O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

O imperador, sua mulher e o pequeno príncipe




Por Camille Nevers

“Segunda-feira de manhã, O Imperador, sua mulher e o pequeno príncipe vieram na minha casa para me apertar a mão; mas como eu estava fora, o Pequeno Príncipe disse: se é assim, nós voltaremos terça-feira...”

O Pequeno Príncipe disse. Se fosse só pela promessa do seu título, da sua sinopse, de suas paisagens atravessadas (de Lausanne à Milão, de Gênova à Provença), O Pequeno Príncipe disse de Christine Pascal estaria, sem dúvida, por um fio um pouco frouxo de um refrão batido, e seria preciso ter ouvido falar – senão tiver visto – os três filmes anteriores (Félicité, La Garce e Zanzibar) para presumir que esse último merece que se dê uma olhada atenciosa – e que se arrisque. Principalmente porque, justamente, o risco é indissociável do universo de Christine Pascal, onde cada história lança um desafio aos clichês, à astúcia e à complacência, como se todo projeto cinematográfico devesse primeiro inscrever a dúvida no seu programa (e duvidar do que o motiva, do que lhe diz respeito) para, em seguida, se afirmar. Se a realizadora gosta de se alimentar de uma matéria-prima melodramática, ela, tão logo, consegue desarmar a tensão desenfreada, recusar a conivência do olhar piedoso com o espectador (“é para chorar, não é?”) e se concentrar então no essencial: não a doença, mas Violette, não as lágrimas nos olhos, mas uma crueldade à flor da pele.

Eis um pai divorciado que, quando descobre que a sua filha foi diagnosticada com um tumor no cérebro, carrega-a e parte com ela para a estrada. A mãe se juntará a eles um pouco mais tarde, no fim de um percurso no qual a namorada do pai arcará muito duramente com os custos.

Eis uma história muito simples de contar, e, pode-se imaginar, pouco prática de conduzir ao longo de um filme sem capotar. É preciso saber manter a distância, a do filme, mas também a do olhar: não se aproximar demais, sob o risco de ficar atolado num páthos barato, nem se afastar demais, por medo de perder de vista personagens que, com um toque de ironia, cairiam por terra. Mas Christine Pascal está à altura, não olha nada de cima, não se achata, ela sabe exatamente em que momento deixar a emoção nos bastidores (a esplêndida cena do teatro, na qual Anémone vai atender o telefone – e entendemos, com o pai e a criança à espreita na sala, que ela está “descobrindo” a doença de sua filha –, depois volta num outro tom a recitar seu texto, antes de desmoronar em lágrimas...), e ela sabe exatamente quando se trata de mergulhar (quando de manhã Richard Berry percebe a garotinha na piscina, e, imediatamente, crendo que ela está em perigo, corre para socorrê-la, então a câmera também se joga na água...): O Pequeno Príncipe disse confirma o impressionante senso da mise em scène de uma realizadora que tem razão em acreditar cegamente que, por pura honestidade e gosto calculado pelo risco, qualquer tema a priori arriscado (e talvez mesmo sobretudo eles) consegue desembocar numa singular aventura de cinema.

É preciso dizer que escolhendo confiar os papéis do pai e da mãe à Richard Berry (já presente em La Garce) e à Anémone, dois atores cujo jogo de descontração nervosa se pinta sempre de um insondável fundo de crueldade (e como é cômodo demais para um mau diretor “carregar” esse tipo de atores, lhes atribuindo personalidades malsãs por trás das quais só esconde a sua própria, todos dois foram frequentemente muito maltratados pelo cinema...) e decidindo colocar entre eles essa menina gordinha e genial (Marie Kleiber), Christine Pascal impunha desde já a ideia – é o que se chama um ponto de vista – de que seu filme não estaria garantido... No cerne do Pequeno Principe encontra-se uma dimensão relativamente inquietante, muito surpreendente, que assimilaria muito rapidamente o filme à cantiga do título (cantiga que, se a relermos bem, não é tão inocente que ela apareça ali: seu eu eternamente ausente, sempre “partindo”, talvez morto...). A evidente crueldade do pai para com sua filha e sobretudo em relação à Lucie, sua amante (personagem bizarramente sacrificado e inevitavelmente ingrato, que enfrenta, sem hesitação, a muito charmosa Lucie Phan...), que ele se livra sem “enrolação”, deixa pensar que Christine Pascal não é totalmente enganada pelos sentimentos. Como se existisse, no próprio fundamento desta reunião improvável de uma família em torno da doença, uma sujeira um pouco malcheirosa, um deleite um pouco mórbido... Algo de podre.

Quando a garotinha se encontra sozinha na montanha, ela fica deitada na grama um longo momento, pouco a pouco o céu escurece, o vento esfria, e a “cabrita” fecha os olhos (uma cena tão aterrorizante quanto A Cabra do Senhor Séguin...): só então, começamos a nos perguntar se, como ele prometeu, seu pai voltará para lhe procurar. Ou talvez terça-feira...

L’empereur, sa Femme et le p’tit prince foi originalmente publicado na Cahiers du Cinéma n°457, em junho de 1992, pp: 56-57. Tradução: Miguel Haoni.

Anticineclube: "O Cogumelo dos Cárpatos" (Jean-Claude Biette, 1990)


No dia 6 de junho, Miguel Haoni animou um debate online sobre o filme “O Cogumelo dos Cárpatos” (Jean-Claude Biette, 1990). A ideia foi fazer uma sessão de cineclube, só que sem cineclube: comentário seguido de debate. O registro aqui publicado é a parte “comentário” do encontro: sobre a entrada de Biette nos anos 1990, sobre os jogos narrativos do filme, sobre fantasia, Henry James e como se pode ser Browning-Tourneuriano na era da televisão.

Sobre o filme: Entre os três filmes restaurados pela Cinemateca Francesa, “O Cogumelo dos Cárpatos” é o mais secreto. “O Teatro das Matérias” (1977) é o primeiro e “Longe de Manhattan” (1980) é o melhor. Estes dois, além disso, estão protegidos sob o guarda-chuva da Diagonale: as chances de eles despertarem o interesse cinéfilo e serem vistos são muito mais altas do que as desse terceiro. Porém, o “Cogumelo” leva algumas das virtudes dos anteriores para um território alucinante: 1) as ramificações da ficção e a rapidez dos revezamentos afiliam Biette ao filme B (Jacques Tourneur, Edgar G. Ulmer, Allan Dwan), 2) o humor como agente da ruptura de tom, essa improvável alquimia entre coisas engraçadas e coisas sérias, impõe ao filme uma opacidade de esfinge (“mistério sim, mas sem a sedução do mistério”, como diria Axelle Ropert) e 3) o absurdo cotidiano, a atenção aos personagens secundários com suas vozes, sotaques e gírias de bairro, que precisam trabalhar para sobreviver sem abandonar a zona fascinada em que habitam, assume aqui a forma de uma plêiade interminável.

Isso tem tudo a ver com um pobre-cinema-mágico-francês dos anos 70 e 80 (Diagonale, Adolfo Arrieta, Pierre Zucca). Nos filmes de Biette, entretanto, o lado laboratorial se destaca. Ele força os limites da ficção sempre um pouco mais longe que os seus colegas de geração e em direções sempre surpreendentes. No “Cogumelo dos Cárpatos” a profusão de personagens e histórias paralelas é alucinante. O filme tem uma hora e trinta e seis minutos de duração e personagens novos importantes entrando na história até uma hora e dezoito. Segundo um texto da época, assinado por um estudante da Fémis e futuro cineasta, Jean Paul Civeyrac, essa irradiação de elétrons espelhava na estrutura global do filme o tema do acidente nuclear que cobre a sua história. Para o autor: “O Cogumelo dos Cárpatos mostra a dificuldade do projeto, aquele que consiste em dizer "era uma vez…" depois de Chernobil. Como criar uma ficção que não seja ficção-científica – entendida no duplo sentido: ou deixamos a ficção para a ciência; ou idealizamos, fantasiamos, o futuro?”

Sobre o comentador: Miguel Haoni é pesquisador, crítico, tradutor e desenvolve um doutorado em Estudos Cinematográficos na Universidade Paris 8 (Vincennes-Saint-Denis). É co-editor da Revista Madonna e do blog Vestido sem costura.

Madonna - revista de cinema, n° 3




Acesse a revista Madonna pelo link ou clicando na imagem acima. 

Depois de uma longa maturação, temos a alegria de anunciar que o terceiro número da Revista Madonna já está no ar — agora em um novo lar virtual.

Um agradecimento especial ao Luiz Fernando Coutinho, que pensou e organizou essa edição com tanto cuidado, e à Brenda Valois, que deu forma ao visual do nosso Instagram. Na capa, uma pequena homenagem à Sophie Fillières e seu último filme, “Ma vie ma gueule”.

Esta edição contou com a contribuição de: Victor Cardozo, Luiz Fernando Coutinho, Renan Eduardo, Juliana Gusman, Miguel Haoni, Amanda Lana, Rafaela F. Marques, Larissa Muniz, Tainah Negreiros, Ezequiel Silva, Brenda Valois e Letícia Weber Jarek.

Boa leitura!

Camille Nevers / Sandrine Rinaldi sobre a Diagonale


Entre os dias 9 e 11 de outubro de 2024, Miguel Haoni ministrou o mini-curso "Arquipélago dos Amores: Introdução ao cinema da Diagonale" na Universidade do Estado do Paraná. No último encontro, os estudantes conversaram com a crítica e realizadora francesa Sandrine Rinaldi (também conhecida como Camille Nevers) sobre a produtora de Paul Vecchiali. 

Rinaldi escreveu sobre todos os principais cineastas da Diagonale e dirigiu Michel Delahaye no seu primeiro filme (Mystification ou l'Histoire des portraits, 2004) e Marie-Claude Treilhou no segundo (Cap Nord, 2007), dois dos personagens principais desta história. 

Suporte técnico e gravação: Victor Cardozo 
Tradução consecutiva: Letícia Weber Jarek e Miguel Haoni

“Como Você Sabe”, pequena maravilha de delicadeza e humor

Por Axelle Ropert

Um equilíbrio miraculoso entre comédia e melodrama. Uma inteligência sem igual no entendimento dos sentimentos humanos. Um esplendor.

Não se engane nem com o pôster e nem com o título que vendem uma comédia anônima: Como Você Sabe é pura e simplesmente o filme mais maravilhoso do ano que se inicia.

James L. Brooks não é um desconhecido, mesmo se ele filma pouco (seis filmes em vinte e sete anos), sem dúvida por causa da minúcia absoluta de seu cinema, devoradora de tempo.

Cineasta refinado, sim, o que não faz dele o cineasta de cabeceira da inteligentsia, mas sim um padrinho secreto do entretenimento americano (Apatow o venera), um pouco como McCarey e Rohmer inspiram o respeito à todos: pode-se até não gostar dos filmes deles, mas a arte deles implementam uma forma misteriosa e indiscutível de integridade.

As grandes palavras são lançadas, de modo que Como Você Sabe avança minuciosamente e só revela pouco a pouco a sua imponência. Uma esportista em declínio é expulsa do time nacional de softball. Ela conhece um jogador de beisebol em plena ascensão e um homem de negócios em queda livre. Quem ela escolherá?

Reese Witherspoon interpreta a chihuahua esportiva, Owen Wilson é o atleta idiota e ultra egoísta, Paul Rudd é o filhinho de papai (Jack Nicholson) sobre o qual o mundo está desmoronando.

Vivacidade feminina, loirice masculina idiota, mas vigorosa, morenice masculina angustiada, mas terna, se esfregam constantemente umas nas outras, agitadas por uma questão que o espectador, afinado, identificará ao mesmo tempo que os personagens.

A questão é profundamente americana: com qual dosagem de otimismo e pessimismo devemos encarar a vida? No fundo, mais do que uma escolha entre dois homens, é isso que Reese Witherspoon deve escolher, heroína rohmeriana que teria esquecido a metafísica (europeia demais para o filme) em prol da psicologia prática (estamos nos Estados Unidos). Ela está em uma encruzilhada em sua vida: deve escolher o homem otimista, reconfortante, mas bruto, ou o homem pessimista, inteligente, mas angustiado? Ao final das duas horas de filme, saberemos.

Assim, enquanto a maioria das comédias atuais adota um ritmo aleatório, os filmes de Brooks avançam em função de questões que não cessam de se metamorfosear para encontrar sua melhor fórmula: quando a melhor fórmula é encontrada, o filme pode parar.

As cenas são constantemente corrigidas: se Reese Witherspoon anuncia-se de início como uma mamãezinha (ela desaprova o tom feminista de Kramer vs. Kramer), ela diz alguns instantes mais tarde que a ideia de formar uma família a faz fugir.

É sempre na segunda vez que a verdade advém, porque para obter a exatidão, é preciso tempo, é preciso descascar as palavras. E do tempo, o filme requer: uma duração orgânica se desdobra a fim de que a ficção possa finalmente brilhar, inteiramente exposta em seus dados.

É aí que as coisas se complicam, pois o otimista e o pessimista não deixam de se esforçar para ser um pouco menos: Owen Wilson tenta matizar com preocupação a sua beatitude, Paul Rudd esforça-se para oferecer um rosto sorridente. Como Você Sabe é uma comédia de esforços virtuosos onde não se trata de comportar-se bem, mas de ser o mais justamente feliz: uma questão de sutileza infinita, tipo, como você sabe?

Os personagens brooksianos são pessoas que não conseguem deixar de ser o que são e que te fazem rir com a teimosia de seus caráteres. Mas eles também são personagens que fazem qualquer coisa para deixar de ser o que não conseguem deixar de ser, sendo que esse esforço de mudança é tão comovente quanto os primeiros passos de uma criança: a cada vez, é como se uma nova era começasse, talvez .

A vitória é sempre frágil, sujeita a uma recaída, e estremecedora. No mais, o filme é super divertido (atenção ao “good talk” de Owen Wilson) e não vamos lhe dizer evidentemente quem sai vitorioso, ou melhor, feliz.

« Comment savoir », petite merveille de finesse et d’humour foi publicado na revista Les Inrockuptibles, em janeiro de 2011 ("Comment savoir", petite merveille de finesse et d'humour | Les Inrocks). Tradução : Ezequiel Antônio da Silva Stroisch.

Tudo começa em canção…






Por Gilles Esposito

Como (ainda) viver juntos? Poderíamos acreditar que no cinema essa pergunta interessante só encontraria resposta nas grandes missas ao humanismo rançoso (de A voz do coração aos piores filmes independentes americanos) ou no culto ao passado (do Crime de Monsieur Lange à cavalaria de John Ford). Ora quatro filmes recentes (estreados especificamente na França entre 26 de janeiro e 9 de março deste ano) fazem-se ouvir em diferentes modos, entre Hollywood e Paris, de abordar frontalmente a ideia de comunidade: ilustração do último (?) gênero congregador (Meninas malvadas), reativação não nostálgica dum outro (Espanglês), deslocamento da Cinecittà ao mar da China (A vida marinha); enquanto Les Métamorphoses du choeur perscruta a inquietante familiaridade dos rituais do 13º arrondissement, onde reside a forma primitiva do coletivo, o canto coral. Afinal, a música pode não somente acalmar os ânimos, mas também aplicar, como os lamentos das sereias, o bálsamo benfazejo do esquecimento.

Another teen movie: Meninas malvadas

Em tempos de gentileza proverbial e de desdramatização forçada, o “filme de campus” parece ter se tornado o último refúgio da crueldade e da dramaturgia aferente. Universidades e escolas representam por excelência o ponto de tensão máxima no qual uma comunidade, agregada pela escolarização obrigatória e o olhar dos vigilantes, deve se virar com o caráter profundamente desigual da puberdade, entre uns que têm corpos recém-saídos da infância e outros com as anatomias já formadas. Nos últimos anos ainda se viu a estreia do belo filme fantástico coreano Memento mori e de um grande número de comédias americanas, chegando ao ultraje autoparódico de Não é mais um besteirol americano (título original: Not Another Teen Movie). A crítica que saiu no Technikart define, no entanto, Mean Girls (ou Meninas malvadas) como um espécime terminal de um gênero moribundo, outrora triunfante e que representa apenas uma porção infinitesimal da produção US. Ainda que se apoie no best-seller Queen bees and wannabees, guia sociológico que explica às mães de família desamparadas o impiedoso universo escolar do ensino médio aonde elas veem partir todas as manhãs suas filhas, vestindo jeans de cintura baixa e calcinha à mostra, é certo que o filme despreza qualquer princípio moralizador.

Mas, longe dessas visões eruditas, fiquemos com um belo otimismo. O longo travelling que passa em revista as mesas do refeitório e os grupos ali reunidos (belas blacks esnobes, nerds espinhentos, losers, atletas, etc.) vem menos da antropologia estrutural do que da combinatória de possíveis relações entre os personagens, fonte inesgotável para a ficção. O final unânime não engana ninguém — a chegada de uma nova geração de garotas adolescentes dará certamente lugar a um outro filme, e assim sucessivamente. Basta um novo peão no tabuleiro para dar início a uma outra partida… ou batalha; e aí está a ideia, a única, de Meninas malvadas: trazer um personagem de “home school”, educado por seus pais, para desembarcar no ensino médio sem conhecer o mínimo dos rituais escolares. Nada de surpreendente já que esse “another teen movie”, o filme a mais, funciona num esquema sutil de regra e exceção, de mudança de tempo e de tonalidade — A cena a ser feita, a sequência musical. A heroína destitui sua rival, a abelha-rainha, durante a festa de Natal na qual, após um incidente técnico, uma versão Rn’B de Jingle Bell se transforma em coro a cappella. Mas verdade seja dita: não se trata de um jogo qualquer com os códigos, do jeito que gostam os teóricos do gênero; se há referências, elas não levam a reflexividade muito além do que o filme de um estúdio concorrente que estreou alguns meses antes. Assim como a versão disforme de Dancing With Myself de Billy Idol, que é gritada nos créditos finais, não se quer brincadeira ou revival eighties; destinada a um público que, com razão, nem se lembra dos hits do ano passado, essa interpretação malandra de uma canção ruim só está ali para nos guiar até a saída da sessão. Seríamos bobos de não aproveitar.

O monstro de mil faces: Les Métamorphoses du choeur

Bobos seríamos também se deixássemos passar a radical simplicidade do dispositivo do documentário Les Métamorphoses du choeur de Marie-Claude Treilhou, totalmente composto por registros de ensaios de um coral. O espanto vem somente após um tempo, frente à extraordinária variedade de fisionomias e jeitos dos membros do que nos dizem ser um Conservatório de música, aparentemente vindos de todas as camadas da sociedade. Mas aqui também a etnografia fácil é combatida graças às tomadas de partido formais da realizadora. As panorâmicas que descrevem pacientemente os diferentes grupos de cantores (ou “elementos de coro”) aproximam-lhes os rostos uns dos outros enquanto também circunscrevem a área comum onde eles deverão coexistir em harmonia. E sobretudo, sempre que possível, cada corista é enquadrado da cintura pra cima a fim de melhor resolver a oposição entre a origem das vozes angelicais (o peito) e as caras de quem não está em ação, o diferencial a ajustar-se entre o fôlego e o canto. O filme adquire então um clima de reportagem sobre uma seita estranha — os mestres da música sucedendo aos Mestres loucos? —, particularmente com os exercícios lúdicos propostos às criancinhas a fim de que tomem consciência de sua respiração e possam controlá-la. Ora se o fôlego é um “aquém” do canto, a parte que vai além é a palavra, que ressoa pela primeira vez quando a capitã do coral explica a seus pupilos o texto da obra, sem saber-lhe o significado eles não poderiam dar uma interpretação satisfatória. Sendo um filme sobre a arte, é do tipo que consagra integralmente sua duração à busca obstinada do elo justo entre a voz, o canto e o sentido: a matéria, a obra e a ideia.




Mas o filme é ainda algo a mais. Ele se encerra de fato no instante exatamente anterior à performance tão ardentemente ensaiada, na sala de concerto onde estão reunidos pela primeira vez os vários “elementos de coro”, como pedaços de tecido e de carne que, juntos, fundem-se numa nova criatura Frankenstein. É, no entanto, o oposto da ficção científica em cuja direção o filme de campus, essencialmente individualista, inclina-se ao subordinar mil corpos diversamente constituídos a uma só cabeça pensante, como a ruivinha heroína de Meninas malvadas. Mais como um filme de terror clássico que, como sabemos, só faz surgir o monstro em último lugar; o plano conjunto final descobre um corpo gigantesco, unificado pelo canto, que carrega uma infinidade de rostos díspares. Compreende-se assim a pertinência do título escolhido por Marie-Claude Treilhou: Les Métamorphoses du choeur é um grande filme fantástico.

Uma certa qualidade de silêncio: Espanglês

Por outro lado, não há apego paradoxal a esse ou àquele gênero em Espanglês, que se inscreve já de saída na linhagem de comédias familiares de Vincente Minnelli, como em Papai precisa casar. Essa crônica da vida doméstica de uns hipsters californianos, subitamente perturbada pela chegada de uma empregada doméstica estritamente hispanófona e de sua filha, foi recebida na França com um silêncio ensurdecedor da crítica que resultou num fracasso comercial retumbante. Entretanto, além de suas qualidades indiscutíveis (escrita elegante, diálogos brilhantes), fica uma pergunta importante: por que é tão bom? Aqui, mais uma vez, podemos propor uma hipótese musical.




Se o filme de James L. Brooks não fica em dívida com sua herança minnelliana, é porque ele retoma o emblema dessa tradição, a famosa “cena a dois” em que o autor de Brotinho indócil se fartava ao confrontar as gerações com todas as combinações possíveis: pai/filha, mãe/filho, etc. Ora aqui o roteiro se bifurca várias vezes, sempre adiando a descoberta de seu verdadeiro tema com uma liberdade narrativa tão exemplar que cada integrante da família recebe um tratamento igual. O que se segue é um verdadeiro carrossel de duelos verbais, que obedece a uma composição rigorosamente coral. E se por acaso uma sequência comporta três personagens ou mais, o jogo de traduções simultâneas a remete ao mesmo princípio, da entrevista de emprego terminada graças a um rolar de “rrr” triunfal à excepcional discussão entre o pai e a empregada, que é de fato uma “dupla cena a dois”. Intérprete de improviso, a filha da empregada concilia aqui duas conversas paralelas, e sua hesitação contínua entre “eu” e “ela” estabelece a pulsação metronômica que faz, por assim dizer, espiralar a briga no espaço até que se atordoe.

Todavia, dois tipos de sequência ainda são necessários para que todas as harmonias se desenvolvam. A primeira coloca em cena a avó, que sua nora obstinadamente apresenta usando seu nome de quando era cantora famosa. Ela canta seus antigos sucessos com seu neto, às vezes num canto do quadro ocupado por outra dupla — procedimento que dobra mais uma vez o sistema da “cena a dois” mas que sobretudo lhe fornece o contraponto que faz ressoar o conjunto, como numa câmara de eco. O segundo tipo diz respeito aos “simples” encontros tão adiados entre o pai e sua empregada. Eles se olham estupefatos e mudos, fazendo surgir uma certa qualidade de silêncio (componente fundamental da música, há que se lembrar) que faz com que seu improvável amor seja gritantemente verdadeiro. Nada mal para uma obra-prima polifônica que já foi julgada por aí como uma barulheira desinteressante.

Pequenos arranjos com a crença do espectador: A vida marinha

Se Espanglês se valia de uma cena intimista e a submetia a um desenvolvimento orgânico, A vida marinha escolhe a opção inversa, encontra as alegrias da narrativa de formação ao proliferar personagens e peripécias. A matriz do filme de Wes Anderson é então o plano vagamente godardiano que mostra um corte longitudinal do barco, onde empilham-se as diferentes cabines. A primeira casa a vir à tona no Cinemascope são as quadradas imagens oceanográficas rodadas por Steve Zissou, avatar abobado do comandante Cousteau, tão cheaps quanto ingenuamente roteirizadas. Estamos, no entanto, longe da evocação emocionada e debochada do cinema cafona, documentário que seja, já que o “real” é tratado do mesmo modo que o “filme dentro do filme”, com cores em tons pastéis e dicção átona. Alguns se ressentiram dessa platitude de superfície e da duração das gags; no entanto, não é difícil perceber o ritmo tranquilamente requebrante do filme, cujo ritmo é marcado por Bill Murray na agradável ondulação da bacia. A oscilação entre dramatização e desdramatização nos faz então ver com novos olhos as figuras obrigatórias do cinema de ação nas cenas hilariantes em que Zissou derrota uma tropa de piratas com uma pistola de plástico.




Tenta em vão multiplicar suas investidas, em todos os sentidos do termo, já que descobrimos num diálogo que ele não pode ter filhos. A revelação da esterilidade de Zissou acaba inscrevendo o filme no nível do alto romanesco, lugar em que grassam os grandes temas de filiação e transmissão, apesar de — ou mais precisamente graças a — sua singular mistura de tons. Como na comovente cena em que o vemos, num macacão de homem-rã, propor numa voz terna a seu suposto filho que se junte a sua equipe. Da mesma maneira, a conclusão entrega um fôlego épico que parecia ter desaparecido das telas quando, novamente afinados, Bill Murray e sua equipe se lançam em câmera lenta no cais.

Para dar a cadência, nada melhor que os lamentos que Seu Jorge canta acompanhado de seu violão, os quais logo percebemos serem versões lusófonas dos principais sucessos de David Bowie. As entradas do astro brasileiro não são mera repetição melódica no filme — são o que define sua batida. A vida marinha não é paródia, nem homenagem, nem recriação do cinema de ficção científica ou de aventura exótica. É sobretudo uma transcrição musical, uma tradução, uma passagem direta de um estilo a outro, como fazem os hitmakers do Terceiro Mundo que adaptam sem vergonha os sucessos ocidentais à moda do tempero local. A odisseia de Bill Murray nos leva bem longe da problemática do “desaparecimento da crença do espectador” e de seus supostos paliativos (maneirismo, simulacro, desconstrução moderna etc.), assim como não deslinda os “novos territórios do cinema” que são a profissão de fé de alguns sujeitos. O horizonte que ela abre é o do intérprete (como o filme de James L. Brooks se resumia em “Spanish traduzido em english” ou o contrário) e da interpretação, assim como se repetem sem cessar os arranjos de uma ladainha centenária. Conheça-se o original ou não: não há mais importância.

Tout commence par des chansons… foi publicado na revista La Lettre du Cinéma n°30, maio/junho/julho de 2005, pp.54-59. Tradução: Leodoro Camilo-Fernandes.