O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

Sobre "Silenzio"




Por Christian Merlhiot

Há muito tempo eu me interesso pelos dispositivos de mise en scène da linguagem. O que é dito não me compete, são citações, empréstimos. O primeiro dispositivo que eu explorei em Les semeurs de peste era muito simples: repetir, lendo, o texto de um processo que marcou época na História italiana. Depois desse filme eu me inspirei em outros dispositivos para fazer falar a língua, fazer surgir um eco ou uma distorção que venha confundir seu sentido. Eu modifiquei a voz, criei entonações, joguei com a articulação, os sotaques estrangeiros, acumulei as traduções, em suma, eu considerei diferentes modos de transporte do discurso me empenhando sempre em extrair dele um sentido menor e subjacente.

Silenzio se situa na continuidade desses filmes porque ele interroga a opacidade e a brancura da língua até no seu mutismo. É preciso entender que esse silêncio não é uma ausência de linguagem mas que, ao contrário, ele multiplica as possibilidades de enunciados e desloca as formas de comunicação. Sem outro ponto de apoio sobre as palavras além de sua entonação e sua musicalidade, os gestos dos personagens liberam subitamente uma sensualidade discreta e às vezes erótica, alhures submergida pelo fluxo do discurso.

A afirmação do sentido me interessa menos que a forma de o pôr em crise, de o fazer vacilar. A linguagem é autoritária, mas ela é também muito vulnerável, um nada provoca a gagueira e engendra novas perspectivas narrativas. Nesse sentido, mesmo um filme sem diálogo articulado como Silenzio é um filme sobre a língua. O questionamento foi apenas deslocado para o seu espaço tátil, para a repetição das palavras, a entonação que as acompanha, para o gesto que as sustenta, as antecipa ou as segue... Enfim, tudo que é necessário para acompanhar uma palavra perdida numa língua estrangeira.

Mas Silenzio é sem dúvida o último a questionar essa alteridade absoluta na qual o outro não tem lugar. Dois personagens ganham corpo longe dos espaços urbanos. Eles abandonam uma cidade para se deixar, pouco a pouco, atingir pela paisagem. Essa troca nos confins da língua só é possível graças à emergência da paisagem. Tudo o que se enuncia numa simples co-presença dos personagens atesta sua experiência comum. Que eles observem um vulcão adormecido, sejam testemunhas da fúria do mar ou atravessem a brancura de uma floresta enevoada, eles registram esses eventos como o bem comum que a partir de agora os aproxima. A paisagem age como ator no filme. Me parece, além disso, que para interrogar a paisagem, um filme só pode renunciar à palavra. Como se uma fosse a reserva da outra e como se elas absorvessem uma à outra. Podemos falar de uma paisagem ausente mas falar diante de uma paisagem é falar diante de um cenário. É preciso que um dos dois esteja ausente para reabsorver a distância entre o espaço e as palavras.

A propos de "Silenzio" compõe o material de imprensa do filme, lançado em 2005. Tradução: Miguel Haoni.

Tony e Theo


Por David Bordwell

Em janeiro de 2012, enquanto filmava O outro mar, Theo Angelopoulos foi atingido por um motociclista e morreu logo depois. Em agosto, Tony Scott cometeu suicídio pulando da ponte Vincent Thomas, em Los Angeles.

Os dois homens foram importantes para o cinema. Mas qual cinema?

De 1970 em diante, Angelopoulos produziu filmes solenes sobre a história Grega, a guerra mundial, a emigração e o colapso das lutas por mudanças políticas. Sua marca registrada era o extenso – alguns diziam excruciante – plano-sequência. Ele apresentou seu trabalho como o de um intelectual atencioso e apaixonado, uma testemunha da história (ou como ele dizia às vezes, História) que estava nos contando verdades duras e melancólicas. Seu trabalho recebeu pouca distribuição no circuito comercial fora da Europa e do Japão, e alguns de seus melhores filmes não circularam fora das salas ou em vídeo. Severo e abrasivo, ele alienou membros poderosos da cultura cinematográfica e foi relatado que ele reagiu amargamente quando não ganhou o prêmio principal de Cannes.

Por contraste, depois de Top Gun: ases indomáveis (1986), Tony Scott veio a se tornar o protótipo do diretor explosivo de Hollywood, um mestre dos blockbusters de ação. Ele dirigiu e organizou alegremente uma técnica visceral para sacudir os olhos e martelar os ouvidos. Seus filmes eram descaradas pilantragens, destacando a beleza feminina num tom de camaradagem masculina em ambientes exclusivamente masculinos (esportes, o exército, os locais de trabalho). Não por falta de inteligência, ele evitou os pronunciamentos arrebatadores que faziam Angelopoulos parecer pretensioso, mas sua parceria inicial com Simpson e Bruckheimer o classificou como ruidosamente vulgar. Ele até mesmo namorou Brigitte Nielsen.

Os extremos se encontram


O escultural contra o cinético, o monumental contra o efêmero, a ponderação contra o flash ordinário: Para todas as aparências, esses dois homens viviam em mundos cinematográficos diferentes. Suas carreiras também foram estranhamente contrapostas. Angelopoulos, um querido dos festivais nos anos 1970 e 1980, tornou-se mais antiquado. Na época de sua última estreia, Trilogia II: A poeira do tempo (2009), alguns críticos foram abertamente desdenhosos. Scott enfrentou zombarias desde o início, mas alcançou algum respeito com a crítica nos anos 2000. Depois de sua morte, os críticos referiam-se a ele como um mestre. Para muitos, a teimosa fidelidade de Angelopoulos ao modernismo dos anos 1970 parecia defasada, enquanto a corporeidade e a bela superficialidade da imagem de Scott pareciam finalmente ter seduzido tanto a audiência quanto os críticos.

Eu confesso que ambos me enchem de escrúpulos. Quando Angelopoulos força a significação, como ele faz em muitos momentos ao longo de sua obra e quase o tempo todo em Trilogia II: A poeira do tempo, ele desperta toda a minha impaciência com o Eurocinema pretensioso. Quando Scott constrói uma cena em cima do diálogo foda-se-seu-filho-da-puta, e persistentes imagens de dançarinas de pole dance, ele me lembra o quão baixo o cinema contemporâneo americano pode afundar. E o estilo de cada um pode se tornar previsível – um plano angulado descendo uma rua que prevê uma panorâmica em Angelopoulos, enquanto uma vez que alguém senta em um filme de Scott, a câmera provavelmente vai começar a girar.

Apesar destas reservas, eu acredito que posso admirar e desfrutar muito dos filmes desses dois homens. Seus trabalhos mais ousados nos oferecem experiencias poderosas, e eles podem nos ensinar sobre o cinema – sobretudo, como cineastas criativos podem retrabalhar o meio e suas tradições históricas.

E os seus mundos se sobrepõem, pelo menos um pouco. Ambos tratam o cinema como uma arte da escala. Para ver Chamas da vingança (2004) ou Alexandre, o Grande (1981) em casa, não importa o quão grande seja o seu monitor, significa reduzir fatalmente os filmes. De maneira correspondente, ambos dependiam do espetáculo, enchendo a tela com efeitos arrebatadores e surpreendentes. É verdade que o espetáculo de Scott é maximalista, enquanto o de Angelopoulos é austero. Contudo, uma vez que você calibrou a sua frequência, o trem que ruge através do campo de migrantes em Trilogia: O Vale dos Lamentos (2004) torna-se tão barulhento quanto a locomotiva rebelde de Incontrolável (2010). “É tudo ou nada” poderia ser o lema de cada um desses homens.

Os dois jogam com a narrativa também. Desde Fome de viver (1983) a incessante montagem paralela de Scott utiliza a trilha sonora como uma linha de ação para comentar na outra. O looping temporal de Domino: A caçadora de recompensas (2005) e Déja vu (2008) criam flashbacks, replays, resultados revisados e pontos de vista que alternam-se. De maneira mais calma, Angelopoulos aperfeiçoou a elipse temporal durante um plano-sequência. Os movimentos de câmera de A viagem dos comediantes (1975) deslizam entre diferentes eras. Cena a cena, Angelopoulos providenciará algumas marcas de tensão. A cena B pode seguir a A, ou precedê-la em muitos anos, e nenhuma sobreposição de título hollywoodiana vai nos ajudar. Pode ser que muitos minutos se passem até nós percebermos que décadas se passaram.

No entanto, o embaralhamento do tempo que ambos os diretores gostam não está completamente a serviço do drama. A narração assume um papel curiosamente subsidiário em seus trabalhos. Nenhum dos cineastas, ao que me parece, está interessados em investigar o que muitos de nós consideram ser o cerne da narrativa - a psicologia dos personagens. Isso não quer dizer que não existam momentos comoventes e vislumbres de vidas interiores. Mas cada um dos diretores também vai além deles.

Eu acho que, de fato, Tony e Theo exploram o que acontece quando a narrativa desliza pra longe, quando é permitido às texturas e padrões cinematográficos sobreporem o drama – para inflá-lo, esvaziá-lo, empurrá-lo para um lado, tomá-lo como pretexto para algo mais tangivelmente cativante. Os dois cineastas procuram esculpir a nossa percepção e as nossas emoções, permitindo que as flutuações de imagens e sons engendrem nelas mesmas uma espécie de mesmerismo.

E eles alcançam isso através de duas tradições diferentes, a de uma Hollywood moderna e a de um “cinema de arte.” No entanto, eles compartilham o compromisso de ir além do provável: cada diretor empurra a sua tradição a um limite.

Pulp Fictions
 
A tradição de Scott é, mais amplamente, a do cinema narrativo hollywoodiano, e até certo ponto ele joga com isso. As tramas são impulsionadas por personagens que perseguem um objetivo e que colidem com outros, e o resultado são disputas (Top Gun: ases indomáveis, Dias de trovão, 1990) investigações (Um tira da pesada 2, 1987; Chamas da vingança, Deja vu) perseguições e conspirações (Vingança, 1990; O último boy scout, 1991; Amor à queima-roupa, 1993; Estranha obsessão, 1996, Inimigo do Estado, 1998; Jogo de espiões, 2001; Domino: A caçadora de recompensas) e situações de suspense que lutam contra o tempo (Maré vermelha, 1995; O sequestro do metrô 123, 2009; Incontrolável).

No centro geralmente está um homem, ou uma dupla, que deve se submeter a um teste de coragem e desenvoltura. Em Estranha obsessão, um exemplo do que Kristin [Thompson] chamou de filme de protagonista paralelo, um cara normal encontra-se perseguido por um admirador obcecado. Uma mulher pode servir como uma parceira corajosa, como em Amor à queima-roupa, ou o objeto de uma missão (Vingança, Jogo de espiões), ou a recompensa pelo sucesso (O último boy scout, Incontrolável). Apenas Domino: A caçadora de recompensas tem uma protagonista feminina que sobrevive sendo tão abrasiva, mente suja e desbocada quanto seus parceiros e adversários masculinos. Entretanto, ela mesma admite ter problemas paternos e um desejo de retornar a uma riqueza confortável.

No fundo, então, Scott trabalhava diretamente com a literatura Pulp, e por cerca de uma década ele as interpretou com o espírito adequado. Mas com Inimigo do Estado (1998) ele começou a usar estratégias narrativas mais escorregadias, que se espalhavam pela Hollywood de sua época. Como Tarantino que forneceu o roteiro de Amor à queima-roupa, Scott se dispôs – inspirado, como ele sugere, pelo rock’n’roll e pelos filmes de Nicholas Roeg – a ser um pouco selvagem.

Seus roteiros começaram a brincar com o que costumamos chamar de ponto de vista. Alguns filmes tornaram-se marcadamente, para não dizer traumaticamente, subjetivos. Jogo de espiões divide a figura do protagonista em dois e nos dá o ponto de vista de cada um sobre a ação. Estranha obsessão, adaptado do ótimo livro de Peter Abraham, segue a obsessão de um homem na medida em que ela se torna mortal. Chamas da vingança, mergulha no mundo mental de John Crease enquanto ele destila dor, culpa, piedade e alcoolismo em um sadismo implacável.

Quando chegamos a Domino: A caçadora de recompensas, a apresentação da história é impiedosamente disjuntiva. A ação principal é delimitada por um enquadramento convencional que mostra a heroína contando a sua história para um policial. Uma coisa boa, também; nós não poderíamos seguir a ação sem os comentários dela. O conto fragmenta-se em rápidos displays de AV, com pausas, recuos e preenchimentos, desfechos alternativos e até mesmo títulos escritos, como se estivéssemos recebendo a conversa de PowerPoint mais agitada da história.

Uma outra multiplicação de perspectivas acontece por meio dos jogos de espionagem. A maior parte dos diretores, situa a técnica de vigilância moderna dentro do mundo da história; Paul Greengrass parece mais feliz filmando as pessoas curvadas sobre as estações de trabalho. Quando o seu diretor mediano te dá um plano arrebatador de helicóptero, você não o interpreta como o ponto de vista de uma sinistra agência governamental, ou como uma câmera de TV sensacionalista ao vivo. Nos filmes mais tardios de Scott você provavelmente interpretará desta forma. Ele percebeu que todas as câmeras de segurança, celulares e olhares hostis que estão no céu podem fazer duas coisas úteis. Elas podem cortar o tempo e o espaço da história em fragmentos provocantes, e podem também refrescar a textura visual do plano.

Por muito tempo, os filmes de Hollywood utilizaram a televisão para exposição. Personagens vislumbram o fluxo dos eventos da história através das transmissões da TV, e algumas vezes, como em Nova York sitiada (1998), o filme simplesmente corta-se em novos clipes apresentados diretamente a nós, sem qualquer personagem mediador. Passagens como essas, são um equivalente contemporâneo das manchetes de jornais e das transmissões de rádio do cinema de estúdio clássico, que geralmente suavizam o enredo, ligando os fatos de forma concisa.

Mas Scott sempre tem prazer em enfatizar as disparidades entre as filmagens, cortando de uma apresentação “direta” do material para imagens e sons mediados. Nos filmes de conspiração, as imagens de vídeo parecem vir de um vasto banco de imagens ou base de dados, que o filme está sampleando em tempo real. Além disso, a constante interrupção de um plano por outro, vistos em um computador, ou na transmissão de um noticiário, ou numa câmera espiã, cria uma nervosa narração visual. Na verdade, Scott importa as colagens bagunçadas do filme de Stone, JFK (1991), para dentro do filme de ação (com mais habilidade do que a que Stone reuniu para Assassinos por natureza de 1994 e Reviravolta de 1997)

No nível de apresentação, entretanto, uma tradição mais demarcada, esculpe o estilo de Scott. Em entrevistas e comentários do diretor, ele nos lembra incansavelmente que começou como pintor e eu penso que ele trouxe uma inteligência fresca e pictórica para os filmes de ação.

Muito não é suficiente

Como Michael Mann, Scott parece ter sentido a necessidade de dar ao filme de ação uma dose autoconsciente de arte. O problema era a competição. O padrão ouro do gênero surgiu em 1988 com o classicismo equilibrado e bem tecido de Duro de matar de John McTiernan. Como um diretor ambicioso ia se igualar a isso? Muitos diretores estavam abraçando variantes de um estilo que apelidei de “continuidade intensificada” – cortes rápidos, encenação simples, variações extremas de distâncias focais, movimento de câmera quase constante. Os eficientes, mas rotineiros, trabalhos de Richard Donner e Renny Harlin seguiam ao longo dessas linhas, enquanto Michael Bay representava o estilo de forma quase imaculada. Mas e se um diretor que havia treinado como pintor na Royal College of Art, pudesse levar a continuidade intensificada para um novo território?

Então sim, siga a tendência do corte rápido; mas corte-o ainda mais rápido. Em uma era em que a média de duração de um plano é de 3 a 5 segundos, porque não os fazer em 2 segundos? Ou menos? Essa foi a escolha de Scott a partir de Estranha obsessão (1996). Ele raramente repete uma configuração, principalmente porque ele tem inúmeras câmeras estacionadas no perímetro da cena. Chamas da vingança contém pelo menos 4100 planos, Domino: A caçadora de recompensas mais de 5000, mas talvez nós nunca saberemos quantos exatamente. Passagens longas foram construídas em múltiplas exposições, sobreposições, stop-and-go motion, e as cores transformam-se dentro de um mesmo “plano.” O corte deixa de ser um limite firme, conforme as camadas flutuam e escapam.


Às vezes Scott, como Vertov em Um homem com uma câmera e Pat O’Neill em Power and water, simplesmente abandona o conceito de um plano discreto, deixando as imagens escorrerem pelo seu quadro.

E sim, mova a câmera, mas mova-a em arabescos, bem diferente dos despreocupados planos consecutivos e travellings tensos de McTiernan. Em particular, considere a câmera giratória como algo dado, mas então gire o sujeito um pouco também. O corte de uma rotação para a outra pode render um pequeno balé de solidez escultural, com barreiras deslizando em primeiro plano e explosões de valores tonais por toda parte. Aqui está um exemplo de Incontrolável.




Nos filmes de 1980 e início dos anos 1990, Scott misturou a névoa com a nitidez. Algumas cenas seriam filmadas em tons metálicos ou terrosos e envoltos nessas camadas esfumaçadas que o irmão Ridley tinha popularizado em Blade Runner: O caçador de androides. Outras cenas exibiriam silhuetas, contornos nítidos e blocos de cores brilhantes. Considere essas imagens de Vingança, O último boy scout (2 fotogramas) e Amor à queima-roupa.


Todos os enquadramentos – plano geral, plano médio, close-up tendem a ser cobertos por inúmeras câmeras com lentes muito longas de grande distância focal, que achatam e abstraem a imagem. Mais tarde, tendo descoberto o poder do processamento cruzado de filme reversível, Scott desistiu, na maior parte das vezes, da névoa pelo que ele chamou de hiper-realismo: alto contraste, junto com a maturação de cores Hockneysianas e regiões de sombras espessas, mas ainda transparentes.


Scott acrescenta aos cânones da continuidade intensificada o soco do corte axial, aquela mudança de plano que puxa as figuras para perto ou para longe de nós (um efeito que seus últimos filmes imitaram através dos zooms instantâneos). Combinados com as lentes de longo alcance, posicionadas em várias distancias, essa opção cria uma sensação constante de perda e reencontro do ponto do plano. Enquanto Connie gira durante um trecho posterior da cena em Incontrolável, o corte axial com diferentes planos de fundo a imobiliza contra vários blocos de cores.


Os críticos reclamaram que o estilo de Scott lembrava-os de vídeos e comerciais da MTV, muitos dos quais os irmãos Scott produziram. Mas não há nada de intrinsecamente errado em cineastas se inspirando na publicidade (pintores como Warhol e Stuart Davis o fizeram) ou em videoclipes (como Wong Kar-wai parece ter feito). O que importa é o que você faz com as suas fontes. Parece claro que Scott submeteu essas técnicas a uma nova pressão, usando-as para impulsionar as normas atuais à novos extremos

A continuidade intensificada, como eu discuti em The way hollywood tells it, oferece uma versão maneirista da continuidade clássica. Se isso está correto, nós poderíamos dizer então que Scott fornece uma variante rococó da continuidade intensificada em si. Michael Mann, outro pictorialista, é mais um purista, buscando uma gravidade sóbria, enquanto Scott rabisca e escrevinha sobre a superfície de suas cenas. Ele não apenas interpõe reflexos, chuva, poeira e outras partículas entre seus temas e nós, mas também reitera linhas de diálogo por meio de títulos sobrepostos.


Mann nos permite absorver suas imagens, mas Scott joga fora uma composição deslumbrante depois da outra em uma profusão desconcertante. Nos filmes tardios mais acelerados, elas quase não têm tempo de se registrar. O filme parece desaparecer sob os nossos olhos. Os planos não têm um arco orgânico; eles são podados. Impressões parciais se acumulam, derrotando a nossa necessidade de habitar em uma composição. Algumas vezes você não pode confiar nos seus olhos. Durante a cena de sequestro de Chamas da vingança, um bandido se prepara para atirar de volta em Creasy enquanto uma explosão de chamas é refletida em seu carro.

O problema é que nada pegou fogo na cena; pela primeira vez, não há explosão. É puramente um choque louco, literatizando a ideia de um “tiroteio” sem qualquer motivação realista. 

Essas técnicas são motivadas, até certo ponto, pelas demandas da história: a necessidade de sugerir um estado mental, de retratar uma postura heroica, ou de potencializar uma briga ou uma perseguição. Mas o manuseio visual e auditivo de Scott excede as demandas de uma narrativa clara. Ele envolve a cena de diálogo mais superficial em um bordado deslumbrante que chama a atenção por si só. Mera decoração? Eu concordo. Ainda assim, a arte decorativa não é uma vocação indigna, e a decoração perseguida com convicção e inventividade exige a nossa atenção.

E esta decoração não é delicada. Domino: A caçadora de recompensas, Incontrolável, e a segunda metade de Chamas da vingança têm uma dimensão grunge, com planos que fazem o nosso mundo parecer ao mesmo tempo duro e deslumbrante. Scott poderia ser o nosso Sam Fuller (completo com o charuto), e Domino ser o seu O beijo amargo. Fuller pode ecoar o supervisor de Scott, que disse sobre Domino: Não é bonito, mas é belo.

Trenodia

De O nascimento de uma nação até Lincoln, os estúdios americanos de cinema, tendem a mostrar grandes eventos históricos que se entrelaçam com dramas privados de grandes líderes ou gente comum. Mas haviam outras opções. Os três primeiros filmes de Eisenstein – A greve, O Encouraçado Potemkin e Outubro – levantaram a possibilidade da “massa protagonista.” Nestes filmes, a história é feita por grupos, e os indivíduos recebem papéis em grande parte mais simbólicos. Durante a politizada década de 1960, esse modelo foi adotado por cineastas de esquerda.

O cineasta que explorou esta opção ao máximo foi o húngaro Miklós Jancsó. Embora seus filmes sejam pouco conhecidos hoje, ele era uma força maior no esforço de reviver a ideia de apresentar a história através de dinâmicas de grupo. Indivíduos interpretaram um papel em Os sem esperança (1965) Silêncio e clamor (1968) e O confronto (aka Os ventos da história, 1969) mas geralmente são desprovidos de psicologia individual. Essas figuras são definidas pelos seus papeis em uma luta – uma guerra civil, uma revolução, um embate com o regime dominante – e eles são frequentemente peões em um jogo de troca de poder.

Vermelhos e Brancos (1967), disponível em DVD, é um bom exemplo. Esta saga da Guerra Civil Russa que sucedeu a revolução de 1917 nos leva através das escaramuças entre exércitos em confronto, as táticas perseguidas por um esquadrão de voluntários húngaros e episódios em um posto da Cruz Vermelha. Os indivíduos vêm à tona por um breve período, mas são suscetíveis de desaparecer das cenas posteriores ou simplesmente morrerão na hora. Um jovem húngaro costura seu caminho através da ação, mas dificilmente ele pode ser visto como um personagem com um ponto de vista, e nós não aprendemos nada sobre o seu passado ou sobre os seus motivos. Uma grande parte do filme é tomada pelos rituais de interrogatórios de prisioneiros, tortura, execução dos cativos e destruição de inocentes pegos no fogo cruzado. No clímax, uma unidade vermelha esfarrapada, marcha desafiadoramente em direção a uma força branca superior, e todo o confronto se desenrola em uma paisagem estupenda.

Vermelhos e Brancos poderia defender a si mesmo contra as acusações de formalismo através da afinidade com os dramas de guerra de estilo soviético, mas conforme Jancsó foi em frente investigando os episódios da história húngara, ele logo desistiu do realismo. Ele encenou eventos históricos em formas simbólicas, em uma planície nua ou como rituais obscuros em festivais repletos de música e dança. Os exemplos são Agnus Dei (1972), e Salmo vermelho (1969, disponível em DVD). Esses filmes dependiam de travellings intermináveis, gruas e zooms; a câmera flutua, e o espaço se estende e se comprime. O resultado é uma extravagância de planos sequencias. Vermelhos e Brancos tem menos de duzentos planos; O confronto (1969) apenas trinco e cinto; Vento de inverno (1969) e Elektra, meu amor (1974, em DVD) menos de uma dúzia.

Parece-me que depois do primeiro filme de Angelopoulos, ele pegou e expandiu a ideia de Jancsó de investigar a história de uma nação através da dinâmica das massas e de um espetáculo despojado. Ele procedeu mais ou menos cronologicamente através da história moderna grega. Dias de 36 (1972) examina as regras ditatoriais do General Metaxas (1937-1941) enquanto A viagem dos comediantes de 1975 cobre a ocupação nazista e os conflitos civis do pós-guerra. Os caçadores (1977) revive os anos da guerra civil (1944-1949) até meados da década de 1960, por meio de um dispositivo narrativo: os caçadores atuais encontram o cadáver de um guerrilheiro civil, tão fresco como se morto ontem. Alexandre, o Grande (1980) retrocede a um período da virada do século até os anos 1930, mostrando um bandido tomando poder sobre um remoto vilarejo.

Essa tetralogia identificou indivíduos, mas os tornou símbolos de forças maiores, muitas vezes por meio de nomes retirados da história ou da mitologia. Os comediantes viajantes são nomeados de Electra, Orestes e similares; Alexandre, o bandido é uma versão bruta do lendário homônimo. Mesmo assim, a apresentação de Angelopoulos pouco fez para nos familiarizar com o interior deles. Ele não utilizou nenhum dos truques subjetivos de Scott para transmitir impressões ou fragmentos instantâneos de memória; até mesmo seus flashbacks, quase subjetivos, provavelmente incluiriam o protagonista como ele é hoje na cena do passado.

O cinema popular depende do nosso acesso aos pensamentos e sentimentos do personagem mas Angelopoulos, em grande parte, desistiu disso. Ele fez suas narrativas dependerem de forças políticas de larga escala. Algumas vezes, como em Dias de 36 e Os caçadores, somos levados aos bastidores e apresentados às maquinações do poder, mas geralmente a história se desenrola por meio de forças impessoais – muitas vezes fora do quadro. Quando os aparatos do poder se tornam visíveis, é através das visões de policiais, soldados, ou outras autoridades. E essas, frequentemente, são apresentadas como rígidas e impessoais.

Abaixo, em Um olhar a cada dia, uma marcha à luz de velas é confrontada por fileiras e mais fileiras de policiais. A maneira calma e mecânica com que os oficiais ocupam o espaço, torna o conflito iminente repleto de suspense. Quando você acha que a composição e o confronto esgotaram a duração e o espaço do plano, uma multidão de cidadãos aparece em primeiro plano para testemunhar. Todos os três grupos transformam-se em blocos homogêneos através do enquadramento distante e da consistência de texturas (velas tremeluzentes, uniformes, guarda-chuvas).


O drama vem quando os nossos personagens são forçados a responder às forças da opressão. Eles fogem, se escondem, ou são capturados e mandados à prisão, à execução ou ao exilio. É uma versão inglória da história, filtrada por uma crença brechtiana de que ao nos distanciar de situações carregadas, e apresentar as emoções de maneira seca em vez de melodramaticamente, pode trazer lucidez e uma compreensão macrodinâmica. Mas Angelopoulos também atribuiu as origens de seu estilo oblíquo, às vezes opaco, às pressões da censura. Sob a junta grega, era impossível falar diretamente sobre história.

Então eu procurei uma linguagem secreta. Uma compreensão tácita da história. O temps morts em tramar uma conspiração. O não dito. O discurso elíptico como princípio estético. Um filme em que tudo o que é importante acontece fora do quadro.

Mesmo depois da censura ter acabado, Angelopoulos continuou nessa veia taciturna, fazendo seus filmes minuciosamente descentrados e desdramatizados.

No entanto, na década de 1980, ele tentou oferecer mais ao público. Ele começou a inserir personagens distintos e individualizados como o centro de seus filmes, e ele realizou a sua inspeção sobre a mudança política enviando-os em odisseias modernas. Em Viagem a Citera (1983) um diretor de cinema está concebendo um novo projeto, e ele visualiza a história de um velho comunista libertado da prisão e que está retornando para o seu vilarejo. Em O apicultor (1985), um professor abandona a sua família e embarca em uma viagem por uma Grécia moderna desolada. Paisagem na neblina (1988) segue duas crianças convencidas de que seu pai imigrante está esperando por eles do outro lado da fronteira. Em O passo suspenso da cegonha (1991) um jornalista televisivo rastreia um politico importante que parece estar escondido em uma vila de refugiados.

Dois filmes dos anos 1990, investigam o passado dos personagens em mais detalhes. Um olhar a cada dia (1995) segue um arquivista (chamado simplesmente de A) que está em busca de um filme perdido, e da história de sua família nos Balcãs. Em A eternidade e um dia (1998), um poeta em seus últimos dias de vida, reflete sobre a sua vida enquanto acompanha um menino que está tentando retornar para a Albânia.

Nos anos 2000, Angelopoulos começou a pensar, novamente, em uma escala épica. Trilogia: O Vale dos Lamentos (2004) anunciou-se como a primeira parte de nada menos do que a história do século XX, contada através da experiência de uma única família. Concentrada em um casal de refugiados – um russo, o outro grego – eles definem seu romance fugitivo contra os eventos da Primeira Guerra Mundial, a ascensão do fascismo e da Guerra Civil Grega, enquanto sugere também paralelos com a tragédia Ática. A segunda parte, Trilogia II: A poeira do tempo (2009) é paralela a Viagem a Citera e Um olhar a cada dia, centrada em um cineasta, mas ele se torna menos central à narrativa do que o seu pai, sua mãe, e o amante de sua mãe – todos vítimas do comunismo soviético dos anos 1950, que sobreviveram para ver a queda do mudo de Berlim.

Durante esses anos, Angelopoulos colaborou com o roteirista italiano Tonino Guerra (que morreu cerca de dois meses depois do diretor). Guerra, que trabalhou com Antonioni, Fellini, os Taviani, e muitos outros diretores, talvez tenha ajudado Angelopoulos a virar em direção a uma narrativa menos proibitiva. Os protagonistas mais vividamente esboçados de seu trabalho mais tardio, eram frequentemente interpretados por atores bem estabelecidos (Mastrioanni, Moreau, Ganz, Keitel, Dafoe, Piccoli), e dois dos filmes giram em torno de crianças, uma forma comum de despertar emoções. As partituras de Eleni Karaindrou, cheias de trenodias crescentes de cordas concentradas, também deram aos filmes depois de Citera um calor plangente, reminiscentes das peças musicais lúgubres de Henryk Górecki e Arvo Pärt.

Ainda assim, esses últimos filmes, são apenas comparativamente mais acessíveis. Suas histórias soam desanimadas, episódicas, relativamente vazias do drama convencional, repletas de “tempos mortos,” elipses temporais não marcadas, e profundamente sombrias. O que quer dizer que elas pertencem à tradição mais abrangente do cinema de arte europeu do pós-guerra, suas normas dadas a uma nova compreensão por meio dos ecos da mitologia grega e de um estilo característico de rigor excepcional.

Estase e Sublimidade

No nível técnico, Angelopoulos emerge novamente como um sintetizador. Um admirador de Mizoguchi e Antonioni, e novamente, influenciado provavelmente por Jancsó, ele se tornou identificado com o plano-sequência. De A viagem dos comediantes em diante, as cenas são apresentadas em pouquíssimos planos, muitas vezes em um só. Três filmes da tetralogia contêm entre 125 e 150 planos, enquanto Os caçadores se contenta com 49. E a maior parte dos filmes são muito longos (dois deles com quase quatro horas), então a média de duração de um plano vai de 72 segundos (Dias de 36) à 206 segundos (Os caçadores). Conforme esses últimos filmes tornaram-se mais acessíveis, o ritmo de edição acelerou apenas um pouco: nenhum dos filmes tem mais de cem planos e em todos a média de duração do plano é de cinquenta segundos à dois minutos. Some todos os planos dos 13 longas metragens de Angelopoulos e você terá menos de um terço dos planos de um, digamos, Inimigo do Estado de Scott.

A maior parte dos cineastas de planos-sequencias, dimensionam o seu enquadramento em função da atividade humana; pense em Ophuls e Renoir, que capturavam gestos e reações conforme o tempo fluía pela imagem. Mas Angelopoulos combinou o plano-sequência, com o plano geral, colocando a paisagem no centro de seu trabalho. O plano incrível que extraí de Vermelhos e Brancos, acima, não é totalmente típico dos filmes de Jancsó, que tendem a ter muitos enquadramentos próximos e a preservar as vistas vastas para os momentos climáticos. Em contraste, Angelopoulos faz dos planos muito distantes seu modo padrão para exteriores, mesmo em momentos de grande drama: uma conversa em Os caçadores, uma morte em Alexandre, o Grande.


Existem poucos close-ups convencionais em seus filmes, e os planos médios, são frequentemente forçados em interiores totalmente construídos, tanto locações como cenários, como no fotograma abaixo de Trilogia: O Vale dos Lamentos. Mesmo então, a câmera frequentemente mantém sua distância, subordinando os personagens à arquitetura impessoal e fazendo seus encontros parecerem frágeis (O passo suspenso da cegonha).


Às vezes, o quadro resultante tem uma profundidade considerável, como com grupos reunidos em interiores (Os caçadores, abaixo). Mais incisivamente, uma cena horrível em Paisagem na neblina força, quase cruelmente, os nossos olhos de volta para a distância. Em cada plano, a ação mais importante é a mais distante da câmera.


Em outros momentos, o plano geral produz o que eu chamei de imagens planimétricas. Ainda existe uma quantidade razoável de profundidade, mas o plano é enquadrado perpendicular a um fundo liso, e as figuras são espalhadas em tiras ou camadas. Algumas imagens mostradas mais cedo na publicação de hoje fornecem exemplos, particularmente o desenvolvimento do confronto de rua em Um olhar a cada dia. Trilogia: O Vale dos Lamentos demonstra que esse princípio pode ser aplicado também a uma jangada e a barcos a remo.

Como Scott, Angelopoulos depende de lentes muito longas, mas ele segura o plano, para que o efeito de achatamento da lente crie um padrão que muda gradualmente.

Ambos os enquadramentos de profundidade e planimétricos foram explorados pelos cineastas europeus no fim dos anos 1960 e inicio dos anos 1970, mas Angelopoulos focou rigorosamente neles e juntou-os com as posições consistentemente distantes das câmeras. À medida em que a dramaturgia minimiza a psicologia individual, a escala dos planos transforma os indivíduos em figuras numa paisagem. O resultado costuma ser uma organização rítmica do quadro, um padrão de simetrias e geometrias abstratas (A viagem dos comediantes, Trilogia II: A poeira do tempo).


Nos filmes mais tardios, momentos de dramas pessoais são interpretados em planos não menos opacos e distantes. Em Viagem a Citera, a esposa do exilado vai em direção à sua velha cabana persuadi-lo a sair. Eles devem estar trocando olhares de compreensão, mas apenas na tela grande isso é visível.


Estes planos tão fixos são fascinantes o suficiente, mas como o cineasta pode dinamizá-los e preparar para eles? A resposta para Angelopoulos foi manter o quadro móvel. Ele recusa a varredura vertiginosa e o ritmo sedutor de Jancsó. Angelopoulos é severo. Como Scott, ele utilizará o zoom, mas as suas ampliações ou diminuições são majestosas, não em staccato. (Novamente, aquele plano de Vermelhos e Brancos pode ter sido um modelo inicial para ele.) No todo, seus enquadramentos móveis são tão austeros quanto as paletas de cores (tons metálicos e terrosos) e a iluminação (suave, muitas vezes claro-escuro, e geralmente com um céu monótono).

Os movimentos panorâmicos de sua câmera com personagens de passagem, algumas vezes permitindo que eles cheguem perto o suficiente para que nós possamos identificá-los ou capturar uma expressão; um travelling prolongado segue a esposa de Spyro na cena acima, conforme ela se aproxima da cerca. Mas a própria simplicidade dessa técnica pode aguçar as nossas expectativas. Como costuma acontecer no cinema europeu do pós-guerra, a caminhada extensa e sem diálogos, cria seu próprio arco de interesse. Raramente sabemos para onde um personagem está indo nesta caminhada, ou o que eles veem que os fazem se aproximar. De certa forma, essa técnica lembra os filmes de suspense ou terror: mostre a reação e faça uma panorâmica em direção à causa dela. Mas com Angelopoulos, essa causa tenderá a ser algo de uma escala estonteante, uma revelação de um lado do mundo que nós não suspeitávamos, talvez um reino mais próximo do surrealismo (O passo suspenso da cegonha; Trilogia: O Vale dos Lamentos).


Imagens alucinatórias como essas, apresentadas com uma gravidade calma, sugerem que as forças da história, como os sonhos da razão de Goya, trazem monstros – não violentos e tumultuosos, mas aqueles que exibem uma quietude mortal e perturbadora. O choque emocional dos personagens se comunica para nós como um choque pictórico, ele próprio alcançado pelos meios mais simples. Em A eternidade e um dia, o protagonista e o menino, encontram um campo de refugiados onde os detentos, agarrados à cerca, parecem suspensos na neblina.




O resultado de todas essas escolhas criativas é um desfile cinematográfico, e não apenas por causa de suas imagens esplêndidas. Como as carroças de cortejos medievais que rolam cena após cena passando por uma multidão, as cenas de Angelopoulos tornam-se uma procissão de quadros. Eles são quebrados pelos movimentos – às vezes lentos, às vezes repentinos, quase sempre pequenos. Somente ele poderia ter imaginado esse plano em Alexandre, o Grande, no qual um turista sai de trás de um pilar do Templo de Poseidon e levanta o dedo, pedindo silêncio. Seu braço prende a nossa atenção sem perder o contexto monumental.

Se as imagens de Tony Scott são lançadas em uma pressa louca, Angelopoulos nos dá tempo para observar as menores mudanças. Às vezes elas emergem em um interior apertado, guiadas por uma preparação do diafragma, ou por uma câmera que desliza. Em outros momentos, devemos vasculhar um espaço vasto para localizar os nossos protagonistas. Aquilo que os pensadores do século XVIII chamaram de Sublime, a temível majestade que apreendemos na enormidade do mundo exterior a nós, como durante uma tempestade no mar, recebeu um peso político. Não desespero, insiste Angelopoulos, ou mesmo pessimismo: antes, uma melancolia coletiva pelo reconhecimento de um triste destino.

Como Scott, Angelopoulos levou a novos extremos certas premissas das tradições que escolheu trabalhar: Desdramatização, despersonalização, o plano-sequência, a dependência de uma encenação que é densa ou espaçosa, profunda ou plana, e a urgência de apresentar a história e a vida contemporânea de uma forma mais abstrata, mais majestosa. Herdeiro de Antonioni e de Jancsó, ele levou suas ideias visuais a novos limites e mostrou o que mais elas podiam fazer. Essa estratégia revelou seu próprio artificio, a tal ponto que as diminutas flutuações de estilo – não menos “cinematográficas” do que as de Scott – nos fascinam por direito próprio.

*

Tudo o que eu fiz foi traçar algumas curvas e espirais da assinatura de cada um destes cineastas, seus princípios característicos ao lidar com a história e o estilo em relação às normas de seu tempo. Não tentei lançar análises refinadas de cenas específicas ou filmes inteiros. Ambos são necessários, é claro. Ainda assim, o tipo de análise que delineei parece-me essencial para apreciar o trabalho deles plenamente.

Esse trabalho tem algo mais amplo a nos ensinar sobre o cinema e sobre a crítica cinematográfica. Muitas vezes os críticos pensam que o seu trabalho é o de expor os significados de um filme. Para a maior parte dos críticos, isso geralmente envolve uma interpretação Zeitgeist. O filme é realizado para refletir os eventos, o humor popular ou as necessidades de realização dos desejos de sua época. Para os críticos acadêmicos, a caça por significados também pode envolver o mapeamento de um conjunto de conceitos teóricos no filme, como ocorre com as interpretações psicanalíticas ou pós-modernistas.

Mas cineastas como Scott e Angelopoulos, nos lembram que nós devemos dizer, mais precisamente, que filmes produzem efeitos, cujos significados são apenas de um tipo. O filme nos provoca a ter uma experiencia, parte da qual pode ser a busca por temas ou implicações, mas a outra parte – talvez a maior e mais básica – é a de um processo guiado de percepção, pensamentos e emoção.

É claro que os significados são importantes. Inimigo do Estado nos alerta sobre como a vigilância e a prospecção de dados podem obliterar a identidade pessoal. Paisagem na neblina sugere que na era do trabalho migrante, da disputa de fronteiras e das guerras étnicas, a Europa destruiu a infância. Até agora, tudo certo; e nós devemos ir mais longe. Mas traçar as dinâmicas de tema ainda nos obriga a analisar a perceptível força desses filmes. Isso, eu acho, pode ser melhor reconhecido por meio de um estudo de como os recursos do cinema são empregados para nos dar uma experiência que não é redutível a ideias parafraseáveis.

Esses recursos cinematográficos, ostentados, sem desculpa, a cada momento, são a estrutura do filme. Na verdade, os dois cineastas, implacavelmente, drenam suas cenas de significados temáticos. Em Inimigo do Estado, Scott acumula tantos estratagemas de vigilância e contra vigilância que a mensagem anti-tecnológica parece apenas um pretexto para multiplicar as imagens, mudar os pontos de vista e complicar o nosso próprio processamento das informações. Em Um olhar a cada dia, a imagem de uma estátua desmantelada de Lenin flutuando rio abaixo em uma barca faz a sua “declaração” imediatamente, mas Angelopoulos não a deixa ir. Ele segue seu progresso, mostra pessoas nas margens do rio, ajoelhadas e orando para ela, e acompanha toda a sequência com a música surpreendentemente cadenciada de Karaindrou. O Símbolo do Comunismo Morto foi drenado de seu portento e se tornou uma exibição audiovisual curiosamente lírica. Esses homens vão tão longe que saem do outro lado.

Consequentemente, ambos foram chamados de mão pesada: um é superficial, o outro, vazio. É verdade que muitos espectadores consideram as obras de arte que dependem do impacto cinético ou do acúmulo lento pouco sutis. No entanto, às vezes, a força, explodindo ou liberada em pequenas doses, é bem-vinda. O Rito da primavera e Trenodia para as vítimas de Hiroshima atingem com um impacto físico. Aqui esse estranho casal, Tony e Theo, encontram mais uma afinidade: eles sugerem que a sutileza nas artes pode ser superestimada.


Tony and Theo foi publicado no David Bordwell’s website on cinema em 3 de fevereiro de 2013 (Observations on film art : Tony and Theo (davidbordwell.net)). Tradução : Yasmin Rahmeier.

Ajax ou O Cid?

Por Éric Rohmer

Lamentemos que os distribuidores franceses tenham acreditado ser de bom tom vestir, disfarçado de título do último Nicholas Ray, este nonsense, este monstro gramatical que é o amálgama (não ouso dizer a expressão) La Fureur de Vivre (A Fúria de Viver)[1]. É feio, é vulgar e além de tudo não quer dizer estritamente nada. O título americano é sóbrio, justo; se ele não fornece a chave da obra, ele ilumina apropriadamente a intenção de seu autor: Rebel without a cause, rebelde sem causa, a causa pela qual se combate.

O leitor dos Cahiers sabe que tomamos Nicholas Ray por um dos maiores – o maior, diria Rivette, e eu o seguiria de bom grado – da nova geração de cineastas americanos, esta que pegou em armas pela primeira vez depois da guerra. A despeito da modéstia aparente de seu discurso, é um dos raros que possuem um estilo próprio, uma visão de mundo, uma poesia própria: é um autor, um grande autor. Descobrir uma constante ao longo de uma obra é uma faca de dois gumes: prova de personalidade, mas também de aridez em certos casos. Todavia, esta é a condição imposta pela indústria ao cineasta – tão numerosos os fazedores, os diretores de fabricação, os bons contramestres, que a presença de um leitmotiv é um indício a priori favorável. A diversidade de assuntos tratados por Nicholas Ray, a riqueza de variações com que ele adorna seus três ou quatro grandes temas favoritos tornaria sua originalidade mais dificilmente detectável do que a de seus rivais. Impossível colocar em sua moral uma etiqueta cômoda, como ocorre com John Huston. Não são os problemas que lhe interessam, à maneira de um Brooks, mas os seres. Nada de sutilezas psicológicas caras a Mankiewicz. Nada de lirismo fulgurante para atordoar, como Aldrich num primeiro contato. Seu tempo é lento, sua melodia na maioria das vezes monocórdica, mas de um desenho tão preciso, de um caminhar tão absorvente, que não podemos nos distrair por um único instante. Os próprios momentos fortes, brilhantes como forem, só surgem depois de um lento crescendo. É uma arte de “relações” mais do que de “lampejos”.

O espírito desse filme é semelhante àquele dos precedentes, mas as próprias situações oferecem analogias muito precisas. A juventude dos heróis, seu ardor recalcitrante, é a mesma dos personagens de O Crime não Compensa e Amarga Esperança. O tema da violência já encontrado em Cinzas que Queimam e No Silêncio da Noite. O heroísmo inútil de James Dean é aquele de Mitchum em Paixão de Bravo ou de Cagney em Fora das Grades. O personagem encarnado por Nathalie Wood não é tão diferente, apesar da distância de suas idades, da Joan Crawford de Johnny Guitar. Eu iria mais longe: todas as heroínas femininas, sem exceção, de seus filmes, as Catie O'Donnel, Gloria Grahame, Susan Hayward, Ida Lupino, Viveca Lindfords e as duas já citadas, assumem sob sua direção um ar de semelhança física bastante surpreendente. Como aquele da violência, Nicholas Ray talvez seja o único poeta do amor: é a fascinação própria a esses dois sentimentos que o obcecam, mais do que o estudo de sua gênese e de suas repercussões próximas ou longínquas. Não a fúria, nem a crueldade, mas essa embriaguez particular onde nos mergulha uma ação física, uma situação, uma paixão violentas. Não o desejo, como na maior parte de seus colegas americanos, mas o misterioso acordo que une dois seres. Eu acrescentaria a tudo isto um sentido da natureza, discernível no plano de fundo – no sentido próprio e figurado – e em consonância com seu temperamento de colorista – mesmo em seus filmes em preto e branco – mais do que de artista plástico.




E, além disso, nenhum diretor sabe imprimir em seu personagem um ar familiar tão evidente. Eles são marcados pelo carimbo da mesma fatalidade, do mesmo mal moral ou físico – o que não é exatamente defeito ou decadência. Observem os rostos femininos de bochechas macias, mas de pálpebras delimitadas, de lábios grossos, essas silhuetas de homens atléticos, os Ryan, os Derek, os Mitchum, esmagados ou, melhor, como que recolhidos em si mesmos. James Dean leva ainda mais longe essa aparência, crisálida mal derivada de seu casulo. Retraimento sobre si? Solidão antes sofrida do que desejada, busca angustiada por afeição, amor ou amizade. Eu falava há um instante de um desenvolvimento linear: não se trata de uma dessas belas retas com que Hawks está acostumado, essa estrada larga da epopeia, esses passos calmos, esses pórticos altivos. Aqui tudo é circular, dos gestos de amor ao trajeto das estrelas, desses olhares que envolvem, mais do que fogem, a essas perseguições errantes, essas mortes que fecham o círculo e devolvem os heróis à sua inocência primeira. Sim, é isto: o que falta a esses homens-crianças é essa espécie de virgindade com que os contadores de aventura costumam ornar seus personagens. Eles não possuem a complacência resignada nem a vontade de abjeção do homem do romance moderno. Eles não são nem mesmo culpados...

Poeta, Nicholas Ray o é certamente, mas é o caráter trágico e não somente lírico de seu último filme que eu gostaria hoje de acentuar. Pela sua forma, em primeiro lugar, aspecto superficial, mas não negligenciável. Rebel without a cause é um verdadeiro drama em cinco atos. Ato primeiro. Exposição. Dois adolescentes e uma jovem acabam de ser apanhados pela polícia. Intervenção dos pais. O debate se coloca de imediato no plano moral sobre o qual ele permanecerá durante todo o filme; por que esta revolta? Ela não possui sequer aquela espécie de profundidade própria ao absurdo pretendido como tal. Não é, também, o simples sobressalto de jovens animais indóceis. É a honra desses garotos e dessa moça que está em jogo, uma honra mal concebida, mas que não pode sê-lo de outra forma porque o meio e as circunstâncias não sabem lhe deixar um campo de exercício mais nobre. O excesso de psicanálise sobrecarrega, certamente, o discurso. Mas eu não acredito que seja preciso tomá-la como uma explicação ou como desculpa: ela faz parte do cenário da vida americana. Esta é, pelo menos, minha opinião final. Essa confusão me incomodou no momento, assim como certo despudor, fraqueza, ousaria dizer até estupidez, nas personagens. Eles são assim, o drama os exige como tal. Deixemos então correr e passemos ao ato segundo. Nosso herói principal, encarnado por James Dean, prometeu ser razoável e ir à escola. Sarcasmos de seus camaradas cientes de suas pretensões de “duro na queda”. Primeiro interlúdio lírico, com essa aula no planetário, essa primeira evocação do apocalipse que mal consegue cobrir de inquietude ou de indiferença fingida os olhos vazios de nossos alunos. Ideia um pouco simples no papel, forte e profunda em sua realização, ornamentada, como tudo que vai seguir, ao mesmo tempo de gravidade e derrisão. Na saída, novas provocações. Dean tenta ignorar, mas é de sua honra – não sua honra de galinho de cidade pequena, mas de sua honra simplesmente, nós sentimos – não se esconder. Luta de facas cuja ferocidade e beleza da paisagem sobre a qual ela se decupa fazem esquecer que se trata somente de uma brincadeira de garotos. Não é tudo: a segunda rodada deve acontecer na mesma noite num exercício ainda mais absurdo e perigoso. Este será o ato terceiro. A intriga, percebam, teve até aqui como propulsor principal a vontade dos personagens: será assim até o final. O herói se retira em sua tenda – id est sua família – para pensar. Depois ele se entrega ao duelo. Novo momento forte, este mais noturno. Peripécia que encaminha a ação para outro desenvolvimento: trata-se de precipitar os carros no mar e saltar no último momento. O adversário se mata. Debandada. Ato quarto. Dean salvou sua honra, conquistou o amor da paquera da vítima, a jovem filha do comissário, encarnada por Nathalie Wood. Ele volta para casa e confessa a seus pais sua intenção de se entregar à polícia. Estes o dissuadem. Essa covardia o indigna. A fraqueza do pai não somente “explica” no filho a presença deste “complexo” de honra, dessa vaidade doentia. Ela a justifica, no sentido moral do termo, a reclama, a exige. Violência, cenas desagradáveis tratadas com uma rara franqueza. Ele se entrega ao comissário, mas a polícia não pode recebê-lo. Durante esse tempo, seus camaradas, receando por sua traição, o procuram. Seu único amigo, um moreno franzino curiosamente nomeado “Plato” (Sal Mineo), depois de muitos incidentes consegue juntar-se a ele: é o ato final, a noite, em uma mansão abandonada que nos faz pensar em Cinzas que Queimam ou em Johnny Guitar. Segundo interlúdio lírico, Nathalie Wood tendo se juntado aos dois garotos. Cena de amor à luz de velas na sala vazia; angústia e paz na noite; para além do cinismo infantil, primeira agitação, primeiros pudores: beleza dos beijos e das carícias. Diante da Mulher, nosso herói de agora há pouco se faz o pequeno garoto que junto de seus pais ele não pôde ser, mas ao mesmo tempo descobre sua responsabilidade de homem. O erotismo de Ray é, seja o que for, tão nebuloso e suspeito quanto quisermos. O psicanalista, ainda ele, dará a sorte grande. Mas certamente ele não pode dar conta das emoções que nós experimentamos, nós espectadores, em ver os colegiais da tarde se preparar para um combate físico e moral digno deste nome. E nós caminhamos. Não caminhamos somente em direção “aos fatos” (que então se precipitam: chegada dos camaradas, luta com Mineo que, amedrontado, atira, entrada da polícia, perseguição nos bosques); nem em direção à grandeza teatral, no bom sentido da palavra, da mise en scène (esses carros de faróis brilhantes que cercam o planetário, essas convocações, esse diálogo na sombra em que Dean tenta trazer seu amigo de volta à razão), nem em direção ao trágico da conclusão (quando um policial abate "Plato", como ele aparece no alto dos degraus, apertando nervosamente seu revolver que Dean, sem que ele soubesse, descarregou). Nós caminhamos absolutamente; nós suprimimos essa distância que ainda tínhamos prudentemente entre os personagens e nós. Suas razões são nossas razões, sua honra nossa honra, sua loucura a nossa. Eles saíram, para empregar o jargão moderno, do inautêntico. Eles conquistaram, mereceram essa dignidade de heróis trágicos, que nós não poderíamos lhes conceder totalmente no início.




Que me perdoem por meu vício favorito de evocar a memória dos antigos Gregos. Não creio que tal aproximação seja aqui artificial. A ideia de destino está em todo lugar, nas obras de todas as idades e de todas as nações. Ela não basta para fundar o trágico: é-lhe preciso o suporte de algum grande debate entre as forças presentes a todo o momento no homem e em torno dele, entre o orgulho próprio ao indivíduo e a sociedade – ou a natureza – que não pode admiti-lo, que o maltrata, o castiga. Um herói trágico é sempre em alguma medida um guerreiro desperto da embriaguez do combate, percebendo subitamente que ele não é mais deus. Quem, tendo as aulas terminadas, se diverte em reler o teatro grego, será surpreendido pela presença nele de um tema no qual os comentadores pouco tocaram e que não teve a felicidade de inspirar nossos clássicos: o da violência (assim deve-se entender húbris e orgê), uma violência perigosa e condenável, mas estimulante e bela. A imagem moderna do destino não é o acidente banal e estúpido como aquele no qual morreu James Dean, o ator, em pleno sucesso. Não é o absurdo do acaso, mas o absurdo de nossa condição ou de nossa vontade. É a desproporção que existe entre a parte sempre nobre do homem e a futilidade, a inutilidade da tarefa para a qual ele muitas vezes se propõe. Não é que as épocas precedentes tenham sido mais razoáveis do que nós, nem que não tenham dado o melhor de si mesmos nos combates, estes também sem causa: mas as regras de uma honra mais estritamente formulada sempre oferecia à conduta mais absurda algum motivo. O que eu gosto neste filme é que a palavra honra, para sair da boca de seres infantis, molengas e pequeno-burgueses, não brilha menos em seu esplendor puro, inalterável, e que essas crianças, como os peões e os foras-da-lei da pradaria, resguardaram este sentimento vivaz, mesmo que, por outro lado, sua vaidade, sua obstinação estúpida, a sociedade, a moral, sei lá, enfim, o destino os condene. Eles não são totalmente culpados, nem inteiramente inocentes, encarregados, talvez, somente da culpa de seu século. Cabe aos políticos e aos filósofos mostrar à humanidade horizontes mais claros do que aqueles onde ela decidiu se recolher, mas é da missão do poeta não acreditar totalmente neste otimismo, extrair das borras de seu tempo a pedra rara, nos ensinar a amar sem coibir o julgamento, manter sempre vivo em nós o sentido da tragédia. Essas reflexões eu as fiz, um dia, em uma sala de bairro que projetava No Silêncio da Noite. A cada visão de um novo filme de Nicholas Ray elas me voltam, e principalmente deste, sua obra-prima.

[1] No Brasil, Juventude Transviada.

Ajax ou El Cid? foi publicado originalmente na revista Cahiers du Cinéma nº 59, maio de 1956. Tradução: Luiz Fernando Coutinho.

Apresentação de John M. Stahl (fragmento)




Por Yann Tobin

Houve algum mal-entendido Stahl? Seu nome, certamente, não é ignorado nas histórias do cinema. Ele é frequentemente encontrado entre a multidão de "honestos artesãos" de "profissionais endurecidos" de Hollywood: nós o lembramos geralmente como um bom técnico ou um bom diretor de atores antes de reencaminhá-lo rapidamente para a no man's land de diretores anônimos. [1]

John Stahl é principalmente conhecido por ter sido, no começo dos anos trinta, o especialista do gênero cinematográfico mais desprezado pela crítica: o weepie ou o melodrama lacrimogêneo. Ainda hoje, num momento em que floresce o folclore das "revisões arrebatadoras" ninguém nem sonha em resgatar Stahl; não se julga digno considerá-lo como um verdadeiro autor de filmes, quando esse qualificativo gasto ainda tem algum sentido, e se acordamos o mínimo interesse em algumas de suas obras, é raramente ao diretor que são atribuídos os méritos: já na época, Irene Dunne em A esquina do pecado (1932) e Margaret Sullavan em Only Yesterday (1933) foram elogiadas pela capacidade de se elevar, disseram, apesar do material que lhes foi proposto; o sucesso de Na palheta da vida (1943) e As chaves do reino (1944) foram, e são ainda, inteiramente atribuídos aos ilustres produtores-roteiristas (Nunnally Johnson e Joseph L. Mankiewicz) [2]; a crítica pouco explicou o entusiasmo do público pelas trivialidades de Débil é a carne (1947), mas se deteve na derrocada de Stahl, e na vitória do academicismo repetitivo de um veterano em declínio (Semente, Parnell – O rei sem coroa). Outro engano frequente fez de Stahl um homem de um só filme, a árvore escondendo invariavelmente a floresta: para os historiadores, é A esquina do pecado, o "melodrama inabalável" [3]; para os sociólogos, é Imitação da vida, a questão negra vista por hollywood [4]; para os cinéfilos nostálgicos concorrem Na palheta da vida [5] e o quase lendário Amar foi minha ruína (1945) [6], e assim por diante.

É verdade que atualmente a obra de Stahl é muito difícil de ser vista: seus filmes mudos desapareceram há muito tempo de circulação, e dos falados, os mais célebres foram eclipsados pela glória de remakes ainda mais famosos, sem falar dos bloqueios de direitos e destruições de cópias que estes também ocasionaram. Antes diziam: "Douglas Sirk, aquele que fez os remakes dos sucessos de Stahl". Já foi assim. Agora dizem: "Stahl, ah sim, aquele que fez as primeiras versões das obras-primas de Sirk"... Sinal dos tempos. Mas antes de me alongar ainda mais sobre o homem que se tornará, ninguém duvida, o próximo Grande Maldito da Sétima Arte, eis alguns elementos recolhidos um pouco ao acaso para uma primeira abordagem de John M. Stahl, que serviu o cinema americano de 1914 a 1949, data na qual morreu na mais completa indiferença. Que eu tenha conhecimento, nenhuma cinemateca jamais programou uma retrospectiva deste cineasta.

A esquina do pecado

Em 1932, o ano de A esquina do pecado, os Estados Unidos, no ponto mais alto da depressão, têm um olhar duvidoso sobre o "milagre econômico"; Hollywood vai participar de maneira mais ou menos ambígua dessa questão: a temporada de 32-33 contará com filmes como O fugitivo de Mervyn le Roy, Scarface: A vergonha de uma nação de Howard Hawks, Hollywood de George Cukor, O último chá do General Yen de Frank Capra, Washington Merry-go-round de James Cruze, Não matarás de Ernst Lubitsch, Cavadoras de ouro de Busby Burkeley e Mervyn LeRoy; O paraíso de um homem de Frank Borzage, Wild Boys of the Road e Fome por glória de William Wellman.

Todos esses filmes, cada um à sua maneira, mostram um pouco um país vítima de seus sonhos – dos quais Hollywood havia se tornado oficialmente a fábrica; John Stahl, em A esquina do pecado, mostra uma mulher vítima do "sonho americano": filha de imigrantes alemães em Cincinatti, Ray Schmidt (Irene Dunne), como Jennie Gerhardt (a heroína de Dreiser que Sylvia Sidney interpretará no ano seguinte), fará para a sua grande infelicidade o aprendizado do pesadelo. Por ter ambicionado mudar de vida, ela será condenada, não a morrer, mas a viver uma "imitation of life".



Quinze anos depois, quando a crise já foi há muito tempo apagada das memórias, Stahl dependerá ainda de outras Ray Schmidt, mulheres inadaptadas ou incompreendidas cuja revolta desorganizada é considerada um "pecado mortal".

De uma ponta a outra de A esquina do pecado, Ray é manipulada, escravizada pelas pressões sociais. É apenas no começo do filme que ela é relativamente consciente, que ela tenta escapar de sua condição e do futuro já traçado e reservado pela sua pequena vida provinciana (seu boy-friend Kurt lhe promete "as mil maravilhas", casa, filhos, ascensão social). A esperança nasce ao mesmo tempo que o amor, encarnado por Walter Saxel (John Boles), um caixeiro viajante, portanto um homem "sem raiz" por excelência; mas sem que ela saiba, é a sociedade que conduz sempre, em segredo, as rédeas desse amor louco. Walter se revela, com efeito, apesar de toda a sinceridade real de seus sentimentos, totalmente embebido de conformismo social; para citar as palavras de Jean-Loup Bourget [7], Stahl o mostra para nós "simpático enquanto indivíduo, odioso enquanto burguês": dessa maneira, é suficiente que Ray falte no encontro com a mãe de seu amante (para comprovar a respeitabilidade de sua relação) para que Walter renuncie a ela; ao contrário do romance de Fannie Hurst e as suas adaptações posteriores, o "trágico caminho do destino" que impede Ray de comparecer a esse encontro decisivo é menos ligado a fatalidade do que a ambição de Stahl por um discurso irônico (no sentido empregado por Sócrates): uma vez que a ligação entre eles é retomada anos mais tarde, Walter tendo se casado com uma noiva cheia de dinheiro, ela se dará aos moldes de uma infeliz paródia da vida conjugal; quando ele a encontra todas as noites antes de voltar ao lar legítimo, Walter Saxel se deixa chamar por "Mr. Schmidt" (essa gag será transposta com um pathos nitidamente mais insistente em Nasce uma estrela).

Se a maior parte das heroínas do melodrama tradicional são, como ela, pobres vítimas da sociedade, Stahl tem porém o mérito de nos revelar objetivamente o destino de Ray Schmidt, este que é finalmente mais lamentável que comovente. Nesse sentido, nós podemos comparar A esquina do pecado de 1932 ao remake que Robert Stevenson filma nove anos depois, com Margaret Sullavan e Charles Boyer: ao mesmo tempo que o estilo de Stahl é sóbrio, contido, beneficiado nesse sentido da fotografia "bruta" do grande Karl Freund e pela ausência quase total de partitura musical, o de Stevenson é romântico e barroco (no sentido hollywoodiano), com um cuidado maníaco com a luxuosa reconstituição de 1900 (música, figurino, decoração), as imagens "peroladas", filtradas pelo talento expert de William (Garbo) Daniels, os movimentos de câmera demasiado detalhados aos modos de Ophuls. Tudo participa nesse último filme, inclusive a direção de atores e as notáveis modificações no roteiro, da mesma vontade de exagerar no "glamour" às custas do realismo social. Walter Saxel, o dandy egoísta, assume os traços do amante langoroso e suave que Charles Boyer estereotipou em muitos papéis (incluindo precisamente no de músico em Noite de pecado de Stahl, 1938). Quanto a Ray de Irene Dunne, uma mulher triste, fechada, silenciosa em seu infortúnio, Margaret Sullavan a transformou, em uma performance arriscada que só o seu gênio poderia tornar convincente, uma Margot que floresce, feliz em seu sacrifício, que sorri de sua própria frustração, glorificada pelos spotlights do romanesco: sem nenhuma insistência aqui na vida mesquinha no apartamento de fundo de quintal, estão ausentes as miseráveis porcelanas que Ray viria a vender quando Walter, de viagem, esquece de sua pensão mensal, desaparecem também as reflexões amargas de sua vizinha, outra "back street woman", sobre a exploração da mulher pelo egocentrismo masculino - sem surpresa: a prisão de dois cômodos em que é enclausurada Irene Dunne deu lugar a um ninho de amor onde se diverte um casal mistificado; O sonho eterno passou por aqui, o Código Hays também (nos numerosos filmes do período que foram "refeitos" na década seguinte, é fácil constatar como as "divergências" anti-sociais ou imorais foram discretamente apagadas, nesses remakes, para benefício da pátina luxuosa, das quais são feitas as lendas como O médico e o monstro, A ponte de Waterloo, Boêmio encantador, A primeira página, O último encontro, O falcão maltês, etc.).



Tomemos por exemplo o encontro mal-sucedido que serve de clímax para o primeiro ato de A esquina do pecado (e será retomado no fim do segundo com a última reunião no imaginário de Ray). Na primeira versão: Irene Dunne, atrasada pelos problemas amorosos da sua irmã, encontra-se sozinha no parque em que Walter e a sua mãe haviam acabado de deixar; a câmera centralizada nela se afasta de repente em um inesquecível travelling para trás até que ela se perca na multidão: Ray, de certa forma, se prepara para voltar ao anonimato. No remake, Sullavan, desta vez por causa de um pretendente ciumento, perde o barco que leva Boyer para fora da sua vida: enquanto ele avança em direção ao horizonte, a câmera se demora em um close-up no rosto da atriz – essa Ray se prepara para se tornar sublime. O filme de Stevenson opera a santificação de uma americana média que, felizmente, tem o olhar comovente de Margaret Sullavan. Stahl nos fala da desilusão de uma filha de imigrantes que acredita na terra prometida. Ele termina o seu filme com o pequeno rosto morto de Irene Dunne – enfim livre? Os sinos começam a soar, prefigurando o fim de Vive-se uma só vez de Fritz Lang e sua irrisória grandiloquência. Na segunda versão, Ray Schmidt se chama Ray Smith.

[...]

Amar foi minha ruína

No melodrama hollywoodiano são representadas esquematicamente duas grandes categorias de heroínas: de um lado as "sensíveis", mulheres de aparência frágil e indecisa, no entanto prontas a aceitar o seu destino com resignação, guardando um certo senso de humor desabusado (entre 1930 e 1945, Loretta Young, Sylvia Sidney, Irene Dunne, Margaret Sullavan, Ginger Rogers). O outro tipo, são as "fúrias": decididas, até mesmo arrivistas, inquietas em sua independência, elas se mostram no final das contas mais vulneráveis uma vez que a máscara cai, e são, sem exceção, punidas pela lógica dos clichês do gênero (nesse sentido, Bette Davis, Joan Crawford, Katharine Hepburn, Barbara Stanwyck). A partir de uma situação semelhante, a utilização de um ou de outro arquétipo vai guiar a evolução do filme: basta, por exemplo, comparar Irene Dunne em A esquina do pecado e Joan Crawford em Manequim, com os quais no segundo filme um sutil desdobramento do personagem de Walter Saxel (A esquina do pecado) em Alan Curtis, o sedutor arrivista, e Spencer Tracy, o homem honesto recém-chegado, que permite Crawford encontrar a felicidade na humildade graças a um verdadeiro "senhor e mestre" – lição que Dunne nunca precisou, sendo que ela própria se submeteu ao calvário. Por outro lado o pareamento de uma sensível e de uma fúria dá lugar a confrontos passionais que não podem terminar senão em um empate: Hepburn e Rogers em No teatro da vida, Crawford e Sullavan em A mulher proibida dão lugar depois de duas horas de pseudo rivalidade a encantadoras cenas de reconciliação (que Cukor transformará em pastiche em Les girls).

Depois que Selznick dá o papel de Scarlet O'Hara à desconhecida Viven Leigh em 1939 (depois de tê-lo recusado, parece, a Bette Davis e a Katharine Hepburn), é sabido que uma "fúria" pode ter sex-appeal; graças a intuição de um produtor inspirado, a heroína de Margaret Michell se torna o modelo cinematográfico de todas essas mulheres-crianças que avançam com as cabeças baixas em direção à ruína, levando junto com elas tudo que está no seu caminho. Se Joan Crawford e Bette Davis continuam conquistando prêmios acadêmicos, as verdadeiras vedetes de seus filmes têm os rostos de boneca de Ann Blyth (a filha perversa de Alma em suplício) e de Anne Baxter (a venenosa Eve Harrington). E quando Crawford recebe seu Oscar em 1945 é embaixo do nariz de duas dessas ingênuas perversas, a saber a última descoberta e futura esposa de David O. Selznick (Jennifer Jones – Um amor em cada vida) e a mais recente "invenção" de Zanuck (Gene Tierney - Amar foi minha ruína): com efeito, o melodrama depois da guerra não é mais um gênero rosa, ele se apropria do universo corrompido e violento da série noir. 1945, ano de transição. Se Alma em suplício é um assunto de melodrama que Curtiz trata como film noir, Amar foi minha ruína é um assunto de filme noir que Stahl trata como um puro melodrama - daí o espanto justificado de Borde e Chaumeton diante da ampla utilização que foi feita do technicolor e de cenas de exteriores, julgadas por eles como inesperadas em um "filme de crime", e com razão.



Amar foi minha ruína é a versão satânica de Sublime obsessão. Os mesmos personagens se repetem mas agora com funções invertidas: uma jovem mulher belíssima (de esposa apagada, ela se transforma em uma mulher egoísta e impulsiva), apaixonada por um homem mais velho, que morreu antes de aparecer na tela, e que assombra o resto do filme (não se trata mais de um benfeitor impregnado de filosofia cristã, mas de um pai possessivo ligado a ritos "pagãos")[8], um jovem primogênito escolhido para substituir o morto (e que, outrora gerador de esperança, só dá provas aqui de uma incompreensão sonâmbula que precipita o naufrágio da heroína). Mesmo o personagem da filha do Dr. Hudson, com a qual Irene Dunne se entendia "como uma irmã", se encontra transposta em Amar foi minha ruína através de Jeanne Crain, a irmã adotiva apresentada desde o começo como uma rival em potencial (e em seguida real). A interpretação ao mesmo tempo frenética e etérea de Gene Tierney é a antítese da digna e estremecida Dunne, mas ela só expressa de maneira diversa uma idêntica fragilidade afetiva.

A ligação incestuosa que conecta Ellen a seu pai é tão explícita quanto possível; devido os tabus que pesam neste amor, Ellen, nesse sentido próxima a James Stewart em Um corpo que cai, só será livre para organizar a realização de seu desejo depois da morte da pessoa amada, por procuração; mas como em Hitchcock (e ao contrário de Sublime obsessão), o substituto, mesmo que se pareça fisicamente, nunca será mais que a cópia de um ideal endeusado pela lembrança. Desde o seu primeiro encontro no vagão de trem, Ellen e Richard, futuros esposos, travam conhecimento se entregando a um jogo de sedução mútua que já os define e anuncia suas relações futuras; ela, compartilhando as notáveis semelhanças que ele guardaria com o pai que ela acabou de perder, ele, recitando desajeitadamente, e sem que ela se deixe enganar, uma tirada plagiada de seu último livro. Isso permite que Stahl evoque já no começo a neurose obsessiva de Ellen, assim como a utilização que será feita de Richard, reduzido a um papel passivo de jovem primogênito de romance. Ele não parece particularmente simpático (não mais, podemos dizer, que Rock Hudson em Palavras ao vento) porque, apaixonado, como um Walter Saxel, pelos valores tradicionais, e apesar de amar a sua esposa, ele não aceitará por sua vez nenhuma transgressão dos costumes: em vez de tentar compreendê-la, ele a deixará sozinha com seu infortúnio – quando ele se recusa a ser sustentado por ela, é unicamente por princípio ou por medo de se submeter demais aos domínios do defunto (Ellen herdou todo o dinheiro de seu pai)?

Com a obstinação maníaca de um metteur en scène, Ellen se empenha em reviver uma paixão que se tornou o único sentido da sua vida. Ela começa por escolher o ator principal, tomando antes de Richard a iniciativa da proposta de casamento, depois o cenário, um chalé na floresta totalmente isolado do resto do mundo: como Priam Farell[9], que se retirou para uma ilha deserta por decisão própria, Ellen não pode funcionar em sociedade. John Stahl e Gene Tierney, eles mesmos sublinharam [10] que se ela se tornou "má", é porque ela foi levada a isso, e não por uma condição inerente. Assim, desde o começo, o papel que Ellen se reservou nesse psicodrama a dois não é outro que não o de esposa perfeita e dedicada – perfeita demais, talvez, e dedicada demais: "Sou eu que lavarei suas roupas e cozinharei para ti", afirma ela quando ele lhe propõe que contratem empregados domésticos. "Tu nasceste escrava", responde ele com um meio sorriso envergonhado, o mesmo de Claudette Colbert diante da babá negra de Imitação da vida. Contudo, Ellen vai descobrir que não se escapa assim facilmente ao olhar dos outros, o qual Richard, ao contrário dela, não pode dispensar. O velho zelador que se ocupa do chalé, a foto de uma amiga de colégio que fica sobre um móvel, o romance ao qual Richard dedica os seus dias são insuportáveis para Ellen. Quando ele convida a família de sua esposa, ela se recusa agressivamente a continuar interpretando a "perfeita dona de casa" e se mostra intratável. Quando ele instala na mesma casa seu jovem irmão enfermo, ela não pode deixar de premeditar semi-inconscientemente a morte deste…


A maternidade é uma prova decisiva através da qual mesmo as ambiciosas Stella Dallas e Mildred Pierce encontram a oportunidade de sacrificar-se generosamente; no início, Ellen considera com alegria a ideia de um filho que estreitaria sua união autárquica com Richard. Mas infelizmente esse filho, mesmo antes de nascer, já promete se tornar um Outro. Ellen reclama (bastante violentamente para a época) que a gravidez a desfigurou e que a tornou menos desejável, e o cúmulo se dá no momento em que ela percebe que Richard, para lhe fazer uma surpresa, transformou em um quarto de criança o laboratório, até então amorosamente preservado, do pai de Ellen. Alguns dias depois, enquanto Richard, como habitualmente, a abandona pela máquina de escrever, Ellen se joga da escada. O Outro não virá.

Se recusando a sentir pena frente ao deficiente físico, se desfazendo do mínimo instinto maternal, Ellen, sem querer, contesta a sua condição feminina. Com efeito, sua revolta, por mais irrefletida que seja, adquire cada vez mais força: aos olhos do mundo, o amor sem limites de Ellen é subversão, mas para evitar reconhecê-lo como tal, ele o condenará como perversão. Rebelião, morte, aborto, suicídio serão os diversos avatares que suportarão essa paixão cega para que possa se completar apesar das pressões exteriores. A morte de Ellen, premeditada com uma inacreditável minúcia, ecoa aquela de Delilah em Imitação da vida, no que ela representa igualmente o estado último da mise en scène, o prelúdio do retorno à paz, a vingança contra uma vida fracassada. Richard não a ama mais, só resta a Ellen se encontrar com seu pai, depois de ter terminado a peça com estilo, para não perder o prestígio. Pobre vinganca na verdade pois, como sempre, desde a desaparição da "vilã" o mundo retorna a sua rotina tranquila e o filme com ele. O processo que serve de conclusão é também caricatural, na comicidade pelo menos, quanto aquele de Na palheta da vida, porque terminamos por julgar e condenar uma morta: Ellen era um monstro, nos dizem. O título original, por outro lado, nos lembra em sua ironia que os homens não podem julgar uma vítima dos próprios homens…

Fria, silenciosa, abafada, a direção de Amar foi minha ruína estoura ocasionalmente, de maneira tipicamente stahliniana, em esplêndidas fugas líricas sublimes pelo extravagante Technicolor dos anos 40. A utilização do cenário e do espaço participam da progressão do drama: assim é claro que a instável Ellen precisa, para agir, de um entorno “em movimento”; ela flerta com Richard em um trem em movimento, consegue o seduzir enquanto nada em um lago, concebe sua morte enquanto rema em uma canoa, e não é por acaso que a sequência mais extraordinária mostra Gene Tierney, lançada à aurora em um cavalo galopando, dispersando ao vento as cinzas do pai. No espaço de um instante, o mundo lhe pertence. Os grandes personagens do melodrama vivem na efemeridade, é isso que os tornam tão lamentáveis quanto belos: Barbara Stanwyck desafiando o seu público na jaula dos leões (The Miracle Woman), Marlene Dietrich contemplando o seu império ao som da marcha das Valquírias (A Imperatriz Vermelha), Barbara Bates (Phoebe) pressiona contra ela a estatueta de seu coração (A Malvada), Robert Stack manobrando enlouquecido em máxima velocidade um velho avião teco-teco (Almas maculadas), e então Douglas Sirk diz: "A terra estável não lhe proporciona nenhuma segurança; a estabilidade, ele a busca nos ares – é uma ideia insana, mas magnífica, do meu ponto de vista."



Durante seu período na Universal, Stahl só tinha trabalhado com personagens sensivelmente dilaceradas, tal como Irene Dunne e Margaret Sullavan. Depois da guerra, seu interesse se volta às mulheres orgulhosas e insubmissas que foram interpretadas por Gene Tierney, Maureen O'Hara (The Foxes of Harrow), Linda Darnell (The Walls of Jericho). Mas se, com dez anos de intervalo, a doce face da heroína sathliniana carregou-se de reflexos demoníacos, elas permanecem ainda prometidas ao desespero: Tierney se suicida, O'Hara vê morrer o seu filho, Darnell é expulsa da cidade. Vítima ou carrasco, a dialética não mudou em nada o resultado: na transição ela não ganhou nem um pingo de lucidez. Nos filmes de Stahl, cada protagonista vive submersa na sua "imitation of life": pensando bem, acontece o mesmo com Borzage e Sirk, Capra e McCarey, Ophuls e Lubitsch, Minnelli e Cukor. Mas com eles, contudo, o drama vem do fato de que elas terminam por se dar conta disso. Em Stahl, o drama, é que elas nunca se dão conta – ou, em todo caso, o fazem sempre tarde demais para tentar remediar; pois, o cinema de Stahl é um cinema sem espelhos. No remake de Sublime Obsessão, Jane Wyman tira os seus óculos escuros mesmo quando ela permanece cega; na sequência do crime em Amar foi minha ruína, Gene Tierney coloca repentinamente seus óculos escuros, embora ela enxergue perfeitamente. John M. Stahl, no final das contas, não é um Romântico.

[1] Charles Higham o acha digno de Cukor (The Art of the American Film, p.195), mas não vai além disso. Por outro lado, Rex Harrison o coloca no mesmo plano de Mankiewicz e Sturges (Rex, an autobigraphy).

[2] No livro Films in America 1929-1969, por Martin Quigley e Richard Gertner, uma nota sobre Keys of the Kingdom fala de Cronin, Mankiewicz e Gregory Pack sem mencionar Sahl. O único estudo sério de Holy Matrimony se encontra no livro de Richard Corliss Talking Pictures sobre os roteiristas de Hollywood, no capítulo "Nunnally Johnson".

[3] Fórmula emprestada da enciclopédia de cinema de Roger Boussinot.

[4] Cf. Análise pertinente de Peter Noble (The Negro in Films, 1949), na qual ele também se esquece de falar de Stahl.

[5] Na nostálgica The Films of the Forties da série de Citadel, Tony Thomas, em seu entusiasmo com Holy Matrimony, omite a existência do seu realizador.

[6] John Kobal no livro Romance and the Cinema, Borde e Chaumeton no Panorama du Film Noir Américain fazem justiça ao trabalho de Stahl, mas não citam nenhum de seus outros filmes.

[7] "Aspectos do melodrama americano", Positif, n˚131.

[8] A figura do "pai", seja ela real ou espiritual, é essencial em Stahl – ainda que seja preciso matá-la para viver em total liberdade: a vocação (religiosa) de Gregory Peck em Keys of the Kingdom nasce no dia em que seu pai é assassinado. Aquela de Robert Taylor no dia em que o Dr. Hudson dá a sua vida pela dele; o pequeno e tímido soldado de Henry Fonda só se torna corajoso quando, ao lado dele, morre seu “sargento imortal” (Thomas Mitchell); quanto a Gene Tierney… Por outro lado, Walter Saxel (A esquina do pecado) e as duas órfãs de Imitação da vida sofrem toda a vida por não terem conhecido seus pais, dos quais elas procuraram em vão os derivados menos gloriosos (dinheiro, mentira, amores proibidos).

[9] NdT: personagem principal de outro filme de Stahl, Na palheta da vida: um pintor recluso que busca se distanciar dos holofotes da alta sociedade inglesa.

[10] Sirk on Sirk, por Jon Halliday, col. « Cinema One ».

Présentation (John M. Stahl – Sur Back Street, Imitation of Life, Magnificient Obsession, Parnell, Holy Matrimony, Leave her to Heaven) foi publicado originalmente na revista Positif, n° 220/221, julho/agosto de 1979. Tradução: Roberta Pedrosa.