O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.Renoir francês - André Bazin
Anticineclube: "O Pequeno Príncipe disse" (Christine Pascal, 1992)
O imperador, sua mulher e o pequeno príncipe
Anticineclube: "O Cogumelo dos Cárpatos" (Jean-Claude Biette, 1990)
No dia 6 de junho, Miguel Haoni animou um debate
online sobre o filme “O Cogumelo dos Cárpatos” (Jean-Claude Biette, 1990). A
ideia foi fazer uma sessão de cineclube, só que sem cineclube: comentário
seguido de debate. O registro aqui publicado é a parte “comentário” do
encontro: sobre a entrada de Biette nos anos 1990, sobre os jogos narrativos do
filme, sobre fantasia, Henry James e como se pode ser Browning-Tourneuriano na
era da televisão.
Sobre o filme: Entre os três filmes restaurados pela Cinemateca Francesa, “O Cogumelo dos Cárpatos” é o mais secreto. “O Teatro das Matérias” (1977) é o primeiro e “Longe de Manhattan” (1980) é o melhor. Estes dois, além disso, estão protegidos sob o guarda-chuva da Diagonale: as chances de eles despertarem o interesse cinéfilo e serem vistos são muito mais altas do que as desse terceiro. Porém, o “Cogumelo” leva algumas das virtudes dos anteriores para um território alucinante: 1) as ramificações da ficção e a rapidez dos revezamentos afiliam Biette ao filme B (Jacques Tourneur, Edgar G. Ulmer, Allan Dwan), 2) o humor como agente da ruptura de tom, essa improvável alquimia entre coisas engraçadas e coisas sérias, impõe ao filme uma opacidade de esfinge (“mistério sim, mas sem a sedução do mistério”, como diria Axelle Ropert) e 3) o absurdo cotidiano, a atenção aos personagens secundários com suas vozes, sotaques e gírias de bairro, que precisam trabalhar para sobreviver sem abandonar a zona fascinada em que habitam, assume aqui a forma de uma plêiade interminável.
Isso tem tudo a ver com um pobre-cinema-mágico-francês dos anos 70 e 80 (Diagonale, Adolfo Arrieta, Pierre Zucca). Nos filmes de Biette, entretanto, o lado laboratorial se destaca. Ele força os limites da ficção sempre um pouco mais longe que os seus colegas de geração e em direções sempre surpreendentes. No “Cogumelo dos Cárpatos” a profusão de personagens e histórias paralelas é alucinante. O filme tem uma hora e trinta e seis minutos de duração e personagens novos importantes entrando na história até uma hora e dezoito. Segundo um texto da época, assinado por um estudante da Fémis e futuro cineasta, Jean Paul Civeyrac, essa irradiação de elétrons espelhava na estrutura global do filme o tema do acidente nuclear que cobre a sua história. Para o autor: “O Cogumelo dos Cárpatos mostra a dificuldade do projeto, aquele que consiste em dizer "era uma vez…" depois de Chernobil. Como criar uma ficção que não seja ficção-científica – entendida no duplo sentido: ou deixamos a ficção para a ciência; ou idealizamos, fantasiamos, o futuro?”
Sobre o comentador: Miguel Haoni é pesquisador, crítico, tradutor e desenvolve um doutorado em Estudos Cinematográficos na Universidade Paris 8 (Vincennes-Saint-Denis). É co-editor da Revista Madonna e do blog Vestido sem costura.
Madonna - revista de cinema, n° 3
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Depois de uma longa maturação, temos a alegria de anunciar que o terceiro número da Revista Madonna já está no ar — agora em um novo lar virtual.
Camille Nevers / Sandrine Rinaldi sobre a Diagonale
Entre os dias 9 e 11 de outubro de 2024, Miguel Haoni ministrou o mini-curso "Arquipélago dos Amores: Introdução ao cinema da Diagonale" na Universidade do Estado do Paraná. No último encontro, os estudantes conversaram com a crítica e realizadora francesa Sandrine Rinaldi (também conhecida como Camille Nevers) sobre a produtora de Paul Vecchiali.
“Como Você Sabe”, pequena maravilha de delicadeza e humor
Por Axelle Ropert

