O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

“Laços de Ternura”, prazer louvável




Por Camille Nevers

O filme de James L. Brooks retorna ao cinema: ocasião de reler e revisar a crítica de Serge Daney publicada no “Libé” quando do seu lançamento em 1984, e poder finalmente rever sem vergonha esse longa-metragem magnífico.

A reprise desse filme maravilhoso, célebre, multi oscarizado e, contudo, controverso, drama sentimental contrafazendo uma comédia clássica, história de uma relação mãe-filha que uma vida percorrida em uma ficção de duas horas não conseguiria cercar, é a ocasião de resolver um velho problema. Pois o que há de maravilhoso em Laços de Ternura é proporcional à sua perfeita simplicidade. Esse ponto culminante mas invisível da inteligência, portanto de possível confusão entre a fineza de expressão e o banal, o “medíocre”, a dianteira do tempus fugit e a horrível desonra de um “a vida é assim” que só concederia (vida) aos ricos – contudo, o crítico teria esquecido? é a frase condutora de Tarde Demais para Esquecer de Leo McCarey: “A vida é assim, etc”.

Nas páginas do Libération do 7 e 8 de abril de 1984, quando Laços de Ternura era lançado na França, recém coroado com esse “repugnante amontado de Oscars para o qual ele foi programado”, Serge Daney se enganou – o que acontece com todo mundo. Seu engano se intitulava “Botas para um vale de lágrimas”. Ele atacava o filme violentamente. Não há problema em se enganar; o que aconteceu foi que ele nos fez sentir vergonha. Vergonha de ter gostado e ter chorado diante dessa água com açúcar viva e trágica. É preciso resolver isso, quarenta anos depois, opor-se à crítica de Daney, que não é o pai nem essa mãe a quem a ultima frase do artigo bate ainda com seu grito paradoxal: “E contra a mãe, não nos revoltamos”.

Pequeno palhaço

Nos revoltemos contra a autoridade, mas somente quando ela abusa de si mesma. Por que, na época, Serge Daney, que tinha discernimento, se enganou? Primeiro confundindo o inimigo, a televisão, tomando o filme como exemplo do argumento menos interessante da história do cinema – que se trata de um “telefilme” (como pudemos dizer “é teatro filmado”, etc). “Mas (diriam, surpresos por tanto ódio) esse filme não é uma novela! Com certeza, é ainda pior”. O que é que o crítico deixou escapar, cego por um esquema de leitura ideológico que o fez considerar o filme como o contemporâneo odiável de Dallas e de Reagan mais do que o descendente direto, em termos de estratégia narrativa, de Leo McCarey, não obstante citado ao lado de Vincente Minnelli e Douglas Sirk, apenas a contragosto de uma nostalgia que sentimos forçada – “eles nem sempre foram nulos (aliás nós os lamentamos)”?

Uma pista: o pequeno palhaço. Daney não soube ver o pequeno palhaço, a luz persistente da lamparina do primeiro plano do filme. Esse pequeno palhaço que é também a primeira frase do “roteiro” de James L. Brooks: “Uma tela escura, no canto inferior esquerdo, brilha o rosto de um pequeno palhaço. Ele é quase imperceptível, enquanto os créditos começam”. O crítico viu somente a imagem da mãe que ele não podia tolerar. Não a luz persistente do rosto do palhaço, nem a arte da comédia. No filme, a mãe, Aurora, e sua filha, Emma, são magnificamente retratadas, com fisionomias variáveis, por duas épocas do cinema americano: Shirley MacLaine e Debra Winger, tão diferentes quanto possível nessa dinâmica de caracterização contrastada cara a Brooks. Daney viu a pulsão (de morte, de mãe), não o pequeno palhaço que afasta o filme de toda causalidade edipiana e do trilho da fatalidade – nada mais “ilógico” que a arte da psicologia levada aos seus limites esgotados, cristalizada em mise en scène que “se repensa” e se retoma, repete infinitamente sua entrada e sua saída, de Brooks. Essa ausência de determinismo social e de fixação familiar, que ele deixa em plano de fundo, o separa, aliás, de Sirk, de quem Daney aceita os melodramas de filiações trágicas – o que ele recusa a James L. Brooks. Como você sabe.

Combustão lenta

Uma outra maneira mais doce de perguntar, então: o que torna Laços de Ternura tão belo? Uma inteligência do humano conduzida a um ponto de precisão mais que humana e sem pressão. A transparência de suas intenções e sua ausência de efeitos. O emaranhado frouxo das existências, distantes mas ligadas. Essas poucas vidas paralelas que avançam de forma regular, o filme aborda suas intimidades esculpindo os raccords, os ecos e as distâncias implicadas, o que as numerosas cenas de telefone atestam (com esse efeito de “presença in” da voz do interlocutor no fim da linha, efeito que encontramos em Defesa Secreta de Jacques Rivette, outra história “de menina”). James L. Brooks filma tudo com uma benevolência afeiçoada, inclusive a malevolência, o que lhe permite exprimir com tato indizível, sob a comédia sentimental, a emoção sinuosa e a tragédia sem aviso prévio. Como Leo McCarey.

Assim Daney nos fez sentir vergonha de gostar dos filmes de Brooks, por muito tempo. Nisso ele não se enganou, enfim. Pois Laços de Ternura é o estudo bastante exaustivo de um sentimento nunca filmado como tal, de uma combustão lenta (os filmes de combustão lenta são os mais bonitos): a vergonha. A vergonha é o motivo de cada plano entre MacLaine e Winger, Nicholson, Daniels, Lithgow, as crianças, todos pegos de surpresa, para desconforto geral e seu constrangimento. É a vergonha que os pais fazem aos filhos, mais ainda que a vergonha que os filhos fazem aos pais. O filme mostra como essa vergonha, aplicada primeiro a si mesmo, é uma forma lastimosa e desajeitada, mas de um pudor sublime, o do filme, de estar no mundo. É assim que Brooks consegue filmar coisas indizíveis, sentimentais e cruéis, até o último suspiro. Choramos. Eis aí porque nós tínhamos razão.

“Tendres Passions”, plaisir louable foi originalmente publicado no jornal Libération de 1 e 2 de outubro de 2022, p.24. Tradução: Luiz Fernando Coutinho.

O grande jogo




Por Raymond Bellour

Imediata e violentamente sensível, a sedução que o faroeste exerce se deve à riqueza sem precedentes de seu tema e à infinita diversidade que ele oferece no mundo fechado da repetição, conferindo a cada espectador a fascinante e perpétua sensação de reprise e espanto. Exemplo único em que o campo de uma história é coberto em sua totalidade por uma multiplicidade de pontos de vista. O western funciona como espelho e como prova. Cada filme, cada obra singular, apresenta-se como uma interpretação de uma origem e de uma história. O fato de quase todos os cineastas de Hollywood, sejam eles americanos ou adotados, terem escolhido, aceitado fazer faroestes, de o gênero ser o mais antigo e o mais novo dentre todos os gêneros cinematográficos americanos, apesar de tantos sinais de alerta, sempre até aqui desmentidos, de sua morte iminente, prova simplesmente isto: o western é a série de interpretações que uma forma de arte, o cinema americano, dá à sua história local e nacional e, a cada dia mais, à sua própria natureza e às suas exigências em relação à tradição que o sustenta; é por isso que, quando vemos um faroeste, signo vivo de uma dupla interpretação mais ou menos manifesta, sentimos um tipo particular de júbilo, um júbilo como o que sentimos quando estamos diante de qualquer objeto ao qual nos rendemos, pois podemos deduzir imediatamente seus contornos, suas formas, sua essência e até mesmo a natureza do prazer que ele nos proporciona; e ainda assim, por meio de uma reviravolta sutil e dolorosa, muitas vezes nos surpreendemos, às vezes ficamos impressionados, como se de repente nunca tivéssemos sabido nada sobre isso.

Então, o que é essa história, essa vida original que o western revive constantemente, como em um jogo perpétuo, no horizonte misto do cinema americano? É uma vida totalmente arriscada, uma vida de aventura, baseada nas apostas, e que do jogo contém todos os signos. Basta uma palavra para orientar o itinerário do herói, um encontro para selar seu destino; uma bala perdida decide uma vida, e imagino que um dos charmes unânimes do faroeste esteja na decisão rápida, imprevisível e aparentemente leve que o herói toma logo no início do filme, com um ar que pretende ser casual, e à qual ele permanecerá fiel até o desfecho, seja ele feliz ou infeliz – porque não há outro significado para a vida além da arbitrariedade, deste jogo no qual o herói sempre faz valer sua regra no terreno privilegiado onde a morte é o destino do perdedor. Daí a preferência de longa data pela figura emblemática do jogador, ser de duas faces, personagem de uma história, espelho de significado para uma tradição.

O western, arte lúdica, não haveria nada do que reclamar, se o jogo, mestre da aparência, não fosse o fato de que ele se estabelece diante daquilo que o destrói constantemente: a seriedade da lei. Baseia-se na razão social e na moralidade dos valores, uma seriedade cujo reverso é chamado de capital e cujas últimas e mais venenosas flores estão desabrochando, tão distantes e diferentes que não podemos mais reconhecê-las, no entanto, apenas um século, meio século depois, vemos em São Domingos, Hanói ou Caracas, em tantos lugares ao redor do mundo. O faroeste, portanto, situa-se nas duas auroras da história e da civilização americanas. De um lado, a aventura, a aposta e a epopeia do individualismo; do outro, e ao mesmo tempo, a conquista, a ordem e a sociedade. A inefável fragilidade do jogo, a tragédia pessoal que mais ou menos prende o herói no código livre e rígido de um rito, no modo encantador e perverso de uma repetição que desafia toda monotonia, ecoa constantemente uma lógica cujos múltiplos desvios, cuja sinuosidade não deve esconder a verdade absolutamente real do impulso silencioso de uma história que nos permite reconhecer facilmente nos pioneiros do Oeste, filhos dos fugitivos deserdados do capital europeu, o cidadão americano.

O limite do jogo é o sistema de valores que ele sempre confronta e sustenta. Isso é visto claramente, sem a necessidade de uma segunda leitura, em obras que deliberadamente confessam sua natureza anti-lúdica. Primeiro em Os Conquistadores, no qual Lang submete, sem pestanejar e com notável rigor e audácia, o espírito de aventura ao espírito de empreendimento: plantar postes telegráficos nos estados ainda virgens do Oeste significa plantar ações; se o inimigo, índio ou malfeitor, ficar no caminho, ele é fuzilado, sem remorso ou alegria, em nome da ordem, de uma moralidade cuja lógica mais segura é o sistema do dinheiro. Falou-se de anti-western, mas também sabemos que testemunhas antigas, chamadas a dar sua opinião, reconheceram a perfeita autenticidade do filme. A contradição é apenas aparente, e a lição é simples: Lang, fiel à sua alta acuidade, leva o faroeste do reino da mitologia privada para o da mitologia pública. Como um príncipe do sistema, ele redistribui os valores semânticos de acordo com um código social e político. O humor e o conflito individual não precisam nos iludir aqui; Lang se atém à lógica de uma interpretação realista e anti-heróica.




A segunda negação, que é mais natural por isso mesmo mais frequente, é encontrada na seriedade épica de Ford. Pois se o western, por sua natureza histórica, nada mais é do que uma nostalgia do épico tradicional, ele frequentemente opera de maneira semelhante em termos de valores. O indivíduo, para Ford, incorpora valores coletivos e define de uma só vez a origem da moralidade e sua eternidade. Daí este universo profundamente tradicional e messiânico – cujo único evangelho é o homem americano em seu conceito mais elementar –, daí esta obra que, em um sentido magnífico, constitui um dos mais altos monumentos de identificação com que se pode sonhar. A mitologia lúdica do faroeste, que Ford usa com a habilidade suprema de quem sabe fazer quase tudo, desaparece constantemente em uma seriedade épica. Os dois jovens em Caravana de Bravos decidem suas vidas por acaso, mas como não ver aqui o pretexto para um itinerário que não tem nada a invejar (o comboio mórmon nos convida) ao de O Peregrino, de John Bunyan? Quanto a John Wayne em Rastros de Ódio, ele encarna tão fortemente o espírito de conquista, família e raça que seu périplo aventureiro apenas ecoa (pelo menos em princípio) as palavras orgulhosas e proféticas desta mulher pioneira, que permanecendo no limiar de seu rancho, dá como contraponto à provação atual a beleza e a nobreza da América de amanhã. A ideia do jogo na obra de Ford é expelida em dois níveis: o do personagem e o do diretor.

Porque essa ideia, a bem da verdade, demanda que se jogue ao máximo com a carta do indivíduo. É isso que Sturges faz, por exemplo, por meio da sua escolha de tema e atores, embora nunca consiga torná-la absolutamente convincente por falta de talento ou de um certo gênio. É preciso nada menos do que genialidade (grande ou pequena, não é essa a questão) para construir uma obra com um rigor arbitrário e lúdico, como quando você opõe a evidência objetiva da expressão fordiana (muitas vezes admirável) ao desafio de um sistema formal e temático que deve pouco aos álibis do natural. Ray faz isso de forma violentamente bela em seu Johnny Guitar. Lang faz isso de forma magnífica contrastando O Diabo feito Mulher com Os Conquistadores e revelando de uma só vez os dois extremos do western no seu estado mais puro. Nada poderia ser mais decisivo ou mais autônomo do que essa parábola realista na qual a ideia de destino é sempre combinada com a da mais fascinante liberdade. Os personagens de O Diabo vivem talvez a vida mais deliberadamente solitária e amoral (em termos de valores tradicionais e coletivos) da história do faroeste. Marlene e Mel Ferrer, capturados pela câmera irônica e tão grave de Lang, rejeitam qualquer idéia objetificada do Oeste em favor de um código violentamente pessoal, lógico e irrisório, o qual encontra em um rancho lendário sua possibilidade lógica e na imagem de uma roda de loteria sua motivação simbólica. Para quem pensa em Lang apenas como um cineasta do imediato, do natural, aconselho que dê uma olhada mais de perto nessa prova de elegância abstrata e teorização singular. Lembremos, não tanto por conta de Marlene, de O Expresso de Shanghai, de Sternberg, em que o jogo é levado ao seu ponto absoluto, porque em nenhum momento os filmes escapam da série fantástica e ritualística que une os personagens e faz de seu autor um mágico imenso e fascinado.

Este encerramento do sujeito que por si só abre as portas para a tomada de decisões lúdicas é encontrado em Anthony Mann, cineasta do homem individual. Aqui o jogo ganha peso, preso nos fios do romance e da inversão psicológica. Mas ele permanece no nível do ato, do gesto, da vida arbitrária, ao menos nos filmes feitos com Stewart, filmes de apostas furiosas, sem dúvida, mas de apostas, se alguma vez houve uma. Stewart joga por sua vida, ainda que seu jogo esteja mais próximo de uma maratona do que de um jogo de pôquer, de um bildung do que de uma festa. Ele está em uma posição de risco soberano, limitado ao seu próprio corpo, à velocidade de seu tiro, à precisão e à rapidez de suas intuições. Ele nunca morre, porque é muito raro em Hollywood o astro escapar do happy-end e o jogo do homem americano é sempre confrontado com a positividade de uma história e de uma civilização que ele precisa tornar possível; mas no instante em que Stewart enfrenta a morte de forma real, e isso, para nós que somos convidados ao espetáculo, é o essencial enquanto a luta durar. Estamos diante de um homem sem referência externa: preso no jogo de sua própria vida dentro do mundo da aventura, dedicando-se a ele para o bem ou para o mal. Daí a sensação de uma precariedade extraordinária: ganhando ou perdendo, Stewart anda na corda bamba, na vigilância perpétua de alguém que sabe que o jogo nunca termina e sempre pode ser virado de ponta cabeça. Comparemos Wayne em Rastros de Ódio e Stewart em Região do Ódio: na pior tempestade de neve, no combate mais desesperado, frente aos elementos e aos homens, a invencibilidade épica se choca com o jogo trágico. É inegável que ambos compartilham aquele conhecimento técnico sutil e prodigioso, praticamente mágico, que torna o heroísmo plausível e justifica um resultado bem-sucedido. Todavia a técnica, no primeiro caso, refere-se à ordem transcendente do universo moral e o herói assume a validade de uma série de imperativos categóricos aos quais a ação responde fielmente; ao passo que, no segundo, refere-se a uma ordem quase autônoma do sujeito. Tal antinomia pode ser lida nos rostos dos atores, no ritmo e na preocupação das duas mises en scène, na relação que estabelecem, por exemplo, entre o homem e a natureza, o herói e as outras figuras da ação, a ideia e sua encarnação.

O jogo, para Mann, lida com a ordem do presente. Ele está duplamente ameaçado, tanto pela nostalgia incessante de uma vida anterior, pré-histórica, quanto pela seriedade do futuro, quando o sujeito, fatalmente, termina como um signo precursor da história americana. Daí a pluralidade dos tempos, a profundidade romanesca, uma singular tragédia. E a impressão, para mim, de que Mann encarna uma espécie de essência do western, visto que o gênero está no momento de seu maior sofrimento. James Stewart – ele é o verdadeiro herói de Mann, antes dos sinais progressivos de abandono que definiram Henry Fonda, Glenn Ford e Gary Cooper em seus últimos faroestes. Stewart personifica aquele instante no qual o herói, com uma forte obstinação, pretende ter o mundo longe de si. A história e a sociedade o aguardam, ele cede à utopia de uma vida com acordos virgilianos, debate-se entre a integração moral e ideológica e o desejo pelo impossível. Esse divórcio é evidente na arte altamente versátil da encenação, na ocasião deste ou daquele diálogo e no desfecho que sempre marca uma derrota sorrateira e implícita, ainda que de forma feliz; Mann, com grande habilidade, situa as categorias sensíveis e intelectuais que determinam seus heróis. Mas a ação em si, que durante todo o filme detém o privilégio da realidade em um nível primário absolutamente decisivo, a ação impõe a ideia mais trágica da subjetividade do jogo. Stewart se põe como a lei; a aventura é a realização de um projeto inicial que serve como uma aposta. A partir desse instante, esse herói está rigorosamente vinculado aos seus meios de ação, por isso é tão comovente, quando em sua cabana solitária cercada de neve, Stewart, ferido na mão, levanta o rosto desfeito pela dor para contemplar seu cinto pendurado em um prego. Se ele não consegue segurar a arma entre os dedos, não é um princípio moral e intangível que entra em colapso, mas um homem que morre por ter jogado mal a única carta que possui: sua vida. Se gosto tanto de Região do Ódio é porque ele incorporou ao extremo a alternância do individualismo desesperado e triunfante ao qual o cinema americano tanto deve. E, além desses momentos furiosos de ordem do desafio mítico, onde o herói existe apenas em sua feroz autonomia, gosto sobretudo do final, quando Stewart, depois de suas batalhas particulares, aceita o cargo de xerife na comunidade que se forma já sinalizando a marcha em direção à história, embora ainda mantenha algo de um impulso primitivo. É uma dupla contradição, contra a qual, uma vez terminada a aventura, os heróis lutam irremediavelmente: pois são apanhados, seja qual for a direção em que olhem, entre as ondas destrutivas do tempo. Daí a razão e a fascinação de um eterno retorno da aventura, um recurso sempre à ordem do sujeito, que encontra na trovejante possibilidade presente da morte uma resposta à aparentemente grande leveza do que está em jogo.

Mas a condição mesma da razão trágica desaparece com o advento do capital americano. O jogo individual deixou de ser real – ao menos para o herói que se deixa levar por ele até estabelecer as regras, e o diretor que passa a ser mais ou menos cúmplice – o jogo não é mais do que uma sombra nostálgica, quando não uma ilusão, uma caricatura. Os últimos filmes de Mann mostram isso muito bem, O Homem do Oeste e, sobretudo, Cimarron – Jornada da Vida. E três filmes que mostram um espelho impressionante do questionamento de Mann. Primeiro, O Homem que Matou o Fascínora, não tanto por desmistificar o suposto heroísmo de Stewart, quanto por seu clima político e social e seu enredo quase totalmente retrospectivo. Ford passa sem problemas da seriedade da epopéia onírica para a crônica histórica, e a América subitamente assume sua face atual. Quanto a Liberty Valance, ele não passa de uma caricatura do assassino, do homem do jogo, um fantoche no universo da nova América, e Ford, escolhendo Lee Marvin sem mudar em nada sua figura lendária, confere a imagem exatamente oposta à do personagem inesquecível lançado por Boetticher no mundo clássico de Sete Homens Sem Destino. Depois há Sua Última Façanha, de David Miller, no qual o herói anacrônico vive o sonho delirante de um heroísmo pessoal edificado sobre o código aventureiro do Oeste de outrora, montado em seu cavalo, armado com seu rifle, através de uma América de autoestradas e helicópteros. Por fim, estou pensando em Pistoleiros do Entardecer, em que Peckinpah, com um talento admirável e uma sensibilidade muito semelhante à de Anthony Mann, precipita radicalmente a ruína do herói. É o fim do jogo, a morte da aventura, e quando a câmera se eleva acima do campo para o duelo final, vendo esses dois atores idosos avançarem miticamente em direção a seus adversários para o mais clássico dos encontros, alguma coisa nos avisa, em alguma parte, como que em um estremecimento secreto, que esse duelo talvez seja o último do western. Porque uma vez mortos esses homens, que a história em certo sentido já depôs, nunca mais haverá outros como eles e é até difícil imaginar como, sem esses atores ligados à era de ouro do cinema americano, o faroeste pode realmente continuar a sobreviver.




Pois o western, que Bazin chamou tão corretamente de cinema por excelência, é autônomo em uma arte em que toda a tradição – a distribuição de filmes por gênero, a prodigiosa expansão da indústria, o aparente apagamento dos autores por trás de uma criação coletiva e de mitologias compartilhadas – dá a impressão de um certo jogo. A liberdade do cinema americano, cuja naturalidade só ele tem o fabuloso segredo, se deve à dimensão lúdica da qual a maioria dos filmes, mesmo os mais sérios, não é desprovida. O faroeste, nesse aspecto, tem um privilégio especial. Ele surgiu no alvorecer do cinema americano, quando a conquista do Oeste estava chegando ao fim; e esse humor lúdico que mais ou menos se anuncia nos filmes, na atitude do herói em relação à sua vida, irrompe na relação que o autor tem com seu próprio filme, objeto de uma aposta em relação a uma realidade que ainda é muito próxima e a uma tradição. O fato de quase nenhum cineasta americano ter se afastado do western é uma clara indicação do desejo (ou da obrigação, mas isso realmente não importa) de jogar o jogo. E não é coincidência que, de todos os grandes autores (exceto Welles, mas não é ele o homem que por excelência vai contra todas as tradições?), os únicos ou quase únicos que quiseram evitá-lo foram justamente Minelli e Donen, autores de comédias americanas e musicais, os únicos gêneros que mantêm uma relação lúdica com a tradição americana de espetáculo cinematográfico da mesma ordem. (Em termos de atores, encontramos isso em Gene Kelly e Cary Grant). É como se todo autor americano tivesse que ceder, de alguma maneira, à necessidade fascinante do jogo. A comédia é, sem dúvida, infinitamente mais lúdica em seus temas e princípios; mas o faroeste, a partir do âmago de sua seriedade histórica e moral, adornado em seus adereços puramente dramáticos, dá a impressão de um universo lúdico de outra forma, já que vive apenas de regras e mitologias, muitas vezes transgredidas, mas nunca evitadas. Fazer um faroeste, para um realizador, mesmo o mais violentamente pessoal, como Lang, Ray ou Brooks, é entrar no jogo da repetição, recomeçar a história e o cinema americanos, é, numa palavra, tentar um exercício de alto vôo no terreno da maior evidência, enfrentando o jogo mais arriscado sob os auspícios combinados da natureza e da tradição.

Em Paris, por volta de 1925, um grupo de escritores, a maioria deles poetas, formou-se sob uma questão e um tormento comuns. Entre eles estavam René Daumal, Roger Gilbert-Lecomte, Roger Vailland e Rolland de Renéville. Eles criaram juntos uma revista chamada Le Grand Jeu. Essas palavras sempre me fizeram sonhar. Esses poetas, é claro, depois de Rimbaud, que eles tanto amavam, estavam brincando com fogo. Mas quando os leio, quando contemplo a tensão dolorosa e subjetiva de sua linguagem, sua seriedade que é tão aterrorizante quanto admirável, e a alta solidão que designa mais ou menos a figura intransigente do criador nos países de nossa velha Europa, quando reconheço tudo isso, acho que as palavras muito alegres “Grand Jeu” têm algo que soa um pouco falso. Entretanto para mim elas cobrem de forma exemplar a essência do western.

Exercício do natural, ainda que mitológico, que retoma a todo momento a odisseia aventureira da história americana por meio de uma arte que é apenas um lado da mesma aventura, o faroeste pertence tanto ao universo da seriedade quanto ao do lúdico, e um sempre permanece como condição do outro. Daí sua popularidade na América que se reflete na abundância de produções televisivas. Daí para o espectador europeu a sua sedução particular. Encontramos no western a possibilidade da aventura, da aposta na qual a história é construída, é claro, mas a qual, no momento do jogo, possui o extraordinário fascínio da ação pessoal. É como funcionários do negativo que cedemos ao poder dessas epopéias por nós consideradas milagrosas, onde um homem, submetido a um código que ele conhece ainda melhor por ter ajudado a estabelecê-lo, assegura a verdade do universo pela pura realidade de sua ação. Esse é o grande jogo, histórico e filmado, um grande jogo porque é um jogo de risco natural que constrói e interpreta a realidade imediata em sua totalidade. Os americanos, penso eu, já sentem isso como um arrependimento, porque em certo sentido, para eles também, a aventura de fato acabou, e nós, do fundo de nossos velhos países, sentimos o sonho completamente ilusório de uma juventude histórica e individual que nos parece imemorial, e que sempre tornará a América um pouco distante em sua ingenuidade tão bela e perigosa.

Le grand jeu foi originalmente publicado em BELLOUR, Raymond (Org.) Le western: Approches - Mythologies - Auteurs – Acteurs – Filmographies. Paris Gallimard, 1993 (pp.7-17). Tradução: Ezequiel Antônio da Silva Stroisch.

Condutoras de emoção

Por Victor Cardozo

Aqui está. Não esquecerei nunca. As mãos de Shelley Fisher. O perfil sombreado e sereno do pianista, sua voz em perfeito acordo com o piano. Ele toca uma canção, mas não é uma canção qualquer. É um transbordar emocional, tão mais desconcertante por vir de uma figura assim contida. Uma canção onde cabem todos os sonhos de amor e bem querer do mundo, sem que nenhuma decepção seja esquecida. Um contraplano nos mostra que ele está tocando seu piano em um restaurante finlandês, regido pelos olhos resolutos de Kati Outinen. Estamos em 1996. A Finlândia se recupera de uma crise econômica severa e das consequências do fim da União Soviética. Os atores de Kaurismaki, tantos rostos estóicos e fluentes no humor que seu cinema nos ensinou a reconhecer e se afeiçoar. Eles envelhecem, bebem, trabalham, sobrevivem. Impreterivelmente, fazem isso mais juntos do que sozinhos, com tácita solidariedade. Nessa Finlândia de cinema, ser contido é elemento estruturante de uma poética, é uma postura existencial, mas é também uma questão de pragmatismo. Por isso mesmo, seus gestos de apreço e a tenacidade do seu vínculo uns com os outros não falham em comover.

Também não devo esquecer tão cedo de Hideko Takamine, entre a adolescência e a maioridade, afinando seu ofício. O ano é 1941. A Segunda Guerra Mundial segue. A ordem do dia no cinema japonês são filmes que exaltam valores patrióticos do Japão sob o culto do imperador Hirohito. Mikio Naruse, nessa altura já um veterano com 11 anos de carreira como diretor, faz comédias e melodramas populares. Trabalharia com Takamine quase até seus últimos anos. O último filme dessa fértil parceria, Midareru (1964), como tantos outros, merecia páginas sem fim para uma tentativa minimamente decente de descrever suas riquezas. Mas aqui, estamos no começo. É preciso dizer também que esse encontro acontece pela primeira vez quando Takamine já tinha também um considerável trabalho (e celebridade) como atriz infantil, já era uma estrela. Não é por acidente que o filme leva seu nome ao invés do nome da sua personagem: Okoma. A tímida cobradora, do alto de seus 17 anos, por lealdade ou senso de autonomia, se inspira a tentar salvar a precária companhia de ônibus onde trabalha. Para isso, quer tornar-se uma “condutora”, isto é, uma guia que descreve os lugares notáveis do trajeto das antigas paisagens de Kofu e sua história para os passageiros entediados. A história do seu aprendizado se entrecruza com a história de sua amizade com o colega motorista e o escritor que escreve o seu roteiro. Entra também no caminho das práticas nada honestas do proprietário da companhia. Okoma precisa aprender a transmitir emoção nas palavras e nos gestos sem perder de vista as contingências materiais e espaciais do seu papel (abrir e fechar portas, acompanhar paradas do itinerário, recolher ingressos e pagamentos). Vemos o seu desabrochar de intérprete, em obstinada contradição aos imperativos materiais e ideológicos do contexto que a cerca.

O que une esses filmes, lugares, artistas e momentos tão aparentemente distantes é em primeiro lugar o seu caráter de exceção. Diante de contextos bastante sufocantes, são filmes que têm a audácia de reclamar para si alguma leveza e autonomia em meio a precariedade e exaustão imposta a corpos, máquinas e lugares. São testemunhos também de cinema como trabalho modesto e paciente, no qual a graça vai sendo construída um pedaço por vez, no qual as condições materiais da produção são encaradas com a liberdade dada justamente pela repetição e pelas restrições. Há uma solidariedade comum entre os trabalhadores da ficção e os trabalhadores do real.

São, sobretudo, filmes construídos em volta de atrizes, Hideko Takamine e Kati Outinen. No encontro entre melodrama e comédia, essas duas condutoras de emoção que vão encontrando beleza, humor e significado no gesto mais discreto e fazem dele uma epifania. Evocam uma utopia possível no âmago da desolação.

Make a world that’s peaceful
And everyone is free
Send it to my baby
Tell her it came from me

A liberdade total


Por Leodoro Camilo-Fernandes

a) Estamos no inferno: diabos na forja, diabos num cartório, diabos no forno: diabos que trabalham, diabos que brincam. Surge um táxi e dele escorrega uma fileira de animais: patos, galinhas, gansos, cabras, cães, ovelhas + dois homens. Um sujeito cai, um buraco se abre: petróleo! Um sopro bem dado, um fumacê danado: táxi destruído! Alô, projecionista! Volta a fita!

b) Estamos em Paris: do topo dum prédio haussmanniano, desce a câmera até parar num rosto de mulher loira que nos olha — que já nos olhava: antes que soubéssemos que estava ali, ela já nos olhava. É uma esquina movimentada: gente vai, carros passam, gente vem. E a loira nos olha, e a loira nos sorri: brinca e se maquia. Os passantes não entendem: não sabem se olham para a mulher ou se olham para a câmera.


Apesar de cenários tão diferentes entre si (e aqui deixa claro o autor que não interdita — pelo contrário: endossa — associações espirituosas entre o inferno e Paris) e de tempos narrativos tão aparentemente divergentes, o que salta da tela, em ambos os casos, é a mesma entidade: a liberdade.

A) LIBERDADE: O DESCARAMENTO

De 1941, fruto da Universal Pictures, é o Hellzapoppin’ (o Pandemônio, título em português que recebeu; Um estouro de inferno, como eu gostaria que se chamasse): originalmente um espetáculo de revista da dupla Olsen e Johnson, chega ao cinema pelas mãos de um grande estúdio. Piadas, esquetes, danças, malabarismos: no pandemônio a liberdade é calculada. 1) Uma queda 2) abre um buraco 3) que libera o jorro de petróleo. Ou: 1) a câmera acompanha Olsen e Johnson, 2) vê uma mulher bonita perto da piscina e nela se demora: 3) os dois percebem que a câmera não os acompanha mais e chamam-lhe a atenção para que ela siga em seu movimento original, como já fora ensaiado: como manda o script.

A dupla aqui (em constante brincadeira com o tempo — música, piada — e o espaço — palco, plano) quer se livrar da narrativa: do roteiro. “Todo filme precisa de uma história! Nunca houve um filme sem história!”, afirma o diretor do filme dentro do filme já anunciando qual será o inimigo principal desse pandemônio: a noção de uma história bem-estruturada. Rocambole que se enrola e se desenrola constantemente durante seus 80 minutos de duração, é um estouro de inferno para todo mundo que compunha a intelligentsia da época: o Rosebud do Orson Welles, as coreografias do Busby Berkeley e o universo temático dos musicais de Astaire e Rogers tampouco escapam da mira hellzapoppiniana — This is Hollywood, we change everything in here: o mote, dito como ameaça logo no início do filme, é usado neste pandemônio a favor de seus próprios intentos: como sempre na comédia, o sujeito que recebe uma rasteira vai passar a perna em quem o sacaneou.

B) LIBERDADE: A AUTONOMIA

Um cartaz escrito à mão anuncia que o filme a seguir é ganhador do grande prêmio no festival de Toulon em 1974. Tela preta: uma voz masculina, de espanhol que tem o francês como língua adicional, lê os créditos. Começam as intrigas de Sylvia Couski. Ou não: até que Sylvia e seus planos astutos surjam na tela ou sequer sejam mencionados, o filme já nos terá levado a uma praça parisiense para que sentássemos e trocássemos olhares, já nos terá feito admirar a loira que já nos admirava, já nos terá mostrado o jogo de sedução (cores, texturas) entre uma travesti e um sujeito deambulador. Num constante vai-e-vem/acelera-e-freia narrativo, Arrieta opera como Sterne no Tristram Shandy (Pandemônio avant la lettre): o que torna único um relato não é o êxito duma mera cronologia plena, mas sobretudo o controle das durações.



Todavia não se deixe enganar pelo que acaba de ler: Les intrigues não se trata de um elogio ao rigor da mão pesada do autor, muito pelo contrário — vejamos a própria tramoia de Sylvia Couski: ela quer que seu novo namorado invada o ateliê de seu ex-marido, escultor em processo de montagem de uma exposição, e roube a sua principal escultura a fim de que o artista precise exibir em seu lugar a modelo que deu origem à obra (a loira que antes já vimos atravessar a rua, provocar a câmera, perturbar o trânsito): a troca de uma escultura (visão estilizada da realidade filtrada pela sensibilidade do criador) pela exibição da mulher cujos traços lhe são a gênese (a objetividade da beleza sem o filtro do artista).

= LIVRE: SOLTO

A ficção                       é testemunha de seu tempo

               liberta!

                           absolvida!

               quando os corpos dos atores
               testemunham o chão que pisam


— mesmo que não tivéssemos James Stewart ou Grace Kelly
ainda assim teríamos uma Janela indiscreta

Silvia Prieto (Martín Rejtman, 1999), as palavras e as coisas



Por Paula Mermelstein

São muitas as vezes que ouvimos o nome da protagonista de Silvia Prieto, Silvia Prieto. Logo perceberemos que a repetição trata-se não de um estudo acerca de sua protagonista, mas do nome que a precede; o filme parece ser menos sobre a pessoa Silvia Prieto (Rosario Bléfari) do que sobre o “dar nome às coisas”. Afinal, como descobrimos junto com Silvia ao longo da trama, ela não é a única Silvia Prieto existente. E este princípio, de que as palavras vem antes das coisas, parece ditar o modus operandi do filme.

Não há qualquer preocupação em um aprofundamento das personagens, formadas por um amontado de informações e detalhes superficiais. Chamar de indiferença soa frio demais, mas há um desprendimento de ordem mais leve em Silvia Prieto, tanto no que diz respeito a cada indivíduo ali representado, quanto às suas relações intercambiáveis. As personagens são introduzidas por meio destas relações entremeadas: Silvia começa a namorar o ex-marido de Brite uma vez que a mesma começa a namorar o seu - sem qualquer ressentimento de nenhuma das partes, pelo contrário, por sugestão da própria Brite.

Com esta mesma leveza se dá este tratamento bidimensional das personagens. Achatadas, assim, figuras e palavras equivalem-se em peso e podem permutar quase indistintamente; com ênfase, aqui, no “quase”, pois se para o filme estas trocas acontecem com leveza, é justo de sua estranheza para o espectador que emerge o sentido cômico. Se em dado momento descobrimos que existe mais de uma Silvia Prieto, o mesmo acontece com a palavra “ex-marido”, que inicialmente se refere ao ex de Silvia, Marcelo Echegoyen (Marcelo Zanelli), mas logo é também repetidas vezes proferida por Brite (Valeria Bertuccelli), em referência ao seu próprio ex, Gabriel Rossi (Vicentico). Brite, por sua vez, é simplesmente chamada pelo mesmo nome da marca para a qual trabalha distribuindo amostras de sabão em pó.

O mesmo vale para a palavra “abajur”. A princípio, surge a partir do objeto, um abajur feito de garrafa por Silvia para presentear sua xará. Logo, descobrimos haver sido o apelido de Gabriel nos tempos de escola. Sem o motivo por trás da brincadeira nunca ser explicitado, uma vez que a palavra se desprende do objeto e associa-se ao personagem, irá gradualmente se proliferando nesta rede de trocas do filme, para o desespero do ex-marido de Brite, cada vez mais incomodado com sua menção.

Há ainda um terceiro casal, Martha e Mário, que não entra no troca-troca e, como o abajur, adentrará a trama aos poucos. Sua primeira aparição se dá em um programa de televisão, voltado ao casamento dos participantes até então desconhecidos entre si. Primeiro vemos Martha descrever seu homem ideal, e depois são apresentados seus pretendentes, dentre os quais se encontra Mário, quem Marcelo reconhece da escola. Nas próximas aparições de Mário, em carne e osso, ele já estará noivo, ainda que não pareça se dar muito bem com Martha, que continua repetindo suas expectativas para um homem ideal. A palavra não apenas dá início a este encontro amoroso mas continua pairando sobre o casal, como uma assombração.

O signo mais emblemático desta rede de trocas é provavelmente o paletó da Armani. Quando Silvia viaja a Mar del Plata, encontra um homem em um café que lhe encobre com seu paletó, “um Armani”, por conta do frio. Silvia volta à Buenos Aires com o paletó, o qual o homem tenta repetidas vezes recuperar ligando para ela. Em dado momento, Silvia dá o casaco para Gabriel, que acaba o vendendo para Marcelo por 75 pesos. Por fim, Marcelo o veste em um jantar com Brite, onde o dono original do Armani o encontra, mas para reavê-lo deverá pagar 100 pesos.

O valor que o paletó adquire em sua jornada de mão em mão é arbitrário e circunstancial; não há um fio condutor guiando Silvia Prieto, mas objetos, nomes e personagens se chocando. Enquanto a personagem de Brite ganha nome de marca, o paletó, que passa a ser referido simplesmente como Armani, ganha nome de gente. A atenção do filme não se volta para nenhum grande sentido, mas para os pequenos detalhes: as Silvias Prietos, os ex-maridos, os abajures, os paletós Armani, as amostras de sabão em pó Brite.

"Meus Queridos Espiões" (Vladimir Léon, 2020)

Por Gabriel Linhares Falcão

Para além da máxima “todo documentário é uma ficção”, podemos nos aprofundar e perceber que alguns verbos intrínsecos a composição prática do documentar revelam componentes de ficção presentes na realidade (na vida, na mente, e onde mais quisermos ir). Investigar, rememorar, contar, narrar, apresentar, visitar, entrevistar, refletir são alguns exemplos de ação que nos remetem a necessidade de um interlocutor, que mesmo quando realizadas solitariamente, em pensamento, pressupõem um outro imaginário a receber essas ideias enquanto ouvinte ou até mesmo agente, formulando assim desejos ficcionais.

Vladimir Léon, já no início de Meus queridos espiões, revela, ao introduzir o filme, que espera encontrar os mistérios da família que excitam sua imaginação desde a infância. Narrador, protagonista e diretor francês do filme, decide abrir o baú sobre o passado de seus avós russos, deportados da França nos anos 1930 por suspeita de “atividade política perigosa”. Eram eles espiões soviéticos? A memória da família não responde essa pergunta. Documentos, cartas e fotos, não clareiam em nada a história, mas foram deixados em uma mala organizada pela família como se demandassem uma investigação futura. Pelo menos este é o sentimento de Vladimir, que convida seu irmão Pierre Léon, cineasta ficcionista de marca maior, para dividir e comungar junto com ele os papeis de protagonista e condutor, ajudando na atividade documental do irmão-diretor nunca presa a esquemas fáceis de classificação.

No caso de Meus queridos espiões, investiguemos as indicações concisas já presentes no título: a troca de cartas e a espionagem. Da primeira, ficamos com o contar, comunicar, esconder, inventar, relatar, registrar. Claro, é necessário aqui o tal interlocutor imaginário, que assume no processo de escrita o papel do referido destinatário distante. Do segundo, ficamos com o observar, aproximar, investigar, descobrir, falsear, revelar, além dos verbos presentes já na primeira parte, utilizados agora a serviço de um poder ou ideal maior. Claro, é necessário aqui que o interlocutor não perceba o espião por completo, para que assim algo passe despercebido.

Os irmãos partem de uma dúvida acerca de seus avós, e já na primeira conversa com os amigos franceses alguns questionamentos ramificados escapam de suas palavras enquanto certeza, por impulso ficcional. “Você agora está afirmando?”, Léon questiona o outro Léon. Com a dúvida e o impulso debaixo dos braços, seguem em jornada para a Rússia em busca de arquivos, conhecidos, locais e histórias, almejando antes de tudo a verdadeira reposta.

Os entrevistados confirmam o nevoeiro cultural a respeito dos passados de suas famílias. A lição difundida no período stalinista em que era melhor não investigar suas origens ecoa até hoje. Prisões, exílios e mortes têm justificativas imprecisas e duvidosas. A Rússia se apresenta receptiva, porém impenetrável, tão clara quanto vigilante. Em poucos dias, a dupla é apresentada na TV local, Pierre é entrevistado inofensivamente e conta mais sobre sua família e o projeto do filme francês. Se havia da parte dos irmãos alguma pretensão espiã ficcional em sua empreitada, esta foi por água abaixo. Suas caras estão estampadas publicamente. Esta abordagem por parte da televisão, seria uma receptividade planejada para que algo passe despercebido? Uma aproximação para se observar mais de perto? Por que um filme independente ganha tanto destaque?

Os órgãos estatais como a sede da antiga KGB e a Direção Geral de Segurança Nacional em pouco ou nada ajudam. É subentendida nas respostas uma queima de arquivo. Memoriais que investigam o horror do período stalinista e defendem os direitos humanos na Rússia são qualificados como “agentes estrangeiros” por Vladimir Putin por conta de seus financiamentos internacionais, termo que remete à Guerra Fria. Após uma série de tentativas inconclusas de adentrar um passado blindado, os dois irmãos parecem ser aos poucos e transparentemente qualificados pelo Estado ao papel de espiões. Aqueles que querem saber demais. Civis inquietos. O pessoal é negado pela política. Por motivos de força maior, o filme é constantemente relegado à categoria de ficção, para que a espionagem dos avós pareça uma invenção dos netos, agora “agentes estrangeiros”. Os irmãos Léon precisam, por fim, ir contra seu impulso inicial, esquecer os desejos ficcionais da imaginação excitada e seguir com aquilo que se torna sua maior força enquanto cineastas: o documental. Mesmo que cada vez mais longe da verdade por trás de suas linhagens.