O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

James L. Brooks, o segredo magnífico






Por Murielle Joudet

“Todos nossos dias são tão pouco aproveitáveis quando eles passam, que é maravilhoso que possamos ter adquirido um pouco daquilo que chamamos de sabedoria, poesia, virtude. Não há um dia exato do calendário em que tenhamos recebido isso.”
Ralph Waldo Emerson, “Experience

“Estou convencido de que as palavras importam, de que algum dia desses iremos reencontrá-las todas novamente.”
Brice Parain, Joseph

Um cinema intraduzível

Há uma experiência que todos compartilham e que consiste em, quando em viagem, ligar a televisão em outro país que não o seu. Dominando ou não a língua desse país, há uma espécie de barreira intransponível entre nós e esses programas. Algo relacionado ao fato de que não estamos familiarizados com eles, que esses programas se relacionam intimamente com o cotidiano de seu público enquanto nós somos apenas espectadores de uma única vez, quase voyeurs, firmemente mantidos do lado de fora dessa familiaridade. Isso faz parte, para nós, do folclore cuja gramática compreendemos por comparação: sabemos reconhecer um jornal televisivo, mas dos cenários aos jornalistas (e passando pelos assuntos abordados), tudo nos parece um pouco folclórico, levemente absurdo, definitivamente intraduzível. O que seria um cineasta que exportaria essa estranheza, essa “intraduzibilidade” para o cinema? Isso nos dá, para mim, os seis filmes de James L. Brooks.

Em 2010, lembro-me de me demorar em frente a um pôster de Como você sabe (How Do You Know) afixado numa coluna, analisando esse título que me interpelava no meio da rua mas cuja ausência de ponto de interrogação denotava um tipo de serenidade desesperada – havia ali algo além da promessa da comédia mainstream, alguma coisa mais estranha e intrigante. Resolvi ir assistir ao filme, eu nem sabia quem era James L. Brooks. Conhecendo minha obsessão pelas teorias do cinema de Stanley Cavell, um amigo me dissera: “Vá vê-lo, é feito para você”. Duas semanas após seu lançamento o filme já não estava mais nas salas. Lembrei-me de um primeiro contato com James L. Brooks, anterior a esse: quando pequena, eu tinha ido assistir a Spanglish (Espanglês, 2004) com meu pai. Só me resta a lembrança da bilheteria e do passeio familiar, em que o filme era somente um pretexto para passar um momento juntos. Ninguém se importava com o nome do realizador: havia apenas um?

Depois de ter sido fascinada por How Do You Know, finalmente resgatado em DVD, eu vi seus outros filmes. Em cada vez eu ficava na defensiva, receosa de que a qualquer momento o filme pudesse resvalar naquele tipo de distanciamento televisivo de que já falei, algo que não fosse dirigido a mim: o aspecto de seus filmes dá a impressão de que o autor jamais revela sua presença e sua assinatura, de que há apenas um savoir-faire industrial. Descobri mais tarde que o aspecto ingrato de seu cinema era a sua força, o que o tornava precioso: sua maneira tão própria de se assegurar uma certa inocência estética que, ao longo de sua filmografia, vai mantê-lo sempre distante das modas, das tendências, da pretensa sofisticação do cinema de autor globalizado com sua luz supertrabalhada e uniforme. Uma maneira de nos dizer: a integridade de um cineasta se encontra além dos sinais superficiais de riqueza.

Esse cinema, que eu chamo de intraduzível, se opõe diretamente à ideia de “cinema atrativo”, esse que marca nossa época de eventos cinematográficos frequentemente bastante anódinos. O que se torna o preço da cinefilia, a saber, uma certa capacidade de imaginar um filme que será lançado a partir de poucos elementos (uma imagem, uma sinopse, o anúncio de uma filmagem) e que já se tornou completamente histérico, de modo que os filmes nunca são tão bons quanto quando ainda não os vimos. Muito frequentemente os devaneios cinéfilos são atropelados pela idiotice do filme, a menos que ele contraponha nossos devaneios por outros, frustrando nossas fantasias. A esses filmes que se vendem antes mesmo de se mostrar, o cinema local e inatual de Brooks opõe uma certa indiferença quanto à sedução. Para continuar na metáfora turística, ele não tem nada de atrativo, ele não vai buscar seus visitantes, como uma cidade idiossincrática indiferente à nossa visita. Sua maior generosidade reside em sua capacidade de ser trabalhado somente por si, de nos dar as costas. No cinema como turismo de massa, alguns cineastas, como James L. Brooks, ainda resistem ao cultivar cuidadosamente o segredo de sua beleza.

Cinema e televisão


É importante lembrar que James L. Brooks é primeiramente e antes de tudo um grande artesão da televisão americana: no início, copyboy para o canal CBS News, ele escreve documentários antes de ser introduzido à escrita televisiva por Allan Burns, que o toma como protegido. Roteirista a partir dos anos 1960, cria sua própria série, Room 222, em 1969, composta de 122 episódios, seguida por The Mary Taylor Moore Show (As solteironas), multipremiada série em 168 episódios da qual James L. Brooks é, ao mesmo tempo, criador, produtor, roteirista e consultor. Até o início dos anos 1980, ele participa de vinte e tantas séries televisivas, sendo roteirista, produtor, produtor executivo, e estando na origem de oito séries.

É em 1979 que ele escreve e produz seu primeiro filme, Starting Over (Encontros e desencontros), dirigido por Alan J. Pakula, com Jill Clayburgh e Burt Reynolds. O filme, que não é propriamente dele, já carrega os traços do futuro cinema de Brooks, e mais do que isso: é muito mais um filme de Brooks do que de Pakula. É mesmo algo muito intrigante e que se repetirá nos quinze títulos que ele produzirá sem dirigir: todos têm um toque brooksiano, são anomalias na filmografia de seus realizadores, de maneira que se poderia dizer que são filmes realizados por Brooks. Será o caso do magnífico Riding in Cars with Boys (Os garotos da minha vida, 2001) e de Big (Quero ser grande, 1988) de Penny Marshall, únicos filmes notáveis da realizadora e ambos produzidos por Brooks.

A televisão não terá sido somente um trampolim, mas o próprio centro da carreira de Brooks (um centro subestimado por nós, cinéfilos franceses), seu meio privilegiado: após o sucesso de seu primeiro filme, Terms of Endearment (Laços de ternura, 1983), coroado com cinco Oscars, ele não deixa a telinha, como é habitual para um cineasta vindo da televisão e que pode então encontrar êxito em uma forma maior. Ao ouvi-lo em diferentes entrevistas, o que Brooks aprecia na televisão é a disciplina que ela demanda, a indecente rapidez de execução, a obrigação de resultado que o obriga a se superar, sendo englobado num projeto coletivo do qual ele é apenas uma no meio de tantas mãos. À pergunta de um jornalista que lhe pede para explicar a ligação profunda do público a uma série como The Simpsons, da qual é produtor, Brooks responde: “Nada funciona melhor do que o esforço coletivo, a televisão e o cinema funcionam por esse esforço; o sucesso ou o fracasso, é questão do acaso”. O que Brooks parece encontrar na televisão é uma exigência de rapidez que vem amenizar seu temperamento perfeccionista; esse se mostra abertamente quando seus filmes estão em fase de preparação, cujo mais extenso momento pode ser o de documentação e montagem. Daí uma carreira que combina duas velocidades: a rapidez de realização que demanda a televisão, e o paciente trabalho de ourives que exige sua meticulosidade de cineasta.

O mal-entendido da luz


O que manteve o Brooks cineasta do Brooks homem de televisão? De início, essa luz levemente farinhenta (Terms of Endearment), ora viscosa, que escorre como mel (How Do Your Know). Essa luz que desce como um véu sobre as imagens e que nos indica todos os sinais de um conteúdo padronizado. Pressentimos muitas coisas só pela luz de um filme: uma época, uma nacionalidade, a atitude geral do cineasta. James L. Brooks fala melhor do que ninguém sobre isso nos comentários em áudio que acompanham o DVD de Terms of Endearment, manifestando sua vontade de fazer “um filme americano sobre o que somos em vez dessas coisas internacionais... aqui está uma luz americana”. A luz pode ter uma nacionalidade, falar uma língua, um dialeto, e esse dialeto deveria ser escolhido no lugar de o que seria uma língua globalizada: não se deve desenraizar a luz, mas ancorá-la profundamente. Brooks nos lembra que o cinema certamente tem coisas a aprender (ou talvez seja melhor dizer: a desaprender) com a televisão, como uma certa maneira de acompanhar silenciosamente a vida das pessoas, de livrar-se das cerimônias (ligar uma televisão não faz barulho), ou seja: amenizar-se depois de ser muito admirado. Com sua luz, Brooks joga sobre as coisas um véu de indiscernibilidade que é o próprio tema de seus filmes. É sempre a história de um desafio lançado aos personagens: conseguirão provar seu rigor, sua capacidade de exigir algo de si mesmos no coração do cotidiano mais desesperado, serão capazes de reconhecer o encontro ou de se tornarem melhores mesmo quando nada a seu redor os leva a isso? Quanto ao espectador, será ele capaz de retirar o véu dos seus hábitos e preconceitos a fim de levar em conta a beleza fugidia e não-glamurosa dos filmes de James L. Brooks? De distinguir o maior no menor?



No final de Spanglish, Flor (Paz Vega) deixa seu posto de empregada doméstica na casa dos Clasky, a imagem da abastada família tipicamente americana. Ao despedir-se de John Clasky (Adam Sandler), com quem ela mantém um idílio secreto e platônico, ela lhe sussurra um “mi amor” quase inaudível. Brooks desejava que essa fala fosse ouvida por um terço dos espectadores: face à incompreensão de sua equipe, ele percebeu que seriam dois terços. Essa anedota contada por Brooks, ainda que seja uma brincadeira, fala muito sobre a concepção de seus filmes, que salpica de detalhes que não são exatamente evidentes à primeira vista. Essa arte do detalhe se deve a uma confiança irrestrita no espectador: demanda dele a maior atenção e a maior inteligência. Nós não somos espectadores perfeitos mas nós podemos rever os filmes. A beleza dos de Brooks é de uma evidência branda, matinal: estando ali, ela não é gritante, não sucumbe aos alaridos. Talvez seja isso o que alguns recriminam.

Terms of Endearment ou a coragem dos vivos

Na ocasião do lançamento de Terms of Endearment, Serge Daney escrevia no Libération: “É uma pequena frase que resume muito bem uma emoção que o cinema americano, em suas sagas e seus melodramas, suas novelas televisivas e seus afrescos familiares, sempre soube destilar. E essa frase diz algo como: ’É a vida’. Laços de ternura é isto: a vida se obstina ao ponto de ser obscenamente apenas a vida.” Serge Toubiana chegava à mesma constatação na Cahiers du cinéma: “Entre a grande mitologia cosmogônica à la Lucas-Spielberg para tela grande e Dolby, e aquela, com desconto, à la Dallas (ou em folhetim familiar) para a telinha, há claramente lugar para um caminho intermediário, trivial, vulgar: aquele que traz Terms of Endearment”. Nessas críticas, nenhuma cegueira, mas sim um mal-entendido cultivado pelo cinema ambíguo de James L. Brooks, que traça seu próprio caminho, “intermediário, trivial”. Seus filmes são como as pinturas de Norman Rockwell (que o cineasta cita abundantemente): retratam modestamente assuntos modestos, representam o American way of life, buscam compreender uma intimidade tipicamente americana, que seu povo mantém consigo mesmo, o cinema torna-se uma língua vernacular.



Ao fazer Terms of Endearment, Brooks tinha o desejo de fazer um filme realista sobre o câncer, portanto um filme que não fosse somente sobre o câncer. Deveria então introduzir outros filmes no “filme sobre o câncer”, fazer sentir a densidade de uma vida americana: a intimidade cortante entre uma garota e sua mãe, as reticências da mãe acerca do casamento de sua filha, o lar de dois recém-casados, os filhos, o adultério, a hipótese de uma vida perdida, uma mãe histérica que progressivamente deixa cair suas máscaras para revelar-se a nós em toda sua frágil solidão, a repentina aparição de uma doença. Fazer um filme sobre tudo menos sobre o câncer, sobre o câncer que chega ao filme como ele chega à vida. O mais cortante em Terms of Endearment talvez não seja o câncer, mas o que ele acentua: o desespero tranquilo de seus personagens. Terms of Endearment não é um filme sobre o câncer, mas sobre o fato de que é preciso algo assim grave e fulminante, como a doença, para que os humanos se acordem, para que a vida retorne a sua verdadeira intensidade.

É possível compreender que os críticos da época não tenham visto o melodrama cortante que era Terms of Endearment: Brooks faz tudo o que pode a fim de amenizá-lo. A grande beleza do filme está em sua capacidade de manter-se febril e lânguido face ao drama que se desenrola. Sua forma e seu tom jamais se dão o privilégio de impor-se sobre os personagens, é isso que lhe dá essa incrível capacidade de vibrar, de permanecer vivo, de tornar-se um melodrama precisamente enquanto resiste a sê-lo. A morte não “paira” sobre o filme, ela se espalha por baixo. Ela é uma conclusão irreal, que assim continua quando ela enfim chega. Os heróis adiam ao máximo o momento de desabar.

A força de um melodrama como Terms of Endearment vem dos choques e colisões de seus eventos e dramas contra a sólida coragem dos heróis: as lágrimas não vêm de empatia ou pena, mas de uma capacidade de resistir na dor e da obrigação que têm os seres humanos (“human beings”, importante expressão brooksiana) de dever ser inafundáveis enquanto estão vivos. Quando Emma (Debra Winger) se descobre condenada, ela faz uma última vez seu papel de mãe e dá a seus filhos alguns conselhos antes de morrer: nada de solene, ela lhes fala como uma mãe angustiada e apressada que envia seus filhos a uma viagem escolar. A coragem, em Brooks, é uma atitude obrigatória, uma modalidade de desespero, mas sobretudo a primeira e única maneira de estar vivo.

Greg Kinnear e Helen Hunt em As Good As It Gets (Melhor é impossível, 1997), Paul Rudd e Reese Witherspoon em How Do You Know, Paz Vega e Adam Sandler em Spanglish, Nick Nolte em I’ll do Anything1 (Disposto a tudo, 1994): há sempre um momento em que os heróis brooksianos “tocam o fundo”, e esse é sempre o momento que inagura, se não o início do filme, pelo menos o início de um desafio que eles deverão superar. Algo neles estava mal configurado e precisa ser arrumado: eles deverão se fortalecer, aprender a ser verdadeiros seres humanos (“a real human being”), reconhecer o amor e abrir-se, ou então, pelo contrário, ter a capacidade de rejeitá-lo. Com sutileza, Brooks faz aparecer esse aterrorizante sentimento de adversidade face a seus personagens, esse que nem mesmo os Post-its cheios de frases feitas colados no espelho de Lisa, em How Do You Know, a fim de lhe dar coragem, conseguem conter. Apenas a adversidade pode fazer com que melhorem. Mais uma vez, isso nunca é aterrorizante em Brooks, é somente a rigidez constitutiva da vida, nossos problemas pessoais, tão insignificantes para os outros, tão paralisantes para nós. Isso nunca é verdadeiramente o precipício, e talvez seja ainda pior: a impossibilidade de desanimar-se (sempre pode ser pior) supõe também a obrigação de sair de lá.

Do perfeccionismo moral ao self-improvement


Em How Do You Know, George Madison (Paul Rudd), depois de ficar sabendo que era o objeto de uma investigação federal por associação criminosa, diz esta frase: “Eu vou me administrar como uma empresa em perigo”. Talvez seja uma das coisas a se entender no aspecto estranho e intraduzível do cinema de Brooks, dessa vez não de um ponto de vista formal, mas sobretudo filosófico: tudo o que seus filmes carregam como ideologia do self-improvement (autoajuda2) e do otimismo americano. Portanto o cinema de James L. Brooks tem menos a ver com o self-improvement do que com uma de suas raízes filosóficas: o perfeccionismo moral de Ralph Waldo Emerson e de Henry David Thoreau. Em resumo, a ideia defendida por Emerson e Thoreau é a de um tipo de “moral doméstica” que se oporia às correntes de filosofia moral europeia que não permitiam nem de pensar sobre os problemas morais que surgem no cotidiano, nem de respondê-los. Haveria então uma inframoral a estabelecer (um “caminho intermediário”, como diria Toubiana), que num primeiro momento consiste de autorizar-se a “moralizar” o cotidiano, a conferir-lhe o máximo interesse posto que Emerson e Thoreau consideram que o cotidiano é a única esfera na qual nós poderíamos agir e que, por desinteresse ou por “desespero tranquilo3”, nós deixamos escapar.



Lembro-me das advertências de Stanley Cavell4, filósofo que amplamente comentou o cinema hollywoodiano pelo prisma desses dois autores, acerca do perfeccionismo. Ali ele já percebia o risco de uma possível associação a esse tipo de subfilosofia que é o self-improvement, nessas “filosofias populares atuais que propõem liberar o seu potencial para causar infelicidade no mercado imobiliário ou para dar-lhe os meios de ser o que quiser ser5”. Da moral perfeccionista às teorias do self-improvement, do sujeito moral à queda narcisista, a fronteira permanece muito fluida. Fluida como aquilo que, em Brooks, separa a vulgaridade televisiva da sofisticação das grandes comédias americanas, separa as pequenas preocupações pessoais das grandes questões morais. Os filmes de Brooks são trabalhados nesse limite, oscilam entre o perfeccionismo clássico e o que às vezes pode ter a ver com o “coaching da vida”.

Brooks não faz atalhos e sempre aborda muito frontalmente as questões de seus filmes. É geralmente a mesma história e geralmente começa como num manual de autoajuda, ou grosso modo, num momento de crise na vida de um ou mais personagens que os obriga a reconsiderar tudo a sua volta. A própria estrutura do filme evocaria quase que as diferentes etapas de um processo de um livro de self-improvement: “faça o inventário de suas qualidades”; “quem são realmente seus amigos?”; “pare de ser uma vítima”; “afaste as energias negativas”; “tome as rédeas da sua vida”... Isso poderia ser reduzido a apenas uma sucessão de etapas de autoaperfeiçoamento se Brooks não fosse definitivamente obcecado por uma versão totalmente primitiva do perfeccionismo6. Isso permaneceria ambíguo se os filmes de Brooks não se preocupassem em diferenciar os “seres humanos” bons dos maus. A prova da verdade consiste sempre em colocar os personagens face a uma escolha moral cuja resolução revelará sua natureza profunda.

“A real human being”

Todos os personagens de Brooks, excetuando-se talvez as crianças, são avaliados pela seguinte medida: eles são bons seres humanos? Eles se utilizam de noções do bem e do mal para julgar as próprias atitudes ou eles são desprovidos dessa chave de leitura? Até mesmo o amor é considerado segundo essa regra: o desabrochar do sexo, os interesses em comum e a admiração se tornam critérios secundários que devem ser complementados pela prova da moralidade do parceiro. O exemplo mais forte e fascinante dessa moralidade como critério erótico e elemento fundador do sentimento amoroso se encontra em Broadcast News (Nos bastidores da notícia, 1987).



É a história de um triângulo amoroso entre Jane Craig (Holly Hunter), produtora de um canal de notícias na televisão, Aaron (Albert Brooks), repórter talentoso, melhor amigo de Jane e por ela secretamente apaixonado, e Tom (William Hurt), ex-apresentador esportivo, menos brilhante que os outros dois mas que compensa pela cara de bom moço. Assim que Jane começa a se relacionar com Tom, Aaron decide avisá-la: “Você não pode ficar com Tom, seria incoerente com o que você é. Tom, sendo tão gentil, é o Diabo. Com o que você acha que o Diabo se pareceria? Com uma cauda comprida e pontuda ele seria um fiasco. O Diabo é sedutor, gentil, atencioso. Sua posição o ajudaria a influenciar muita gente. Ele jamais será maldoso com as pessoas. Ele atacará nossos valores mais importantes pouco a pouco, ele nos enfeitiçará com um truque barato. E ele nos dirá que não somos mais do que vendedores. E ele terá as mulheres mais lindas. Aceite isto: ele representa tudo aquilo contra o que você nunca se cansou de lutar.”

Aaron acabará revelando a Jane que na ocasião de sua primeira reportagem sobre vítimas de estupro, Tom tinha apenas uma câmera para filmar sua entrevista: somente após o final da gravação da entrevista ele pôde produzir o plano em que aparece emocionado, às lágrimas, ao ouvir o relato da vítima entrevistada. Jane, cada vez mais envolvida com Tom, irá verificar os brutos da entrevista, descobrindo assim que por trás da fachada sedutora e gentil há um verdadeiro manipulador capaz de, sem escrúpulos, produzir uma imagem mentirosa para uma reportagem sensacionalista. Isso é só um detalhe que Jane poderia nunca vir a conhecer ou, mesmo conhecendo, poderia ignorar. Mas para um personagem brooksiano, um “real human being”, que é extremamente apegado à ética do seu ofício, tudo é revisto à luz desse detalhe fatal. Essa falsa imagem cria um abismo intransponível entre Jane e Tom, entre duas visões de mundo: uma em que a imagem que mente é meramente um detalhe, e a outra em que isso é falha moral.

O discurso de Aaron é um verdadeiro manifesto brooksiano em si (e, além disso, é dito por um outro Brooks): ele aconselha Jane a permancer vigilante e lembra a ela que o mal nunca se apresenta com maldade, ele sempre surge mascarado. O diabo (mas também a bondade e a beleza) está nos detalhes, e Jane se esquecera disso. Ela acabará deixando Tom, a quem ela deveria dar uma chance ao partir de férias com ele. Depois de ter buscado o reconhecimento de seus colegas como um verdadeiro jornalista, Tom passa para o outro lado da história, lá onde as pessoas não se incomodam com avaliações morais dos seus próprios atos. Não é Jane, mas é essa falta que provoca a separação: eles não habitam o mesmo mundo, e Tom se esquecera de lhe avisar.

Em How Do You Know, quando George (Paul Rudd) conta a sua namorada que ele é investigado num tribunal federal por fraude, em vez de apoiá-lo durante essa dificuldade, ela decide dar um tempo no relacionamento até que ele tenha resolvido seus problemas com a justiça. Em I’ll Do Anything, Cathy Breslow (Joely Richardson), produtora, decide não aceitar a escolha de seu namorado Matt (Nick Nolte) de atuar num remake de Mr. Deeds Goes to Town, a fim de tê-lo perto de si. No mesmo filme, o produtor Burke Adler (Albert Brooks) é constantemente desafiado por sua colega (Julie Kavner), com quem mantém uma relação amorosa, a recusar seu cinismo e sua insensibilidade. Em Spanglish, é claramente na mãe histérica (Tea Leoni), oposta à bondade dos personagens que a rodeiam, que se encontra a anomalia. Podemos laboriosamente enumerar aqui todos os deficientes morais e outros monstros éticos presentes nos filmes de Brooks (seria necessário incluir todos os personagens interpretados por Nicholson). Aqueles que chegam a se dar conta do mal que fazem e aqueles que, percebendo vagamente, desejam melhorar; todos esses gestos e frases ofensivos que surgem como pequenas mortes.

Decency can be sexy.

Brooks disse e repetiu em várias entrevistas: “Decency is sexy”; ou, com um pouco menos de firmeza: “Decency can be sexy”. Frase que podemos traduzir como: a moral pode ser sedutora – inicialmente para seus personagens, mas sobretudo para o cinema, que hoje se preocupa apenas vagamente com isso, como um nó que fizemos e que parece difícil de desatar. A palavra decency é interessante porque pode ao mesmo tempo sugerir a moral, a decência, a cortesia, o pudor. De modo que comumente nos vemos face a uma acepção da moral que beira as noções de boas maneiras ou de etiqueta, oscilando sempre entre o que é importante e o que é acessório. E talvez o verdadeiro personagem brooksiano, o “real human being”, é aquele que se torna capaz de discernir no acessório aquilo que é de fato importante. O interesse de Brooks pela moral não é somente vivo – ele é total; torna-se um sistema. Seus filmes só tratam e falam disso, eles só pensam em uma coisa: que, de um extremo a outro do filme, seus personagens se tornem melhores. Não dizem “eu te amo” mas “você me dá vontade de ser um homem melhor” (As Good As It Gets). Nesse sentido, Brooks se junta a Cavell na constatação de que a moral não é limitadora, que ela pode ser uma fonte inesgotável de alegria. Ela não reprime nossa natureza, pelo contrário: encontra sua origem numa forma de instinto moral que pouco a pouco se revela ao longo do filme. Do mesmo modo, os heróis brooksianos aprendem que fazer o bem não pressupõe necessariamente um sacrifício mas que ali também se pode encontrar um certo prazer. Portanto esse é o percurso de redefinição da moral que vale a pena ser escrito e realizado – e, nessa disciplina perfeccionista, Brooks aparece como o mais ortodoxo, o mais íntegro e, por isso talvez, o menos atraente.



Um cineasta como Judd Apatow, grande admirador de Brooks, é também muito marcado pela moral perfeccionista que, em seu caso, sempre se mostra misturada a outra coisa: um gosto pelo sketch, pelo stand-up, por gracejos socioculturais e geracionais. As comédias americanas atuais misturam cinismo e inocência, primeiro e segundo grau, como se já não pudéssemos aceitar uma forma pura de sentimentalismo sem o seu exato contrário7. Como um remédio amargo, nós a aceitamos com muitas caretas. É por isso que Brooks nos desarma; ele é justamente inatual no tom inocente de seus filmes. Hoje Apatow parece ter escolhido envelhecer com seu público e criar uma relação de conivência geracional que vai agradar o paladar de qualidades superficiais de seu público, enquanto Brooks busca uma conexão mais profunda com seu espectador. Há outra diferença importante que separa Apatow de Brooks: toda uma cultura bastante condescendente e todo um folclore do fracasso. Por isso que Apatow é certamente mais cool e exportável: em seus filmes, encontra-se conforto no fracasso, como se numa poltrona aconchegante8; em Brooks, o fracasso derruba os personagens que o vivem como uma crise, um estado doloroso que deverá ser atravessado com tenacidade e perseverança. Porque os heróis brooksianos, longe de serem os herdeiros da comédia, são os filhos sérios do melodrama.

How do You Know
ou o canteiro de obras da consciência


Se Broadcast News é certamente o filme mais incisivo de seu autor, How Do You Know, realizado uns vinte anos depois, retoma de maneira muito mais suave o tema do triângulo amoroso que guarda de fato um verdadeiro dilema moral. Na origem do projeto, o desejo de Brooks era de fazer um filme sobre uma esportista. Como sempre, ele pesquisa por um longo período o meio do softball, conversa com várias esportistas que lhe dizem a mesma coisa: as esportistas formam casais com esportistas. Brooks, obcecado pelos detalhes realistas, tira dessa observação uma ideia: fazer um filme sobre uma esportista que se apaixona por um não-esportista. A ideia constitui em si um resumo ideal da comédia americana clássica: pode-se pensar, por exemplo, em Designing Woman (Teu nome é mulher, 1957) de Minnelli, em que um jornalista esportivo (Gregory Peck) e uma estilista (Lauren Bacall) se apaixonam antes mesmo de perceber que seus respectivos hobbies podem separá-los. Observadores externos de uma paixão que eles não compreendem, cada um é logo exasperado pelo mundo em que o outro vive, até o momento em que o amor os faz descobrir que o interesse pelo outro pode levá-los a diferentes centros de interesse. Pode-se ver também em How Do You Know (e, de certo modo, em Broadcast News) uma resposta a His Girl Friday (Jejum de amor, 1940) de Howard Hawks: Hildy Johnson (Rosalind Russell), brilhante jornalista-repórter, decide mudar de vida e casar-se com um modesto corretor de seguros (Ralph Bellamy). Mas isso não agrada a seu ex-marido e ex-chefe Walter Burns (Cary Grant), que decide dar-lhe novamente o prazer do jornalismo ao lhe propor a cobertura das últimas horas de um condenado à morte da qual ela acabará por livrá-lo. Ao redescobrir o gosto pelo jornalismo, Hildy redescobre também a forte cumplicidade que a ligava a Walter. Quando trabalham juntos, parecem impermeáveis a todo o resto. Falando a linguagem de sua paixão em comum, eles se tornam incompreensíveis ao resto do mundo – característica importante da comédia de recasamento, segundo Cavell. É essa mesma linguagem em comum que encontrarão Lisa e George, embora eles sejam mais desfavorecidos e hesitantes do que os heróis hawksianos.



É a mesma questão (à qual cada filme traz sua própria resposta) que propõem esses dois filmes: podemos viver com alguém que, a priori, não fala a mesma língua que nós? Será que dividir os mesmos centros de interesse é a condição sine qua non para a boa compreensão amorosa? Nós já vimos em Broadcast News que aquilo que é determinante é algo mais profundo e que concerne a uma forma de discernimento moral. Em resposta a essa questão, Brooks prefere então desviar dos determinismos e fatalidades a fim de encenar a longa e paciente trajetória de uma consciência que alcança a si mesma ao alcançar o amor. Aqui nada pode interromper ou fazer obstáculo a essa consciência tornada soberana e que ditará ao filme seu percurso. Se os filmes de Brooks são verdadeiros laboratórios que deixam à mostra os mecanismos e engrenagens da comédia clássica, How Do You Know aparece como uma espécie de apoteose. O próprio Brooks confessa que, contrariamente à opinião comum, um bom filme é para ele um filme no qual a escrita, em vez de esconder-se, faz-se sentir a cada instante. Como num restaurante cujas cozinhas são vistas do salão, como numa arquitetura de vidro que deixaria aparecer a sólida estrutura que a sustenta, os filmes de Brooks dão sempre esse retrogosto de fabricação e de artifício, trazem à tona, ao mesmo tempo que a história, a grande sofisticação da estrutura – é como se levássemos à ebulição a mise en scène transparente do classicismo para que, a partir de agora, ela alcance a inquietação de uma fabricação transparente, uma espécie de classicismo reflexivo9.

A coisa admirável que Brooks faz em How Do You Know é deixar todo o espaço para que sua heroína possa se enganar, aproximando assim a estrutura do filme daquela do romance de formação. Diz-se que várias etapas de uma vida poderiam ter sido suprimidas em favor de atalhos e abreviações. Mas o tempo que se espalha ao longo de centenas ou milhares de páginas é precisamente o tempo necessário para que uma vida aprenda por si mesma, e não a partir de elementos exteriores. É um tempo incomprimível, pois a consciência não admite nenhum atalho; o que ela aprende só pode ser aprendido por si mesma, no interior de sua própria temporalidade. É o que indica a cena do tête à tête no dia do aniversário de Lisa: ela agradece George por deixar que ela tome seu tempo para abrir seu presente e por não apressá-la como Matty fazia.

Brooks tem esta frase magnífica quando ele fala de seus diálogos: “A inocência está em não interromper os diálogos longos”. É necessário que cada personagem vá ao fim de seu pensamento, de sua trajetória, pois na extremidade de um pensamento ou de um erro pode se encontrar um pouco de clareza, ou ainda uma revelação. Bastaria o mínimo (uma palavra interrompida, uma escuta medíocre, um ônibus que chega) para que essa pouca luz desapareça, para que o curso da vida seja radicalmente modificado. A inocência de que fala Brooks é um pouco como o que Nietzsche chama de “a inocência do vir-a-ser”, essa leve cegueira inerente a toda vida, ou a toda frase iniciada, e que deve ser protegida a todo custo.

Há em Spanglish e How Do You Know a amplificação de um gesto que se desenvolveu progressivamente ao longo da filmografia de Brooks. Um gesto que consistiria em fazer hesitar o roteiro, em fazer sentir, sob a hesitação dos personagens, a indecisão do fabricante, tentado por diversas palavras, diversas saídas, consciente de que uma palavra a mais alteraria o jogo da narrativa, dando assim a sensação de um filme em construção, ainda quente e vibrante diante de nossos olhos. Esse procedimento é completamente exacerbado nesses dois filmes em que as circunvoluções das consciências em obras são endossadas pela serena clareza da mise en scène. Fazer, refazer e aperfeiçoar, esse poderia ter sido o subtítulo de How Do You Know, já que tudo ali obedece à ideia de que tudo pode infinitamente ser corrigido, feito melhor, refeito ao infinito.

Good talk”, os campeões da conversa


É a arte do diálogo literário, bem escrito e preciso, que reivindica Brooks, e mais precisamente a arte da conversação, característica tipicamente herdada do classicismo hollywoodiano e sinal distintivo das comédias perfeccionistas. Não seria possível encontrar outro equivalente à prosa de Brooks no cinema atual: ele é o último a enxergar a palavra como algo que, no fundo, é também lugar de ação. No extremo oposto de todas as formas de realismo linguístico10, os heróis brooksianos demonstram uma eloquência envolvente em sua capacidade de costurar seus pensamentos na linguagem, de entender o tempo da palavra ideal: as palavras têm um sentido, elas também têm a capacidade de influenciar nossas vidas. Tudo pode significar alguma coisa: palavra, gesto, mímica, objeto – é a expressividade globalizada do classicismo. Mas a palavra mantém o seu lugar privilegiado, ela é o ritmo da mise en scène, e esse lugar de escolha, esse amor pelas palavras, é o reflexo natural de um amor pelo trabalho do ator, que parece deliciar-se ao interpretar a prosa brooksiana. No cinema de Brooks, há hesitação, as palavras são escolhidas, mesmo priorizadas, e até “apaixona-se por uma fala11”, ou, ao contrário, uma relação chega ao fim por causa de uma palavra – toda palavra implica um ethos brooksiano da conversa.



À exceção de Broadcast News, estamos portanto bem longe da onda de palavras delirante da screwball comedy, que em seus momentos de graça tende a retirar os espaços e os silêncios entre as palavras a fim de articular apenas um fluxo de linguagem, uma verdadeira dança de palavras entre o homem e a mulher que, por essa linguagem em comum, descobrem um lugar só seu. Os personagens brooksianos, menos herdeiros da comédia do que do melodrama, são um pouco mais opacos e inquietos em relação a si mesmos para fornecer um ritmo infernal. A graça toma o tempo de uma palavra pronunciada, de uma descoberta interior que Brooks sublinha com um discreto travelling in que vai se pousar no rosto de seu personagem – “the eurêka moment”, como ele mesmo descreve.

Os heróis brooksianos se buscam e se moldam nas e pelas palavras: as suas e as dos outros. Brooks certamente concordaria com Cavell quando este definiu a boa conversa como sendo “o exame de uma alma por outra”; ela começa onde termina a small talk, a conversa fiada. Os próprios personagens não cansam de sublinhar isso: “boa conversa”, “foi a maior/mais bela conversa da minha vida”, “a menor conversa que já tivemos”. O modo de vida brooksiano exige assim que se reflita sobre o que estamos vivendo ao mesmo tempo em que o vivemos.

Essa maneira de apreciar uma experiência enquanto ela é vivida geralmente é reservada a um domínio bem específico: o da vida sexual, em que, a fim de dar confiança ou agradar a seu parceiro, constata-se a qualidade da relação durante ou logo após ter terminado. É que em Brooks, colocando assim trivialmente, falar é transar12.

O que precede o amor é frequentemente a palavra: passamos de um a outro como se fossem a mesma coisa. O silêncio que o amor demanda atesta o fato de que a partir de agora a conversa será feita pelos corpos – é somente um revezamento. Brooks é certamente um dos últimos cineastas da palavra13, no sentido de que ele a filma como algo tangível, material, que tem suas consequências. A conversa amorosa é como um contato entre dois corpos, a carícia de um corpo sobre outro: a palavre imprime diretamente seus efeitos sobre o pensamento do interlocutor, uma espécie de zona erógena hipersensível que se inflama, se entusiasma e palpita a seu tempo. Falar é sempre o que se pode fazer de mais profundo e de mais excitante com alguém, e um convite à conversa é sempre explicitamente sexual: a frase de Jane Craig a Tom Grunick em Broadcast News: “Não estou cansada; meu quarto é logo aqui ao lado, vamos continuar a conversa?”

Mais tarde, quando Tom deve cobrir ao vivo o ataque de um avião líbio a uma base americana, Jane comanda da sala de direção a edição especial, dando-lhe indicações pelo ponto eletrônico. Ela, por sua vez, é guiada pelo telefone por Aaron, que, afastado dessa edição especial, a acompanha em sua televisão. Exausto e animado ao sair do programa, Tom agradecerá a Jane: “Você é uma mulher de tirar o fôlego; que sensação foi ter você na minha cabeça! Você sabia o exato momento de introduzir a sequência na hora em que eu precisava. Tinha ritmo, foi como um bate-bola”. Nessa sequência incrivelmente límpida dentro de um filme trabalhado pela energia da screwball comedy, o cineasta consegue ilustrar o que, na economia de sua filmografia, seria uma relação amorosa ideal, o ponto culminante de uma conversa: ter literalmente o outro dentro da cabeça.

O cogito brooksiano

O tempo da experiência contém em si mesmo o tempo de seu comentário e de sua avaliação. Viver sempre é, em Brooks, consciência de viver, de escutar, de falar. É a marca de seu cinema, sua assinatura, o que torna seus personagens tão conscientes de si mesmos porque são atentos a seus menores estados, sempre saboreando a si mesmos, questionando o que pensam. Nesse sentido, a apoteose, o êxtase, só pode vir de uma certa qualidade de conversa que se manifesta no momento em que uma consciência se torna totalmente transparente a outra. Lugar em que, para continuar na metáfora carnal, as palavras do outro tocam no fundo, revelam e iluminam partes ainda escondidas de nós mesmos. Não se trata simplesmente de uma noção narcisista da compreensão, mas algo mais amplo, em que o outro é o intermediário indispensável para que se possa alcançar a si mesmo. É uma realização que vai além da simples e mesquinha ideia de bem-estar; o desafio é sempre educar-se, ser menos opaco a si mesmo. É aqui que a diferença entre perfeccionismo moral e self-improvement, ou ainda entre bem-estar e consciência moral, é pertinente: não se trata de encontrar no outro uma zona de conforto, mas ao contrário uma zona de riscos, portanto de elevação.



Essa distinção se encontra, por exemplo, em How Do You Know, na bela perseverança de Lisa (Reese Witherspoon), que dá todas as chances a Matty (Owen Wilson), seu namorado mulherengo e negligente mas que gostaria de melhorar. Após uma noite passada em sua casa, ela vai ao banheiro onde encontra um estoque de escovas de dentes e roupas íntimas para moças que testemunham sem complexos a intensa vida sexual de Matty, habituado a “bem receber” em sua casa. Após fugir de seu apartamento, ela se questiona. Brooks insiste no detalhe de sua mão sobre a porta, e não para, ao longo do filme, de fazê-la questionar-se. Os filmes de Brooks (sobretudo os dois últimos) são cheios de planos-detalhe hesitantes, como em suspensão: pensamos no pé de Flor, em Spanglish, que hesita encostar no chão pois soaria o fim de um momento mágico passado com John. Para James L. Brooks, o plano-detalhe é sempre ditado por um movimento de consciência; cristaliza-se na superfície um momento decisivo, o de uma hesitação ou de uma revelação.

Perseverança

O que pode uma boa conversa: decifrar o rascunho de uma alma. Mas isso pode levar um certo tempo antes de funcionar, pois poder enfim falar, encontrar esse tempo, que é um luxo que se dão os personagens brooksianos, é antes de tudo conseguir criar essa louca intimidade, esse ar quente e elétrico entre dois seres que é uma das coisas mais simples e mais belas de se ver no cinema. Mas o problema é o seguinte, e ele é tipicamente brooksiano: como criar intimidade quando tudo separa? Como tornar íntimos uma esportista e um homem de negócios? Um grande chef e sua empregada mexicana? Uma jovem garçonete otimista e prestativa e um misantropo infrequentável? Uma mãe psicorrígida e seu vizinho don juan? Um ex-jornalista esportivo de físico avantajado e uma campeã da ética jornalística? É necessária uma mistura bem feita de tempo e de perseverança. Que a vida dê um pouco de espaço, ofereça algumas ocasiões, e que os heróis estejam à altura dessas ocasiões. É incrivelmente frágil, podemos errar e recomeçar, e recomeçamos por essa mistura complexa de atração e intuição que faz com que reconheçamos vagamente no outro um espaço familiar e que adoraríamos percorrer.
 

São numerosas as cenas de jantares malsucedidos, talvez catastróficos, nos filmes de Brooks, porque, precisamente, cada um se apresenta ao outro sob os ornamentos de suas velhas máscaras de sempre: a psicorrígida MacLaine e o mulherengo Nicholson (Terms of Endearment), a jovem gentil que tenta arrancar um elogio do incorrigível misantropo (As Good As It Gets), o homem de negócios com a corda no pescoço e a esportista desempregada (How Do You Know). O jantar é sempre uma zona experimental para o cineasta: em How Do You Know, Witherspoon propõe a Rudd comer silenciosamente em vez de falarem sobre seus problemas pessoais. O silêncio como outra modalidade da palavra, como outra maneira de medir as palavras e não escolher nenhuma: “Não dê sua voz àquilo que sucumbe”, ele lhe dirá mais tarde, e How Do You Know revela o inverso de sua façanha: sendo um grande filme sobre a conversa, só poderia ser um grande filme sobre o silêncio.

As Good As It Gets e How Do You Know se encontram em seus finais: não o happy end cheio de entusiasmo da comédia romântica, mas algo um pouco mais desiludido e tímido. Uma chance deixada a alguém mas cuja escolha ainda traz a marca da hesitação, da reticência, que jamais a levarão frente à perseverança, à aposta que fazemos conosco de que isso valerá a pena.

Entre esses seres que tudo separa, isso pode funcionar lá onde nos reconhecemos, uma sensibilidade em comum abafada pelas máscaras e pelos sinais particulares – a arte de Brooks é a do strip-tease das almas. Não se trata de encontrar um pouco de si no outro, mas um tipo de intensidade escondida em nós, e que é reativada ao ser reconhecida face a face. É aqui que se materializa o otimismo tenaz de Brooks, por essa maneira de traçar, sob os determinismos, caminhos clandestinos onde se encontram almas irmãs. É preciso então retornar às origens de si mesmo, a um estado anterior, não viciado por aquilo que os acontecimentos nos forçam a ser e que está firmemente sedimentado.



É o que nos diz a maioria das cenas de abertura de seus filmes, cuja maioria remonta à infância dos heróis (Terms of Endearment, Broadcast News, How Do You Know), ou são simplesmente muito anteriores ao presente da narrativa (I’ll Do Anything), mas sempre correspondem a um tempo de inocência. Brooks sempre teve um dom para sintetizar o máximo de informações no interior de uma cena de abertura: ela determina o caráter de um personagem mas constitui igualmente um tipo de cena original que dá ao filme todo seu impulso. A cena de abertura pode ser o retrato completo de um de seus personagens (As Good As It Gets), um desejo de que se faça sentir o caminho percorrido (Broadcast News), as promessas não mantidas (I’ll Do Anything), o sentimento da vocação (How Do You Know), ou o tom de uma relação mãe-filha (Terms of Endearment), em todos os casos é uma maneira de dar ao filme uma origem, ou um ponto de partida de onde os heróis sairão à procura de um estado mais autêntico de si mesmos.

“God bless the language barrier14...”


Nesses seis filmes, há um que resiste a iniciar-se numa cena de infância. Spanglish é em si o longo relato retrospectivo de um fragmento de infância contado por Cristina Moreno (Shelbie Bruce), uma jovem que se candidata à universidade de Princeton e que deve lembrar-se da pessoa que mais marcou sua vida. Todo Spanglish é construído na direção contrária dos outros filmes citados, é o filme das origens: ele começa no presente e se segue no passado, e essa primeira cena no escritório de candidaturas de Princeton é essencial: ela nos indica, bem antes de nos darmos conta, o que não será o filme.



Assim como seus personagens chegam a emancipar-se de seus costumes, os filmes de Brooks borram as linhas dos gêneros, nunca se deixam antecipar. O que dita as trajetórias dos pontos de vista é sempre esse cuidado incessante de desdobrar toda ação (de um personagem, do próprio roteiro) em seu movimento reflexivo. Em Spanglish, Brooks passa o tempo a retardar o momento de resvalar na comédia romântica e decide não ceder a essa facilidade a fim de tentar desbravar uma saída mais complexa e apaixonante. É necessário voltar à cena original para compreender que o que estará no cerne do filme será a relação mãe-filha, assim como a relação pai-filha é o centro de I’ll Do Anything. Há aqui uma outra modalidade da perseverança brooksiana supracitada: um certo tipo de integridade que em Brooks sempre se encarna por heróis que são pai ou mãe. Se I’ll Do Anything e Spanglish não são comédias românticas, trazem delas todas as premissas, mas não cessam de desviar dessa trajetória por conta de um senso de prioridades parentais que compartilham Flor Moreno (Paz Vega) e Matt Hobbs (Nick Nolte).

Além da perseverança como maneira de se abrir ao outro, a integridade: uma certa maneira de fazer-se inatacável, mesmo pelo amor. Não tanto uma perseverança dirigida ao outro, mas sim uma perseverança de ser. Flor Moreno talvez seja, de todos os personagens que povoam os filmes de Brooks, o personagem menos brooksiano se esperarmos que um personagem brooksiano seja um rascunho atormentado, expansivo, eloquente. Se Flor não é um personagem brooksiano, ela é contudo a própria imagem do cinema intraduzível de Brooks, encarnando a sólida integridade de sua filmografia: morando com uma famíia de americanos ricos, ela ainda assim não esquece suas origens modestas. Nesse convívio, ela não tem nenhum tipo de cobiça ou inveja, apenas seu mundo e sua cultura próprias são desejáveis. Flor é a criatura brooksiana mais perfeita, mais idealizada. Modesta e íntegra, ela é uma metáfora de seu cinema.

Não se trata de pessimismo social por parte de Brooks em não selar o amor entre Flor e Adam: ele prefere nos lembrar que seu cinema é filho do melodrama, logo da duração da vida, da abnegação, da filiação. Não será o encontro amoroso, mas sim o futuro de sua pequena filha, e essa decisão já é uma forte tomada de partido, uma maneira de solidificar seus laços já profundos com a tradição perdida do melodrama15

. Ao redor dela os personagens acham a vida complicada, apenas ela parece achá-la dura, e isso, ao que parece, é o que ela tem a transmitir a sua filha, o que ela extrai dessa família de adoção de condição superior à sua. A mais bela ideia do filme se deve ao que o aprendizado de uma língua extrai de um erotismo encarnado no neologismo do título: quanto mais Flor domina o inglês, mais ela atravessa a barreira da língua que a separa de Adam. Ela se oferece ao amor enquanto se oferece ao inglês e à conversa, e acabará voltando atrás ao retornar a sua língua materna. Nos comentários em áudio do filme, Brooks está consciente de que o angelismo de Flor só é realista porque ela pertence à cultura mexicana fantasiada por um realizador americano, porque ela é o Outro de seu cinema.



É um tipo de saber muito parecido com o que transmite Matt Hobbs a sua filha em I’ll Do Anything: selecionada para atuar num programa de televisão para crianças, a pequena Jeannie Hobbs (Whittni Wright) entra em pânico com a ideia de não saber chorar quando lhe pedem. No momento de entrar em cena, ela se lembra do conselho que seu pai ator lhe deu (pensar em qualquer coisa muito triste), e as lágrimas jorram naturalmente. O pai dá à filha o que ela lhe ofereceu ao recuperar sua vida: o dom de uma vida vivida pelo outro, intimimamente ligado ao dom das lágrimas. Para trazê-las à tona, a menina imaginava que era afastada de seu pai.

I’ll Do Anything não é totalmente um melodrama, e tampouco Spanglish; é difícil saber em qual categoria agrupar os filmes de Brooks. Todas as etiquetas parecem insuficientes: poderíamos dizer que são comédias interpretadas por personagens de melodrama. Eles têm jeitos sérios e graves, enquanto a atmosfera dos filmes é leve e efervescente. Pois Brooks filma a duração ordinária da vida, sua capacidade de nos fazer resistir e nos botar à prova. Seu cinema reativa a intensidade inerente à nossa condição: essa gravidade escondida em todos os nossos atos e todas as nossas palavras, e que tratamos com tanta leveza, James L. Brooks nos lembra dela, mas sem nos machucar, muito suavemente.

1 Filme esquecido da filmografia de Brooks. Ele figura, contudo, em meio a seus projetos mais ambiciosos: I’ll Do Anything interliga o retrato dos bastidores de Hollywood à trajetória de um ator fracassado que reaprende a tornar-se pai; o filme, no início, deveria ser uma comédia musical, mas teve seus números musicais extirpados.
2 Literatura de autoajuda que insensivelmente contaminou a França já há alguns anos. Aliás, eu notei que as prateleiras da Fnac normalmente consagradas à filosofia agora se enchem de obras de autoajuda, dando lugar a uma estranha mas eloquente convivência.
3 “A maior parte dos homens leva uma existência de desespero tranquilo. O que se chama de resignação é um desespero absoluto. (...)” (Henry David Thoreau, Walden, Éditions Le Mot et Le Reste, 2013, p. 18)
4 Num texto intitulado “Ce que le cinéma sait du bien”, ao fazer uma lista dos filmes recentes que reativam o espírito do perfeccionismo moral, Cavell cita As Good As It Gets. (Le cinéma nous rend-il meilleurs?, Bayard, 2003, p. 103.)
5 Ibid., p.97.
6 Podemos notar uma aparição do nome de Emerson em As Good As It Gets.
7 Sobre esse tom inatual, o verdadeiro herdeiro de Brooks é certamente Cameron Crowe, realizador muito mais laborioso do que seu mestre e cujos melhores filmes, Say Anything (Digam o que quiserem, 1989) e Jerry Maguire (Jerry Maguire – A grande virada, 1996), foram produzidos por Brooks.
8 Último estágio: a desgradável mas assistível série Girls, produzida por Apatow.
9 Num belo artigo lançado na La lettre du cinéma, nº 30, maio-junho-julho 2005, e intitulado “Je t’aimerai toujours”, Serge Bozon evoca James L. Brooks como sendo “o último dos clássicos”.
10 A ideia atualmente bem implantada, embora não saibamos a que possam se parecer suas alternativas, de que seria necessário falar como na vida real e, ainda mais globalmente, “ser” no cinema como na vida real.
11 Brooks fala assim de seu trabalho de escrita e do fato de que ele não consegue abrir mão de algumas falas.
12 Devo dizer, é claro, que se trata de uma palavra de Lacan que dizia: “Falamos em vez de transar” no livro VII do Séminaire consagrado à ética da psicanálise. Ele evoca a substituição da relação sexual pela palavra e pela escrita.
13 Na França, poderíamos talvez atribuir o título a um cineasta como Arnaud Desplechin, cineasta muito impregnado pelos escritos de Cavell.
14 Trata-se de uma fala de Brooks nos comentários em áudio que acompanham a edição em DVD de Spanglish.
15 Após escrever esse texto, descobri o belíssimo artigo de Benjamin Esdraffo intitulado “Quatre étoiles et une seule fleur” e consagrado a Spanglish, no mesmo nº 30 da La lettre du cinéma supracitado. Ele qualifica justamente o filme como “melodrama ingrato” e esboça algumas pistas sobre as quais meu texto se encontra completamente.

James L. Brooks, le secret magnifique
foi publicado originalmente na revista Trafic, n° 97, primavera de 2016. Tradução: Leodoro Camilo-Fernandes.

Paul Vecchiali apresenta Réquiem para uma mulher



Paul Vecchiali gentilmente nos concede uma apresentação via skype de um de seus melhores filmes, "Réquiem para uma mulher" (Corps à Coeur, 1979), com Hélène Surgère e Nicolas Silberg, para a Mostra Mulheres Mulheres, realizada pelo Vestido sem costura na Cinemateca de Curitiba em dezembro de 2019.

Registro: André Schaefer, Leodoro Camilo-Fernandes e Miguel Haoni
Tradução: André Schaeffer e Leodoro Camilo-Fernandes
Legenda e edição: Eduardo Savella

Uma mulher descasada, de Paul Mazursky (1978) (fragmento)



Por Murielle Joudet


Woman’s picture e comédia romântica

Uma mulher descasada é belo na sua aridez paradoxalmente acolchoada, nessa maneira que ele tem de gozar do seu mal-estar, de se lamentar de estar vivo – característica importante do solteiro. Há o trauma, típico do woman’s picture, que chega rápido e abandona Erica numa zona cinzenta: ao perder seu marido, ela perde seu próprio reflexo e como todo grande woman’s picture é nesse momento, nesse momento sem amor que precede a traição que uma definição do feminino pode nos interessar: isolar o feminino longe do masculino e olhar o que ele pode bem se parecer.

Notaremos, de passagem, o título pleno de negatividade: An unmarried woman, lembrando a Unknown woman de Ophuls, há nesse título uma parte de orgulho e de reivindicação, e então, algo próprio aos títulos dos woman’s pictures: o ato de designar uma mulher, de isolar uma trajetória (Norma Rae, Annie Hall, Wanda, Three women, Another woman). Contudo, a intransigência do classicismo (isolar o feminino a todo preço) se perde aqui em proveito das conclusões da comédia romântica e de uma forma de compromisso fechado com o realismo psicológico: a heroína precisa ser amada, depois de uma longa passagem no vazio, ela reencontra o amor.

Mazursky, biocineasta

Essa sábia mistura de problemas indissociavelmente sociais e amorosos acaba arrancando o woman’s picture da sua essência intimamente melodramática para o levar a uma forma de prosaísmo, estamos aí num tratamento que se aproximaria mais de uma forma de cinema terapêutico que convive com a retórica otimista do self-improvment. Poderíamos forjar o termo biocinema e qualificar Mazursky de biocineasta na medida em que o afresco romanesco, por vezes executado durante décadas, do woman’s picture concerne daqui pra frente um momento muito curto da vida de uma mulher e se focaliza na gestão da sua vida privada – o amor sendo uma das categorias dessa gestão.



Os melodramas hollywoodianos se passavam num clima etéreo, no limite do abstrato, a pobreza e a riqueza são aí tratadas abstratamente, como cenários. An unmarried woman é um “zeitgeist movie” na medida em que o retrato das mulheres estabelece, por contraste, aquele da sociedade. Nós percebemos à que ponto uma série como Sex and the city deve enormemente ao filme de Mazursky: o grupo de amigas que rodeia Erica obviamente inspirou o bando de amigas de Carrie Bradshaw. É o mesmo desencanto feminino que se lê nos rostos: as mulheres, feridas, mas fortes, por toda a sua experiência junto dos homens e de décadas de cinema americano, desconfiam deles ao mesmo tempo em que percebem dolorosamente que precisam dos homens, que só falam deles. Todas as discussões se fazem neste vai-e-vem entre atração e repulsão (estamos numa relação viciosa), e novamente Mazursky tem algo do visionário que dá, mais do que nenhum outro, a experiência de uma situação de celibato moderno.

A solteira e a solteirona

Exceto que a solteira substituiu a solteirona. A solteirona do classicismo hollywoodiano tinha para si que reivindicava heroicamente um estado considerado como marginal. Vendo os woman’s pictures da época surpreende-nos constatar a fraqueza dos personagens masculinos. É preciso compreender aqui uma outra acepção do woman’s pictures como filme reservado às mulheres, onde os homens não são nada além de pálidas figuras que atravessam o filme temporariamente. A não-conjugalidade poderia então ser compreendida positivamente, poderíamos escolher a solidão de um gesto vitorioso. Com Mazursky aparece a ideia do celibato como estado de marginalidade temporária, mas vertiginoso (porque rico de possibilidades e ainda assim inquietante) que fará todo o mel ideológico de Sex and the city.

A solteira, ao contrário da solteirona, passa a estar numa relação de flerte permanente com o sexo masculino: uma vez que Erica é deixada por seu marido, New-York se torna um campo de caça. Mais tarde é Carrie Bradshaw que considerará New-York como “a cidade de dez milhões de solteiros”. Esta é talvez toda a diferença entre a solteirona e a solteira: a primeira exprime sua recusa em estar no mercado do amor e do sexo, ela defende uma definição do feminino que se definiria longe dos homens, sua vida se passará fora do amor conjugal, enquanto que a solteira é talvez a figura paradigmática do amor como vício, ao mesmo tempo voluptuoso e alienante.



Se Sex and the city é uma série que oscila entre cinismo e romantismo, Mazursky permanece fundamentalmente agarrado à ideia de romance, do amor como substância em excesso, onde ele é vivido como uma partilha de interesses comuns em Sex and the city. É a muito bela cena final de An unmarried woman na qual o novo namorado pintor de Erica a abandona no meio da rua com a tela gigante que ele acaba de lhe dar. A tela, intransportável, materializa o presente do amor, no seu exagero e seu excesso, que literalmente envergonha Erica. De que maneira a comédia romântica futura se distanciará dos woman’s pictures? De uma forma que as heroínas femininas têm de abandonar toda a ideia de sacrifício (por um homem, um filho, uma carreira) em benefício de uma concepção bem fundamentada de bem-estar. O woman’s picture pós-clássico e a comédia romântica, na sua vontade de restaurar o eu, de filmar as heroínas que sentem que merecem ser felizes, perderão alguma coisa do fogo sagrado e mórbido dos woman’s pictures clássicos, uma forma de inflamação e de saciedade de um instinto de morte tipicamente feminino que não permite de forma alguma um amor destinado a restaurar o eu.

Woman's pictures 70's-80's #1 An unmarried woman de Paul Mazursky (Une femme libre, 1978) foi originalmente publicado no blog The lost weekend (http://lostwknd.blogspot.com/) em 20 de janeiro de 2015. Tradução: Miguel Haoni.

Noël Simsolo apresenta Simone Barbès ou a Virtude


Noël Simsolo gentilmente nos concede uma apresentação sobre o filme Simone Barbès ou a Virtude (1980) e sua criadora Marie-Claude Treilhou, para a Mostra Mulheres Mulheres, realizada pelo Vestido sem Costura na Cinemateca de Curitiba em dezembro de 2019.

Registro: Leodoro Camilo-Fernandes, Leticia Weber Jarek e Miguel Haoni
Tradução, legenda e edição: Cauby Monteiro
Apoio: Evandro Scorsin

Simone Barbès ou a virtude, de M.-C. Treilhou





Por Danièle Dubroux 


Se eu tivesse que caracterizar Simone Barbès para pessoas que não a conhecem, eu diria “é uma natureza” ou “uma garota realmente natural, você entende”... Eu utilizaria deliberadamente essa expressão da linguagem popular, acrescentando: “ela tem na voz uma zombaria à la Arletty; aliás certas das suas falas (eu penso particularmente nessa frase que ela diz no final do filme : “eu, senhor, eu acreditei por muito tempo nas almas que se roçam”), reverberam na memória como o famoso “Atmosfera, atmosfera”, da heroína de Hôtel du Nord

Contudo, a analogia para aí, pois Simone Barbès é um personagem muito contemporâneo, e mais que um novo gênero de mulher, é uma nova natureza que joga com a sedução, como aquelas que a precederam, utiliza armas sempre femininas não para capturar o homem (aliás, ela não tem homem algum e não o procura), mas para o desarmar e lhe impor o seu próprio terreno que é aquele da linguagem, do jogo com as palavras (talvez a derradeira sedução!).


A expressão dessa “natureza forte”, deve sua existência cinematográfica, ao encontro feliz de duas mulheres que tinham verdadeiramente alguma coisa a dizer: a realizadora, Marie-Claude Treilhou cujo primeiro filme e sua extraordinária intérprete, Ingrid Bourgoin, cujo primeiro papel visto que ela é, nos parece, trabalhadora na vida, como a protagonista do filme. 

Esse filme que conta uma noitada da trabalhadora Simone Barbès é construído em tríptico, três espaços, três situações que parecem se encadear sem ligação de causa e efeito entre eles. Na verdade, a cena central, essa do cabaré feminino, é bem o lugar de transição onde se amarra o drama objetivo: um crime é cometido, e o drama subjetivo de Simone: ela é uma amante ultrajada pela sua namorada que se prostitui nos bastidores da boate. Amarração dramática que permite reconsiderar retrospectivamente a relação agressiva e terna de Simone com Martine (a bela Martine Simonet) no hall do cinema pornô, e que dá toda a sua força trágica à cena final: o encontro de Simone com o croupier do cassino de Enghien (Michel Delahaye muito bem sem óculos e com bigode); ambos são seres abandonados, de corações magoados perdidos na noite, reaquecidos um ao outro no tempo de um trajeto de carro. 

Assim entendemos que a disponibilidade de Simone de encontrar os outros, o tempo que ela lhes concede, não é o fato de um ser sem amarras, que pede pela aventura, parece mais que Simone reverte sobre o gênero humano toda a carga afetiva que focalizamos habitualmente no outro grande duelo do casal, numa espécie de comiseração por todos os náufragos do amor dos quais ela faz parte. 

É o seu lado prostituta de bom coração, e não é um acaso se ela evolui num universo limítrofe à prostituição. Primeiramente o cinema pornô onde as trabalhadoras parecem proxenetas que os homens pagam para ter o direito de visualizar na tela suas fantasias sexuais. Depois a boate homossexual com o circuito do dinheiro – champagne – prostituição. Enfim o carro do paquerador onde Simone “sobe” como para um programa.


Simone, sem medo e sem culpa evolui nesse terreno traiçoeiro da prostituição, ela passa através as malhas da rede, evitando as catástrofes como que guiada por uma espécie de intuição (feminina?) e usando a palavra (sua verve como ela diz) para desmontar todas as armadilhas montadas para as meninas, num procedimento de inversão das relações, de papéis que desarma o adversário (o homem). 

Esse jogo de inversão organiza estruturalmente todo o filme. Um pequeno “se” de convenção lúdica parece o ter agenciado a partir de uma perturbação da ordem habitual das coisas, produzindo as permutações necessárias: “se” os espectadores envergonhados de um cinema pornô se tornassem os gentis atores de um filme; “se” uma garota no lugar de esperar o seu cara, esperasse a sua mina; “se” o paquerador no carro fosse acompanhado no seu próprio carro pela garota que ele acaba de paquerar. 

Contudo, a inversão não é no filme um procedimento sistemático, uma pura convenção formal resultando numa deriva do absurdo (como em Buffet froid de Bertrand Blier), ela manifesta uma escrita que dá conta de um tema central no filme, este da inversão sexual (a homossexualidade) e da inversão, inesperada, conjuntural dos papéis sexuais (o paquerador acompanhado e que chora como uma mulher). Mais justo que o termo de inversão que conota uma oposição, uma reversibilidade diametral, é preciso falar de “deslocamentos” sucessivos, permitindo iluminar o que habitualmente nós escondemos e que vemos mal: os lugares mal vistos, deslocados (entender no sentido próprio e figurado dos dois termos). 


Mal visto, o hall de um cinema para o qual o olhar não se dirige habitualmente, estendido já para o fora de campo da tela, ainda mais mal visto aquele de um cinema pornô com seus clientes furtivos que querem se tornar invisíveis. Mal vista (no sentido popular), uma boate homossexual, ainda mais feminina, mal visto (e deslocado) subir em plena madrugada no carro de um paquerador. Porém, todos os lugares inquietantes, porque escondidos (logo mal vistos) se tornam centros de polarização do olhar, iluminados no meio da noite, e a presença de Simone, a forma com que ela tem de ocupá-los, de habitá-los, os torna de repente mais familiares que o possível. 

Num artigo sobre Jeanne Dielman, e num outro intitulado “L’être-ange au cinéma” (“O ser-anjo no cinema”), eu evocava o conceito de unheimlich, (o familiar inquietante) como estando ligado a uma certa representação da mulher ligada ao interior da casa familial (e familiar) que ela acabava por tornar inquietante, pela sua única presença. 

Simone Barbès provoca o processo inverso, garota da rua, sem home (seu interior não é mostrado) e sem homem, ela está em todos os lugares como se estivesse na sua casa, metamorfoseando os lugares fechados, opressivos, concebidos como inquietantes, em lugares familiares, domicílios provisórios, onde ela cava a sua trincheira, arruma o seu lugar (a pequena mesa no hall de cinema com os seus livros, seu abajur, seu copo, seu sanduíche). 

Isso explica o papel do número três no filme, Simone é a terceira pessoa, uma terceira natureza em devir, nascida da perturbação de certa imagem da mulher, uma mutante inquietante no exterior e tranquilizadora no interior, (uma mulher unheimlich/heimlich). 

Mas que o leitor não se engane, não se trata de um filme tese (do tipo ilustrativo da doxa feminista), é o contrário um filme regozijante, tônico, cheio de humor. Humor que não deve nos impedir de ver que o jogo de “deslocamentos” sobre o qual ele se funda tem uma função defensiva evidente, pois “em todos os lugares onde ele se manifesta, o deslocamento permitirá objetivar, circunscrever, localizar a angústia” (Freud). É uma arma. 

O texto Simone Barbès ou la Vertu de Danièle Dubroux foi publicado originalmente na revista Cahiers du Cinéma, n° 309, março de 1980. Tradução: Leticia Weber Jarek.

A LOVE STORY, o caso Humoresque


Por Mary Ann Doane

A love story é, paradoxalmente, não somente o centro mas também um discurso à margem do cinema clássico hollywoodiano
[1]. É o centro na medida em que o casal é uma figura constante na retórica hollywoodiana e um certo tipo de pacto heterossexual constitui seu modo privilegiado de conclusão. Já sua marginalidade é associada ao seu status de discurso feminino – a love story supostamente “interessa” às espectadoras. O filme de terror, como Linda Williams aponta, impele a menina (ou a mulher) a tapar seus olhos[2]; o sinal de masculinidade do garoto está no fato de que, quando confrontado com a love story, ele desvia o olhar. O cinema perde seu efeito cativante, sua função de sedução. Essa exclusão do olhar masculino pareceria ser fatal no contexto de um discurso institucionalizado que prioriza o registro da subjetividade masculina. E de fato o é, pelo menos no que tange à recepção crítica. É frequentemente relegada ao limbo da história do cinema a narrativa fílmica cuja construção é levada ao extremo da definição de um tema amoroso. 

É evidente que há exceções: os filmes considerados “grandes histórias de amor” – narrativas que geralmente são amparadas pelo peso da História e pela soberania da mise-en-scène, filmes como Gone With the Wind, Reds, Dr. Zhivago. O estímulo da História confere um efeito de propósito, de finalidade – área na qual a love story, devido a sua fetichização ou seu afeto, não consegue se inscrever. A love story comum, em vez de acionar a História como mise-en-scène ou espaço, acaba por registrá-la como subjetividade individual fechada em si. A História é um acúmulo de memórias da pessoa amada, e o eixo evolutivo da representação gera uma relação governada por apenas um par de regras: separação e reconciliação. Situada fora do espaço onde a História concede significado ao espaço, a love story comum é enxergada como oportunista por conta de sua manipulação do afeto a fim de envolver o espectador, puxando ele/ela para dentro do discurso. 

O papel exagerado da música na love story é sintomático dessa aparente insistência num afeto irrestrito. A música é o registro que carrega a maior carga nesse tipo de narrativa; sua função crucial é a de representar o irrepresentável: o inefável. Desejo e emoção – o próprio conteúdo da love story – não são acessíveis a um discurso visual, demandando assim investimentos adicionais da trilha musical. A música expande o que a imagem mostra – o que é excessivo em relação à imagem é equivalente ao que é racionalmente excessivo. A música tem uma função anafórica, sistematicamente mostrando que há mais que significados: há desejo. À música é sempre delegada a tarefa de destacar, isolar os momentos de maior significância, mostrar-nos aonde olhar apesar da falta inevitável do olhar. 

Há, entretanto, algo de assustador num afeto que aparentemente não seja amparado pela significação. O efeito grandiloquente da música (seu esforço em direcionar a leitura da imagem) é extremamente visível – e chega a arriscar a fruição do espectador. É como se a música constantemente anunciasse sua própria deficiência quanto à significação. Cúmplice do excesso de emoção associado à love story, não há dúvida de que a música possa contribuir para a sua depreciação. Isso explica, pelo menos parcialmente, uma tendência muito forte no gênero da love story de criar motivos para uma aparente superênfase da música na definição do protagonista masculino – o objeto do desejo feminino – como um músico. Em filmes como Letter from an Unknown Woman, Deception, Interlude, Intermezzo, Humoresque, e When Tomorrow Comes, o protagonista é um pianista, um violoncelista, um compositor ou um violinista. Transformando a música num componente fundamental de seu conteúdo, deslocando-a do nível extradiegético para o diegético, essas narrativas fornecem uma racionalização da própria forma. Além disso, a localização do personagem masculino como músico traz um benefício adicional. Na love story, o homem passa por um tipo de feminização por contaminação – em outras palavras, ele é emasculado por sua própria presença em um gênero feminilizado. Como Roland Barthes afirma, há sempre algo de “feminilizado” naquele que ama: “no homem que expressa a ausência de outrem algo feminino é declarado”[3]. O escândalo dessa feminilidade masculina é parcialmente amenizado pela construção de um forte laço entre o personagem e a única atividade culturalmente “feminilizada” que lhe é autorizada: a arte. É transformando o homem em um artista respeitado – um músico – que esse subgênero acaba por recuperar algumas de suas inevitáveis perdas masculinas na love story

Dos filmes citados, Humoresque (1946, Jean Negulesco) talvez seja o mais excessivo nessa ênfase dada à música como criadora fundamental de significados afetivos. O filme possui três longas cenas de concertos; em duas dessas cenas, o único outro registro evidenciado, além da música, são reveladoras trocas de olhares entre os personagens. Na extensa terceira e última cena de concerto, a alternância entre as imagens do violinista executando Tristão e Isolda num teatro e as do suicídio por afogamento da protagonista resulta na construção dessa morte como um tipo de espetáculo. A música da performance se torna a trilha musical da cena de sua morte; seus últimos momentos coincidem com as últimas notas do concerto e são sucedidos pelos aplausos da plateia. O tempo narrativo investido e gasto pela música é incomum, mesmo dentro desse subgênero. 

Há, portanto, longos momentos de Humoresque que delimitam um espaço de significação quase que completamente fora da linguagem – linguagem em qualquer forma: diálogo, narração ou imagem. Os pilares significantes das sequências – música e imagem – como sistemas semióticos análogos, geralmente são tidos como discursos de pura afirmação. (....) É notório que a negação é o princípio fundador da linguagem verbal, o que a difere da linguagem de sinais animal e também de outros tipos de discursos humanos, como as imagens. A imagem é um indicador de presença e afirmação – na lógica de Metz, uma imagem de um revólver sempre significa, no mínimo, “Aqui está um revólver”. A love story, duplamente dependente da imagem e da música, aparentaria assim ser um discurso duplamente afirmativo. 

Apesar disso, Humoresque, como um todo, é caracterizado por um trabalho de negação sistemática do olhar feminino e, consequentemente, de recusa e de punição às espectadoras. E como há longas sequências em que os únicos recursos de significado são música e imagem, o filme oferece exemplos esclarecedores da tentativa laboriosa de criação da negação num sistema icônico. Ainda mais precisamente: há por todo o filme traços de desejo de negação. 

A narrativa diz respeito a uma mecenas, Helen Wright (Joan Crawford) e seu romance com o jovem violinista que patrocina, Paul Boray (John Garfield). O desejo entre eles é impossível desde o início – não apenas porque Helen já é casada mas talvez mais particularmente porque ela é a representação hiperbólica de uma sexualidade feminina acentuada, que deve finalmente ser eliminada. Sua presença revela a impotência masculina. Esse excesso, a ameaça criada por sua sexualidade, é estabelecido pela narrativa de várias maneiras. Primeiro vem a noção de que a mecenas é Helen, o que indica uma alteração da tradicional relação de poder homem/mulher no domínio da economia já que o homem aqui é, de fato, “mantido” pela mulher. Em segundo lugar, como já mencionado, Helen personifica uma sexualidade feminina que ignora ou nega limites conjugais e que, por isso, não pode ser confinada numa família. O filme destaca a sua resistência à família ao trazer duas figuras femininas antagônicas: a mãe de Paul, que lhe concede o “presente” inicial do violino e constantemente fiscaliza, com desaprovação, seus comportamentos e atividades sexuais com Helen; e Gina, a convencional e saudável boa-moça, a quem a mãe de Paul já escolheu como sua futura esposa. Em certo momento do filme, a mera presença de Helen, fortemente estabelecida por uma série de planos subjetivos atribuídos a Gina, é suficiente para expulsar Gina, que é incapaz de sustentar o olhar direcionadoa Helen, da sala de concertos. Na saída da sala, é obrigada a passar por uma sequência de grandes pôsteres que mostram Paul segurando um violino. Mas na cena final do filme, closes de Gina, mais uma vez confortavelmente sentada na sala de concertos, e um plano da mãe, chegando atrasada ao seu camarote (espaço anteriormente ocupado por Helen), têm uma direta conexão sintática com o suicídio de Helen. A mãe e a boa-moça, aceitáveis representações da feminilidade, juntam suas forças a fim de afundar a representação da sexualidade feminina acentuada.


Poderia parecer uma punição muito drástica, mas sua transgressão é enorme e é representada não somente por seu alcoolismo – Helen bebe excessivamente e é raramente mostrada sem um copo nas mãos (ela bebe como um peixe, poderiam dizer). Sobretudo, o perigo que ela representa tem a ver com o fato de que ela abala e inverte a oposição entre espectador e espetáculo em termos de um alinhamento com a diferença sexual. Helen é o agente da escopofilia – ela prende Paul Boray em seu olhar. Ele toca, ela assiste. Mas sua apropriação quase violenta do olhar não permanece inalterada. Ela é representada como míope (os momentos de sua transformação de espetáculo em espectadora assim capturados e restritos por sua visualização no ato de colocar os óculos) e é eventualmente retirada da narrativa, sua morte associada à de um ponto de vista. Sua miopia simboliza a malícia de sua ligação escopofílica ao homem. Há uma dificuldade no olhar, principalmente em relação ao da mãe, cujos olhares constantes ao filho – geralmente expressando reprimendas morais – também são evidenciados pela narrativa. A mãe de Paul é, par excellence, a mãe fálica – seu olhar é o olhar da sabedoria. Quando ela vê Helen pela primeira vez no recital de Paul, ela percebe imediatamente o perigo que essa mulher representa para o seu filho, e seu olhar a Paul exprime essa constatação. A mãe é representada como uma coleção de aforismos que só podem ser tidos como clichês – quase bordões, sabedoria em sua forma mais primária, incapaz de transformação: “Eu tenho olhos, eu vejo o que está acontecendo”; “Eu não nasci ontem; você não me engana.” Esses aforismos clichês se relacionam ao ver e ao saber, e dão à mãe certo fundamento epistemológico. Ela vê, ela sabe. A visão de Helen, por outro lado, é turva, distorcida, alterada.
Fotogramas 1 - 3

Os óculos emolduram os olhos de Helen de várias maneiras. Eles estabelecem seu olhar como anormal ao visualizá-lo como um gesto único – garantindo assim que ela sempre possa ser pega no ato de olhar. Entretanto, esse emolduramento específico e bastante literal do olhar é apenas uma de uma série de incessantes e elaborados processos de emolduramento que são concebidos para conter uma anormal e excessiva sexualidade feminina. Posto que emoldurar é a estratégia prioritária do filme quando deseja simultaneamente afirmar e negar. No momento em que Helen vê Paul pela primeira vez, ela está em frente a um espelho de moldura bastante ornamentada (fotograma 1) – um espelho que reflete o objeto de seu olhar, Paul. Há um corte para um plano de Paul tocando o violino (fotograma 2), e o contraplano de Helen colocando seus óculos (fotograma 3). O espelho posicionado atrás de Helen assegura que enquanto ela mantém Paul sob seu olhar, podemos mantê-la sob o nosso – sua condição de sujeito coincide com sua condição de objeto. O espelho tem a função de reduzir a necessidade de um longo contraplano que não apenas tiraria de Helen o olhar do espectador mas também feminilizaria o homem como espetáculo. Na moldura geral do filme, Helen é emoldurada ainda mais precisamente pelo olhar masculino. Quase toda vez que Helen é posicionada como espectadora e olha intensamente, um homem a observa no ato de olhar – uma estratégia que é uma negação do olhar de Helen, de sua subjetividade em relação à visão. O olhar masculino apaga o da mulher. Isso é, às vezes, atribuição da mise-en-scène (fotogramas 4 e 5) e outras vezes é função da montagem (fotogramas 6, 7 e 8).

Fotogramas 4 - 8








Nesses casos, o controle vem da periferia da imagem (ou ainda: da periferia da narrativa). O poder do olhar é exercido nas margens da moldura, e é por esse processo que o olhar feminino é posto entre parênteses – daí a agressividade da mise-en-scène. Esse procedimento reproduz, na diegese do filme, a relação entre filme e espectador como resumida na conhecida declaração de Bazin: “o objetivo do plano não é ver o que ela olha, nem mesmo o seu olhar – é olhar o seu olhar”. Heath se refere a esse “olhar o olhar” como uma “segurança totalizadora”, como o “elo de uma coerência da visão”[4]. Essa força totalizadora e a organização da visão trabalham a fim de suprimir, ou pelo menos conter, o olhar feminino.

Fotogramas 9 e 10








Aqui a dinâmica das molduras estende-se até a escrita, daí a possibilidade de negação num sistema icônico. A força dessa contenção e a busca pela negação indicam um momento preciso de perigo ideológico – quando a mulher se apropria do olhar. A tendência então é de reproduzir, rearticular molduras e processos de emolduramento em todos os lugares. Essa dinâmica das molduras se torna particularmente obsessiva na cena-clímax do filme – especialmente após o momento final de diálogo que introduz a longa sequência de Tristão e Isolda (que, como mencionado anteriormente, é constituída somente pelos materiais significantes da música e da imagem). Sem ninguém por perto, Helen se vira em direção à câmera (embora seu olhar se fixe um pouco mais ao lado) e propõe um brinde (fotograma 9) – um brinde que só pode ser direcionado à plateia ou, mais precisamente, às espectadoras: “Um brinde à época em que éramos meninas e ninguém nos pedia em casamento!” A essência de primeira pessoa do plural desse discurso é logo golpeada por processos de emolduramento quase histéricos. Helen vai até o outro lado da sala e abre um álbum com uma foto de Paul (fotograma 10). A representação de Helen (a pintura na parede) domina o quadro; assume e repete, em sua própria configuração, a posição de sua cabeça olhando para a foto de Paul. Seu olhar ativo se torna recatado, como quando uma mulher se sabe observada – assegurado pela repetição de um gesto naturalizado na mise-en-scène por uma moldura diegética. Mas esse colapso narcisista entre o sujeito e o objeto da visão se torna ainda mais pronunciado quando logo depois Helen volta a ser assombrada por sua própria imagem. O plano (fotograma 11) é do reflexo de Helen numa porta de vidro, o oceano ligeiramente perceptível ao fundo do plano. Sua imagem é emoldurada pelo gradil barroco da porta. Helen ergue seu copo (fotograma 12) e o lança pela porta, libertando seu reflexo do aprisionamento (fotograma 13) – ainda que apenas momentaneamente, já que há imediatamente um corte para o outro lado da porta e Helen é duplamente emoldurada pelo gradil e pelo buraco que ela mesma criou (fotograma 14). Helen consegue quebrar sua própria imagem refletida (o objeto do seu olhar), apenas para que produza outra moldura (o buraco no vidro) através da qual se torna visível, emoldurada para o espectador. O insistente e obsessivo emolduramento indica o quão inevitável é a contínua transformação da mulher de sujeito do olhar em objeto do olhar. E aqui, nessa cena que precede seu suicídio, a sintaxe do filme declara que a transformação do feminino em objeto – emoldurado e fetichizado – equivale à morte.

Fotogramas 11 - 14







O plano inicial dessa sequência que mostra o reflexo e a reação de Helen a seu próprio reflexo e o plano discutido anteriormente, em que a necessidade de um contraplano é eliminada pelo espelho atrás de Helen, têm propósitos similares. Ambos planos buscam fundir as divisões que a montagem cria entre aquele que vê e o que é visto – em suma: fundir o plano e o contraplano numa única imagem. Eles produzem uma certa confusão de sintaxe ou dissolução da diferença que só pode ser corrigida, reparada pela morte de Helen. Esse tumulto de códigos é replicado também na trilha sonora; ali o diegético tende a se misturar ao extradiegético. Na primeira parte da cena, Helen escuta a versão de Paul para Tristão e Isolda que é transmitida pelo rádio. A fonte da música é claramente diegética – justificada e localizada. No entanto, durante sua caminhada até a praia, a música, em vez de tornar-se mais baixa devido à distância do rádio, parece intensificar-se e assim torna-se a música extradiegética que acompanha sua morte. Mas essa transição de diegético para extradiegético é revertida mais uma vez. Com o gesto de Helen colocando suas mãos sobre os ouvidos a fim de abafar o som, a música se torna subjetivizada, psicologicamente motivada, e mais uma vez diegética. A música como um objeto cruel, como o lugar da autocomiseração de um afeto excessivo, é limitada por seu confinamento à subjetividade feminina. 

O esquema de fusão de plano e contraplano e confusão entre diegético e extradiegético estão diretamente ligados à subjetividade feminina. Pois a feminilidade excessiva é precisamente aquilo que não respeita limites ou barreiras – ou molduras. Há um subtexto constante no filme que parece resistir às implicações epistemológicas da moldura: uma ênfase em líquidos e na fluidez. Helen bebe excessivamente e está sempre servindo drinks a si mesma ou aos outros. Mas a temática dos líquidos não está contida ou restrita em sua caracterização como alcoólatra. Além da grandiosidade de temas como água/sexualidade/morte invocada no final do filme, há traços dessa obsessão com fluidos atravessando toda a narrativa. Mais ou menos na metade do filme, há uma fixação atípica e nada contida nos anéis de água deixados na mesa por um copo de martini. Muitas transições de uma cena a outra são criadas como transições de um fluido a outro – por exemplo, o corte de Helen colocando água com gás num copo para a rebentação das ondas na praia ou do chuveiro com vazamento no apartamento, que Helen dá a Paul, para o jorrar de uma fonte. Essa ênfase nos fluidos parece se relacionar à sexualidade acentuada de Helen. Na medida em que indica aquilo que excede formas estabelecidas, limites ou barreiras, evoca a construção da feminilidade descrita por Luce Irigaray em seu ensaio The Mechanics of Fluids. Nesse ensaio, Irigaray aponta na ciência um atraso histórico na elaboração de uma teoria dos fluidos e uma “cumplicidade de longa duração entre a racionalidade e uma limitada mecânica dos sólidos”. Sua associação da feminilidade ao que ela chama de “reais propriedades dos fluidos” – fricções internas, pressões, movimento, uma dinâmica específica que torna um fluido não-idêntico a si mesmo – é, com certeza, meramente uma extensão e uma reprodução de uma construção patriarcal da feminilidade. Mas é certamente uma construção presente em Humoresque, que constantemente formula e reformula a sexualidade feminina como uma relação que excede limites ou barreiras. No plano em que o reflexo de Helen é sobreposto ao oceano visto pela porta de vidro, o oceano se torna a imagem espelhada de Helen. E ter a sexualidade feminina, essa excessiva, neutralizada por sua própria imagem revela o propósito do filme – e da love story em geral – como uma demonstração tautológica da necessidade de falha do desejo feminino. 

E ainda assim há certos vazamentos. A lógica de constante diminuição do desejo e da subjetividade feminina parece ceder à força sob o insistente endereçamento às mulheres próprio da love story. O fato de que Helen recebe um limitado mas direto discurso às espectadoras – um discurso que evoca uma época anterior à dupla amarra do pedido de casamento, uma época em que a “menina” ainda não precisa carregar o fardo da “feminilidade” – indica que há algo estranho. Helen não está sujeita a um processo de reforma. Ela deve morrer porque seu excesso é irremediável. 

A morte da protagonista não é exatamente incomum no subgênero da love story. Entretanto há outras formas de se chegar a um desfecho que parecem ser, pelo menos na superfície, mais piedosas, mas que são muito mais problemáticas. A mais marcante dessas estratégias é a de “permitir” que a mulher escolha entre dois homens (ela invariavelmente escolhe o homem “certo”, fazendo com que essa categoria de filmes seja caracterizada pelo “final feliz”). O ato de fazer uma escolha é estruturalmente determinante em filmes como Daisy Kenyon (1947), Kitty Foyle (1940), e Lydia (1941) (embora em Lydia a mulher prefira não fazer uma escolha já que o homem que ela realmente ama não se lembra dela). 

[1] Os filmes discutidos nesse capítulo incluem: Intermezzo (Gregory Ratoff, 1939); When Tomorrow Comes (John Stahl, 1939), The Letter (William Wyler, 1940); Kitty Foyle (Sam Wood, 1940),Waterloo Bridige (Mervyn LeRoy, 1940); Back Street (Robert Stevenson, 1941); Lydia (Julien Duvivier, 1941); Now, Voyager (Irving Rapper, 1942); Leave Her to Heaven (John Stahl, 1945); The Enchanted Cottage (John Cromwell, 1945); Love Letters (William Dieterle, 1945); Humoresque (Jean Negulesco, 1946); Deception (Irving Rapper, l946),The Strange Love of Martha Ivers (Lewis Milestone, 1946), Daisy Kenyon (Otto Preminger, 1947); Letter from an Unknown Woman (Max Ophuls, 1948); The Heiress (William Wyler, 1949); My Foolish Heart (Mark Robson, 1949), Madame Bovary (Vincente Minnelli, 1949). 
[2] Linda Williams, "When the Woman Looks," in Re-vision: Essays in Feminist Film Criticism, ed. Mary Ann Doane, Patricia Mellencamp, and Linda Williams (Frederick, Md.: University Publications of America and The American Film Institute, 1984), p. 83. 
[3] Roland Barthes, A Lover's Discourse, trans. Richard Howard (New York: Hill and Wang, 1978), p. 14. 
[4] Peter Wollen, "Godard and Counter Cinema: Vent d’Est" in Readings and Writings: Semiotic Counter-Strategies (London: Verso Editions and New Left Books, 1982), p. 83.

O excerto A LOVE STORY, o caso Humoresque foi publicado originalmente no livro The desire to desire – The woman’s film of the 1940s de Mary Ann Doane. Tradução: Leodoro Camilo-Fernandes.