O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

O imperador, sua mulher e o pequeno príncipe




Por Camille Nevers

“Segunda-feira de manhã, O Imperador, sua mulher e o pequeno príncipe vieram na minha casa para me apertar a mão; mas como eu estava fora, o Pequeno Príncipe disse: se é assim, nós voltaremos terça-feira...”

O Pequeno Príncipe disse. Se fosse só pela promessa do seu título, da sua sinopse, de suas paisagens atravessadas (de Lausanne à Milão, de Gênova à Provença), O Pequeno Príncipe disse de Christine Pascal estaria, sem dúvida, por um fio um pouco frouxo de um refrão batido, e seria preciso ter ouvido falar – senão tiver visto – os três filmes anteriores (Félicité, La Garce e Zanzibar) para presumir que esse último merece que se dê uma olhada atenciosa – e que se arrisque. Principalmente porque, justamente, o risco é indissociável do universo de Christine Pascal, onde cada história lança um desafio aos clichês, à astúcia e à complacência, como se todo projeto cinematográfico devesse primeiro inscrever a dúvida no seu programa (e duvidar do que o motiva, do que lhe diz respeito) para, em seguida, se afirmar. Se a realizadora gosta de se alimentar de uma matéria-prima melodramática, ela, tão logo, consegue desarmar a tensão desenfreada, recusar a conivência do olhar piedoso com o espectador (“é para chorar, não é?”) e se concentrar então no essencial: não a doença, mas Violette, não as lágrimas nos olhos, mas uma crueldade à flor da pele.

Eis um pai divorciado que, quando descobre que a sua filha foi diagnosticada com um tumor no cérebro, carrega-a e parte com ela para a estrada. A mãe se juntará a eles um pouco mais tarde, no fim de um percurso no qual a namorada do pai arcará muito duramente com os custos.

Eis uma história muito simples de contar, e, pode-se imaginar, pouco prática de conduzir ao longo de um filme sem capotar. É preciso saber manter a distância, a do filme, mas também a do olhar: não se aproximar demais, sob o risco de ficar atolado num páthos barato, nem se afastar demais, por medo de perder de vista personagens que, com um toque de ironia, cairiam por terra. Mas Christine Pascal está à altura, não olha nada de cima, não se achata, ela sabe exatamente em que momento deixar a emoção nos bastidores (a esplêndida cena do teatro, na qual Anémone vai atender o telefone – e entendemos, com o pai e a criança à espreita na sala, que ela está “descobrindo” a doença de sua filha –, depois volta num outro tom a recitar seu texto, antes de desmoronar em lágrimas...), e ela sabe exatamente quando se trata de mergulhar (quando de manhã Richard Berry percebe a garotinha na piscina, e, imediatamente, crendo que ela está em perigo, corre para socorrê-la, então a câmera também se joga na água...): O Pequeno Príncipe disse confirma o impressionante senso da mise em scène de uma realizadora que tem razão em acreditar cegamente que, por pura honestidade e gosto calculado pelo risco, qualquer tema a priori arriscado (e talvez mesmo sobretudo eles) consegue desembocar numa singular aventura de cinema.

É preciso dizer que escolhendo confiar os papéis do pai e da mãe à Richard Berry (já presente em La Garce) e à Anémone, dois atores cujo jogo de descontração nervosa se pinta sempre de um insondável fundo de crueldade (e como é cômodo demais para um mau diretor “carregar” esse tipo de atores, lhes atribuindo personalidades malsãs por trás das quais só esconde a sua própria, todos dois foram frequentemente muito maltratados pelo cinema...) e decidindo colocar entre eles essa menina gordinha e genial (Marie Kleiber), Christine Pascal impunha desde já a ideia – é o que se chama um ponto de vista – de que seu filme não estaria garantido... No cerne do Pequeno Principe encontra-se uma dimensão relativamente inquietante, muito surpreendente, que assimilaria muito rapidamente o filme à cantiga do título (cantiga que, se a relermos bem, não é tão inocente que ela apareça ali: seu eu eternamente ausente, sempre “partindo”, talvez morto...). A evidente crueldade do pai para com sua filha e sobretudo em relação à Lucie, sua amante (personagem bizarramente sacrificado e inevitavelmente ingrato, que enfrenta, sem hesitação, a muito charmosa Lucie Phan...), que ele se livra sem “enrolação”, deixa pensar que Christine Pascal não é totalmente enganada pelos sentimentos. Como se existisse, no próprio fundamento desta reunião improvável de uma família em torno da doença, uma sujeira um pouco malcheirosa, um deleite um pouco mórbido... Algo de podre.

Quando a garotinha se encontra sozinha na montanha, ela fica deitada na grama um longo momento, pouco a pouco o céu escurece, o vento esfria, e a “cabrita” fecha os olhos (uma cena tão aterrorizante quanto A Cabra do Senhor Séguin...): só então, começamos a nos perguntar se, como ele prometeu, seu pai voltará para lhe procurar. Ou talvez terça-feira...

L’empereur, sa Femme et le p’tit prince foi originalmente publicado na Cahiers du Cinéma n°457, em junho de 1992, pp: 56-57. Tradução: Miguel Haoni.

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