O mais visual e o mais sensual dos cineastas é também aquele que nos introduz no mais íntimo dos seus personagens, porque ele é acima de tudo um apaixonado fiel da sua aparência e, através desta, da sua alma. O conhecimento em Renoir passa pelo amor e o amor pela epiderme do mundo. A agilidade, a mobilidade, o modelo vivo da sua realização é a sua preocupação em ornar, para seu prazer e nosso gozo, o vestido sem costuras da realidade.
Renoir francês - André Bazin

Vaidade da pintura


Por Eric Rohmer

Que vaidade é a pintura, que causa admiração pela semelhança com coisas das quais não admiramos os originais.
Pascal

A arte não muda a natureza. Outrora Cézanne, Picasso ou Matisse nos deram olhos totalmente novos. Que vaidade decerto é a pintura, que renuncia dizer ao mundo que este exista segundo suas próprias leis; mas verdade ainda mais profunda é que as coisas são o que são e passam bem sem nosso olhar. Ao mesmo tempo em que se arranjam em nossas paredes, o cubo, o cilindro, a esfera desaparecem de nosso espaço. Assim a arte devolve à natureza o que é seu. Ela faz da feiura beleza, mas a beleza seria verdade, se não existisse malgrado e até contra nós?

A tarefa da arte não é a de nos encerrar num mundo fechado. Nascida das coisas, ela nos reconduz às coisas. Ela se propõe menos a purificar, isto é, extrair das coisas aquilo que se dobra aos nossos cânones, que de reabilitar e nos conduzir, sem cessar, a renová-los. Hoje, este lento trabalho está bem próximo de se concluir. A covardia e a abjeção são a matéria de nossos romances, nossos pintores se comprazem no uniforme ou no chamativo. Entrevemos que logo não nos restará mais que devolver à nobreza e à ordem aquela dignidade que perderam. Temo, ainda assim, que atribuamos a esta falência comum da arte de falar e da de pintar causas completamente opostas. Pois uma, proibindo-se de cantar, não deseja mais que simplesmente mostrar, e a dignidade de existir não nos parece exigir outro ornamento. “Minha empresa não tem precedentes” – desde quase cem anos, que obra escrita não justificaria esta epígrafe? O pintor, em contrapartida, quis fazer do canto sua matéria, isto é, neste caso, de sua visão. Nenhum objeto entra em seu espaço que não se ajuste primeiro às dimensões deste e é a regra, escolhida de antemão, que traz em si a infinidade de suas aplicações. Mas, aqui como lá, vejo o mesmo desejo de solapar o prestígio do ser. Não admitir senão o insólito ou renovar o habitual são coisas, cremos, de todo semelhantes. Se nossa época foi aquela das artes plásticas é porque somente nelas nosso lirismo pôde achar sua medida; neste caso, a evidência desafia o canto. Dirão que este ponto de vista é aquele do mais grosseiro senso comum. É precisamente aí que eu queria chegar.

A perspectiva uma vez descoberta, reconhecemos nos objetos as dimensões respectivas que tomam em nossa retina. Aprendemos em seguida que não existem linhas e que tudo não é senão jogo de luz e de sombra, posto que a própria luz é cor e que a mais simples cor nasce da justaposição de vários tons. Nossa visão foi modificada? Mostre a uma criança um quadro de Picasso; ela reconhecerá um rosto que um adulto penará para descobrir. Mostre então um quadro antigo e ela dará a este último sua preferência. Se Rafael não tivesse existido, teríamos o direito de chamar o cubismo de loucura ou de garrancho. Guernica não refuta La Belle Jardinière, nem esta aquela, mas não creio que me arrisco muito em afirmar que uma destas obras foi, é e sempre será mais conforme a nossa visão normal dos objetos que a outra. “A maçã que como não é aquela que vejo”, esta frase de Matisse define tão-somente a arte moderna, não a arte como um todo. Chamamos, precisamente, clássicos os períodos onde a beleza segundo a arte e a beleza segundo a natureza pareciam ser um só. Estamos livres para exagerar suas diferenças. Duvido que o poder da arte sobre a natureza seja maior.

Uma arte nasceu que agora nos dispensa de celebrar a beleza e fazê-la nossa pelo nosso canto. Nada como o cinema demonstra melhor a vaidade do realismo e, ao mesmo tempo, cura o artista deste amor-próprio do qual por toda parte ele perece. Uma longa familiaridade com a arte não nos fez senão mais sensíveis à beleza bruta das coisas; somos tomados por uma vontade irresistível de olhar o mundo com nossos olhos de todos os dias, de conservar conosco esta árvore, esta água que corre, este rosto alterado pelo riso ou pela angústia, tais como são, a despeito de nós.

Gostaria de dissipar um sofisma. Onde não há intervenção do homem, se diz, não há arte. De acordo, mas é sobre o objeto pintado que o amador lança primeiro seu olhar e, se ele considera a obra e o criador, é somente através de uma reflexão posterior. Assim, o objetivo primeiro da arte é o de reproduzir, não o objeto, sem dúvida, mas sua beleza; o que chamamos de realismo não é senão uma busca mais escrupulosa dessa beleza. A crítica moderna nos habituou, pelo contrário, à ideia de que só gostamos daquilo que é pretexto à obra de arte: se o artista dirige nossa atenção a objetos que o senso comum ainda julga indignos, é que ele teria aqui mais o que fazer para nos seduzir. A beleza de um canteiro de obras ou de um terreno baldio nasceria do ângulo sob o qual o artista nos força a descobri-los. Todavia, tal beleza não é outra que a do terreno baldio e que a obra mesma é bela, não porque nos revela que se pode chegar ao belo a partir do informe, mas porque aquilo que julgávamos informe é belo. Chego então a este paradoxo, o de que um meio de reprodução mecânico como a fotografia é em geral excluído da arte, não porque ele sabe só reproduzir, mas porque desfigura precisamente ainda mais que o lápis ou o pincel. O que resta de um rosto num instantâneo de um álbum de família, senão uma insólita careta que não o é? Congelando o movimento, a película trai até mesmo a própria semelhança.

Devolvamos, pois, à câmera aquilo que pertence somente a ela. Mas não é dizer muito que o cinema é a arte do movimento. Somente ele faz da mobilidade um fim, não uma busca por um equilíbrio perdido. Observe dois dançarinos: nosso olhar não se satisfaz senão quando o jogo de forças se anula. Toda a arte do ballet não é senão a de compor figuras, aqui o movimento mesmo é o simples efeito do princípio da inércia. Pensemos agora em Harold Lloyd gesticulando do alto de seu andaime, no gângster que espera o instante no qual uma distração do policial lhe permitirá apoderar-se da arma que o ameaça. Estabilidade, movimento perpétuo, tantas violências feitas à natureza. A mais realista das artes, ingenuamente, as ignora.




Nanook, o Esquimó
é o mais belo dos filmes. Era necessário um trágico que estivesse a nossa altura, não do destino, mas da dimensão mesma do tempo. Sei que o esforço do cineasta tende, há cinquenta anos, em rebentar os limites deste presente onde ele nos encerra de antemão. Todavia, resta que sua destinação primeira é a de dar ao instante um peso que as outras artes lhe negam. O patético da espera, que alhures resulta grosseiro, nos lança misteriosamente ao coração da compreensão mesma das coisas. Pois nenhum artifício, aqui, é possível para dilatar ou encolher a duração, e todos os procedimentos que o cineasta julgou frequentemente no dever de empregar – por exemplo, o da “montagem paralela” – voltaram-se rapidamente contra ele. Mas Nanook nos poupa dessas artimanhas. Não citarei senão a passagem onde se vê o esquimó agachado no ângulo do quadro, à espreita do bando de focas adormecido na praia. De onde vem a beleza deste plano, senão do fato que o ponto de vista que a câmera nos impõe não é nem aquele dos atores do drama, nem mesmo o de um olhar humano, ao qual um elemento, em detrimento dos outros, teria chamado a atenção? Cite um romancista que tenha descrito a espera sem, de alguma maneira, exigir nossa participação. Mais que o patético da ação, é o mistério mesmo do tempo que constitui aqui a nossa angústia.

Ao contrário das outras artes, que vão do abstrato ao concreto e, fazendo desta busca do concreto sua finalidade, nos escondem que seu fim último não é o de imitar, mas de significar, o cinema nos lança aos olhos um todo do qual será permitido desprender um dos múltiplos significados possíveis. Tal sentido, é da aparência mesma que nos é necessário extrair, não de um além imaginário do qual tal aparência seria tão-somente um signo. Concebemos que o real aqui é matéria privilegiada, pois tira sua necessidade da contingência mesma de sua aparição, tendo podido não ser, podendo agora apenas ser, visto que foi. Pela primeira vez, além do poder de exprimir, o documento acede à dignidade da arte. Entrevemos uma das consequências de tal condição, a mais perigosa de todas: que o cinema não se distinga em pintar os sentimentos antes que estes nasçam de nossa relação incessante com as coisas e, coisas eles mesmos, não sejam mais que o movimento ou a mímica que eles nos ditam, a cada instante. E qual é o melhor juiz da autenticidade do gesto que sua eficácia? Não é mais a paixão, mas o trabalho, isto é, a ação do homem, que o cinema escolheu como tema.

Nanook constrói sua casa, caça, pesca, alimenta sua família. O importante é que nós o sigamos nas vicissitudes de sua tarefa da qual aprendemos lentamente a descobrir a beleza. Beleza que esgota a descrição e mesmo o canto. Pois, ao contrário dos heróis épicos, é no curso da luta que nosso homem é grande, não na vitória como coisa dada. Que arte, até hoje, soube pintar a ação abstrata a esse ponto de intenção que lhe dá um sentido ou do resultado que a justifica? Tomei como exemplo, de propósito, um documentário, mas a maior parte dos filmes, os grandes como os piores, não tratam eles, em seus melhores momentos, daquilo que está em vias de se fazer, não de veleidades, triunfo ou arrependimentos? Carlitos penhorista, Buster cozinheiro ou mecânico, Zorro, Scarface, Kane, Marlowe, o sedutor ou a mulher ciumenta, tantos artesãos, hábeis ou canhestros, que julgamos ao trabalho.








No extremo oposto de Flaherty, situarei Murnau. Que eles tenham outrora colaborado no mesmo filme, Tabu, não parece, em absoluto, resultado de um malicioso acaso. Sabemos que, antes de rodar Aurora, Murnau tomou o cuidado de construir todo um mundo, do qual seu filme não é senão o documento. O desejo pela trucagem nasce de uma necessidade ainda mais exigente de autenticidade. Logo que se trata de exprimir algum transtorno interior, e não mais de agir, o ator trai a si mesmo, liberto da limitação das coisas, e sua máscara tem de ser modelada na massa de uma nova matéria. Pobre aparência de um rosto se não sentimos todo o espaço pesar sobre cada uma de suas rugas. O que significaria o brilho do riso ou a crispação da angústia, se eles não encontrassem seu eco visível no universo?

Com a metáfora, reencontramos decerto o canto. Toda a arte, se quisermos, consiste em nomear cada coisa com um nome que não é o seu. Mas, livres do intermédio das palavras, saboreamos o estranho prazer de fazer de Aquiles ao mesmo tempo guerreiro e torrente, deus e cataclismo. Para que acoplar dois termos que só a imperfeição da linguagem nos obriga a isolar? Pastor-promontório, sóis-molhados, terra azul como uma laranja, o esforço da poesia moderna foi o de sacudir a inércia primitiva da palavra; mas, providos agora do direito de dizer tudo de tudo, de que nos serve utilizá-lo? Viva, portanto, o cinema que, pretendendo apenas mostrar, nos dispensa da fraude de dizer! Poema-cinematográfico, poesia descritiva, o mesmo contrassenso. Não importa mais cantar as coisas, mas sim fazer com que elas cantem por si mesmas.

Durante Nosferatu, deixamos por um instante o país dos fantasmas para acompanhar a lição de um biólogo que explica aos seus alunos o poder aterrorizante de uma dessas plantas em forma de hidra que se alimenta de insetos. Perdoaremos ao maior dos cineastas por ter, através deste artifício, indiscretamente entregue a chave de sua simbologia. Assimilar a ideia à ideia ou mesmo a forma à forma, como queria Eisenstein, repugna à arte do movimento e a figura que nos fascina sobre a tela ou na pedra esgota aqui o nosso olhar, se ela dura. O movimento é o ser de cada coisa, condenando-a a sua função, absorvente ou radiante, sórdida ou nobre e, como na Bouche d’Ombre, implicando um julgamento moral. Duas direções privilegiadas, centrífuga ou centrípeta, dividem o mundo e a cada espécie atribuem sua amplitude. A morte é dissolução, o mal domínio, a vida crescimento, a pureza germinação. A ideia jorra do signo ao mesmo tempo em que o funda, como a tendência o ato.Que retórica de nossos poetas foi mais convincente? Solicitado por nosso canto, o universo, até aqui mudo, se decide enfim a responder.







O tema do desejo é cinematograficamente um dos mais ricos. Pois exige que a nossos olhos seja exposta a completa distância que, no tempo ou no espaço, separa o observador de sua presa. A espera desfruta dela mesma e o brilho terno de um pescoço ou, como em Ouro e Maldição de Stroheim, o resplendor do ouro colorem-se, para o desejo impotente, de uma sedução sempre nova. Algo que, espectadores, não deixamos de sentir frente a essas imagens impalpáveis e fugitivas que fixam nosso olhar, ao mesmo tempo realizado e desapontado. Todavia não tem o cinema outra ambição que a de embalar o deleite moroso de uma humanidade a quem a natureza revelou cedo demais os seus segredos? Há outras relações que a arte da tela se revela de partida menos apta a pintar. Não mais aquela dos corpos, mas de cada vontade, uma ao pé da outra. Não mais Creonte ou Antígona tomando o hemiciclo como testemunha de sua sinceridade. A mentira, antes, nos solicita; mas não basta que do engano apenas o acontecimento seja o juiz. É da própria hipocrisia que traz sob a máscara que o farsante tira seu poder. Tartufo não abusa senão de Orgon e talvez sua fascinação não seja assim tão potente, visto que ele não o engana totalmente. Que homenagem mais bela a Molière que o rosto hediondo de Jannings suando falsidade por todos os poros: Onofre, a resposta mesquinha de um crítico invejoso.

Mas por que, dirão, recusar a penetrar o coração do homem? A agitação em nosso rosto não é o signo de alguma comoção interior que ele trai? Signo, sim, mas quão arbitrário, visto que nega a força da falsidade e estreita ao extremo os limites desse mundo invisível ao qual ele se vangloria de nos remeter. Remontar cada um de nossos gestos à intenção que eles supõem equivale a reduzir o todo do pensamento a algumas operações sempre idênticas, e o romancista teria o direito de sorrir diante das pretensões de seu irmãozinho que batiza com o nome de linguagem essa álgebra elementar. Ir do exterior ao interior, do comportamento à alma, esta é, sem dúvida, a condição de nossa arte; mas amo que, nesse desvio necessário, longe de turvar o brilho daquilo que dá aos olhos, ela o aviva e, assim livre, a aparência dela mesma nos esclarece.

Com A última gargalhada, Murnau aborda um tema assaz ingrato, uma pura relação de alguém consigo mesmo, que é a importância que cada um dá aos seus fracassos ou triunfos, e não sei que falsa vergonha que nos impede sempre de nos compadecer com o sofrimento moral, quando ele altera até mesmo a própria máscara. Saibamos logo que o propósito do autor não foi o de provocar nossa piedade mas, supondo-a suficientemente viva em nós, de esgotá-la abarrotando-a, como faria com alguma má inclinação, crueldade ou desejo. Assim a arte nos liberta de todos os sentimentos, mesmo os bons, e justifica seu imoralismo devolvendo à ética o que lhe pertence. Admito que nosso prazer seja condenável se nasce do enternecimento ou de nosso sarcasmo, mas esses dois sentimentos muito humanos não têm absolutamente parte na fascinação que exerce em nós o destino tragicômico de nosso porteiro. Citem-me uma obra, romance, pintura ou filme, que tenha mais deliberadamente negado a nos tomar pelas entranhas, servindo-se tão-somente do prestígio dos efeitos mais tangíveis da emoção? Acrescento àqueles que censurariam na atuação de Jannings certo parti-pris de estatismo, que a imobilidade traduz aqui um estado de tensão dolorosa, não de equilíbrio. Uma familiaridade demasiado longa com as artes plásticas nos conduzira a assimilar a alegria ao repouso, a infelicidade à desordem. O que o pintor ou o escultor não obtêm senão por astúcia ou violência, “ a expressão”, é dado ao cinema como fruto de sua própria condição. Caberá, para torná-la mais intensa, nem sempre acelerar o ritmo, mas abrandá-lo até o limite insólito da fixidez.

Aurora nos leva ainda mais longe no coração desse mundo íntimo onde os sentimentos, amor e ódio, felicidade e tristeza, desejo e renúncia nutrem-se de si mesmos e morrem de seu próprio excesso. E, contudo, nenhuma concessão às facilidades da elipse e do símbolo, uma espécie de harmonia preestabelecida parece atribuir a suas vicissitudes o ritmo das modificações do céu. No derradeiro desvio de nossa busca interior, encontramo-nos de novo face ao mundo. O cenário faz parte do jogo; se ele não consente senão raramente em se animar, não deixa de regular sempre, de alguma maneira, os deslocamentos dos personagens. À tirania dos limites do “quadro”, ele substitui suas leis. Não cedamos senão com cuidado às seduções da proporção áurea e da bela imagem. Qual fotografia igualará jamais a menor das frases? Por outro lado, qual dos mais belos versos de nossos poetas se vangloriaria de exaurir a magnificência desse mundo sensível que só o cinema tem o privilégio de oferecer intacto aos nossos olhos?




As imagens de Tabu brilham com todo o fulgor dessa beleza que elas nos entregam sem intermediários e o trabalho do fotógrafo é, através do excesso da arte, o de melhor mascarar seus ardis. Ele não trapaceia senão para aperfeiçoar um decalque que, baço, teria traído. Mas nada de ceder aqui à fantasia fácil das sombras, de envolver num mesmo halo esses objetos - palmeiras, ondas, conchas ou juncos - que os raios de sol marcaram com suas estrias inalteráveis. Vestidos de uma luz que é somente deles, eles se iluminam com suas diferenças e, sob sua casca múltipla, postulam uma polpa comum. Fascinado por seu modelo, o artista esquece a ordem que se gabava de lhe impor e, ao mesmo tempo, revela a harmonia da natureza, sua unidade essencial. O canto vira hino e prece; a carne transfigurada descobre aquele além de onde ela extrai vida. Não tenho medo de chamar de sublime essa fusão espontânea de sentimentos religiosos e poéticos.

E, deste reino dos fins onde nos encontramos agora, estamos em pleno direito de condenar a ambição louca de nosso tempo, impaciente demais em dominar o universo para conhecer dele outra coisa que uma substância abstrata e maleável, com a qual ele crê abrandar sua inquietude. Rompendo com a natureza, a arte moderna rebaixa o homem que se propôs a elevar. Evitemos seus caminhos, mesmo se ela nos seduz por meio de uma distante e problemática saudação. O cinema, instintivamente, repugna todo desvio perigoso e nos desvela uma beleza que tínhamos cessado de crer eterna e imediatamente acessível a todos. Estabelece na felicidade e na paz aquilo que fazíamos fruto da revolta e da ruptura. Descobre-nos de novo sensíveis ao esplendor do mar e do céu, à imagem mais banal dos grandes sentimentos humanos. Miraculosamente, o cinema sela o acordo entre a forma e a ideia e banha nossos olhos ainda jovens na pura e uniforme luz do classicismo.

A arte evolui pelo efeito de um impulso interior, não da história. Quando muito, sem nos alterar, nos arrasta para longe de nós mesmos, e se perde nos perdendo. Saboreemos portanto nossa chance: retenhamos ciosamente em nossas mãos um instrumento que sabemos ainda apto a nos pintar tal qual nós nos vemos. Que tal certeza, tão simples, nos reassegure e nos proteja de empreendimentos inúteis. Se algum cineasta ler estas linhas, talvez se surpreenda que eu louve em sua arte aquilo que ele mais deve ao acaso e privilégio de sua condição que ao fruto de paciente pesquisa. Mas de que serve repetir que o cinema é mesmo uma arte, isto é, escolha e perpétua invenção, não utilização cega da potência de uma máquina? As obras estão aqui, e o provam por si mesmas. Assim, meu propósito não era o de mostrar que o cinema nada tem a invejar das outras artes suas rivais, mas de falar daquilo que estas, por sua vez, poderiam lhe invejar.

Vanité que la peinture foi publicado originalmente na revista Cahiers du Cinéma, n° 3, junho de 1951. Tradução: Eduardo Savella e Letícia Weber Jarek.

A Cidade dos Piratas

Há filmes dos quais não estamos certos se não foram sonhados. São estes, talvez, os mais belos. Tal como esta nova aventura do capitão Ruiz no país de nossas crenças.

por Serge Daney

Tome uma criança e assegure-se de que sonha. Desperte-a e conte-lhe uma história. Embale-a com sua mais bela voz off. Faça-a insidiosa, não se esqueça da trilha sonora. É preciso que, adormecida novamente, a criança complete sonhando a história que lhe fora insuflada. É preciso que, ao despertar, ela sinta que foi a história que a escolheu, a ela, e não o inverso. Uma história imortal, título de um dos últimos filmes de Welles; mas toda história é imortal, dizem as de Ruiz. Disto as delícias, depois o excesso de delícias, depois o terror.

Mas se você não dispõe nem da criança adormecida, nem do tempo em suspensão, nem da voz que embala, nem de talento para improvisar (isto é, a arte de ter sempre a última palavra) não insista e renuncie a imitar Raúl Ruiz. Só ele parece ter guardado o segredo e o gosto para tais coisas. Desde o silêncio de Welles e a partida de Buñuel para a Via Láctea, fala-se muito de um retorno do cinema à ficção. Mas muito pouco do retorno da ficção (como se diria retorno do reprimido, ou retorno de Frankenstein). Os filmes de Ruiz são relatos, e possuem um caráter iniciático. Espiralados, trucados, intrincados ou maléficos, possuem um charme louco. Mesmo se foi preciso esperar dez anos (da queda de Allende em 1973, que exila Ruiz de seu país natal, à estreia, ano passado, de As Três Coroas do Marinheiro) para que um público de repente menos insignificante tombe sob este charme e marche em direção desta loucura.

Isto malgrado a reputação dada a Ruiz de hermetismo e de intelectualismo, que prova tão-somente que, logo que confrontados a um verdadeiro barroco latino-americano, os franceses têm dificuldade em admitir que sua própria tradição de filmes-labirinto, jogos de quebra-cabeça ou do Ganso, à Robbe-Grillet ou Resnais, não foi decisiva. Dito isto (e uma vez dito, não diremos mais, é uma promessa: na próxima, consideraremos Ruiz já conhecido, senão reconhecido) A Cidade dos Piratas, que faz quase um par com Três Coroas de um Marinheiro e que evoca esse filme mais ou menos bem sucedido que foi O Território (três filmes rodados em Portugal) possui sua tonalidade própria, seus truques íntimos, seus sucessos fulgurantes e suas falhas secretas. Em suma: um filme excelente, onírico, próximo do inenarrável e totalmente consumado.

Por onde começar? Retomemos a metáfora do adormecido. Estamos no Sul, defronte o oceano, sujeitos a todos os paradoxos. Em seu quarto, Isidore está adormecida. Sim, adormecida, pois trata-se de uma mulher. Sua mãe, que mal parece mais velha, acorda-a dizendo: "Dormes, Isidore?". "Conta-me uma história", responde a vozinha de criança de Isidore. Sobre uma mesa, ao lado, algum dinheiro deixado pelo pai. Ele abusou de novo de Isidore, e acaba de lhe pagar. Esta cena não dá, evidentemente, ideia alguma dos incontáveis acontecimentos que povoam esta Cidade dos Piratas, mas todo o Ruiz, de certo modo, se encontra nela. Como Buñuel, Ruiz se compraz com as mais simples permutações lógicas. Perversão de nome e de gênero, de idades e de amores, do antes e do depois. Incesto, relação social feita jogo de palavras ou "jogo das sete famílias". Além disso, essa "cidade" não é mais que uma ilha, salvo que não tem senão um habitante que interpreta todos os papéis. Para aqueles que dependem do conforto da identificação (quem é quem?) Ruiz é o menos seguro dos guias. Ele não acredita na identidade, não acredita senão nas cartas [cartes, tanto cartas de jogo quanto mapas geográficos]. Marcadas, de preferência.

Isidore beija um policial de modo que o formato vermelho do beijo revela ser aquele da famosa ilha dos piratas. Um homem explode os miolos de tal forma que um naco destes, ejetados num rio de sangue, desenha a forma da ilha. No começo, nada a não ser enigma; no fim, nada a não ser resíduo. No meio tempo a bela Isidore conhece um menino, mas este anjinho do mal é um grande criminoso. Ela se torna sua noiva e cúmplice; e segue-o até a ilha. Isidore retornará, sim, mas em que estado! Adivinhamos que a pequena palavra que está mal e deslocada no universo ruiziano é o verbo "ser". Está claro que nada se ganha em querer relatar A Cidade dos Piratas. Está claro que nada está claro.

Entretanto. Quanto mais nos desencorajamos em identificar aquilo (aqueles) que vemos na tela (ao ponto em que enfim gritamos mentalmente "puxa", e nos roça o tédio), mais Ruiz se compraz com a aparência das coisas, esse peso material, anedótico, que guardam apesar de tudo.

Dois macabeus putrefatos (mais orgulhosos ainda) tomam um chá Durassiano, um bocejo é filmado do ponto de vista da glote, detalhes em primeiríssimo plano carregam a imagem sem razão, uma caveira vira bola de rugby; toda uma ala da pintura espanhola do século XVII, aquela das Vaidades, do Valdes Leal dos Hieróglifos de nossos fins últimos, está prestes a se animar. Sob a pulsão dos vermes [vers].



De todo modo, quanto mais renunciamos saber em que tipo de filme caímos (ao ponto em que, lá pelo meio, cansados e lassos, achamos que já é o bastante) mais Ruiz se distingue em evocar, com alegria constante, o fantasma dos filmes B americanos, de Cocteau, ou dos filmes da inglesa Hammer. Há um pouco do John Mohune do Moonfleet de Lang no menino de A Cidade dos Piratas, como há um pouco de Tourneur (aquele de A Morta-Viva) no tom alucinado de algumas vozes. Como se, para se desculpar da abracadabrância de sua própria narrativa, Ruiz a vestisse com a memória dos relatos com os quais tivemos tão pouca dificuldade, na infância, em nos sentir em casa.

Quanto mais nos convencemos de que a linguagem, ela também, está encurralada, mais Ruiz é capaz de fazer falar os atores com um tom tão doce, com este nadinha de amuo desolado na voz, que torna perturbadoras as frases mais simples. Há poucos cineastas, dentre os que filmam em "francês", que capturaram melhor a música do "era uma vez..." francês, o musical que abre as portas de todas as histórias. Há poucos compositores que, melhor que Arriagada (cúmplice regular de Ruiz) saibam inventar notas dignas de um Ravel hollywoodiano e irônico. Enfim, quanto mais aceitamos seguir Ruiz em sua folia de autor, mais é preciso que nos rendamos à evidência: ele está cada vez mais seguro na escolha de seus atores. Em A Cidade dos Piratas, Anne Alvaro (Isidore) e Melvil Poupaud (o menino) estão particularmente bons.

Tudo isso, vocês dirão, tem um nome. Sim: sedução. Mas é a forma que seduz. Resta o fundo. Ruiz não é um esteta oco. Há um sentido em suas histórias, que creio terrível. Um fundo de imundície e promiscuidade que nenhuma poesia poderia silenciar por completo. Os cineastas - já dizia eu no começo (por provocação) - perderam quase todos o senso do relato. Mais ainda, o único que o conservou intacto (Ruiz) realizou sua loucura pessoal. O espectador "cartesiano demais" estará menos desamparado diante de um filme como A Cidade dos Piratas se se dignar a ver As Três Coroas do Marinheiro (que passa ainda, numa sala apenas, em Paris). Neste filme, Ruiz expõe em que condições uma história pode se tornar imortal. Ele precisava de carne fresca. Aquela daquele que contará tal história como se acreditasse que esta não existisse senão para ele. Aquela daquele a quem tal história foi contada e que pensa (erroneamente) que esta não o alcançará jamais. Tornada imortal, a história não cessa de retornar. Em A Cidade dos Piratas, numa primeira vez como filme de aventura, numa segunda como teatro Cocteau-ante, numa terceira como seminário teológico, numa quarta como colóquio entre mortos.

Viver, é sonhar uma história; morrer é contá-la. Resta a eternidade para apodrecer.

Publicado no Libération, a 25 de fevereiro de 1984. Editado em Ciné Journal, vol. II. Traduzido: Eduardo Savella.

Elena e os homens



Por
Jean-Luc Godard

Dizer que Renoir é o mais inteligente dos cineastas é como dizer que ele é francês até o último fio de cabelo. E se Elena e os homens é “o” filme francês por excelência, é porque ele é o filme mais inteligente do mundo. A arte ao mesmo tempo que a teoria da arte. A beleza ao mesmo tempo que o segredo da beleza. O cinema ao mesmo tempo que a explicação do cinema.

Nossa bela Elena é apenas uma musa do departamento. Sem dúvida. Mas à procura do absoluto. Pois filmando Vênus entre os homens, Renoir, durante uma hora e meia, sobrepõe o ponto de vista do Olimpo ao dos mortais. Diante dos nossos olhos, a metamorfose dos Deuses cessa de ser um slogan de bazar para se tornar um espetáculo de uma comicidade desoladora. Pelo mais belo dos paradoxos, na verdade, em Elena, os imortais aspiram morrer. Para ter certeza de viver, é preciso ter certeza de amar. E para ter certeza de amar, é preciso ter certeza de morrer. Eis o que descobre Elena nos braços dos homens. Eis a estranha e dura moral desta fábula moderna disfarçada de ópera-bufa.

Trinta anos de improvisação na filmagem fizeram de Renoir o primeiro técnico do mundo. Ele faz em um plano aquilo que os outros fariam em dez. O que eles fariam num só plano, por sua vez, Renoir dispensaria. Jamais um filme foi mais livre que Elena. Porém, no mais profundo das coisas, a liberdade é a necessidade. E jamais um filme foi mais lógico.

Elena é o filme mais mozarteano de seu autor. Menos pela aparência exterior, como A regra do jogo, do que pela filosofia. O Renoir que termina French Cancan e prepara Elena é um pouco, moralmente, o mesmo homem que conclui o “Concerto para clarinete” e começa “A Flauta mágica”. Quanto ao fundo: mesma ironia e mesmo desgosto. Quanto à forma: mesma audácia genial na simplicidade. À questão, o que é o cinema? Elena responde: mais que o cinema.

1956 - Eléna et les hommes foi publicado na revista Cahiers du Cinéma, n° 78, Natal de 1957. Tradução: Miguel Haoni.

A Marginalização do Cinema













Chega de falar da morte do cinema, mas das realidades que sempre transformam a arte.

Por Kent Jones


Ano passado um diretor de cinema que conheço convidou-me para ver um filme num dos velhos estúdios de Hollywood. Encaminhando-nos à sala de projeção, passamos por um grupo de elegantes e casuais homens de negócios sentados em suas mesas desmontáveis, ouvindo casualmente um dos seus numa conversa casual. Justamente quando estávamos passando, fisgamos a seguinte declaração: "... temos uma pequena máxima por aqui: 'Foda-se o diretor'" - deixa para uma rodada amena de risadinhas cúmplices da audiência casual. Meu amigo, momentaneamente estupefato, resolveu deixar pra lá. Era mais do mesmo. Quase.

Há somente vinte anos, um dos maiores estúdios orgulhava-se em pôr seu logotipo (e um pouco de seu dinheiro) num filme chamado L.A. Confidential - trabalho de um diretor de verdade, contendo ecos poderosos de outro filme feito vinte anos antes por outro diretor de verdade num outro grande estúdio, Chinatown. Hoje, os quarenta anos desde Chinatown parecem um milênio e as quase duas décadas desde L.A. Confidential parecem, no mínimo, um século ou dois. A História - quer falemos da história do cinema, quer da história da cidade de Los Angeles - é hoje ignorada ou tratada como uma preocupação elitista e o diretor, que um dia desfrutou de um mínimo de deferência, tornou-se uma peste, o irritante fator incontrolável no de outro modo ameno fluxo de capital e informação. Faz apenas alguns anos Vício Inerente, outro grande filme da mesma linhagem, voejou como uma borboleta sobre uma paisagem muito diferente, bem mais brutal. E no ano passado outro filme dirigido com beleza, Ponte de Espiões, foi reprovado por mais de um de meus conhecidos como sendo "um tanto bom demais".

O que quer dizer, acho, "um tanto dirigido demais".

Indo direto ao ponto, o cinema por volta de 1996 e o cinema de hoje são dois planetas distintos. Em apenas duas décadas vimos a tecnologia desta forma de arte, em uso durante um século, substituída por outra equipagem completamente nova, que de modo patente fornece resultados distintos; a crescente dominância do visionamento doméstico, e a diminuição da outrora tão importante experiência da sala de cinema; um colapso da produção artisticamente motivada dos "Estúdios" (o termo se tornou obsoleto) americanos e o suporte financeiro sempre menor aos outrora vivos e agora mal existentes movimentos cinematográficos pelo mundo; o rebaixamento de todos os filmes ao estatuto de "conteúdo", iguais em valor aos comerciais, vídeos de gatinhos, ou reduções dos mesmos filmes a suplentes de formatos leves para YouTube; a crescente popularidade do formato seriado da televisão que, como nos disseram, eclipsou o cinema em algo chamado "ressonância cultural"; e a dizimação da comunidade de críticos de cinema em tantos principados e cidades-estado, a maioria delas situada na supostamente "democratizada" Internet. Separadamente, cada um destes desdobramentos, alguns imediatos, outros mais demorados, foi dramático. Mas o efeito cumulativo é algo mais, não muito diferente daquele do furacão Sandy na baixa Manhattan: não o antecipado maremoto, mas um lento alastramento que deixou para trás um ambiente alterado.

A passagem do filme ao digital recebeu bastante atenção. Vinte anos atrás, o termo "prints and advertising" não era um mero eufemismo. Hoje, sobrou apenas um valente fabricante/fornecedor de película no mundo inteiro e muito poucos laboratórios em atividade, e enquanto muitos filmes ainda são rodados em película (mais do que as pessoas pensam), o advento de uma cópia em 35 mm é agora um acontecimento. A troca do filme pelas câmeras HD, da animação e dos efeitos especiais híbridos aos completamente computadorizados, da edição numa mesa de montagem KEM para o Avid ou o Final Cut, da mixagem e correção de cor analógica ao digital, transformou a arte do cinema por dentro - ainda por cima, nossos olhos ajustaram-se à claridade da alta definição. Que a textura da imagem e do som seja decididamente diferente é um fato exaustivamente explorado. Que cineastas e técnicos seguem agora um conjunto totalmente novo de etapas mentais e físicas na pós-produção ainda não foi tão bem notado assim. Todo editor, técnico de mixagem ou colorista teve de tornar-se fluente na linguagem técnica dos codecs e taxas de bits, e aprender efetivamente um conjunto completamente diverso de habilidades. Os efeitos colaterais estéticos do digital e do HD foram interminavelmente debatidos, mas ninguém pode negar que os cineastas ganharam bem mais flexibilidade e rapidez. As ferramentas digitais revolucionaram a preservação e a restauração de filmes (as escolhas questionáveis por trás de restaurações particulares são outra história), e as câmeras HD e os softwares de edição e mixagem prepararam enfim o terreno para um verdadeiro cinema democratizado: você pode mesmo fazer seu próprio filme, em casa, se bem que com uma tecnologia um tanto distante daquela das origens desta arte.



Por outro lado, a obsessão simultânea e sempre proliferante pelo lucro tem sido somente debilitante e degradante para o cinema. Desde os anos oitenta, quando o fenômeno do sucesso-de-bilheteria-como-esporte-de-massa começou, a retórica financeira tornou-se totalizante. Marketing e branding ascenderam ao status entre oráculo e deidade. Termos como "acessível", "generoso", "elitista" e "esotérico" são agora de uso comum, aptos a surgir tanto na conversação casual quanto nas críticas. O pior de tudo é a sucessão dos impiedosamente calibrados, pré-testados, completamente intercambiáveis nacos de entretenimento internacional que brotam da linha de montagem, ano após ano. A força contrabalanceadora da arte, outrora aceita como obrigação cultural, foi praticamente neutralizada: a "prestige picture" de Monroe Stahr no O Último Magnata de Fitzgerald, aprovada por ser "bom para a tabela de produção escorregar com um filme que vai perder dinheiro", é uma memória distante e extravagante. Em 1997, Paul Schrader disse que o sucesso de Titanic era ótima notícia pois significava que havia "mais dinheiro escorregando da mesa pra todo mundo". Dezenove anos depois, cada centavo é estocado e escondido muito antes de chegar perto da borda da mesa, redirecionado imediatamente para a produção de mais do mesmo. Então quando James Murdoch proclama que a Fox tem que "fazer filmes melhores", ele não está falando de contratar Paul Thomas Anderson ou David Fincher.

Durante a maior parte de seu primeiro século, a impureza fez o cinema excitante e deu-lhe seu limite. O fato de que esta forma de arte foi predominantemente entendida e experimentada como popular desde sua concepção deu aos cineastas e críticos um modo dinâmico e produtivo de definir a si mesmos. A excitante tensão engatada entre bilheteria e consideração artística que animou as oficinas de Roger Corman e Val Lewton, que alimentou as ambições de grande escala de Lean e Coppola, que levou Ford e Hawks, Truffaut e Ozu à grandeza e provocou os grandes contra-exemplos de Welles, Cassavetes, Bresson, Godard e Tarkovsky, não existe mais. Chegamos agora num estágio no qual "arte" e "popular" foram efetivamente desconectados.

Por que se incomodar com as questões do digital versus película, ou se o primeiro é ou não é cinema, quando tempo e energia seriam melhor gastos promovendo o cinema vivo e disponível como escolha? Por que se incomodar com considerações sobre a relevância cultural ou a ressonância do cinema em comparação à televisão, o vídeo-game e a transmídia? Se estes estão correntemente mais na moda que o cinema, e daí? A menos que, é claro, você esteja preocupado em permanecer num campo culturalmente dominante, o que já é uma outra história. Assim como se juntar a uma banda de rock perdeu muito de seu apelo desde o colapso da indústria musical, perdeu a graça virar um diretor de cinema quando o dinheiro e o prestígio - mas também, para ser franco, o interesse - estão agora na publicidade, nos seriados de televisão e nas narrativas "multiplataforma". Quanto a graça de ser crítico de cinema, é difícil ganhar a vida quando ninguém quer pagar você por isso.

Isso tudo significa a morte do cinema? Essa questão sempre foi absurda. O cinema não corre mais risco de morte hoje do que corria vinte anos atrás, quando Susan Sontag diagnosticou sua fase terminal. Antes, são as condições de sua existência, com as quais confundimos por muito tempo esta forma de arte em si, que se modificaram.

Nasci em 1960, vi meu primeiro filme com cinco anos de idade e comecei a mergulhar fundo no cinema quando estava com uns 11 ou 12 anos. Os dois pontos de virada para mim foram Cabaret, que estreou num cinema local, e Casablanca, que vi com meus pais numa revival house lotada. A própria ideia de alguém hoje querer fazer Cabaret é tão estranha quanto a de ver um filme em preto-e-branco feito em 1942, naquele tempo um favorito da televisão, passando numa única sala lotada que seria tudo, menos um festival de cinema clássico.



A cultura cinematográfica, da mais melosa homenagem televisiva à mais severa e hermética projeção de uma antologia de Paul Sharits, era um mundo coerente com um sólido centro magnético chamado Hollywood, atrativo e repelente, aceito ou repudiado, venerado ou subvertido, às vezes tudo isso ao mesmo tempo. As ondas da televisão estavam cheias de filmes de estúdio, o que quer dizer que os filmes da juventude de meus pais e de meus avós eram também os filmes da minha juventude, e que os eventos definitivos de suas vidas, que estes filmes representavam - a Grande Depressão, a Segunda guerra mundial, o Holocausto - eram transmitidos também para mim. Até os anos 90, os "Filmes" eram um ponto de referência comum, aparentemente tão sólidos quanto o Grande Canyon. Mas essa ilusão de permanência desmaterializou-se, a continuidade entre o velho sistema de estúdio e o atual universo de entretenimento audiovisual quebrou-se e, como consequência, nossa relação com a velha Hollywood também mudou. A questão do racismo, que corre tão fundo na sociedade como o faz nos filmes que produziu, será sempre espinhosa, complexa e difícil. Mas muito mais dentre o que foi brutal, pernicioso e triunfalista corre hoje o risco de ser descartado ou tão-somente jogado fora como um fruto podre. O alto e homogêneo nível técnico da produção dos anos 20 aos anos 50, os traços de sentimento real projetados ou capturados dentro até mesmo de um filme de rotina - por exemplo, The Great O'Malley (1937) - um melodrama do Lower East Side dirigido por William Dieterle - brilha mais e mais, à medida em que a mediocridade e as bandeiras culturais recedem às sombras. À luz das normas correntes para as imagens e sua criação, assistir 49th Parallel (1941) ou Hangmen Also Die! (1943) é uma experiência de partir o coração, para não mencionar filmes de cineastas menos extraordinários, como Dead Reckoning (1947) ou Middle of the Night (1959). A medida de uma cultura de cinema vibrante e viva não é o número de grandes filmes feitos, que é sempre pequeno, mas o número de filmes bons. É uma dolorosa verdade que, neste momento, os bons filmes de ficção de qualquer lugar do mundo não são mais tão bons quanto foram, até mesmo há dez anos, talvez pela falta de uma cultura cinematográfica compartilhada, seja ela local (como foi no Irã, Casaquistão, Taiwan, ou nos Estados Unidos da América) ou internacional. Muitos filmes se parecem agora com pequenas ilhas num vasto oceano de naturalismo portátil de baixa-voltagem. Se há uma área do cinema que está florescendo é a do documentário, como imediatamente responsivo, rico em caracterização e acontecimento, inventivo num nível "transpessoal", assim como o butim do ótimo trabalho produzido pela Warner Bros. durante seu dias de ouro pré-código.



Aqui vai uma outra história de um outro cineasta. Este estava com um par de executivos juniôres a fazer o pitching de um filme e, enquanto descrevia as imagens que tinha em mente, foi interrompido pela impagável intromissão: "Isso soa meio estilístico".

O ridículo do comentário é óbvio, mas o ponto é a proliferação de categorias estagnadas, o que aflige hoje a discussão do cinema em todos os níveis. Pode-se rir do executivo que fareja um investimento arriscado do dinheiro de sua companhia à simples menção de uma ou duas ideias visuais mas, deixando o adjetivo inoportuno de lado (é "estilismo" ou estilicismo"?), as palavras "estilo" e "estiloso" foram usadas de modo vago ao longo dos anos por muitas pessoas diferentes, para fins muito diferentes. Max Ophuls e Harry d'Abbadie d'Arrast eram "estilizados". A "câmera-ao-nível-do-olho" de Hawks era seu "estilo", ou talvez sua "pragmática" falta de estilo, enquanto James Whale possuía "estilo" demais. O estilo de Fritz Lang é "geométrico" enquanto o de Bertolucci é "barroco". Scorsese é "um grande estilista", mas John Huston supostamente não possuía nenhum estilo próprio discernível. Dario Argento é puro estilo, assim como Paolo Sorrentino... e Luca Guadagnino... e Mad Men... e True Detective.

O cinema é muito jovem, então não é surpresa que muito da escrita sobre cinema foi por um lado tão retrospectivamente orientada, por outro tão elástica e imprecisa, e isso inclui a asserção de André Bazin sobre o desenvolvimento do cinema, que tinha de algum modo sido magicamente acelerado. Identificar um estilo de direção distinto foi um modo vantajoso de olhar em retrospecto e validar esta forma de arte, mas que não nos leva muito longe na compreensão de nenhum filme em particular. Além disso, o que nos referimos como o estilo de um filme de uma hora e meia e o estilo de uma série de TV são coisas completamente diferentes. Mad Men, por mais brilhante que seja, tem um estilo "molde". No período temporal compactado de um filme, cada escolha está carregada e interage com cada outra escolha num ímpeto direcionado ao ponto final definido, diferente do gancho numa série que dura seis episódios, ou seis anos. A compressão está no coração do cinema - é um dos grandes pontos-limite desta arte, cuja questão nunca foi a dos grandes gestos, mas das nuances e das mais leves mudanças de ritmo de harmonias suspensas que parecem tangidas num diapasão e deixadas, vibrando, numa matização gradual. Eis porque Manny Farber continua sendo o melhor crítico que já escreveu sobre cinema. Ele teve decerto seus preconceitos e pontos cegos, mas tratou os filmes na alteza justa: aquela das escolhas tomadas pelo artista.



Farber sempre insistiu em rever e reconsiderar os filmes segundo a perspectiva do Agora. E decerto o fato de que Lawrence da Arábia pareceu-lhe um elefante branco em 1962 foi sobrepujado, meio século depois, pela maestria do filme, o que por sua vez sobrepuja a duradoura reputação do mesmo como Clássico Oficial. O famoso corte entre o fósforo e o deserto talvez seja a menina-dos-olhos do Super Panavision 70, mas acontece que é também um corte sonoro extremamente sofisticado, o que dá à transição seu choque impressionante e cósmico, totalmente diverso do impacto do osso para a estação espacial em 2001 - Uma Odisseia no Espaço que está, por sua vez, a um mundo de distância de seu predecessor mais lúdico, o corte do falcão do século XIV mergulhando no céu para o avião do século XX que também mergulha em A Canterbury Tale, para não falar do número de quadros que Lean segura na tomada e no silêncio do deserto antes de trazer à tona a trilha sonora: um pouco mais ou um pouco menos, e o sentimento seria totalmente diferente. Para tomar outro exemplo de 1962, a frequentemente notada fluidez da câmera de Otto Preminger em Tempestade sobre Washington é de fato notável, assim como a força total do conjunto, mas sua outrora celebrada "ambiguidade" encobre na verdade os valores que o cineasta encontra neste e, aliás, em qualquer outro de seus filmes: neste caso, um tom preciso de familiaridade e compreensão compartilhada de poder no seio de um grupo social particular (jogadores políticos de Washington), e a sugestão de uma ansiedade uniforme amadurecendo dentro de seus integrantes. Tais valores são o que anima Tempestade sobre Washington, gesto por gesto - por exemplo, no modo como o lânguido, esguio, quase apagado presidente de Franchot Tone manuseia seu cigarro, enquanto caminha por um quarto de hotel mal-iluminado. De modo similar, a "poesia de Andrei Tarkovsky" não dá conta propriamente da qualidade particular de suas trocas de registro, quando menos se espera - em O Espelho, ser pego repentina e misteriosamente pelo ímpeto emocional e físico da mãe que procura desesperadamente pelas provas no jornal, a câmera deslocando-se junto dela através dos depósitos de papel, ou a troca das imagens de cine-jornal dos soldados russos abrindo caminho na lama para a vista de inverno colorida e apaziguante tirada da memória pessoal através de Bruegel. A maior parte das descrições de Touro Indomável passa ao largo da cuidadosa gradação emocional no rosto de Joe Pesci, no que ele passa da descrença para o lento alvorecer do nervosismo num preto-e-branco mais delicadamente tonalizado, elegante e em harmonia com a luz suja e a trivialidade da exígua sala de estar do Bronx circa 1949, tão estranhamente sobrenatural como uma imagem de Val Lewton. Para tomar um exemplo mais recente, considerar o ataque da tribo nativa a Percy Fawcett e sua equipe no novo e espantoso filme de James Gray, A Cidade Perdida de Z. Fawcett e os homens em seu barco são assediados por flechas atiradas através do rio e sua primeira reação, comicamente estóica, é a de postar-se orgulhosamente de pé e cantar "Soldiers of the Queen". Depois de um momento de silêncio novas flechas, sendo que uma delas atinge a Bíblia que Fawcett segura no alto, um corte de memória para sua vida perdida de volta ao lar com a família, entrevistas em apenas algumas imagens preciosas. A fluência da emoção é sentida na corrente tranquila das imagens, da igreja à pia batismal, à esposa de Fawcett e a Fawcett tomando o bebê nos braços, o que então estabelece um tom impossível de quebrar, uma espécie de estado de graça flutuante que se alonga e sustém Fawcett através do rio, adentro e depois para fora da escuridão da floresta. O movimento da câmera parece ser desacelerado quase que imperceptivelmente no corte para Fawcett enquanto caminha para a tribo reunida, mas talvez não seja exatamente isso: é preciso ver o filme mais algumas vezes para descrever como Gray obtém este senso de perenidade flutuante e meditativa. Estas escolhas não são estanques nem ilustrativas, nem mesmo antologizáveis como "grandes momentos" em coletâneas de cenas - fazê-lo seria privá-las de sua força. Elas vivem apenas dentro de uma corrente ou, para usar um ótimo termo cunhado por Elaine May, dentro da "ecologia" de um filme superior.



Enquanto o cinema diverge do espetáculo audiovisual e assenta-se numa posição mais calma dentro da cultura, aqueles de nós que o conhecem e amam tornar-se-ão mais e mais como os amantes dos livros no final de Fahrenheit 451, de Truffaut. Da mesma maneira, o verniz de autoridade cultural desfrutado pelos cineastas esvanescer-se-á - já está acontecendo, diante de nossos olhos. É claro, nunca foi mais que um verniz. Hitchcock pode ter sido uma estrela com casa em Bel Air, mas quando fazia filmes era um artista tão comprometido quanto Bruce Conner ou Philippe Garrel, a quem ouvi certa vez explicando ao seu velho amigo Monte Hellman que o custo de seu filme mais recente era um tantinho menor que o preço de um Volkswagen estacionado ao lado. O contexto pode ser absurdamente diferente, mas o nível de comprometimento é o mesmo. É apropriado que o cinema daqui em diante seja transmitido, de mão em mão, como livros de poesia, pois sua melhor parte sempre foi artesanal.

A discussão sobre o cinema foi, por muitos anos, tão grande e ampla quanto seu lugar na cultura. Contudo, é possível que agora estejamos num ponto em que até mesmo a palavra "discussão" tenha perdido seu valor. O cinema está destinado a ser compartilhado, e feito, de uma maneira completamente nova. As condições desta forma de arte como a conhecemos e como viemos a amá-la estão morrendo, e mesmo assim não haverá uma morte do cinema. Antes, o cinema está progressivamente sendo marginalizado culturalmente, o que quer dizer que está assumindo um lugar honrado ao lado da poesia, da dança e da música de concerto. Pode-se mesmo dizer que a marginalização do cinema será sua salvação.

The Marginalization of Cinema foi publicado originalmente em Film Comment, Nov-Dez. 2016. Tradução: Eduardo Savella.

Cinema, poesia e outros



Por Michel Mourlet 

Não podemos agrupar sob o mesmo vocábulo de "cinema" a cognição do mundo pela câmera e as experiências de trucagem, desenhos animados, marionetes, gravura sobre película, o único denominador comum sendo a projeção sobre uma tela. O que constitui a originalidade e a vocação própria do cinema, é de emprestar a superfície das coisas para ir ao seu coração, não de acrescentar um capítulo à história das deformações picturais. O cinema não é nem uma escritura nem uma partitura, a câmera não é nem uma caneta nem um pincel, é um olhar que seleciona. É também por isso que é inútil compará-lo à poesia. A poesia é uma invasão da linguagem pelo ser, exprimindo por misturas, contatos, alquimia, as relações sutis, secretas, tênues, ou ao contrário profundas, elementares entre as coisas, entre o homem e as coisas. A linguagem então não designa mais, ou designa menos, ela se aproxima do ser. A significação das palavras prolifera, invade o signo, opacifica sua transparência, solidifica sua fluidez: a poesia cria sua matéria. Por outro lado, visto que a matéria é dada ao cinema, a beleza não será reconstruída pelo cineasta, mas discernida, cercada pela objetiva: contrariamente ao poeta, ao pintor, ao escultor, o cineasta não modifica, não transfigura, não "exprime", ele seleciona. À verdade interna que nós exigimos de toda forma de arte, ele adiciona a verdade objetiva. O poeta é o poeta da linguagem, mas o cineasta é o poeta do real. 

Cinéma, poésie et autres foi publicado em Sur un art ignoré - La mise en scène comme langage, Henri Veyrier, 1987. Tradução: Miguel Haoni.

Cineclube #15: O final de "Logan"


Miguel Haoni comenta o final de "Logan" (James Mangold, 2017) 
Captação e edição por Wesley Conrado 

Inscreva-se no canal do Vestido sem costura no youtube >>> http://bit.ly/2AugXdu