O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

News from Chantal




Sobre a retrospectiva Chantal Akerman no Cinema République 

Por Vincent Dieutre 

Num filme dos Irmãos Marx, Harpo fica encostado num muro: ‘O que você faz aí? – Estou segurando o muro. – Você está brincando comigo! Saia daí!’ Harpo dá um passo para o lado e o muro desmorona. Não estaríamos todos nós encostados no muro, e esse muro não é o muro da realidade? Bastaria que uma única pessoa se retirasse e o muro desmoronaria, sepultando as milhões de pessoas que ocupam essa caverna abandonada. De qualquer forma, a situação é essa de um real devastado, e já não contamos mais com aqueles que estão soterrados vivendo sob os escombros. 

Jean Baudrillard, A contagem regressiva 

Pacientemente, na sombra, uma mulher, uma artista, parece manter a contagem das vítimas, a lista paciente dos feridos: Chantal Akerman. É pelo menos a tenaz impressão que deixa a retrospectiva corajosa que dedicou-lhe Anne Huet, no Cinema République, em julho. A questão das formas se colocará novamente diante do esgotamento de um cinema de urgência sociológica mais preocupado com a sinceridade e a pertinência denunciadora do que com a evolução de uma ideia de cinema? Lyotard o sabia, para ser pós-moderna é preciso primeiro que uma obra tenha sido, por um momento, moderna e o so-called pós-modernismo dificilmente teria sobrevivido a uma pós-modernidade de fato, muito mais complexa. 

Experimentando-se alternadamente em diferentes registros, Chantal Akerman nunca perderá de vista as conquistas formais de seus primeiros ensaios. Se a recusa do confinamento autorista foi geradora de “confusão”, ela testemunhou, no entanto, uma vontade feroz de abraçar sua época em toda a sua complexidade. E se Do Leste e Sul marcam inegavelmente um retorno à “inocência”, às origens do cinema segundo Akerman, é que o longo desvio pelo filme de gênero (Golden Eighties), pelo documentário (Diga-me, Um dia Pina perguntou…), o teatro filmado (Letters Home, O homem da mala), a comédia para o “grande público” (Um divã em Nova York), o telefilme (Retrato de uma garota…), a instalação (Do Leste, Au bord de la fiction exibido no Jeu de Paume), a escritura e mesmo um período de relativo silêncio permitiram-lhe habitar discretamente o que Deleuze chamava de “período pobre”, o tempo de uma reciclagem em todos os níveis, tão nefasto à criação autêntica e à reflexão audaciosa. 

Uma vez, eu voltei tarde para casa… 

No tempo longínquo da minha primeira mobilete, do Télérama e do marxismo-leninismo, à força da leitura de uma crítica elogiosa e excitante, lá fui eu na noite, subindo os cais de Billancourt no Quartier Latin para ver Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles. O filme deve ter durado muito tempo, mas eu não vi o tempo passar, medusado. Desde o fim da sessão, eu decidi rever o filme (que dura 200 minutos, após verificação). Foi só voltando para casa, encontrando ali minha mãe em pânico por causa da espera e da hora tardia, que eu percebi, atordoado, a amplitude do momento passado com Delphine Seyrig. 




É um filme sobre o espaço e o tempo… e sobre a forma de organizar a sua vida para não ter nenhum tempo livre, para não se deixar submergir pela angústia e pela obsessão da morte.” (C.A.) 

Foi provavelmente isso o que eu descobri naquela noite, justamente, o tempo livre, o tempo da arte, o desafio sensual da emoção que lhe submerge. Eu nunca me recuperei. A experiência de um outro modo de passar o tempo, na companhia de um filme. Claro, na sequência, teve a descoberta de Warhol, de Michael Snow, mesmo dos Straub, mas o deslumbramento primeiro de Jeanne Dielman ficou comigo mais profundamente, mais familiarmente, ousaria dizer. Como se, entre Akerman e eu, se construísse uma cumplicidade ativa que faz com que o plano pare quando eu sinto que ele poderia parar, que ele perdure quando eu tenho o desejo secreto que ele não termine. Uma cumplicidade que os anos não embotaram, nem sequer atingiram, e que impôs-se novamente, intacta e palpável, no último festival de Cannes, durante a exibição de Sul

Quando as formas se movem… 

Mover as formas”, tal era (e permanece) o projeto de Chantal Akerman, e isso desde o começo. Quando ela dá a ver um dia na vida de Jeanne Dielman, ela faz questão de mostrar cada momento na sua integralidade: tomar um elevador, lavar a louça, amassar a carne moída…O plano fixo torna-se unidade de narração, em “tempo concreto” (e não nesse “tempo real” do direto informativo que não questiona nada além da simultaneidade evento/difusão). Esse postulado minimalista, claro, legível, não tem nada de pose autorista, ele é a condição sine qua non da eficácia do filme. Impossível, vendo Jeanne Dielman ou mais particularmente Os encontros de Anna, não pensar na “linha clara” de Hergé, por essa economia afiada de uma narrativa em sucessão de sequências/quadros, absolutamente necessários, evidentes e claros. O que é próprio ao personagem encarnado por uma impassível Delphine Seyrig é, contudo, não ter nada de heroico nem de excepcional a priori. A neurose, o tédio, a histeria, se instalam aqui ao longo do plano, sem jamais serem provados, sugeridos, geridos como molas roteirísticas: gestão espetacular das imagens que, nos outros filmes, hierarquiza os fatos e gestos dos personagens, para melhor impor ao espectador a lógica de uma narrativa premeditada. Akerman desafia essa hierarquia, esse abuso de poder, a resistir à terrível banalidade das coisas, à violência surda de um tempo cotidiano alienado no seu próprio fluxo. A hierarquia que ela lhe opõe é a de um agenciamento plástico dos planos, de sua duração e de seu movimento. 




No République, esse tempo concreto do plano, sua duração, fazem-se subitamente máquina de guerra contra o efeito de real que hoje é de regra, a chantagem documentarizante das ficções social-gore, a retórica sequestradora do fazer-de-verdade. Com Jeanne Dielman, o fait divers tornava-se pretexto para a experimentação de um realismo abstrato, sem a chantagem do vivido, uma proposição narrativa “alternativa” que nos oferecia o luxo absurdo de tomar Seyrig por uma proletária de Bruxelas, sem nenhuma prova do tempo passado a fundamentar essa existência sobre uma crença original, total, graças à fixidez paciente e a uma lenta negociação entre câmera e espectador. Como esses pintores em luta contra a ideia de composição (o assunto bem no centro do quadro), Akerman trata preparação do jantar e prostituição furtiva, louça e assassinato, com a mesma atenção (o assunto é o quadro). Uma outra forma de “perceber” nos limites da arte conceitual que, seguramente, não foi estrangeira às inovações akermanianas e da qual um outro filme, News from home permanece o manifesto incandescente. 

O cinema me faz sair, me põe para fora.” (C.A.) 

O que vemos, e por quanto tempo o vemos, tudo em Akerman é questão de intuição, nenhuma duração é calculada com antecedência. Para não compor com a hierarquia que quer que certos instantes, certos personagens, certas palavras, signifiquem mais que outros e que a tela seja o lugar submisso dessa precedência, Akerman tentou tudo ou quase. Uma tal obstinação num empreendimento moderno, uma tal completude, teria desencorajado o crítico se, dessa mesma modernidade, não renascessem permanentemente a dúvida, a curiosidade e a necessidade irreprimível de captar o mundo aqui e agora… 

Postcards 

Sob esses ares de documentário, News from home é efetivamente uma ficção, por mais autobiográfico que ele seja. A câmera se põe aqui e ali em Nova York, para sóbrias “vistas” em som direto, estabelecendo plano após plano o registro de uma geografia sensível que privilegia a zona ainda desertada do Lower Manhattan, metáfora deteriorada da indeterminação exilada da cineasta. Com sua voz ainda adolescente, ela nos lê (rápido) as cartas inquietas de sua mãe, textos sem resposta que balizam por sua vez todo um outro espaço, aquele do afeto, da ausência e da distância. 




Mais uma vez, nós não estamos longe de uma abordagem de artista “moderna”, entre monocromo (as vistas da cidade, seu som agressivo – “porque um metrô que passa é um metrô que passa”) e ready-made (as cartas da mãe). Mais uma vez, é impossível de arrancar do filme um fragmento, um momento particular, ele é para pegar ou largar. Sem dúvida cada um de nós viverá um instante de News from home mais intensamente que outro, é que ele conheceu essa rua, essa palavra, ou que seu devaneio teria pendurado no trem fatal do filme uma dor íntima esquecida. Fique à vontade. O filme, em vez de se fechar sobre um sentido preconcebido, chapado, em que tudo concorre para sublinhar, se abre propondo uma multiplicidade de entradas, de passagens, de interstícios, em um dispositivo centrífugo no qual qualquer leitura pode vir se abismar, no qual qualquer sentimento preexistente do espectador pode vir contaminar o filme, qualquer lembrança ressoar nele. Akerman não impõe o dito, a mensagem, ela propõe um momento no qual toda mensagem pode vir (se) refletir e tomar forma. 

Objetarão sem dúvida que, para alguém que despreza a “composição”, o quadro akermaniano parece dar muito espaço ao equilíbrio, à simetria. É verdade; mas ainda aqui, é preciso pensar duas vezes. Na verdade, poucos realizadores permanecem tão completamente ligados à simetria do quadro, ou o são por más razões (Greenaway). Em Histórias da América, somos atingidos pelo respeito meticuloso pelos lugares, a saída do hotel está perfeitamente no meio da imagem, a mesa do banquete no improvável jardim também. Os exemplos se multiplicam (corredores em Hotel Monterey, ruas, cruzamentos e vagões de metrô em News from home). Quando a arquitetura do lugar não o sugere nela mesma, o que é raro pois o mundo de Chantal Akerman permanece majoritariamente urbano, logo, arquitetural, sentimos, apesar de tudo, o desejo, igualmente instintivo, de compor o fundo, a paisagem (eu penso, por exemplo, nas paisagens polonesas do começo de Do Leste ou naquelas de Sul). 

Mas nisso não há nada de paradoxal, dobrando o “fundo” do plano às regras da simetria que são as da cenografia clássica, além de deixar aflorar suas influências picturais com modéstia, Akerman autoriza sobretudo a catástrofe do movimento no espaço do plano, o movimento dos elementos, ventos, chuvas, fumaças (NYC), aquele dos objetos, carros, trens, aquele dos corpos que passam. Fixidez do quadro não quer, pois, dizer imobilidade da imagem, e os tableaux vivants, posados e saint-sulpicianos de A humanidade (Bruno Dumont) só engendrarão, não sem nobreza, um estetismo contrito diante dos ideogramas dramatúrgicos, animados e disponíveis que constroem um depois do outro os diversos Encontros de Anna. A frontalidade equilibrada (Hergé, sempre) da imagem organiza uma divisão emocionante do quadro entre o inanimado, imutável e centralizado, e o orgânico, o vivo, que o atravessa ou habita. Akerman desconfia do close, e ela tem razão. 

Tão reivindicado nos nossos dias como pretenso meio expressivo, o desequilíbrio “balançado” do quadro em perpétuo reenquadramento não seria finalmente uma forma de forçar um pouco mais o que aí evolui? Uma distorção autoritária do espaço/tempo do plano que já prejudicaria sua significação, seus possíveis. Em Akerman, em todo caso, a simetria é uma maneira, a mais inocente possível, de neutralizar o espaço do plano para que ele permaneça “à mercê da iminência” do que se passará ou não se passará; para que a pequena lâmpada que, após os minutos de penumbra, se acenderá à direita no fim do corredor de Hotel Monterey possa contestar só para ela a validade do ponto de fuga, do mundo, e por isso constituir um evento estético, dramático, do mesmo jeito que um crime ou uma explosão. Paciência e simetria são em Akerman as condições do acidente, logo, da emoção. 

Una lacrima sul viso 

Quando, no curso de Toda uma noite, o casal improvisado do bar se põe a dançar desajeitadamente um slow italiano que o juke-box cospe, é primeiramente a impassibilidade da câmera, sua fixidez, que leva os corpos caóticos a rasgar as bordas do quadro, a se aventurar no fora de campo. Se a incoerência bêbada de sua dança nos emociona até as lágrimas, é que nós enfim demos o tempo de vê-la para nela crer, para nos vermos lá; é por isso também que em nenhum momento a terrível retangularidade que encerra os dançarinos será deslocada nem um milímetro para acompanhá-los, mesmo que os percamos de vista por um instante, para reencontrá-los mais perdidos ainda. A duração será aquela de uma canção, o espaço, a sala estreita de um café. O tempo do plano e sua rigidez “cadavérica” são a chance única de evocar o fora de campo, todo o resto, tudo o que faz com que uma noite dois desconhecidos possam se pôr a dançar como duas almas penadas. O espaço definido pelo quadro se faz então janela permitindo “o aumento desse mesmo espaço pela incursão nele do que não é ele” (Renaud Camus): assim Akerman engendra um mundo. 




Mais cedo, no seu primeiro longa-metragem, a cineasta tinha tratado em preto e branco, com a mesma fixidez intransigente, o reencontro terno e violento de duas amantes (ela própria e a magnífica Claire Wauthion). Tendo, não faz muito tempo, descrito as relações tensas entre autorismo e pornografia, eu, revendo esse plano de Eu, tu, ele, ela, medi a candura cortante da filmagem de Akerman, diante dos navios de fogo eróticos de seus contemporâneos dos anos setenta. Duração e fixidez, isto põe as coisas no seu lugar, a anos-luz de toda malandragem. Nada de câmera na mão para flertar com o ponto G, nada de montagem sugerindo um crescendo qualquer, ou esboçando mesmo uma dramaturgia do gozo. Sempre encerrados nesse quadro/caixa que delimita mais do que constrange, é a dança dos corpos que se procuram, sua obstinação à ternura, sua hesitante certeza, que surgem sem preliminares roteirizadas; em um bloco compacto de imagens necessárias, suficientes e eficazes, como a graça. 

Sem dúvida essa cena, como aquelas que dão a ver os encontros furtivos de Anna (Os encontros de Anna), escapa de toda obscenidade e de todo envelhecimento, do fato que Chantal Akerman não faz nunca um filme sobre a homossexualidade feminina, sobre a lembrança dos campos de concentração ou sobre Nova York, ela faz um filme, eventualmente em qualquer lugar e com quaisquer pessoas; a escritura tomou lugar antes e muito intensamente para que na imagem não reste nada, tanto que a implacável pertinência do dispositivo a dis-pensou. Não é por acaso que a grande Marguerite concluiu ao sair de Jeanne Dielman

Essa mulher é uma louca.” (Marguerite Duras.) 

Sabemos da atração acalorada que Chantal Akerman e Pina Bausch exerciam uma sobre a outra (cf. Um dia Pina perguntou…). Quando os dançarinos oprimidos de Kontakthof se jogam de cabeça contra o cenário que os “enquadra”, não podemos deixar de pensar nos dançarinos perdidos de Toda uma noite, nos passantes de News from home, nos sapatos das atrizes hipotéticas de Os anos 80, que atravessam a tela sem parar, reenviando o espectador à vaidade de seu desejo de saber/ver[1] mais, de cercar um “tema”, e remetendo todo cineasta ao seu projeto de manipulação completa. Akerman prefere a inscrição à descrição, o concreto ao real. Nisso ela é moderna no sentido dos grandes artistas americanos contemporâneos (de Carl André à Sherrie Levine, passando, evidentemente, por Snow e Warhol), daqueles que preferem criar armadilhas para o real e complicá-lo com emoção do que caçar o emocional prendendo o espectador pelo efeito de real. 

Longo demais, verdadeiro demais 

Onde os Straub propõem ao espectador um “método” a serviço da História, Akerman não evita ser mais instintiva, mais literária. Se comparamos duas “estradas”, aquela que corre ao longo, incansavelmente, a câmera sacudida de Cedo demais, tarde demais, e aquela que fecha Sul, o último opus de Chantal Akerman, podemos entrever tudo o que separa duas das abordagens mais apaixonantes do cinema dos “caçadores”. A estrada egípcia dos Straub não foi escolhida por acaso, ela atravessa exatamente o lugar das grandes revoltas camponesas que sacudiram o país nos anos cinquenta. Partimos de um lugar preciso, a câmera mais ou menos afixada na frente de um carro, e alcançaremos, uma dúzia de minutos mais tarde, um outro ponto também muito significante. Nesse ínterim, teremos a oportunidade física de sentir, sob o desfile de um cotidiano camponês, crianças que nos sorriem, asnos recalcitrantes, mulheres veladas, carregadas e dignas, a presença cega desses mortos inúteis, sacrificados por essa terra. O fora de campo sonhado dos Straub é a História, o antes… e o depois. Cada metro desse caminho sedutor poderá ser sabiamente justificado em uma demonstração irrefutável. Claro, a beleza irromperá, porque um pássaro canta, uma nuvem passa, e sobretudo porque o próprio filme terá nos reensinado a paciência, terá inscrito em nós uma disponibilidade inaudita à sensualidade primeira da natureza, um reajuste salutar que permite compreender o que liga os Straub a Cézanne. 




Para falar do plano final de Sul, precisemos primeiro que foi durante as pesquisas em vídeo de um filme por vir que o real irrompeu num projeto de base mais contemplativa. Por isso, o filme tornou-se outra coisa, Akerman imediatamente ofereceu seu projeto à pressão emocional do evento (um linchamento). Reação instintiva, disponibilidade ao acidente, questionamento do projeto, todas as coisas que parecem longe das Lições de História de Straub e Huillet e de sua evidência serena. No sul dos Estados Unidos, um caminhão arrastou o jovem negro numa estrada durante vários quilômetros. 

O Sul de Akerman fecha-se também com um travelling para trás, a subida retrospectiva dessa estrada, lentamente, tão lentamente que alguns motoristas brancos, apressados, ultrapassarão o carro com a câmera. A ligação direta entre a estrada, suas curvas, seus buracos, e o sofrimento ainda ardente de um ser humano podia ter, em qualquer outro cineasta, caído no patético. Não é o caso. Ao contrário do que dizia um documentarista na saída da projeção em Cannes, não é esse travelling que dá seu sentido ao filme, estilizando-o com um trailer chique e militante. Ele é apenas o resultado de um momento escandido na sua complexidade. Foi o que aconteceu durante a rodagem do filme que impôs essa estrada, no fim. Nada foi premeditado, escolhido, organizado, gerido. A cineasta não podia simplesmente ignorar o acontecimento, mesmo que isso signifique fazer vacilar a metáfora literária aberta, larga e atemporal (Twain, Faulkner…) que ensurdece nos primeiros planos do filme e que toma de repente uma ressonância amarga. 

Os encontros do sentido 

Mais que do minimalismo (termo que só se adapta com muita dificuldade ao rigor do dispositivo), ou do estruturalismo, é de uma arte “conceitual lírica” que podemos aproximar o procedimento de Chantal Akerman. Quanto mais simples é a grade fílmica , menos UM sentido lhe é imposto, e mais O sentido se instala. Se o convite do filme permanece aberto, cada plano, cada cena reenvia, por menos que se queira abrir os olhos, a um fundo de imagens conhecidas, compartilhadas. A realizadora bem sabe que o mundo “já foi filmado”, que ele também já foi escrito ou pintado; mas longe de carregar o filme com uma convocação referencial autoritária, ela escolhe deixar para o plano, pela sua plástica e sua duração, sua onipotência evocativa. Nenhuma private joke ou elitismo em tudo isso, Akerman só ama um lugar na medida em que ele é um lugar comum. E todos os lugares tornam-se um, se soubermos encontrar o imaginário coletivo. A Alemanha paralisada do pós-guerra (Os encontros de Anna), a Rússia das filas de espera (Do Leste), a Bruxelas noturna, europeia e esquecida do seu passado (Toda uma noite, Jeanne Dielman, Retrato de uma garota…), Paris (Nuit et jour), Nova York (News from home, Histórias da América). Os lugares de Chantal Akerman ressoam; pelo tempo de um filme, ela pertence a eles, ela que diz não pertencer a lugar nenhum: 

Eu sou belga, judia polonesa, nascida em Bruxelas. […] Eu não tenho a noção de que sou ligada à terra onde estão meus pés. E mesmo aqui onde eles estão, treme um pouco.” (C.A.) 




Os clichês “tremidos” de Akerman não tem nada em si de proibitivos, sobretudo se eles são reivindicados como objetos de partilha, de filiação, de eco. “A memória desaparece ou se desloca? … E a História não deve levar em consideração esses deslizamentos possíveis de um lugar a outro, essa topologia móvel que nos impedimos de apreender se privilegiamos os lugares reais…” Tocando humildemente esses lugares metafóricos, Akerman sabe também que ela rasga por um instante o véu do esquecimento, por mais confortável que seja, para nos entregar cruamente a uma nostalgia incurável, mas perturbadora. Quando, ao curso das Histórias da América, se misturam piadas iídiche, lembranças trágicas da Europa e fofocas de bairro do Brooklyn, eu imagino que só Chantal Akerman poderia afrontar essa hierarquia sagrada dos discursos, da memória, para dizer o quão perigoso é um esquecimento mais radical, mais insidioso: a amnésia atormentada de um presente sem mais história, de uma perpétua atualidade. 

Com a imagem, se põe sempre o problema da moral. Sempre, desde que haja representação.” (C.A.) 

Nos registros de geografia subjetiva que Akerman apresenta já há trinta anos, o travelling “descritivo” (“inscritivo”?) é um elemento maior. Sabemos: o travelling é uma questão de moral. Aquele que retraça (pois é de traço que se trata aqui) o calvário do jovem negro não mostra nenhuma obscenidade justamente porque ele é um dos longos travellings de Sul, depois de outros, e se ele se carrega de uma significação mais pesada, é que ele é carregado do sentido daquilo que é dito antes, durante as entrevistas, carregado da beleza repentinamente culpada das paisagens sulistas, da brancura das igrejas. 

Sem dúvida porque Akerman combate com todas as suas forças a ordem informativa das imagens e porque ela não bate esse movimento final como sendo resultante dos outros, desses outros travellings laterais que, por exemplo, percorreram as casinhas coloniais em ruínas onde a vítima poderia ter vivido, atravessado os campos onde ele poderia ter trabalhado. Se Sul se deixa transbordar pela urgência política, é poque a humildade e o belo dispositivo akermaniano se deixa sempre transbordar pelo que é impossível de mostrar, e que deve permanecê-lo, pelo que ultrapassa o entendimento do cinema e que logo obrigaria a começar a gerir, a hierarquizar, ou a explicitar. Nós esqueceremos por um instante a fixidez, por um plano roubado com câmera na mão, com zoom, pouco importa, porque ele é necessário. Eu já lhes disse, do dispositivo nascerá, para quem sabe esperar, um mundo. Honesta, Akerman acolhe com Sul essa revanche do real sobre a abstração do dispositivo com a mesma generosidade que ela nos permite entrar lá. 

A elegia da sala de espera 

Durante uma projeção de Do Leste, fiquei muito impressionado, durante o debate que se seguiu, com a diversidade desses “mundos” engendrados pelo filme em cada um dos espectadores. E para evocar o lugar do movimento de câmera na obra de Akerman, fica gravado na minha memória esse vasto travelling lateral que varre interminavelmente uma estação russa à noite, ritmado pelas filas de poltronas de uma sala de espera gigantesca onde estende-se um povo abatido, adormecido, descartado pela História, o medo e o sono. Voltaram imediatamente ao meu espírito os grandes romances russos, Ressurreição de Tolstoi, os amplos movimentos elegíacos das sinfonias de Scriabin. Esse plano tinha aos meus olhos qualquer coisa de um lirismo mais russo que a Rússia. Para Arnaud Despallières, presente naquela noite, uma única leitura se impôs: esses olhares vazios, esses rostos mortificados, fechavam-se uns após os outros, à passagem de uma câmera que lhes coloca uma única pergunta: “O que vocês fizeram com seus judeus?” A própria Akerman foi confundida por essa análise, mas, no fim das contas, esse plano a permitia também, sem nenhuma dúvida, e é toda a grandeza desse cinema. 




Menos dirigista, professoral, que a panorâmica straubiana, o travelling lateral é o movimento mais propício à meditação akermaniana. Ele desenha um traçado arquetípico do espaço urbano, pela sucessão de fachadas ; a anedota de uma boutique, a marcha dos passantes em sentido contrário, a abertura fugaz de uma perspectiva numa encruzilhada. A razão maior desse apego ao travelling lateral permanece, para mim, ligada a essa vontade de uma visão frontal, não diretiva, do espaço dramático. Passando na frente desses blocos de casas, que são também o livro aberto de um estado do social, sem nunca parar sobre uma fachada miserável como sobre um monumento elegante, a realizadora dá a ver sua coexistência raramente pacífica. Ela estabelece precisamente “a forma de uma cidade”, aquela que “muda mais rápido que o coração de um mortal”. A regularidade inexorável do movimento, seu “naufrágio” (tanto quanto possível, e aqui, o próprio acidente torna-se poético), não privilegiam nada, inventam, pelo contrário, a coerência secreta do lugar, sua cor escondida. 

A forma das cidades 

Se a fixidez e a simetria são para Akerman o melhor meio de deixar eclodir o balé dos corpos, da luz e dos objetos, é a irremediável varredura da câmera que fará da cidade o continuum obsessivo da indeterminação primeira. A fachada diante da qual teríamos surpreendido um pedacinho de humanidade em plano fixo, o movimento de câmera nos lembra que há centenas como aquela. O travelling nega e multiplica ao mesmo tempo a exemplaridade obsessiva do plano fixo. 


Fixidez e movimento dialogam e fundam o verdadeiro projeto dramatúrgico de Chantal Akerman. Como em Sul, é um travelling para trás que vem fechar News from home: plantada corajosamente sobre a ponte atrás da balsa de Staten Island, a câmera enquadra Manhattan que se afasta, como em um adeus definitivo a esse magma urbano, que acabamos de pisar, bloco após bloco, pelo travelling, dos esboços às miniaturas, pelos planos fixos. 

O discurso e as motivações divergem profundamente, mas minha experiência do cinema dos Straub e daquele de Akerman, no que concerne em todo caso seus filmes ditos “documentários” (ou melhor, contemplativos ou meditativos), me leva a pensar que eles são aqueles que melhor souberam habitar as cidades que filmaram, percorrê-las. E se eu nuca vi o Egito, eu sei que, quando da minha chegada a New York, tive a impressão de já ter estado lá, de ter vivido lá por muito tempo, pela simples e tenaz pregnância de um olhar e de uma geografia poética, aqueles de News from home. Chantal Akerman tinha meio que feito o reconhecimento por mim, e de forma alguma empobreceu a revelação do modelo. Ela me inventou a cidade, me deu as chaves. 

Durante uma entrevista com a cineasta em 1986, Chantal Akerman não me escondida a sua profunda confusão. Difícil, para uma verdadeira moderna, admitir o advento lúdico e sombrio de um pós-modernismo que não tinha mais formas para mover nem retaguarda para fustigar nem territórios claros para balizar, para conquistar. É muito revelador observar como a realizadora soube, pelo viés da encomenda ou da “figura imposta”, tirar proveito dessa mesma confusão, sem nunca renegar os princípios “modernos” do seu trabalho, evitando também a crispação purista ou o silêncio desdenhoso. A retrospectiva do République teria assim permitido lançar um olhar mais completo sobre esses filmes e de constatar que Chantal Akerman por sua vez nunca especulou baixo. Cada uma de suas aparições (especialmente para a televisão) guarda a marca profunda de uma inquietação formal enunciada desde seu primeiro curta-metragem (Exploda minha cidade) de 1968. 

A ilusão cômica 

Ressurreição para uns, restauração para outros, os anos oitenta foram contudo aqueles do adeus ao modernismo. Mas eles teriam permitido, fazendo passar para o segundo plano a problemática das formas, o advento de uma certa liberdade caprichosa. Se oferecia então o luxo de revisitar os gêneros, de compor com a encomenda, a série, longe da chantagem dialética da superação e do sublime que caracterizava o exagero das vanguardas. Chantal Akerman teve assim a ocasião de abordar de frente os domínios que atravessavam seu cinema sem que ele fosse verdadeiramente interrompido. 




Poderíamos ter descoberto um personagem burlesco de uma graça impressionante: Chantal Akerman herself elaborando as estratégias mais derrisórias para escapar de seu roommate espaçoso, O homem da mala. Não sem relembrar Harpo Marx, que inaugurou, contra sua vontade, nossa pequena reflexão, o personagem cômico e mudo, redondo e animado, que inventa, com pequenos passos furtivos, a realizadora de Jeanne Dielman, causa surpresa pela autoironia paranoica e terna que desenvolve. Enquanto Duras roda As crianças, Akerman, brincando e se parodiando em O homem da mala, retoma a derrisão asquenaze mais virulenta. Se a topografia limitada do apartamento parisiense é captada com a mesma exatidão rigorosa que aquela do Hotel Monterey do começo, se o plano fixo permanece a unidade de narração, é para dar lugar à indizível tragicomédia da escritura impossível, à angustia da página em branco. Aqui é o corpo burlesco de Akerman que se enrola na fixidez ameaçadora do quadro. O apelo literário do plano fixo, que em New York convocava Singer e Hopper, continua seu trabalho ao lado de Paludes de André Gide ou a versão Queneau. 

O livro aberto de uma cidade se comprime aqui em espaço mental, aquele de um pequeno apartamento onde a dança dos que se evitam, a assombração da promiscuidade, a esperança ingênua do isolamento criador, tornam-se desafios cômicos e inquietantes. Em uma época em que querem nos convencer de que tudo pode se resolver na comunicação, o que há de mais corrosivo que uma Akerman mal-humorada, fechada em seu escritório para escapar do Outro e da angustia da página em branco? 

Aplicação inesperada do dispositivo akermaniano, O homem da mala não inaugura uma veia, nem faz receita. No mesmo ano (1984), na ocasião de uma muito pós-moderna tentativa de refazer um Paris visto por... vinte anos depois, Akerman realiza Tenho fome, tenho frio, no tom de um burlesco mais chapliniano, mais amargo. Esse registro não é um “achado” para mobiliar o fim das pesquisas formais e continuar a ocupar o terreno a qualquer preço, ele está lá desde o começo, na forma de jazigo: apesar da sua queda suicida e explosiva, o curta-metragem Exploda minha cidade anunciava quinze anos antes uma forte disponibilidade para a derrisão. Uma garota organizada e sua armada de objetos utilitários afunda subitamente no caos, na revolta e na morte. 

Eu poderia ter me tornado uma cineasta burlesca se tivesse continuado a trabalhar com meu próprio corpo, o que eu tenho menos vontade hoje. Mas é verdade que eu tenho uma ligação impossível com os objetos: eu quebro, eu derrubo...” (C.A.) 

Essa candura burlesca primitiva, fundadora, tomava em Eu, tu, ele, ela uma dimensão trágica. Sabe-se o quanto a nova geração de artistas contemporâneos, oficialmente em revolta contra a seriedade dos anos conceituais, faz bom proveito da autoficção cômica. Exploda minha cidade não tem, no entanto, nada a invejar aos vídeos mais festejados do nosso amigo Pierrick Sorin. O cômico segundo Akerman, deliberadamente ancorado ao lado da performance, é portador de uma modernidade surpreendente que a história recente da arte só fez confirmar. As retrospectivas são feitas também para isso. Esperemos, em todo caso, que a “vontade” de nos fazer sorrir (amarelo) volte para ela, rápido. 

- Você acha que Paris é bonita? 
- Veremos amanhã 

Outra forma dessa busca, o musical. Há pouca música em Chantal Akerman; sem dúvida porque, nós o vimos, toda arquitetura de seus filmes é a de uma estética musical (de uma maneira muito mais direta que no melodista Jean-Claude Biette). Tudo é questão de ritmo, de durações e de rupturas: movimento, fixidez, contraponto sonoro... Tudo se decide no “faro” com uma grande desconfiança do didático. É por isso que eu não posso me impedir de ver mais uma filiação com os cine-músicos americanos (essa América que a fascina tanto), como Snow, Warhol ou Viola, do que com os cine-ensaístas como os Straub ou Debord. Daí a disponibilidade, a recusa da torre de marfim... e, com os anos oitenta, o desejo de inventar formas híbridas, impuras sem dúvida, mas ferozmente de sua época. Num outro tom, o achatamento frontal dos lugares, dos personagens, das situações (As Florestas, as pessoas), enfim, a luta contra a hierarquia dramatúrgica continua. É bem o que se produz em Golden Eighties




Cantar está ligado à infância...” (C.A.) 

Cantar tudo é também uma maneira de igualar tudo, como em Pelléas et Mélisande (escrito pelo simbolista Maeterlinck, tão belga quanto Hergé, e musicado por Debussy): emoções menores, dramas maiores, romances de cabeleireiras, assombração do passado, dos campos de concentração, relações de trabalho, tudo acaba nas canções. Longe do exercício de estilo retrô, graças, entre outros, à música fina e inteligente de Marc Hérouet e à presença de Lio, Akerman faz o inventário afiado mas distante do charme e dos tiques do período New Wave. 

Off Broadway 

Quando ela aborda a comédia musical, à simetria do cenário junta-se a da coreografia. Resulta daí uma imagem clean, legível, gráfica e um pouco inquietante na qual o único signo quente, orgânico, permanece a inocência dos rostos cantantes; tudo o que permanece “verdadeiro” quando o artifício (musicalização, cenários de estúdio, iconicidade dos balés e dos figurinos) toma o poder. A margem de manobra “sensível” se reduz à representação sem exagero de um casting “pela fisionomia” de uma rara pertinência (de Myriam Boyer à Jean-François Balmer). Se Akerman experimenta o limite da desencarnação formalista, às fronteiras de uma abstração à la Bob Wilson, é, mais uma vez, para que o “cerne da questão” invada empurrando a totalidade do filme, fazendo, do que correria o risco de uma frieza superreferenciada, o espetáculo incandescente da indeterminação dos corpos, às tomadas com seu desejo de clichês (modelos que desmoronam-se um a um diante de sua representação perfeita). Quando tudo nos canta, o indizível vem se aninhar na ausência dos olhares, a pregnância dos clichês (gatinhas, bandidos, riscos do comércio), o fantasma teimoso das utopias (a imigração para o Canadá) ou das lembranças (os campos de concentração). 




Com o tocante Once more de Paul Vecchiali e Grand bonheur de Hervé Leroux, Golden Eighties é um dos acertos dessa reapropriação da comédia musical. Sem dúvida porque tanto um quanto outro tem uma consciência aguda da inviabilidade do projeto a longo prazo. Esses exercícios de (grande) estilo, de inegável dimensão irônica, são manifestos tão “confusos” quanto humildes. Dez anos mais tarde, constatando o quanto a pressão vitrificante do modelo, a re-produção idêntica de um Jacques Demy póstumo (música em paródia, presença física do filho de Demy, mesma montadora de Um quarto na cidade), paralisaram o projeto de Ducastel e Martineau, Jeanne e o rapaz formidável, medimos a liberdade inusitada desse pós-modernismo “encantado” dos anos oitenta. A época em que a releitura questionou primeiro o próprio gênero e por isso a “inocência” modernista dos anos sessenta, por uma re-criação absolutamente original e um desvio rico de uma perspectiva histórica dolorosa, deu lugar ao respeito pânico do modelo Demy dado como insuperável. Congelado no frenesi da repetição, Jeanne é um simulacro desencantado e, se nem o talento nem a sinceridade dos autores estão em causa, a irrupção de um fatum novo (a AIDS) não chega a dar ao Rapaz formidável sua autonomia. Eu temo que a dimensão mortífera desse objeto fílmico super-identificado não escapa, em parte, de seus criadores e, muito além do HIV, é a convocação frenética do modelo, o adeus a qualquer desejo de “mover as formas”, o advento do não-tempo espetacular e de sua terrível inconsequência, que contamina um cinema moribundo. 

Não tendo à mão nenhuma solução sobressalente, reconheçamos a amplitude desse trabalho de reconstituição da meticulosidade virtuosa, e apostamos que o próximo filme de Ducastel e Martineau nos reservará verdadeiras surpresas. Resta que a experiência de Golden eighties, muito ancorada esteticamente na sua época, nunca confundiu homenagem com submissão. Consciente do processo de reciclagem pós-moderna, de seus perigos (a usurpação, a impostura, o “juventismo”, que engendraram a aparição de um Besson, por exemplo), Akerman toma o cuidado de iniciar uma verdadeira reflexão crítica sobre o seu projeto, dando à sua comédia musical um duplo estranho em forma de making of e de meditação premonitória. Esse filme, Os anos oitenta, é a esse respeito um dos mais adoráveis de Chantal Akerman, e meu preferido. Explicações. 

A narração de meus filmes não é autobiográfica, mas o sentimento é.” (C.A.) 

Um filme está por fazer; uma comédia musical. Chantal Akerman, da qual nunca se dirá o bastante o quanto ela atribui importância à escritura, só se torna mais impotente (como eu a compreendo) diante da infinidade de possíveis: os lugares, as cores, os “motivos”. Uma vez encontrado o eixo do filme, sua musicalidade, o resto virá a seguir. 

Rasuras 

Os anos oitenta é o filme desse processo: uma colagem tateante na qual se respondem vídeo-ensaios e embriões de cenas definitivas: diálogo dos formatos, das tramas; jogo do “acabado” e do “inacabado”, do provisório e do definitivo; questionamento engraçado e modesto da presunção delirante que faz com que se decida contar tal história em vez de todas as outras. Raramente, nessa época de transição do cinema (1980-1985), o processo de criação foi denunciado com tanta delicadeza; mais cortante que o filme em pane do amigo Wenders (O estado das coisas), menos complacente que o fracasso dolorista de Garrel (Ela passou algumas horas sob a luz do sol), Os anos oitenta permanece o filme mais justo sobre essa “confusão” que presidirá o deslizamento fatal e lúdico em direção à pós-modernidade cinematográfica... e à equivalência das formas; equivalência indiferenciada que, teremos compreendido, não tem nada a ver com a empreitada de achatamento e de negação organizada da hierarquia que fundou o cinema de Akerman. Aos meus olhos, é nesse filme que a cineasta resolve definitivamente esse possível mal-entendido. 




Dando a ver a paciente procura de um passo, de um “porte” justo, em uma bela abertura em vídeo, Akerman sabe da piscadela furtiva que ela endereça aos créditos de Os guarda-chuvas do amor. O que ela não percebe ainda é que com essas imagens radicais ela se coloca no diapasão de todos aqueles (Pina Bausch, Bob Wilson, Bertrand Lavier, Daniel Larrieu, “Grand Magasin” etc.) que, nesse momento preciso, procuram em qual direção andar sem ceder à tirania da descoberta. Para escolher um rosto, investigaremos sobre ele, e diremos o quanto esses rostos serão ao final, no “verdadeiro” filme, os únicos habitantes de um shopping teatralizado até a morte. Renunciaremos mesmo a certos rostos vislumbrados (Magali Noël), o cinema é feito tanto de acasos quanto de necessidades. 

Esse Anos oitenta é o filme das ausências, a narrativa modesta da insatisfação que suscita um projeto diante de sua terrível realização. Como para se encorajar, depois desses primeiros ensaios, fragmentos de um casting abstrato, de passos, de matérias, de motivos, a cineasta faz uma pausa com ares de falso fim, uma respiração. Nós saímos então do estúdio, do hipotético shopping da “Toison d’or”, para medir a altura. A noite vai cair sobre Bruxelas, a câmera reencontra o seu espaço de predileção e varre com o olhar a cidade que se estende aos seus pés, por muito tempo. Só depois nós veremos algumas cenas rodadas, cantadas, dançadas, ainda separadas de seu próximo filme, e ainda mais perturbadoras. 

Exercícios de admiração 

Longe dos filmes-panfletos suplicantes e obsequiosos, tão importantes hoje, Os anos oitenta é uma obra integral, ainda que inseparável de sua forma definitiva. É quase a condição. No fim de Golden eighties, fora do estúdio e do “show”, o filme irá também respirar do lado de fora, no amanhecer, cheirar o tempo que passa sobre a avenida Louise, como num apelo à ordem, a ordem desses pacientes blocos de ar, de tempo e de espaço que são o sopro vital da Arte segundo Akerman. Pois, além de uma curiosidade insaciável, de uma vontade de “mover”, de se experimentar, Akerman soube impôr suas condições, é o que torna seu cinema exemplar. Falando de O demônio das onze horas, ela declara: 

Eu tive a impressão que ele falava de nossa época, do que eu sentia. E sem dúvida, eu quis fazer a mesma coisa com filmes que fossem os meus.” 




Falar do seu tempo nem sempre é coisa fácil; sobretudo quando a época parece deixar coabitar mil temporalidades diferentes, vagamente unificadas por uma visão televisual tão pobrezinha quanto inexata. Daí essa vacilação de toda perenidade ficcional. Fim das “grandes narrativas”? De Golden eighties a Retrato de uma garota do fim dos anos sessenta em Bruxelas, Akerman vai se aproximar “da borda da ficção”, retirar-se também diante da simples captação dos objetos pré-existentes, falar daqueles que ela ama. Mas, a cada vez, alguma coisa resistirá ao apagamento do “eu”. Bem antes de isso ter se tornado uma “tendência”, muitas vezes esperta, ela dará a palavra a desconhecidos sem cortá-los, montá-los, comentá-los. Em Diga-me, ela vai visitar encantadoras velhas senhoras judias do quarteirão da République, deixando-lhes enfim o direito ao silêncio. Um documentário absolutamente irrepreensível, sem nenhuma afetação, que confirma que, sem obras de arte à altura, o “dever de memória” não será muito mais que uma tarefa, uma obrigação voluntarista “solúvel” na boa consciência. Como Lanzmann, mas à sua maneira “doce”, Akerman sabe se retirar diante da imagem completa daquilo que ela quer nos fazer compartilhar. Poderia estar aí o verdadeiro “lugar de memória” que Marc Augé qualifica de “esforço sublime e por essência sempre inacabado de pensar um passado privado de sentido e um presente privado de futuro: o tempo como mistério exausto mas não solucionado”? 

Mesma ausência atenta entre os atores-dançarinos do Tanztheater de Wuppertal, mesma recusa da hierarquia. Pina não falará mais que os outros; será difícil estabelecer isso, fazer com que eles não falem só dela, do que ela lhes pergunta. Tomaremos todo o tempo, refletiremos e apareceremos refletindo sobre isso. As relações de poder não estarão ausentes desse retrato em mosaico, Um dia Pina perguntou... E ela pergunta tanto e sempre. Mais uma vez, longas praias quase warholianas deixarão para alguns o tempo de inventar um presente: bem mais que no palco, esse americano que, diante da câmera, traduz em linguagem de surdos a canção The man I love terá roubado do tempo que Pina pede, ao longo de dias, um momento de uma intensidade telúrica; minutos de cinema puro entre os mais belos que me foram dados a ver. O cinema de Akerman é generoso. 

Generoso até a ausência. Quando a cineasta relata uma representação de Letters Home, ela sabe não reinvidicar nada além da beleza do texto de Sylvia Plath, e a exatidão dos rostos de Delphine Seyrig, fiel, e de sua filha. Ou quando a câmera se aproxima e se afasta por lentas ondas (Wavelength de Snow entusiasmara Akerman em 1969) do corpo irônico de Sami Frey embarcado no monólogo cabotino de A mudança. A clareza angulosa de News from home, a legibilidade diáfana dos Encontros de Anna, foram assim postas ao serviço de puros “exercícios de admiração”. Bela forma de duvidar de si e de exprimir em imagens a confusão legítima de uma artista em contato com o mundo. 

Mal-entendidos 

Devo confessar que, quando do seu lançamento, em 1991, eu fui um pouco desorientado por Nuit et jour, cuja leveza cuidadosa nos limites de uma HQ truffautiana não correspondia ao relâmpago salvador que eu esperava beatamente do retorno de Akerman às telas. Eu aprendi há muito tempo que a expectativa que temos de um filme pode perturbar a visão efetiva. Se a retrospectiva do République não questiona o fato de que há obras maiores e obras menores, ela, pelo menos, permite indicar que não há obra completa sem obras menores, sem filmes de passagem. É só rever o fim de Nuit et jour para reconectar imediatamente essa comédia intimista (o bairro da République, sempre) às afirmações mais radicais do cinema de Akerman. Resignada, Julie (Guilaine Londez) sai do apartamento do seu primeiro amor, pronta a tomar seu destino nas mãos. Ela se afasta e nós seguimos quem caminha no meio de uma rua com um passo decidido. Esse longo plano conclusivo, que nenhum crédito vem desvanecer (o fim virá, no seu tempo), diz tanto, atravessa tanto do espaço, da noite, de Paris, exige tão pouco de representação, de “dizer”, que ele abre de um só golpe o filme a essa divisão clara do tempo, do quadro e do sentido, desencadeando o raio tão esperado, a emoção pura. 




Eu teria adquirido no République a certeza de que um ensaio mal acabado de Chantal Akerman permanece, aconteça o que acontecer, mais rico de ensinamentos que muitos sucessos apressados dos quais se alimentam os inumeráveis defensores do “no seu gênero é interessante”. E se, durante alguns momentos, alguns puderam querer neutralizar o cinema de Akerman relegando-lhe à fila das curiosidades fora de moda, deixando-lhe com condescendência a auréola de uma ativista feminista que passou para o lado inimigo, eles precisarão se arrepender. 

Breve nos cinemas 

Eu certamente vou parar um dia de fazer filmes, mas eu nunca vou parar de escrever.” (C.A.) 




Dessa pequena visão global emergirá, eu espero, o que, na carreira de Chantal Akerman, permanece exemplar: uma fidelidade a si mesma que poucos autores dessa geração podem reivindicar; fidelidade sem rigidez didática, sem rotina, sem negação nem concessões, inteligentemente negociada com a evolução do cinema e dos públicos. Nós temos dito, feminilidade, judaicidade (e “belgitude”...) nutrem a obra de Akerman, por vezes mesmo em segredo. Quanto à sua preocupação constante, fundadora e sempre visível, de renovação das formas, poderia ser não apenas descoberta mas também, podem estar certos, partilhada por todos aqueles a quem a abdicação pós-modernista não satisfaz mais. Eles são uma legião, aqueles que sabem que Harpo estava mesmo segurando o muro, e que Chantal manterá custe o que custar a “ficção de um cinema, salvando a si tanto quanto dele mesmo graças às metamorfoses às quais ele se submete”. Aqueles, portanto, que continuam acreditando na Beleza.

[1] NdT: o jogo de palavras (sa)voir se perde na tradução. 

News from Chantal foi publicado originalmente na revista La Lettre du Cinéma n°11, outono de 1999. Tradução: Miguel Haoni.

Os trapos do realismo




Por Pierre Léon 

A querela do realismo na arte procede […] da confusão entre o estético e o psicológico, entre o verdadeiro realismo, que é a necessidade de exprimir a significação ao mesmo tempo concreta e essencial do mundo, e o pseudo-realismo do trompe-l’œil (ou do trompe-l’esprit) que se satisfaz com a ilusão das formas”. 
André Bazin, Ontologia da imagem fotográfica[1]

Realismo: em termos de arte e de literatura, ligação à reprodução da natureza sem ideal”. 
Ideal: o modelo interior do poeta, do artista”. 
Le Petit Littré 

Tudo está bem? 

O ódio, de Mathieu Kassovitz, é um filme muito curioso, pois ele põe, um pouco nas bordas de uma poética pobre, questões importantes, como o faziam há uns 10 anos A sociedade dos poetas mortos, de Peter Weir ou Imensidão azul, de Luc Besson, em um fluxo ininterrupto e por vezes eficaz de clichês sociológicos ou psicológicos, como se o cineasta drenasse com ele uma frustração, um incômodo diante dos temas encontrados, na falta de ter reduzido suficientemente o campo de suas preocupações. Já o próprio título, ainda que seja lúcido a respeito de sua polissemia, uma vez que designa ao mesmo tempo o antônimo de amor e uma expressão da linguagem corrente, mantém o espectador em uma posição deliberadamente inferior, fazendo apelo globalmente a sua consciência social diante de uma situação cuja gravidade o cineasta teira sido o primeiro a compreender. Não é uma caricatura: O ódio se situa de partida em uma metáfora carregada (o homem que cai do alto de um prédio e que repete para si durante sua queda: “até agora, tudo está bem”), reexposta no fim do filme e que não deixa nenhuma dúvida sobre a posição de árbitro que seu autor se outorga. Por mais desagradável e discutível que essa afirmação possa parecer, ela não deixa de ser a prova de certa força de convicção. A análise dupla de Kassovitz, ao mesmo tempo do cinema e da sociedade, mesmo que seja primária, não é completamente errônea, pois dá conta da dominação psicológica do primeiro sobre a segunda e da lei segundo a qual a eficácia de uma tese ideológica se mede pela capacidade de simplificar sua enunciação. É também a lição de Eisenstein, que Kassovitz parece ter naturalmente assimilado. 

Seu realismo platônico — o mundo das ideias antes do mundo dos homens — se situa na linhagem obscura do cinema francês, que vai de Duvivier (pela obscuridade pragmática) a Carné (pelo estetismo geométrico da decupagem), passando por Clouzot (pela busca por eficácia) e que, no cinema contemporâneo, desemboca em certos filmes de Tavernier, Corneau ou Blier. Mas o que desequilibra o filme de Kassovitz, principalmente do ponto de vista estético, é a gestão anárquica dessa herança: a qual ideologia dominante Kassovitz se opõe ou acredita opor-se com um método que se origina na pior prática acadêmica e em uma enunciação brutal e descabida de um ideal de cinema (e não mais de um modelo de artista), como se o mero fato de fazer filmes colocasse o cineasta acima dos que não o fazem, ou seja, de quase todos os outros? Em particular, a cena kubrickiana da pilhagem de uma galeria de pinturas parisiense, na sua grotesca incompletude, dá calafrios pelo que acumula de tentação totalitária. A câmera, inteiramente devotada à causa dos que quebram (e que acredita estar, assim, do lado dos oprimidos), filma e escruta os rostos angustiados, como se fôssemos assistir a um estupro coletivo, e os estupradores, em um movimento cínico e fazendo caretas, fossem confiar à película a imagem de seu crime. Mas não se deve esquecer que é entre os oprimidos desse tipo que os opressores recrutam seus milicianos. 

Sim, O ódio é certamente um filme político, mas talvez não no sentido desejado por seu autor. Sem sequer falar na recuperação massiva do filme pela mídia, o filme fracassa em sua meta principal, que é a de chamar atenção para um desequilíbrio social maior, e entra prudentemente no sistema da opressão, ao mesmo tempo tranquilizando os responsáveis pela organização social em sua impotência em tratar o problema e os espectadores, que se veem como as vítimas consensuais dessa impotência. 

Se, no plano estético, o filme de Kassovitz não é novo (e isso não é um defeito, o mero desejo de modernidade não envolve toda a modernidade), não pensemos, contudo, que lhe falte estilo. O roteiro é magro, mas preponderante, como em Autant-Lara ou Tavernier, a psicologia é tão banal quanto a de Besson, o desejo de marcar época é tão flagrante quanto em O boulevard do crime. Quanto ao estilo, se não é muito original, ao menos é eficaz. Esse tipo de decupagem, rápida, inteiramente a serviço da montagem, que Kassovitz pratica de modo profissional, provou seu valor há muito tempo. Planos fechados com grande-angular, a câmera levada ou fixada em cima ou embaixo das personagens, preto e branco consensual, geometria das linhas, asseio da dinâmica sonora, direção de atores ao estilo cinéma-vérité, todos os elementos funcionam em estreita osmose, o que dá ao filme uma impressão de coerência, em perfeita contradição com o caos teórico de seu tema geral. O que mostra bem que um olhar generoso sobre o mundo (exatamente o contrário do ódio) é sobretudo saber se manter à distância. Nem muito perto nem muito longe. 

Onde pôr sua câmera? 

Há uma quietude do olhar em À vida, à morte!, de Robert Guédiguian, cujas malhas do roteiro são suficientemente frouxas para permitir que nos deixemos apanhar nos fios de sua mise en scène. O filme é quase inteligente demais, atento que é a cada gesto, com a consciência grave que caracteriza a localização das personagens nos planos (como o corpo nu do cunhado sobre o rochedo imediatamente antes de a vida abandoná-lo — ou de a morte acolhê-lo) ou nessa maneira de fazer as personagens se engalfinharem e de logo se afastar, talvez no temor de forçar demasiadamente nossa simpatia. Se o filme começa como uma crônica desiludida da vida cotidiana de uma comunidade de gente pobre (no sentido dostoievskiano) e poderia nos fazer temer derrapadas wylerianas, a câmera instala pouco a pouco essa distância salutar, estreita, entre as personagens e nós, tão estreita que por vezes sufocamos nela, mas cujo princípio é relaxar a compressão com cenas de pura comédia, de dança ou de canções em que encontramos, em certos momentos, a graça de um Jacques Rozier. 




Essas personagens, por seu duplo pertencimento ao mesmo tempo ao real marselhês deslocado e ao romanesco poético do cineasta, não são, como em O ódio, funcionários de uma convicção ou prolegômenos, mas potentes portadores de solidão em uma comunidade difícil cuja confiança e coesão eles se esforçam para não trair. E, em cada situação problemática do ponto de vista dramatúrgico (a canção do avô obcecado pela guerra da Espanha, o strip-tease coletivo sonhado), Guédiguian sabe parar um plano imediatamente antes de ele nos tomar como reféns. 

Como não há realmente cenas que se sobressaem (será por isso que o filme é tão fugitivo?), trata-se da narrativa de uma experiência que nos interessa, a de um cineasta que descobre com modéstia o local exato em que deve pôr a câmera. 

O proletariado aos trapos 

Não é só o amor que responde ao ódio. Há também o cinema que responde ao cinema (sem, contudo, buscar fazê-lo) e Mulheres diabólicas, de Claude Chabrol, era, nesse ano de 1995, o antídoto salutar ao filme de Mathieu Kassovitz. Não há nenhuma semelhança de roteiro entre os dois filmes, mas uma mesma vontade de analisar o ódio como um sentimento de classe e, onde Kassovitz, inteiramente impregnado da débil ideologia pós-comunista, consensual e fundada unicamente no conceito dos direitos humanos, dá provas de uma visão unívoca, Chabrol de partida põe o dedo no que interessa eminentemente, a ambiguidade, presente em todas as formas de opressão.




Em várias entrevistas, Chabrol disse, com a malícia que o caracteriza, que Mulheres diabólicas era um filme marxista e isso é verdade, assim como Entre amigas o era. Mas a malícia de Chabrol é certamente fachada, tendo-se tornado tão de mau gosto invocar Marx, e o empréstimo que ele faz da teoria marxista não é nem fortuito nem superficial. O que falta a O ódio não é somente um contraponto ideológico, mas também o interesse mais elementar pelo que rege a realidade social. Chabrol não se deixa influenciar pela lamúria atual, mas reencontra, estranhamente, a acuidade de um Victor Hugo quando pinta com traços vigorosos esses Thénardier em potência que são Jeanne e Sophie, representadas por Isabelle Huppert e Sandrine Bonnaire (uma verdadeira ideia de casting), personagens saídas desse “proletariado aos trapos” cujas condições de existência aterradoras fazem com que ele “seja mais disposto a se deixar comprar por maquinações reacionárias[2]. Assim, sem fazer economia dessa ambiguidade fundamental, Chabrol mergulha com prazer nesse grande drama capitalista com a distância necessária para não afundar na caricatura (exceto, talvez, na atuação enfática de Isabelle Hupper — o episódio do chiclete — ou na personagem do padre) pela presença, ao lado do olhar do espectador, de um terceiro olho, ao mesmo tempo jocoso e grave, verdadeiro recurso e possível apaziguamento à sangrenta conclusão do filme. Terceiro olho que assiste a toda a família se instalar diante da tela 16/9 da televisão para gozar do espetáculo de um Don Juan dirigido em Salzburgo por Karajan, terceiro olho, que agora se tornou o nosso, implacável, mas divertindo-se com essa imagem perfeita de uma burguesia triunfante em seu bom gosto e em seu direito. Terceiro olho que não piscará quando o “proletariado aos trapos” apagará friamente essa imagem da face da terra, antes que um acidente de carro para uma e o tribunal (provável) para a outra apaguem-nas por sua vez.

Chabrol e o roteiro

Mais uma palavra sobre Mulheres diabólicas. Diz-se que há um problema de roteiros na França e deve-se ter razão, porque não há um roteiro julgado bom pelo establishment e pelo complexo rappenelo-berriano que não seja um roteiro ruim (O Urso, Camille Claudel, Urano etc.), dialogado com um garfo e recheado de clichês, mas que possui a vantagem de aferrolhar todas as saídas, encerrando a mise en scène na pura ilustração. Donde essa importância exagerada conferida aos roteiristas, como se a escrita das palavras, em absoluta contradição com a visão das imagens em movimento, fosse a garantia incontestável de um autor. Chabrol, que se abandona de bom grado a um academicismo sorridente à la Ivory (em Madame Bovary ou Um assunto de mulheres), soube liberar o lastro roteirístico e diversos pontos de sua história permanecem como que em suspenso. Por exemplo, do ponto de vista estritamente narrativo, nada nos permite afirmar que as duas heroínas cometeram os assassinatos de que foram acusadas, assim como nada nos indica que não os cometeram. E o fim do filme permanece absolutamente enigmático com algo de desproporcional nessa brusca irrupção do fora-de-campo (o acidente, a chegada da polícia na noite imensa), onde o espectador, sempre terceiro olho faceiro e atento, passeia e imagina o que lhe aprouver. Chabrol estabelece uma relação conflituosa com seu roteiro, que deixa de ser um simples tapete sobre o qual rola o travelling de sua mise en scène, ele o discute, questiona-o, obscurece o que não precisa ser dito, demora-se nos momentos em que não acontece nada (em particular, todos esses planos que mostram o corpo lento, como que anestesiado, de Sandrine Bonnaire) e, além disso, se dá ao luxo desse suspense hitchcockiano escalonado em que o analfabetismo de Sophie é primeiramente comunicado ao espectador e depois às outras personagens. É nisso que o roteiro deve à mise en scène, e não o contrário.

Ademais

Por outro lado, o cinema é uma linguagem” (Bazin). O que me interessa é esse “por outro lado”. Porque, para que haja um “por outro lado”, a sintaxe exige que tenha havido um “por um lado” e ele não está aí. O que Guédiguian afirma como que de passagem é que o cinema é uma linguagem e que, talvez, ele seja, precisamente, de outra parte[3] (e de outra parte é em seu lugar). Não se pode negar ao cinema essa capacidade de comprazer-se e denegrir-se, de buscar ao mesmo tempo a aprovação do público e a da crítica, de professar, como o fez Kassovitz em uma polêmica com Les Inrockuptibles[4], da qual o mínimo que se pode dizer é que ela não o fez parecer maior, o ódio aos intelectuais, ódio burguês por excelência, ou de buscar em experimentações subterrâneas a pedra filosofal. O cinema é, de fato, a arte total e, se ainda existem iletrados, como a Sophie de Chabrol, é pouco provável que encontremos mais de uma dúzia de analfabetos da imagem (Sophie assiste à televisão o dia inteiro). O cineasta fala a língua de todo o mundo. Eu acho que Guédiguian fala a língua de Mathieu Kassowitz, mas é pela elaboração de uma linguagem que ele se singulariza, e Kassovitz, por sua audiência excepcional. Não se trata de opor essas duas práticas ou de julgá-las, pois ambos os filmes são objetos culturais, que são iguais diante de nós, apesar de seus autores e do que eles quiserem dizer sobre eles, mas de buscar esse ponto preciso em que seus filmes operam a junção com a realidade. E é na diferença entre o julgamento de realidade e o julgamento de valor que reside a função essencial do realismo.

O sintagma de São Tomás

Se a querela de que fala Bazin entre a arte realista e a arte trompe-l’œil é como o Etna, que nunca se apaga completamente, acontece de um cineasta, pela importância que assume aos olhos de seus contemporâneos, conseguir mantê-la em uma atividade razoável, isto é, atrair para si oposições e propor sua síntese. Esse cineasta-ímã (e amante) chama-se Jean Renoir. Se olharmos de perto, o que encontramos no meio do caminho entre Grémillon e Duvivier? Renoir. Entre Gréville e Trivas? Renoir. Entre Pagnol e Guitry? Renoir. Entre Clouzot e Becker? Renoir. Entre Godard e Demy? De novo, Renoir. Entre Eustache e Truffaut? Mais uma vez, Renoir. Com isso, não quero dizer que Renoir seja o justo meio do cinema francês, mas, ao longo de toda a sua carreira, que vai do mudo à maturação do cinema moderno, ele soube, por sua técnica de camaleão realista, atrair para si todas as transformações maiores de sua arte, ao mesmo tempo em que permanecia modestamente o maior dos cineastas.




Um homem que não gosta de ser comparado a Renoir desempenha hoje em dia esse papel federador e é Maurice Pialat. Já pelo lugar que ocupa (ou que ele quer dizer que ocupa) no sistema cinematográfico francês, o de um mal-amado, de um eterno avexado, notório insatisfeito, à frente, mesmo assim, de uma dezena de longas-metragens em 26 anos, o que não é muito, mas não é algo desprezível. Um cineasta inclassificável, à distância das comunidades, dir-se-á o contrário de Renoir, sim, mas que se assemelha ao cinema de hoje no que ele tem de heterogêneo. 

De qualquer forma, é divertido constatar que Pialat, que pratica a arte do denegrimento como ninguém (inclusive a respeito de sua própria pessoa), é justamente o cineasta que, em pouco mais de um quarto de século, integrou em sua poética a destruição narrativa godardiana (e sua relação com os atores-estrelas), a experimentação estética eustachiana (sobre a duração de uma cena), a descrição atenta da juventude e de sua capacidade ou não de transformar o mundo (como em Rohmer), mas também a afirmação de certa vulgaridade enquanto fazendo parte do patrimônio (com empréstimos de Bertrand Blier ou mesmo de Michel Lang ou Max Pécas). 

Portanto, um homem contraditório, inteligente e sensível, um cineasta que se interessa pelo momento que passa sem deixar escapar nada de sua magia, um pintor da desordem, cujos filmes possuem todos esse pequeno perfume de inacabado, de falso natural e de aparente improvisação que os coloca de partida entre as manifestações mais singulares dessa segunda metade do século. Em qualquer filme de Pialat, há sempre — e podemos decididamente chamar isso de milagre — ao menos uma cena ou mesmo um único plano cujo grau de sentimento real é tal que tem-se paradoxalmente a impressão de viver um sonho (penso na primeira aparição, no vão da porta, do Pialat-ator em Aos nossos amores). É nesse tipo de aparição que se desenrola plenamente “essa cumplicidade buscada na filmagem e cujos indícios o espectador percebe como um convite a entrar na dança, como uma vara estendida a sua própria conivência”, como nota Jacques Bontemps a respeito de A noite da encruzilhada, de Renoir[5]. Há uma semelhança evidente na direção de atores tal como praticada por Renoir e Pialat. Ainda que este último exponha mais voluntariamente os traços e reduza ainda mais a distância que separa o ator da personagem, sem que se possa identificar precisamente com quem estamos lidando — com Pialat ou com o pai de Suzanne? Com Bonnaire ou com Suzanne? (ainda Aos nossos amores); com Jean Yanne ou com um sósia de Maurice Pialat? (Nós não envelheceremos juntos) —, há em Renoir o mesmo tipo de perturbação que nos acomete quando vemos A cadela ou A regra do jogo, em que a diferença que vibra entre Simon e Legrand ou entre Renoir e Octave é da espessura de uma folha de papel-bíblia. O papel-bíblia da ilusão[6]

O novo filme de Maurice Pialat, Le Garçu, para além da provocação regional de seu título — mas que cumpre suas promessas por causa do suspense psicológico que rege o filme e que responde à questão “mas de quem se fala?” — joga até o fim a carta da interpenetração entre a ficção proposta e a realidade documental da vida privada. Pela presença de Antoine Pialat, o filho do cineasta, pela presença intertextual de Depardieu, pela heterogeneidade da interpretação, pela explosão aparente da linha narrativa, Pialat mostra uma capacidade de organização do caos à qual ele mesmo não nos havia acostumado (e que falta tão cruelmente ao filme de Kassovitz). Então, seu filme torna-se um concentrado temático e estético de seu caminho pessoal, mas sem o ensimesmamento que caracteriza, em geral, esse tipo de exercício (seria divertido evocar Fellini e Moretti a esse respeito), porque a generosidade faz com que se olhe para outro lugar. 

Se Le Garçu não é o filme mais bem-sucedido de seu autor (não há nem essa adequação vertiginosa entre a filmagem e o argumento como em Antes passe no vestibular nem a acuidade ao mesmo tempo amarga e precisa das relações sociais como em Loulou nem a grandeza cômica da tragédia familiar como em Aos nossos amores nem o sopro inquietante de uma solidão exasperada como em Van Gogh), é porque ele acumula disso tudo elementos dos quais talvez ele não tenha o domínio absoluto: em sua maneira de filmar seu filho, há mais um olhar de pai que um olhar de cineasta, o que não se lhe reprovaria, mas sua presença incômoda (pela mobilidade e pela vida que seu corpo de antes do cinema exprime e que não pode dar conta dos imponderáveis de uma filmagem) exige do espectador que a aceite ou rejeite em vez de integrá-la à economia geral do filme, assim como ele não integra ou integra dificilmente as personagens de Elisabeth Depardieu ou de Fabienne Babe. Em contrapartida, Gérard Depardieu, tão enigmático, habitado por uma força de ordem mitológica (não é Aquiles saindo de sua tenda, imóvel a grandes passos?), propulsiona com uma real leveza sua massa invadindo os quatro cantos de cada um dos planos que habita: é preciso vê-lo correr na praia para compreender o que esse corpo estranho do cinema francês pode deslocar como sentido suspenso! 

O que caracteriza em primeiro lugar esse filme desconfortável é sua capacidade de integrar a querela de que fala Bazin em um conjunto de interrogações, correndo o risco de que elas o levem ao desinteresse por certos elementos narrativos (na recusa de tipificação social das personagens, entre outros), mas ganhando em outros planos, quando se recusa, por exemplo, a romper a sequência em que Rocheteau come torradas e em que sua falsa doçura pascaliana (“Não obstante essas misérias, ele quer ser feliz e quer apenas ser feliz e não pode não querer sê-lo”) rompe com a presença ilusoriamente viva de Depardieu. É nesse sentido que Pialat é um verdadeiro realista, um realista do presente, que vira do avesso, como uma meia, o sintagma de São Tomás: eu vejo o que creio. E que sorri gravemente para o espetáculo da divina comédia humana. 

[1] In: Qu’est-ce que le cinéma?, éditions du Cerf. 

[2] Marx e Engels, Manifeste du parti communiste, Aubier. 

[3] Jogo de palavras a partir da locução d’autre part, “por outro lado”, mas que também poderia ser lida literalmente como “de outra parte”, “de outro lugar” [NT]. 

[4] Descontente com o tratamento “crítico” do filme por parte da revista semanal Les Inrockuptibles, Mathieu Kassovitz enviou à redação do jornal uma carta virulenta, que foi publicada no nº 15 (21-27 de junho, 1995), acompanhada pela resposta não menos virulenta dos jornalistas incriminados. Foi-lhes fácil replicar ao “… ganhar a vida criticando os outros não é, na minha opinião, um trabalho glorificante…” e a outros “… a crítica deve permanecer objetiva, mesmo se for negativa”. 

[5] In: “Le feu de l’esquisse”, Trafic, nº 16, outono de 1995. 

[6] Penso que, no cinema americano, essa distância entre o ator e a personagem se define em termos de altura, de verticalidade (por exemplo, um dos maiores atores hollywoodianos, Dana Andrews, parece sustentar o corpo de suas personagens, ao menos nos filmes de Lang, Tourneur ou Preminger), ao passo que a tradição francesa tenderia mais à horizontalidade (penso, em particular, em Raimu que precede em alguns metros os modelos que ele deveria encarnar). Hipótese a ser explorada. 

Les haillons du réalisme foi publicado originalmente na revista Trafic n°17, inverno de 1995. Tradução: Rafael Zambonelli. 

A urze suspeita




Sobre O Cogumelo dos Cárpatos de Jean-Claude Biette 

Por Jean Paul Civeyrac 

A abertura de Cogumelo dos Cárpatos é impressionante: um homem, vestido dos pés à cabeça com um traje de proteção, vem ao socorro de uma garota que, aparentemente, não parece ser ameaçada por nada além do ar livre. Pensamos nesses filmes futuristas americanos de tendência expressionista. Jean-Claude Biette estiliza nesse sentido: câmera ao nível do chão, cascata expressiva da cabeleira da garota, etc. Esperamos então que essa história prossiga num bunker e relate a sobrevivência dos humanos escapados de alguma catástrofe química ou nuclear. Ou bem como em O estado das coisas de Wim Wenders, a câmera poderia dar uma panorâmica e nos desvelar a equipe técnica de um filme improvável. Se O Cogumelo dos Cárpatos não se engaja tão nitidamente em nenhuma dessas duas vias, ele não deixa de propor uma visão de mundo do "pós-Chernobil" - como está inscrito no primeiro plano do filme – duplicada por uma reflexão sobre a criação. 

O que primeiro surpreende em O Cogumelo dos Cárpatos é a incrivel profusão de personagens. Não aparições ou simples figurantes mas efetivamente figuras de ficção que os atores fazem existir na tela, em carne e em palavras. Num primeiro momento, essa profusão dispersa. Cada personagem está instalado há muito tempo na sua história, e cada uma delas, como as relações que ela estabelece com as outras, só se explicita lentamente, à medida que o filme avança. Mas, paradoxalmente, quanto mais o espectador encontra os pontos de referência no meio dos personagens e das situações, mais ele religa e compreende, mais o sentimento de uma ausência de ligações reais o conquista, como se o objetivo não fosse mostrar a relação mas antes a dificuldade de estabelecê-la e de mantê-la. Isso não é colocado metafisicamente mas à luz da catástrofe atômica do vale do Ródano. Um pouco como se depois dela tudo tivesse se dispersado, espalhado, nos projetando num mundo esmigalhado que só conhece destinos solitários. Vendo esse filme, tem-se pouco a pouco a impressão de se encontrar na presença dessas poeiras que às vezes o favor de um raio de sol de verão nos mostra esvoaçar. Todas essas trajetórias, todas essas circunvoluções cessarão de se ignorar? Todos esses átomos terminarão por se encontrar verdadeiramente? No fundo, Jean-Claude Biette não conclui. Ele inaugura as relações, começa as situações e mostra que a comunidade (de desejos, de paixões, de ideias) terá dificuldade para se constituir e se conservar (a garotinha que foge poderia constituir a metáfora). Ou ainda, talvez, no tablado improvisado de um teatro. Hamlet vai acabar por ver, enfim, o dia? À primeira vista, o único destino conclusivo não poderia aqui ser outro além da morte – aquela de Ophélie, a bela radioativa. É que a era do átomo rompeu os destinos coletivos. A comunidade se desagregou, não existem mais personagens principais, personagens secundários. A liberdade tornou-se solidão e desordem. E a História só dará à luz na dúvida e na dor. Está sem dúvida aí o verdadeiro tema do filme: a possibilidade comprometida de inventar a História, de fazer um projeto de existência agora que esse mundo gangrenado pode, com a maior energia, se autodestruir. A Ciência (a vertente Patachou) queria se encarregar do destino da Humanidade mas é incapaz de assegurá-lo. Ela permanece cega diante do real e parece só poder destruí-lo – Patachou não entende nada das extraordinárias virtudes do cogumelo que dá saúde e longevidade. Da mesma forma, Ludovic só vê no real a ocasião para ganhar um pouco de dinheiro (ele é o personagem do comércio, o mercador mas também o amante) e não poderá gerar uma verdadeira história de amor e de casal. O Cogumelo dos Cárpatos mostra a dificuldade do projeto, aquele que consiste em dizer "era uma vez…" depois de Chernobil. Como criar uma ficção que não seja ficção-científica – entendida no duplo sentido: ou deixamos a ficção para a ciência; ou idealizamos, fantasiamos, o futuro? Podemos não ter projeto – como Ludovic que simplesmente aproveita a circunstância. Ou ter um, mas sem real fundamento – a concepção que Patachou tem da clínica se verá contradita pela enfermeira que exigirá mais invenção, experimentação, liberdade, e consequentemente mais humanidade (é um pouco o cogumelo dos Cárpatos contra o cogumelo do vale do Ródano). O risco maior permanecendo a ilusão, a idealização – o projeto vítima de sua aparente evidência – que resulta na estagnação, no tédio, no estiolamento. Por exemplo, a mulher que Tonie Marshall interpreta toma pouco a pouco consciência da situação falsa na qual ela se encontra: uma cena na livraria mostra ela insatisfeita com o lugar que ela ocupa na sua cadeira, desejando de repente trocar com aquele de sua empregada – essa bela cena dá uma estranha impressão: aquela de uma estagnação espaço-temporal na qual não podemos intervir, quer dizer, impossível de (re)ativar – e ela logo notará que todo mundo mente, não conta a verdadeira história…




Quando, no filme, os personagens olham um canteiro de obras, onde isso se constrói, eles só veem primeiro a destruição do antigo e a quase ausência de riqueza do novo. O Eldorado (os Cárpatos) daqueles que esperam, que ficcionalizam, que fabulam, poucos vão percebê-lo. Cabe ao cineasta, ao artista a função de contar a história, de imaginar os termos, se ele for capaz. E Patachou, a cientista, entregará ao diretor de teatro o misterioso cogumelo: seu leite permitirá talvez ao artista revelar e, portanto, inventar um mundo verdadeiro. Dar vida a Hamlet é dar à luz os homens. A fábula torna-se aqui tragi-cósmica. E nos toca profundamente.

A emoção oferecida pelo filme de Jean-Claude Biette não é sutil, tensa, mas disseminada. É quando, por instantes, as matérias filmadas se oferecem a nós pela própria matéria do filme. Raramente tivemos num filme um sentimento tão forte das matérias, no sentido da inquietude. Ar, terra, água e fogo tornam-se aqui os elementos da incerteza e do medo. As radiações estão talvez, sem dúvida, neles: como viver atualmente com eles, observá-los, senti-los? Em O Cogumelo dos Cárpatos, chega-se a suspeitar do ar, um ar carregado de invisível, um ar que dá medo, e que pode deixar mudo (Ophélie). A suspeita nasce desse vaso de urze, do mar ou do Marne, ou ainda desse fogo das invocações espíritas… os elementos fundamentais de onde tudo pode nascer mas também se dissolver. E se as cenas de passeio à beira-mar e no ar cinzento são tão belas, é sem duvida porque, repentinamente, nós nos damos conta de que uma ação tão simples – andar, flanar… – está simplesmente ameaçada. Agora, a natureza, o mundo só fala ao homem sob o signo de uma possível agressão. E essa matéria suspeita, questionada, fonte e túmulo, não seria percebida como tal pelo espectador sem a bela e discreta luz do filme (graças a Denis Morel) que, literalmente, irradia todos os seres.

La bruyère soupçonée foi originalmente publicado em 1989 no dossiê de imprensa de O Cogumelo dos Cárpatos e republicado na revista La Lettre du Cinéma n°23, julho/agosto/setembro de 2003. Tradução: Miguel Haoni.

Momento crítico para a crítica


Por Serge Daney 

Há alguns anos, em Gabès, um animador de cineclube do sul-tunisiano me comunicou sua angústia. De fato, já não era mais raro que, depois da sessão, um estudante barbudo se levantasse e explicasse gravemente que se a heroína morria no fim do filme, não era um feito dos roteiristas, mas de Deus, que a havia punido pelos seus pecados. Como, nessas condições, animar um debate de cineclube visto que debate já não mais existia? 

No mesmo momento, nos cristãos, um movimento convulsivo e carola agitava mais de um deles. A opinião daqueles que tinham visto Je vous salue Marie pesara repentinamente menos que a dos que o condenaram “por intuição”, sem tê-lo visto. Com uma graça que lhe é própria, o autor do filme, Jean-Luc Godard, fingira respeitar a opinião do papa, menos como chefe da Igreja que como indivíduo cujo “negócio” pessoal consistia em refletir sobre Maria. Godard não reivindicara os direitos sagrados do indivíduo à criação, ele pedira o impossível, ou seja, o direito do indivíduo João Paulo de debater com o indivíduo Jean-Luc sobre uma parte comum de seus trabalhos. 

Godard não era mais aquele que, para defender A Religiosa de Rivette, escrevia uma bela carta de ruptura para Malraux. De fato, as coisas tinham mudado. A crítica de cinema já tinha se dado por vencida e o “direito à criação” tinha se tornado uma lengalenga sindical, ainda mais barulhenta entre os “profissionais da profissão”; já há algum tempo, mais nada “era motivo para debate”. Alguns anos mais tarde, no clima de indolência incomodada que acompanhou a estreia de A última tentação de Cristo (rapidamente rebatizada de “caso Scorsese”), a crítica de cinema não desempenhara nenhum papel.[1] 

O que significa essa anemia da crítica? Que não sabemos mais lutar pela “liberdade de expressão”[2] e que continuamos sem saber lutar pela “liberdade de consumo”. Questão: existe um direito inalienável do consumidor de filmes de consumir o filme que ele quer? Resposta: não é certo. Não é certo, porque não são só os objetos que são consumidos. É cada vez mais o “social” que é consumido pelos indivíduos supostamente livres. Livres de suas escolhas e dispensados de ter que defendê-las, logo, de debater o que quer que seja. Pois o consumo do social, se ele ainda precisa de objetos-pretextos, precisa mais do pretexto que do objeto. 

A obra dependia da crítica e a crítica resultava do que dependia de um trabalho (ou, ao menos, de um projeto). O produto depende, stricto sensu, apenas do que ele, por sua vez, produz. Um bom produto é aquele graças ao qual nós vemos como isso funciona, a sociedade. É isso que queremos ver, o produto do produto e assim por diante, ao infinito. A sociedade se autoconsome via seus “fenômenos” na cena parasitária das mídias.

Compreendemos, por conseguinte, que as salas de cinema e o sentido da crítica se esvaziem ao mesmo tempo. A “ursificação” recente de todo espaço social francês permitiu a toda gente de inserir-se (como lhe convém) em um dos numerosos elos da “linha”-Urso, o elo-filme não tendo mais nenhum privilégio que o de vitrine. É assim que alguns dias antes da estreia de O Urso, eu encontro duas amigas. Uma tem o sentimento penoso que, cheia de trabalho, ela não para de perder o filme e a outra me pergunta ao que se deve o seu enorme sucesso. A curiosidade quanto aos efeitos precede doravante a livre análise da causa. 

São coisas conhecidas, há muito tempo descritas e das quais os paradoxos nem divertem mais. Lá onde o pretexto prevaleceu sobre o objeto, a crítica, num primeiro momento, definha ou desaparece. A televisão, por exemplo, não precisa da crítica já que ao invés de submeter os objetos à sanção do público, ela vende aos patrões da publicidade audiências cativas para quem, por preguiça, ela ainda oferece “filmes de cinema” para que eles fiquem tranquilos e não zapeiem muito. A unidade de base da tv não é o elo mas a cadeia, não é o alvo mas o refém. A cada dia, nós conhecemos um pouco mais essas coisas. 

Seria ingênuo, contudo, pensar que a crítica (como função) ou que o senso crítico (como valor) podem “desaparecer” de um dia para o outro. É mais a sua reciclagem que constitui o problema. Pois se as mídias são o lugar onde as sociedades modernas operam uma diluição em massa das funções outrora atribuídas unicamente aos mediadores profissionais, essa operação não é possível sem luto, sem desencantamento e, sobretudo, sem retornos do recalcado. E esses, ultimamente, não faltam. 


Todo mediador toma de fato para si uma certa parte de abjeção: pegar as coisas como elas vêm, estudá-las e chegar a uma decisão, por vezes um veredito. É isso que é preciso aprender a compartilhar, sem dúvida graças às simulações fornecidas pela televisão. A televisão é cada vez menos essa máquina que deveria “dar a ver”. Inversamente, ela dá cada vez mais “decisões”. Ela mostra como organizar um debate, extorquir verdades, confundir a sondagem com o real, instruir um processo (mesmo falso) ou enviar por Minitel sinais verdes de vida ou de morte, de perdão ou de vae victis. Ela costuma guardar da atividade crítica apenas a sua fase final: o veredito (ou esse veredito portátil que constitui uma soma de opiniões). O mundo da comunicação midiática tem duas faces. Nós acreditamos de boa vontade naqueles que, utopistas alegres, nos prometeram um mundo em que, resumidamente, mais gente teria mais acesso com mais frequência a mais informações. Mas, fazendo isso, nós confundimos precipitadamente comunicação e “transmissões”. Nós sabemos doravante que esse mundo tem também uma face perturbadora. Basta confundir, dessa vez, comunicação e “contaminação” para que o pior mostre suas garras. Voltemos ao nosso humilde ponto de partida. Criticar, na verdade, deveria ser a arte de descrever objetos singulares encontrando boas metáforas (o que Godard chama obstinadamente de montagem). Mas quando a possibilidade da metáfora nos falta, quando a metonímia prevalece sobre essa primeira, as coisas se deterioram. Retorna então (é o integrismo) a nostalgia de um núcleo duro, de um verdadeiro objeto, de uma verdade incarnada, de uma saída catastrófica do consumo do societal em direção ao consumo do social. Retorna então o fanatismo pelo terror. 

Nós estamos aí, claro, visto que Khomeini acaba de jogar a seu favor o jogo da metonímia generalizada (a parte tomada como o todo, o contágio gradual, ou seja, o terrorismo). Nós estamos aí visto que todos os padres do mundo – de O’Connor a Decourtray – aproveitam o sinal verde dado pela velha carniça do Teerã para recuperar suas ovelhas. Nesse caso, não se trata mais de cinema, nem mesmo, tratando-se de Salman Rushdie, de crítica literária[3]. Nem sequer trata-se de debate teológico, como houveram alguns – diferentemente sérios – na idade de ouro do islã. Trata-se de aproveitar da patrulha desvairada de objetos-pretextos para passar ao terrorismo do objeto-puro. 

Visto que nós continuamos incapazes de fazer a crítica das cadeias, não seria muito grave renunciar àquela dos elos. Um a um se for preciso. E não somente os filmes. 

24 de fevereiro de 1989 

[1] Nós podemos datar o canto do cisne oficial da crítica de cinema. Em 1982, quando ela acreditou que seria bom opor um filme de sucesso L’As de as (com Belmondo) a um belo filme bambo e pouco amado (Um quarto na cidade, de Demy). Uma petição desajeitada circulou. Fora a última. 

[2] O autor não acreditava estar tão certo. Dois anos mais tarde, em resposta à sua crítica do filme Urano, Claude Berri, responsável pela coisa criticada, não imaginara nada mais digno que obter, através de um recurso provisório da justiça, que o seu direito de resposta (mais para o gênero consternador) fosse publicado, em 28 de fevereiro de 1991, nas colunas do Libération. Por menor que seja, esse acontecimento marca em quais limites (o que ainda existe da) a crítica de cinema pode se exercer. O acontecimento, aliás, não esteve no centro de nenhuma discussão e todo mundo baixou a bola.

[3] O mais surpreendente fora a quase-extinção dos antigos debates (nobres) sobre a essência da Literatura. Não mais “o que pode a literatura?” que “a literatura e o direito à morte”.

Moment critique pour la critique foi publicado originalmente na rubrica Les fantasmes de l’info do jornal Libération, e republicado no livro Devant la recrudescence des vols de sacs à main, p. 150-153. Tradução: Leticia Weber Jarek. 

O pagamento do fantasma


Sobre Os Passageiros de Jean-Claude Guiguet 

Por Axelle Ropert 

Bastou, antes que os créditos aparecessem, um bonde avançando na escuridão de um túnel para que a respiração do filme fosse dada em um grande gesto de suspensão, suspensão de nossas memórias, suspensão majestosa que precede a criação de um novo mundo, e será preciso prender a respiração. Um jovem professor admite sua recusa em envelhecer precocemente, um vigia confessa sua grande timidez em relação às garotas, uma enfermeira, seu medo de relacionamentos de longo prazo, e é toda a confiança atribuída às situações e se espalhando com uma igual solicitude que logo marca Os Passageiros com sua potência de efusão. Entre as diferentes tristezas, prazeres, medos, maravilhamentos que compõem cada uma das cenas, nenhuma semelhança, pois cada situação é devolvida à sua primitiva integridade, mas também nenhuma disparidade, pois esses homens e essas mulheres têm, para além da comunidade das vidas, uma mesma qualidade de existência que faz com que, entre a tristeza desta e a dor daquela, esteja fora de questão escolher. Esse ajuste da visão que se sente operando constantemente, e que quer restituir à mesma escala ótica, em toda a flexibilidade de suas mudanças visíveis, cada uma das cenas, manifesta uma potência de metamorfose que transforma e enfileira uma sequência na outra, fazendo assim dos Passageiros o filme mais espiritual de todos, no sentido monteverdiano do termo, filme arejado pelas ascensões (funicular de Thonon-les-Bains, teleférico da Agulha do Midi) onde as cerejeiras em flor mizoguchianas e os navios de recreação de Ozu assinalam toda a amplitude da inscrição dos pequenos gestos na tranquilidade dessa natureza, pela primeira vez (em Guiguet) decididamente bondosa – a miragem estaria em outro lugar? Pois, nós o sabemos desde Robert Bresson, o vento sopra onde quer e o espírito cai onde as vidas só querem se revelar. Está aí o prodígio de uma doçura que atribui a cada um, pela virtude única de um desejo de expressão que se manifestaria, o direito de tomar a palavra. Como um tal desejo pode se manifestar? Questão, sem dúvida nenhuma, de cineasta. Entre os mais belos momentos do filme estão também aqueles em que a câmera passeia entre os passageiros, observando na indistinção desses rostos a elevação de um sonho, o sonho de ser ouvido. Pois os passageiros falam, exclamam, cantam, murmuram, reclamam, como se o campo inteiro do mundo se abrisse de repente diante de seus olhos. Talvez esteja aí a utopia guiguetiana, a doçura de um mundo onde uma canção popular, uma confissão brutal, uma cólera bastaria, silenciando aqueles que deveriam se ouvir, para suspender a catástrofe ambiente. 

Num bonde, um homem elabora um quadro de todas as combinações sexuais para chegar a uma aporia tão privada quanto irrefutável: "Minha mulher é um veado." Ao lado, um belo rapaz escuta ou tenta não escutar – e é a mesma coisa. Gênio maligno do cinema francês, que faz Gérard Depardieu duvidar de sua própria existência, Jean-Christophe Bouvet, filmado contra o fundo da paisagem que desfila, a segurança de um discurso sendo assim reenviada às suas instabilidades atmosféricas e o rosto mefistofélico do ator aos seus espelhamentos interiores, tenta agarrar o olhar de sua presa (ou de seu salvador?), tal qual um navio perdido que lança sinais de angústia enquanto entoa um canto de honra. Tudo é dito, o abismo das certezas, a vertigem das possibilidades, a solidão das cóleras. A violência dos Passageiros, é aquela de uma associalidade que não pode se impedir de preocupar-se consigo mesma. Entre as velhas canções, as confissões de uma outra era, as declarações de amor e as reivindicações coléricas de todos os gêneros, uma mesma injunção emerge, que põe em risco a segurança de nossa época obrigando-a, pelo tempo de um verso, pelo tempo de uma exclamação, a combinar com sua tonalidade – necessariamente antiga, necessariamente fora de moda. No fundo, nada mais violento que a obstinação quase nostálgica que faz as vezes da doce provocação em todos os filmes de Jean-Claude Guiguet e que quer fazer a tirania da atualidade se curvar colocando diante e contra tudo seus rapazes revoltados, suas moças com gosto de açúcar de rocha, suas mulheres maduras de autoridade "operrática". 




Resta um grande mistério: quem passeia entre os passageiros? Um plano nos revela, quando a narradora reenvia os mortos ao seu sono noturno com um "Boa noite, meus adormecidos". O cemitério brilha na penumbra, ao longe um bonde passa. Quem observa a cena? Um fantasma, claro, o fantasma da Mrs. Muir, o fantasma de Jean-Claude Guiguet. Ao mundo dos mortos e dos vivos se sobrepõe, ligeiramente deslocado, como uma sombra projetada, aquele dos homens e mulheres de uma outra era e dos jovens decididamente contemporâneos, mundo onde os mais velhos, graças à sua proximidade espectral com o horror da vida, protegem os mais novos. Quando a bela Marie Rousseau com os olhos verdes liquefeitos pelas tristezas, esposa desiludida fugida do Faubourg Saint-Martin, faz Philippe Garziano falar e o envia aos amores cor-de-rosa com Fabienne Babe, é uma passagem secreta que se abre diante dos nossos olhos entre dois mundos que não se comunicam, o tempo de uma transmissão – e que elegância transmitir assim o segredo de uma felicidade perdida… Entre essas mulheres já resignadas e esses jovens rapazes, um fantasma observa e comunica a todas as cenas cotidianas dos Passageiros essa qualidade tão rara de intimidade furtiva, de intensidade passageira, de louca afeição própria àquele que, certo de, em breve, não ser mais desse mundo, decide inventar uma perspectiva temporal ao mesmo tempo ultrapassada (porque o fantasma é de uma outra época) e projetiva (porque o fantasma ama imaginar a vida futura da nova geração), perspectiva que unifica os fragmentos dos Passageiros sob o peso de uma eternidade tornada sentimental. 

O que pode querer um fantasma? Talvez, durante uma acusação final em forma de litania fúnebre na qual se substitui à opressão social o furor lírico das reivindicações, uma maneira de ordenar entre elas as cóleras até aí espalhadas e reunidas enfim no seio de uma frontalidade militante – porque a violência do fantasma está aí, chamar à responsabilidade pelo tempo que nos resta, a responsabilidade por um tempo mais feliz, um pagamento, em suma. 

La redevance du fantôme foi publicado originalmente na revista La Lettre du Cinéma n°9, primavera de 1999. Tradução: Miguel Haoni.