O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

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O pitching


Por Stéphane Delorme

O pitching traz a má-sorte. A todos os roteiristas que estão quebrando a cabeça para encontrar um pitch para um projeto bem complicado, digamos com franqueza: se vocês não o encontrarem, é bom sinal. O pitching, simplista por essência, só serve para reduzir um projeto a uma fórmula de efeito encarregada de seduzir de imediato qualquer investidor em potencial. Que na indústria os empresários sem colhões exijam que um projeto seja pitchável em uma frase não surpreende em nada; mas que o cinema de autor também tenha atingido tais extremos é um fato que deprime profundamente. Em Cannes ou Rotterdam, o financiamento do cinema de autor funciona à base de encontros-relâmpago entre financiadores, produtores e realizadores: o pitch-dating está para o cinema assim como o speed-dating está para o amor. É o que se constatou no Festival de Locarno, onde vários filmes apostavam tudo num pitch bem convincente sem conseguir ultrapassá-lo (cf. Cahiers nº 681). Filmes tão diferentes como Shame de McQueen (Michael Fassbender viciado em sexo) ou Superstar de Giannoli (um pobre sujeito que todo mundo confunde com uma celebridade) não avançam uma polegada sequer além de seu pitch. Seguimos o gostosão obcecado e o proletário abestalhado sem nos colocarmos as questões antropológicas, sociais, morais, afetivas, sexuais e filosóficas que poderiam dar um pouco de consistência a seus calvários. Se o mínimo que podemos exigir de um filme de autor é a possibilidade de pensar com ele, esses filmes nos deixam bastante decepcionados e abandonados já após a primeira bobina (na época das bobinas, podíamos esperar transições ou saltos de uma bobina para outra – como ainda se vê em Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas, que propõe um estilo diferente a cada bobina; hoje, o escoamento contínuo do digital combina perfeitamente com o escoamento sem surpresa do roteiro). O pitching faz efeito, mas passa rápido. Às vezes, é prolongado pelo maior tempo possível. Uma das calamidades do cinema de autor foi “o longa-metragem em queda” importado do cinema romeno, em que a única artimanha era a da dilatação temporal. Jogar com a espera mesmo sob o risco do tédio, despertar um forte desejo de saber, até a pancada final na cabeça: então era isso! O golpe do travesseiro em Amor de Haneke foi, nesse sentido, a demonstração mais lamentável do ano.


O drama do cinema de autor hoje são todos esses filmes de uma só marcha. Ora, um filme só fica de pé se ele troca de marcha sucessivamente. Há filmes em duas marchas (todos esses filmes partidos em dois, uma das raras invenções do cinema contemporâneo – New Rose Hotel, Mulholland Drive, A virgem desnudada por seus celibatários... – de que Tabu é um avatar), em três marchas (A visitante francesa), em onze marchas (Holy Motors). Seria necessário devolver à ideia de narração seu sentido pleno: a narração não é a distensão de um evento único e pitchável: que tédio! Ela é uma máquina de pensamento que monta conjuntamente os tempos, os possíveis e as vidas. Quando o escritor de Twixt, já enredado nas duas velocidades concomitantes do cotidiano e do sonho, mergulha o olhar no abismo, ele é apanhado numa terceira velocidade, a da vida de um outro (Coppola), uma imagem passada que se torna o olho do ciclone e que reconfigura a totalidade do filme. Ora, não pode haver olho do ciclone com um pitch; não há centro, não há segredo, não há mistério, nem salto possível para outra dimensão) da narrativa. Há apenas uma narrativa flat e um golpe de força: em inglês, o pitch designa o lançamento direto da bola no baseball. Aquilo que atinge de um só golpe. Mesmo que um longa-metragem seja uma viagem sinuosa, longa, obscura, ainda assim ele possui a claridade que cega de Elefante, de Gus Van Sant. O pitching, portanto, é o inimigo nº 1, aquele que paralisa o pensamento desde sua origem.


(Originalmente publicado em Cahiers du Cinéma, n. 684, dez. 2012, pp. 10-11. Traduzido do francês por Luiz Carlos Oliveira Jr.)

Amok, A idade da terra

Por Pascal Bonitzer

“Essa coisa amedrontadora, indescritível, mais vasta que qualquer trem subterrâneo, esse aglomerado de bolhas protoplásmicas, levemente fosforescentes, sobre o qual milhares de olhos provisórios se formavam e deformavam, como pústulas de luz esverdeada, essa coisa vinha em nossa direção enquanto esmagava os pinguins aterrorizados...”. Os leitores de Lovecraft terão facilmente reconhecido um Shoggoth. Mas alguns espectadores da Biennale terão provavelmente identificado também nessa entidade ameaçadora o último filme de Glauber Rocha, A idade da terra, ou pelo menos a impressão que ele causou em Veneza. Os pinguins, nesse caso, são os espectadores, entendidos em sua carapaça moral. 

É mais fácil descrever a impressão causada pelo filme do que o filme em si mesmo, assim como é mais fácil para o narrador lovecraftiano descrever o afeto provocado pelo Shoggoth do que o aspecto da criatura. À semelhança do narrador em questão, temos vontade de escrever: “Todas as palavras que eu poderia esboçar seriam incapazes de sugerir ao leitor o horror do espetáculo assustador que a nós se ofereceu”. Espetáculo ao qual, evidentemente, não falta grandiosidade, no mínimo – o que não foi o caso de muitos filmes da Biennale, incluindo os premiados. Mas não se premia um monstro; ou fugimos dele ou o matamos. No geral, foi o que fizeram ambos os espectadores, a imprensa, o júri. E mesmo isso sendo compreensível, é de se lamentar, pois destruímos aí uma boa parte das chances (se é que o termo chance seja adequado) de ver na Europa essa obra estupefaciente.

A idade da terra, como seu nome sugere, visa a nada menos do que retraçar ao mesmo tempo a história do mundo e a do Brasil — antiga e recente — a tomar simultaneamente a medida desse país-monstro, desse país-continente, e da política planetária. Não pense que isso signifique que as análises são abundantes. De um extremo a outro desse filme, salvo um ou dois oásis de algo próximo da racionalidade jornalística, o ponteiro do medidor não para de oscilar entre o transe da macumba e as vociferações mais assustadoras. A câmera parece guiada pelos tocos putrefatos de alguma fungosidade blasfematória (para permanecer no estilo lovecraftiano). Se o foco está em algum lugar, ou a luz, ou o quadro, presumimos que é por acaso. Some-se a isso uma montagem de selvageria inaudita, uma montagem de assassino, de louco da machadinha. O diretor aparece na imagem uma ou duas vezes, para mostrar um rosto de condenado, disferir no vazio um violento golpe de facão ensanguentado. 

Quanto ao discurso, ao “sentido”, o que dizer dele? Todos os enunciados atravessam a tela como se passassem por um triturador: revolucionários, marxistas, terceiro-mundistas, fascistas (e dos mais asquerosos: ironia sobre as torturas, “fui torturada, extremamente torturada, e confesso que senti prazer”, diz uma jovem mulher, símbolo da burguesia intelectual de esquerda), enfim, umbandistas e cristãos. O Cristo aparece sob a aparência de um negro do sertão, que multiplica Coca-cola. Estranho, estanho filme, que faz com que os anteriores do autor pareçam exercícios comportados e pálidos. Nunca tinha sentido, em presença de um filme, tamanha impressão de me achar diante de uma terra incógnita absoluta, esse enigma, o terceiro mundo. Nenhum outro filme, além desse de Glauber Rocha, havia me dado esse sentimento de estrangeirismo continental. 

Mas também de singularidade desesperada, de solidão trêmula. Essa monstruosidade atravessada por clowns alegóricos gritando sem parar as mesmas frases, como em planos-sequência que não terminam, essa destruction in progress, o autor a tenta definir, em off, no meio do filme, numa torrente verborrágica. Retive duas palavras: desespero lisérgico. “Um filme de desespero lisérgico”. Provisoriamente, podemos nos agarrar a essa definição. 

Amouk, l'âge de la terre foi originalmente publicado em Cahiers du Cinéma, n. 317, nov. 1980. Traduzido do francês por Luiz Carlos Oliveira Jr.