O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

Anticineclube: "O Pequeno Príncipe disse" (Christine Pascal, 1992)


No dia 8 de agosto, Miguel Haoni animou um debate online sobre o filme “O Pequeno Príncipe disse”. A ideia foi fazer uma sessão de cineclube, só que sem cineclube: comentário seguido de debate. O registro aqui publicado é a parte “comentário” do encontro: sobre a relação conturbada entre o cinema francês e o melodrama, sobre política das atrizes, sobre Jean Renoir, o inferno, todo mundo e suas razões. 

Sobre o filme: Christine Pascal é um tesouro escondido do cinema francês, ainda não suficientemente descoberto do nosso lado do Atlântico. Atriz de sucesso – favorita de Bertrand Tavernier – ela aprendeu a fazer filmes do lado de frente das câmeras. É dessa experiência que vem o corpo e alma deste “Pequeno Príncipe”, seu filme mais popular: Richard Berry, Anémone e, sobretudo, Marie Kleiber são os elétrons em colisão de um conto de fadas sangrento, entre a tragédia de recasamento e a fábula. O filme acompanha a história de um câncer que vem para restaurar as ruínas de uma família nuclear, e que obriga seus membros a se reencontrar num território utópico, cercado por todos os lados pela gravidade telúrica da paisagem europeia e pelos animais que falam enquanto as crianças dormem. 

Sobre o comentador: Miguel Haoni é pesquisador, crítico, tradutor e desenvolve um doutorado em Estudos Cinematográficos na Universidade Paris 8 (Vincennes-Saint-Denis). É co-editor da Revista Madonna e do blog Vestido sem costura.