonds parisienses, nos espetáculos de feira, nas casas de vaudeville, nos puteiros e nos circos, sob os olhos e reações de sujeitos anônimos da classe trabalhadora, desempregados, esfarrapados, alcoólatras, prostitutas, malandros, artistas autônomos, desajustados, famílias em busca de lazer passageiro. A essa ficção histórica, Armadilha adiciona alguns elementos do nosso presente: o cinema nasce também em um show de diva pop, sob o fascínio de adolescentes fervorosas, de celulares em punho e lanternas (mágicas?) acesas no escuro.

Neoclássico, Shyamalan não entra no jogo da lamúria saudosista. Diferente de alguns de seus contemporâneos, carpideiros de Homero e Sófocles, seu olhar para as novas tecnologias ou para o fenômeno do fandom não escorre nem para a exaltação inocente nem para a crítica reacionária. O cineasta não dispensa o potencial de fascinação desses elementos, articulando-os em uma intriga de gato-e-rato que renova, em alguma medida, o laço do cinema com formas populares de produção e exibição. Lembramos de Griffith e de seus malfeitores, dos suspenses policiais que solidificaram a montagem paralela (ausente aqui, no entanto), dos palcos filmados que ocasionalmente acolhiam pessoas da plateia em seus espetáculos.

Desde seus primeiros filmes, o método de Shyamalan consiste em unir o extraordinário e o banal, o fantástico e o cotidiano, o excepcional e a cultura de massa. Corpo Fechado (2000), exemplar, costurava Tarkovsky e história em quadrinhos: fantasmas, alienígenas, monstros, fadas subaquáticas e super-heróis constituem a espessura ficcional necessária para trabalhos formais de um rigor atípico, sustentados, além disso, por uma cosmovisão sempre manifesta. Em Armadilha, a cultura pop é literalmente o fundo no qual Shyamalan inscreve sua narrativa, e sua abordagem do fenômeno de massa, nesse caso, é corajosa e irreverente.

A ancoragem em um universo concreto, distante do fantástico (a super-heroína, aqui, é a diva pop), parece trazer duas consequências. Em primeiro lugar, algo da religiosidade do cineasta se perde no caminho, e Armadilha constitui, talvez, seu trabalho menos espiritual. Depois, e como resultado, o tom se torna menos monumental ou épico. Dos filmes de Shyamalan, este é provavelmente aquele que atinge escalas menores em termos de desenvolvimento e clímax. À semelhança do rosto de Josh Hartnett, filmado em primeiríssimo plano como uma superfície ampla que permite inúmeras micro variações, trata-se de um filme de pequenos prazeres e delícias discretas, processadas no conjunto de restrições e códigos estabelecido pelo cineasta. Shyamalan, nesse sentido, permanece herdeiro da série B.

Quando a personagem de Josh Hartnett passeia pelos corredores da arena, pensamos nos momentos em que David Dunn, de Corpo Fechado, esbarrava com os corpos no estádio ou na estação de trem para ter uma visão de seus crimes. Naquele filme, pessoas comuns, anônimas e transeuntes, eram capazes dos crimes mais hediondos – atos de violência que eram iluminados pelo contato com o corpo de Dunn. Em Armadilha, a imagem que falta, a visão por se produzir, não é dos assassinatos ou decepamentos: o extracampo que o filme prolonga ao máximo mostrar é o do núcleo familiar. Curiosa inversão em relação a Corpo Fechado, onde, além disso, o pai era a Lei.

Shyamalan aborda a psicose não tanto como o faria um criminalista (Fincher) ou um psicólogo (Hitchcock), mas como um fenômeno social, nascido no interior de lares exemplares. O tênue fio psicanalítico, que mais parece servir de pretexto para certas rimas ou situações dramáticas, é integrado a uma mecânica arquetípica do thriller. Mais importante do que o trauma, nesse caso, é o sintoma: a divisão do sujeito ou sua bifurcação. A sequência assombrosa das fotografias de família, entretanto, lança a questão: trata-se mesmo de uma separação? Georges Didi-Huberman falava do sintoma como algo que rasga a imagem, o que nos faz pensar se a dupla vida do Pai é o que efetivamente desfigura a imagem da família ou, pelo contrário, lhe permite uma sobrevida – em outras palavras, se a derruba ou a mantém em pé. É possível que a resposta se encontre em um gesto específico do final do filme, envolvendo uma bicicleta de criança.